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Forma y Función

Print version ISSN 0120-338X

Forma funcion, Santaf, de Bogot, D.C.  no.21 Bogotá Jan./Dec. 2008

 

Atitudes em fronteira: o caso de tabatinga e letícia border attitudes: the case of tabatinga and leticia

Border attitudes: the case of tabatinga and Leticia

Gabriela de Campos Barbosa*

Universidade Federal do Rio de Janeiro, gabriela67@yahoo.com

Artículo recibido 30-11-07, artículo aceptado 08-04-08


Resumo

Este artigo analisa as atitudes lingüísticas de brasileiros e colombianos, bilíngües em espanhol e português, habitantes da área formada por Tabatinga e Letícia, com o objetivo de verificar a manutenção ou não de imaginário binacional a partir daquilo que os sujeitos referem sobre seus idiomas. Tal investigação tem natureza sociolingüística, porque as atitudes lingüísticas influenciam os destinos lingüísticos de qualquer comunidade. A metodologia baseia-se em técnicas de análise de dados e medida de atitudes sociais comuns na psicologia social. Mais especificamente, os dados obtidos por meio de entrevistas e questionários são aplicados a uma escala de medição de atitudes, conhecida como Escala de Likert. Constata-se que há diferenças de crenças e valores entre brasileiros e colombianos considerando-se aquilo que dizem sobre suas línguas. As atitudes lingüísticas encontradas denotam que, na região, mantém-se o imaginário binacional. A idéia de limite político está marcada. Os brasileiros preferem o português e o sentem como seu idioma; os colombianos pensam o mesmo em relação ao espanhol. Fala-se o português em Tabatinga e o espanhol em Letícia, reforçando a idéia de que o território nacional influi na escolha lingüística dos habitantes. Brasileiros e colombianos entendem-se como povos distintos um do outro, com crenças e idiomas diferentes.

Palavras-chave: atitudes lingüísticas, identidade, nação, bilingüismo, Brasil-Colômbia.


Abstract

This paper analyzes the linguistic attitudes of Brazilian and Colombian bilingual inhabitants (English and Spanish) in Leticia and Tabatinga in order to confirm if a binational representation is kept, taking into account what people express about their languages. This research is sociolinguistic because linguistic attitudes have a bearing on the way communities interact linguistically. The methodology is based on data analysis and the measurement of social attitudes according to methods used in Social Psychology. More specifically, data collected in interviews and questionnaires are assessed in an attitudes measurement scale (Likert Scale). Discrepancies in beliefs and valves between Brazilians and Colombians livins in this zone were confirmed. Their linguistic attitudes suggest that a binational representation is kept. An idea of political frontier is marked. Brazilians prefer Portuguese, and feel it is their language; Colombians prefer Spanish. Portuguese is spoken in Tabatinga; Spanish is spoken in Leticia. This situation is reinforcing the idea that national frontiers influence the inhabitants' linguistic choice. Brazilians and Colombians in Leticia and Tabatinga see each other as different people, with different beliefs and languages.

Keywords: linguistic attitudes, identity, nation, bilingualism, Brazil-Colombia.


1. Introdução

Com o iNtuito de verificar a hipótese de que, além da variedade lingüística, diferenças culturais justificam as maneiras de socialização dos grupos estudados -as atitudes sobre eles mesmos e os demais, sobre as línguas que utilizam e a manutenção de imaginário binacional na região-, este artigo analisa as atitudes lingüísticas de brasileiros e colombianos bilíngües em português e em espanhol, habitantes de uma fronteira particular: a região urbana de Tabatinga, no lado brasileiro, e de Letícia, no lado colombiano.

Tabatinga tem 26.536 habitantes (ibge, Brasil, 2000); e Letícia, 36.528 habitantes (DaNe, Colômbia, 2000). A primeira cidade, fundada em 1766 com a construção de um forte pe los militares portugueses para defender seu território amazônico, é considerada um posto militar, embora não existam somente militares na cidade. Estes foram se misturando à população local. Segundo dados do exército brasileiro (2004), 934 homens organizados em quatro pelotões são responsáveis pela vigilância fronteiriça de Tabatinga. Ali o governo brasileiro, através dos ministérios da Cultura, Educação e Turismo, investe em atividades militares e de ajuda civil para evitar o êxodo populacional, incentivando os serviços de educação, saúde e infra-estrutura como estratégia de defesa nacional, desenvolvimento e fixação da população. Letícia, capital da província colombiana chamada Amazonas, tem sua fundação em 1867, por peruanos, para ser porto comercial. Tabatinga e Letícia estão às margens do rio denominado Amazonas, no lado colombiano, e Solimões, no lado brasileiro. A avenida da Amizade liga as duas cidades e não há divisão estrita entre elas. Pode-se passar de uma localidade a outra sem passaporte. Existe apenas uma tabuleta indicadora de fronteira, que ninguém percebe mais. Tabatinga e Letícia intercambiam serviços e mão-de-obra e estão relativamente isolados do resto do Brasil e da Colômbia, já que a floresta amazônica as circunda. O contato com outras regiões acontece por transporte aéreo ou fluvial, razão pela qual Tabatinga e Letícia permanecem unidas sócio-economicamente (Barbosa, 2004, p. 10).

Devido a essa necessidade de sobrevivência, as famílias foram se misturando por meio de uniões oficiais e não oficiais e apresentam integrantes das duas nacionalidades. As autoridades afirmam não saber exatamente quantos estrangeiros existem em cada cidade, pois muitos possuem dupla nacionalidade e declaram uma das duas dependendo da situação (na escola, em hospitais, por exemplo). Tal nível de miscigenação deveria fazer com que pensássemos que há uma integração perfeita na região, ou seja, que na família, no trabalho ou nas ruas as diferenças nacionais foram apagadas. Entretanto, isto não ocorre, aumentando o interesse pelo estudo dessa região paradoxal.

Embora brasileiros e colombianos vivam em comunidade aparentemente tranqüila, detectam-se diferenças entre eles quando se observam as atitudes e valorações que uma nacionalidade demonstra em relação à outra e aos idiomas que utilizam. Durante as entrevistas ou conversas informais estabelecidas entre o investigador e a população, houve declarações de que, por exemplo, colombianos pensam que o brasileiro é menos trabalhador do que eles e que gosta de viver em festas. O contrário também acontece. Brasileiros declararam que os colombianos são mais rudes ao falar e chegam a ser grosseiros.

Dessa forma, o problema investigativo traduz-se como as diferenças entre grupos de distintas nacionalidades, brasileiros e colombianos. Toma-se a idéia de nação como etnia, na visão de Ribeiro (1975, pp. 61-63), ou seja, "um povo que se vê a si mesmo como um ente singular frente aos demais e que aspira à 'auto-determinação' de seu destino; desígnio comumente alcançado pelo domínio de um território pertencente a uma entidade política, que é o estado nacional". As formas de interação lingüística e cultural refletem atitudes lingüísticas, valorações e estereótipos construídos pelos povos em contato, o que finalmente provoca e demonstra questões de identidade na região.

A seguir, encontram-se detalhes sobre a teoria e a metodologia nas quais está baseado este artigo. Depois, apresentam-se os resultados da pesquisa, bem como discussão e conclusões.

2. Material e métodos

2.1 Fundamentação teórica

O presente trabalho busca, na psicologia social, os conceitos de atitude e de estereótipos, como também o método de análise dos dados, ou seja, a aplicação destes à Escala de Likert, detalhada mais adiante; na antropologia lingüística, encontra a base da relação língua-cultura-identidade, além dos conceitos de valores, preconceitos e estereótipos.

Interessada em como um indivíduo valora outros grupos ou sujeitos, a psicologia social dedica-se ao estudo das atitudes e as define, com Montmollin (1985, p. 117), como "sentimentos ou juízos favoráveis ou desfavoráveis sobre pessoas ou grupos sociais". Também aborda o conceito de estereótipo e o considera como a base cognitiva do preconceito, pois vê o primeiro como uma crença sobre as características pessoais que atribuímos aos indivíduos. É possível identificar tais estereótipos através da língua, já que aparecem concretizados no uso lingüístico dos falantes. Neste ponto entra a sociolingüística e, em meio a essa gama de atitudes, concentra-se na atitude lingüística. Segundo Lastra (1992, p. 148), a atitude lingüística é "qualquer índice afetivo, cognoscitivo ou de comportamento de reações a diferentes variedades da língua ou a seus falantes". Partindo dessas reações ou posicionamentos lingüísticos em uma sociedade, é possível observar se os sujeitos preferem ou não determinado uso ou forma empregada e, por conseguinte, se identificam com o grupo que a concretiza. Como conseqüência disso, formam-se uma ou mais comunidades de fala que, segundo Moreno (1998, p. 37), são grupos de indivíduos que conhecem e compartilham ao menos uma variedade lingüística, regras de comportamento comunicativo, atitudes e uma mesma valoração das formas lingüísticas. Além disso, pode-se também perceber se na comunidade ocorre ou não a diglossia, que Fishman (1979, p. 129) define como "o uso de duas variedades lingüísticas, de qualquer tipo, com funções diferentes (depois o autor alarga o conceito para duas línguas distintas)".

Segundo a antropologia lingüística, cultura é uma "maneira de ser e estar no mundo" (Duranti, 1997, cap. 2). Essa maneira está constituída por valores, crenças, saberes e conhecimentos socialmente adquiridos através do aprendizado humano. Os indivíduos organizam sistemas simbólicos para conhecer e reconhecer essa realidade orgânica e inorgânica, formando assim uma consciência sobre o mundo, os seres que o habitam, as coisas e sobre eles mesmos. Um desses sistemas é a língua. À medida que tais sistemas são particulares a determinado grupo, pode-se reconhecer um modo particular de viver de tais indivíduos e caracterizá-los como detentores de uma identidade cultural própria. Como Duranti, Gumperz (1981, p. 99) também se dedica à relação língua e cultura, e diz que a estrutura lingüística tem um importante efeito sobre o modo como se percebe a realidade. Este autor afirma que a linguagem ajuda a formar as bases dos estereótipos com que justificamos nossos modos de experiência e é; portanto, mais que um veículo para expressar idéias, é capaz de restringir nosso pensar. Os indivíduos, quando aprendem a língua materna, adquirem também a forma com que seu grupo avalia essa língua e as línguas dos outros. Os estereótipos estão baseados em valores que a comunidade possui. Para van Dijk (1997, p. 9), que também aborda a relação língua-cultura, estereótipos são "pontos de referência para a avaliação social e cultural". Segundo este autor, os valores "estão localizados no domínio da memória das crenças sociais" e "compreendem-se como objetos mentais compartilhados de cognição social" (vanDijk, 1997, p. 79). Se a comunidade estudada é bilíngüe, também é provável que viva uma experiência bicultural, já que tem contato com duas realidades lingüísticas.

Considera-se bilíngüe, neste trabalho, aquele que utiliza dois idiomas de forma alternada (Weinreich, 1953, p. 5), sendo que esse uso pode variar em níveis diferentes. O bilíngüe, então, poderá dominar as habilidades de produção e compreensão lingüísticas ou apenas ser fluente para entender o idioma e não para produzi-lo.

2.2 Etapas na coleta de dados

A pesquisa se desenvolve em três visitas à região, a saber, 15 dias em 1998, 20 dias em 1999 e 20 dias em 2000. A primeira visita voltou-se para a observação participante, isto é, para a observação da comunidade em atividades comuns à rotina dos habitantes. Em conversas informais na rua, no comércio, nas escolas, anotaram-se declarações do tipo "o brasileiro é festeiro" e "o colombiano é trabalhador", o que sugere uma divisão política de duas nações no imaginário local.

A segunda visita de campo estabeleceu o primeiro grupo de informantes que forneceu os enunciados avaliativos sobre o português e o espanhol. Não é necessária uma amostra de todos os bilíngües da região (item "Justificativa da amostra"), já que somente são utilizados alguns de tais enunciados (6 a 24) conforme Oppenheim (1992, p. 187). Essas proposições são extraídas de entrevistas e questionários (técnicas detalhadas mais adiante).

A terceira visita dedicou-se à apresentação dos enunciados avaliativos à comunidade bilíngüe.

2.3 Técnicas de coleta de dados

Na segunda visita de campo, para recolher os enunciados avaliativos foram aplicadas técnicas diretas de coleta de dados (quando o informante tem a consciência sobre o tema abordado). Entre as técnicas deste tipo encontram-se os questionários e as entrevistas.

2.3.1 Questionários

De acordo com Richardson (1999, cap. 12 e 13), o questionário é um dos métodos de captação de informação mais utilizado na investigação social. Ele permite obter um grande número de dados em um curto período; abarca uma ampla área geográfica e apresenta relativa uniformidade nos resultados, pois o vocabulário, a ordem das perguntas e as instruções são iguais para todos os entrevistados. Os questionários permitem a tabulação dos dados de maneira mais fácil, principal mente aquilos de perguntas fechadas, onde as opções de respostas aparecem para o indivíduo. Este tipo se usa para conseguir informações objetivas sobre o sujeito, como dados pessoais, cidade de residência e nacionalidade, em modelo de múltipla escolha, por exemplo. O questionário de perguntas abertas (quando não há múltipla escolha) dá ao sujeito a possibilidade de contestar algo que não está apresentado ou previsto pelo investigador, fornecendo a este último informações não preconcebidas sobre a comunidade estudada.

Foram utilizados esses dois tipos de questionários. O questionário em português foi respondido pelos brasileiros e o questionário em espanhol pelos colombianos, já que assim preferiram. Não houve nenhum pedido de troca de instrumento pelos informantes.

2.3.2 Entrevistas

Sobre as entrevistas tentou-se conjugar, na mesma ocasião, dois tipos de procedimentos importantes, ou seja, a entrevista não diretiva, mais próxima de uma conversa, e a entrevista guiada, baseada num questionário escrito. Nos dois casos deseja-se obter dados mais profundos sobre a comunidade. Isto significa que o investigador pode captar informação que estão em um nível consciente, subconsciente e inconsciente do informante.

A entrevista não diretiva tem a intenção de descobrir aquilo que o sujeito acredita sobre os aspectos do tema abordado. É um instrumento útil para conhecer as atitudes de uma comunidade sobre determinado tema. Deixa-se que o sujeito fale e não são permitidas muitas intervenções do investigador; este não deve deixar que o indivíduo se desvie do assunto.

A entrevista guiada é feita com base em um guia preparado com antecedência e, embora não se levem as perguntas feitas, o investigador prevê determinada organização. O guia contém os aspectos do tema que se deseja abordar. As perguntas dependem do investigador, que deve separá-las por tema, mas também se dá liberdade ao entrevistado para responder como desejar. Nos dois tipos de entrevistas deseja-se aprofundar sobre o "estado interno" ou "estado mental" do falante.

2.4 Justificativa da amostra

A psicologia social indica como se pode extrair a compreensão do fenômeno atitudinal a partir das declarações obtidas em campo. São precisos dois grupos de informantes: o primeiro, bem pequeno, que apenas forneça enunciados atitudinais; o segundo, maior, que reavalie esses enunciados saídos da comunidade.

Na segunda visita de campo, de toda a população urbana de Tabatinga-Letícia (63.054 habitantes -26.536 de Tabatinga somados aos 36.528 de Letícia), o primeiro grupo de informantes foi formado por 40 bilíngües (20 brasileiros e 20 colombianos), sem determinação de classe social, idade ou sexo, já que não se desejava relacionar as atitudes lingüísticas com essas variáveis. Confia-se na declaração de nacionalidade dos sujeitos, uma vez que muitos possuem dupla nacionalidade.

Na terceira visita, para o segundo grupo de informantes, não se trabalhou com o universo de todos os bilíngües da região, ou seja, um marco de referência ou base de amostragem (nem mesmo o governo tem posse de dados exatos de quantos estrangeiros vivem em cada cidade). Utilizou-se uma amostra acidental, "um subconjunto da população formado pelos elementos que se conseguiu obter" (Richardson, 1999, p. 160). Quatro ajudantes do investigador, também bilíngües, conseguiram informantes em locais diversos: estabelecimentos comerciais, residências, hospitais, postos de saúde, ruas. A amostra acidental foi composta de 618 sujeitos bilíngües, metade de brasileiros e metade de colombianos. Dos primeiros 50%, metade era composta por indivíduos brasileiros residentes em Letícia e a outra parte morava em Tabatinga. Assim também se procedeu com os sujeitos colombianos: metade residia em Tabatinga e, o restante, em Letícia.

2.5 Preparação da escala de medição atitudinal

Nas respostas aos questionários e às entrevistas se encontram os enunciados avaliativos sobre as línguas. Foram listadas todas as proposições que fizessem alguma consideração sobre o português e o espanhol, mas não foram utilizadas todas encontradas na pesquisa, já que somente algumas cumprem as exigências estruturais e semânticas para serem novamente avaliadas pela comunidade e contabilizadas em escalas de medição de atitudes: os enunciados devem ser claros, incluindo um só conteúdo para a avaliação, evitando-se, assim, a ambigüidade nas interpretações; não devem apresentar verbos em passado nem ser muito extensas; deve-se também evitar o uso de palavras como "todos", "sempre", "nenhum", "nunca", que levam a uma rápida aceitação ou recusa do enunciado pelo sujeito (Richardson, 1999, p. 289). Oppenheim (1992, p. 179) afirma que as proposições estão bem construídas quando os indivíduos se sentem emocionalmente envolvidos nas respostas e quando o investigador não percebe muitas dúvidas nem recebe respostas em branco.

Escolhidas entre as proposições as mais adequadas às apreciações dos sujeitos, tanto em português quanto em espanhol, elaborou-se com elas uma escala, conhecida como Escala de Likert, desenvolvida para analisar o grau de orientação de determinado indivíduo a favor ou contra um objeto. Os escores obtidos emuma escala deste gênero dão conta das atitudes do grupo para o qual foi construída.

A escala de Likert consiste numa série de afirmações sobre um objeto atitudinal. A metade delas deve ser favorável ao objeto; a outra metade, desfavorável (Rodrigues, 1999, p. 421). Isto evita que o indivíduo esteja somente de acordo ou unicamente contra o enunciado. Cada afirmação é seguida de cinco alternativas: totalmente de acordo, de acordo em parte, não estou de acordo, discordo em parte e discordo totalmente. Estas opções permitem maior precisão de resultados, pois não reduzem as respostas a dois pólos opostos (favorável- desfavorável). A cada uma das afirmativas se atribuem valores numéricos de 1 a 5. O investigador decide em que direção vai atribuir os valores mais altos. O escore individual de cada sujeito será a soma dos pontos obtidos com as respostas dadas às proposições da escala. Há que levar em conta que, se um enunciado tem um escore baixo em relação aos outros, ele não deve ser considerado por ser pouco confiável ou poder representar atitudes estranhas à comunidade. O sujeito marca suas respostas, estando "mais" ou "menos" de acordo com cada um deles. No final, calcula-se a pontuação de cada indivíduo sobre sua orientação a favor ou contra cada enunciado. A principal função de uma escala de medição é dividir as pessoas investigadas em grupos relativamente amplos no tocante à determinada atitude (Oppenheim, 1992, p. 187) e prever atitudes e interesses (Richardson, 1999, p. 256). Parte da escala utilizada na pesquisa encontra-se no Anexo b.

Depois de contabilizados os escores de cada indivíduo, o investigador pode demonstrá-los em porcentagens que indicam o número de sujeitos que foram favoráveis ou desfavoráveis ao objeto. Isso facilita a visualização e a interpretação dos resultados (Anexo C). Observe-se que a inclusão dos dados sobre as cidades de Tabatinga e Letícia na tabela de percentuais permite que se relacionem as informações entre idioma e território, vínculo importante para a confirmação da idéia de que uma determinada língua está ligada à idéia de territorialidade e, ainda, à idéia de nação.

As escalas foram aplicadas por quatro auxiliares de pesquisa, também bilíngües, e preenchidas na presença dos mesmos.

3. Resultados

As atitudes estudadas referem-se basicamente ao sentido de estética de cada idioma; à importância que possuem essas línguas para os sujeitos de cada nacio nalidade; à preferência que cada grupo nacional expressa sobre o português e o espanhol e à consciência sobre quem fala melhor.

Observemos os resultados, divididos segundo as nacionalidades. O item "Atitudes lingüísticas de colombianos..." se refere às atitudes lingüísticas de colombianos e o item "Atitudes lingüísticas de brasileiros..." às atitudes lingüísticas de brasileiros. As tabelas como os percentuais completos estão no Anexo C. Comentários sobre estes resultados aparecem nas notas, no final do trabalho.

3.1 Atitudes lingüísticas de colombianos (309 indivíduos: 154 de Tabatinga, 155 de Letícia).

Sobre o espanhol, os colombianos em Letícia e em Tabatinga disseram ser o mais elegante, mas não sabem se é o mais elegante de todas as línguas que existem1.

Para os colombianos em Letícia, seu idioma é o mais importante porque, como dissera 71% deles, é "seu" idioma2. Em Tabatinga os números confirmam essa idéia; entretanto há um aumento do número de colombianos inseguros (16% em Letícia; 32% em Tabatinga), que concordam em parte.

O português não é mais elegante para os colombianos em Letícia. Embora haja colombianos inseguros sobre isto (15%), o espanhol continua sendo o idioma mais elegante. Os números são confirmados pelos colombianos em Tabatinga (80% discorda da afirmativa).

A língua portuguesa não é a mais importante entre os colombianos de Letícia (75%).

Pelas anotações do investigador (em Anexo), vê-se que, embora os colombianos prefiram seu idioma (92%), há um apreço pela língua do Brasil. Para eles, o outro idioma, como é de um país grande e desenvolvido, deve ser importante também3. Sobre o ensino de português aos colombianos, parece que muitos (68%) não pensaram sobre o tema4. Em Tabatinga, 56% dos colombianos está em desacordo parcial sobre a idéia. Esse enunciado aparece em num questionário, e foi escrito por um brasileiro em Letícia.

Os colombianos em Letícia estão, em sua maioria (76%), em desacordo parcial quando foram perguntados se preferem o português ao espanhol. Há exceções, pois se comenta que o português é muito bonito, entretanto o espanhol é o idioma deles5. Em Tabatinga, diminui o número dos que estão parcialmente contra (para 48%) e se justifica esse caminho porque preferem o português para comunicar-se em Tabatinga. Confirma-se a idéia de que, no imaginário dos sujeitos, cada língua pertence ou está vinculada a um território.

A maioria dos colombianos de Letícia (87%) crê que eles falam melhor do que os brasileiros. Os que estão parcialmente a favor (5%) justificam suas opiniões, pois a linguagem dos brasileiros lhes chama muito a atenção. Em Tabatinga, isto se confirma também pelas notas do investigador, que registram que o sotaque brasileiro é mais agradável do que a pronúncia colombiana por ser diferente desta última6. Mantém-se a diferença entre as duas línguas. Os colombianos admiram o português, embora este não seja seu idioma.

Os colombianos rejeitam a idéia de que o português seja seu idioma (91%). Tanto em Letícia quanto em Tabatinga parece não haver dúvidas a esse respeito. Os colombianos em Letícia acreditam que, se não fosse o fato de dizer tantas grosserias7, estariam totalmente de acordo (58% totalmente + 42% parcialmente) que os colombianos tenham uma linguagem muito bonita. Isso também se confirma em Tabatinga.

3.2 Atitudes lingüísticas de brasileiros (309 indivíduos: 156 de Tabatinga, 153 de Letícia)

A avaliação estética do espanhol pelos brasileiros retrata que tanto os que estão em Letícia quanto em Tabatinga acreditam que o espanhol não é a língua mais elegante.

Sobre a importância desse idioma, os brasileiros em Letícia (41% totalmente + 25 parcialmente) tampouco concordam que o espanhol seja a língua mais importante. Em Tabatinga as cifras se mantêm.

As atitudes positivas dos brasileiros em relação ao português como língua mais elegante são claras. A maioria em Letícia concorda (58% totalmente + 42% parcialmente). Em Tabatinga isso se mantém. Aqueles que estão parcialmente de acordo (60%) afirmam que o português é um idioma elegante, mas não sabem se é o mais elegante do mundo8.

Sobre a importância da língua portuguesa em Letícia, tanto em Tabatinga como em Letícia os brasileiros demonstram uma consciência lingüística interessante porque relacionam o idioma com outros que não fazem parte da região. A maioria está de acordo com a posição de importância da língua (75% em Letícia e 100% em Tabatinga).

Para os brasileiros em Letícia, 72% crêem totalmente que os colombianos devem aprender o português, pois estão cansados de falar espanhol9. Em Tabatinga, 50% dos interrogados também acreditam nisso de forma integral. O interessante foi notar que 20% dos sujeitos em Letícia dissera que concordava somente em parte, pois afirmou que os brasileiros eram estrangeiros; logo era sua obrigação falar espanhol, o idioma da Colômbia10. De qualquer forma, tanto em Letícia (83%) quanto em Tabatinga (85%), a maioria dos brasileiros prefere o português e o sentem como seu idioma.

Os colombianos não falam melhor que os brasileiros. Na opinião da maioria destes últimos (58%), os brasileiros reconhecem a pronúncia colombiana como muito decente. Relacionam-se estes comentários com o significado da palavra decente (que em português, significa respeitável), pelo trato que os brasileiros recebem dos colombianos em Letícia e em Tabatinga11. Nas duas cidades, os brasileiros falam melhor do que os colombianos (58% em Letícia e 84% em Tabatinga, item 12).

4. Discussão

Quando se observa a realidade lingüístico-cultural da área Tabatinga-Letícia, pensa-se nas condições geográficas e sociais de um lugar que tem a diferença como marco importante. Ali convivem grupos de nacionalidades diversas, pessoas que possuem em seu repertório lingüístico mais de um idioma. Passar de um país ao outro é fácil, rápido e quase imperceptível, pois a linha de fronteira não se observa com facilidade. A Avenida da Amizade, que liga as duas cidades, estabelece um corredor de livre passagem a brasileiros e colombianos. Isso é necessário, pois do outro lado da fronteira há algo de que uns e outros precisam e não encontram em seus países. Sobrevive assim Tabatinga-Letícia, com as diferenças que, no dia-a-dia, não se notam, mas que marcam os imaginários da população.

Uma região tão diversificada ainda poderia reconhecer-se como um lugar de identidade única; neste caso, amazônica. O isolamento geográfico poderia ser responsável pelo esvanecimento de idéias como as de nação, nacionalidade e de território nacional. Entretanto, isso não acontece, pois Tabatinga e Letícia se reconhecem como cidades separadas, cada uma com sua identidade e instrumentos que refletem essa independência; por exemplo, as línguas que utilizam (vide as relações de percentuais entre as atitudes registradas para Tabatinga e Letícia, Anexo C, bem como as notas no final do trabalho). Pensar em Tabatinga é pensar no Brasil e lembrar de Letícia é ter a Colômbia em mente. As diferenças entre os dois países se percebem nos sentimentos e valores que os habitantes deixam transparecer sobre o português e o espanhol.

Confirma-se a idéia de que os dois povos possuem consciência de que há duas nacionalidades distintas na região: brasileiros e colombianos. São bilíngües em algum nível, demonstram essa noção e reconhecem que cada idioma é um símbolo, respectivamente, do Brasil e da Colômbia. Ao preferir um idioma em relação ao outro, apresentando adjetivos que deixam perceber que são mais ou menos favoráveis a cada um deles (por exemplo, o português é elegante, importante), marcam sua pertinência a uma etnia, a uma nação. Deixam também escapar estereótipos quando, por exemplo, afirmam que brasileiros ou colombianos falam melhor uns que outros. Esses julgamentos só têm sentido quando são baseados em valorações particulares de cada grupo ou cultura. Isto evidencia que existem diferenças e mais de uma forma de ver o mundo.

Este trabalho focaliza as atitudes lingüísticas na região e as vincula aos sentidos de identidade nacional ali presentes. Entretanto, há outras questões que podem ser levantadas considerando-se temáticas lingüísticas: bilingüismo, eleição lingüística, diglossia e comunidade de fala.

O bilingüismo está claramente evidenciado, em algum nível, nos sujeitos que participam dos questionários, entrevistas ou que preencheram as escalas de medição atitudinal. Eles podem compreender o português e o espanhol, embora alguns não sejam fluentes em uma dessas línguas.

Poderíamos perguntar se há ou não diglossia na região, já que, em vários momentos, o português é preferido em relação ao espanhol ou vice-versa, levando a crer que há valores distintos para cada língua. Os valores atribuídos ao português e ao espanhol são diferentes, mas esta atribuição não está vinculada ao papel que cada idioma exerce dentro do Brasil ou da Colômbia. Para que houvesse diglossia seria necessário que os sujeitos preterissem uma ou outra língua em termos de sua funcionalidade no país. Isto até ocorre, dentro de cada país, em algumas escolas de Tabatinga ou Letícia, onde os estrangeiros deixam de usar a língua de suas nações para utilizar a língua da escola. Entretanto, este fato é muito restrito, já que aconte somente em escolas onde há estrangeiros. A escolha lingüística mais geral acontece devido à territorialidade, à geografia, ao país no qual o idioma representa a nação. O português não tem funções que o espanhol não possa cumprir no Brasil ou na Colômbia respectivamente. Estes dados podem ser confirmados pela tabelas em anexo, que mostram a relação entre as opiniões dos sujeitos e seu local de residência.

Pensando ainda em valoração lingüística, levanta-se outra questão: a existência ou não de mais de uma comunidade de fala. É curioso que, por um lado, parece tratar-se de só uma comunidade que domina regras de uso bilíngüe muito claras, optando pelo português em Tabatinga e pelo espanhol em Letícia. O valor que se atribui a cada língua é diferente, embora para as duas cidades, no dia-a-dia, português e espanhol tenham o status de línguas nacionais. A atribuição de valor é distinta quando se pensa em quem está avaliando a língua. Nesse momento, ocorre a separação do português e do espanhol, dos brasileiros e dos colombianos. A diferença não se deve ao status das línguas, mas à relação de identidade que cada grupo mantém com elas (vide, por exemplo, as porcentagens referentes aos itens 6 e 9 da escala -Anexo C, bem como as notas 2 e 5) Por haver atitudes lingüísticas diferentes dentro da região, compreende-se que se trata de duas comunidades de fala e não de uma. Quando se levanta a possibilidade de existência de uma comunidade Tabatinga-Letícia, com identidade própria, é pelo seu isolamento geográfico e ajuda sócio-econômica mútua entre as duas localidades. Isto leva a pensar que se trata de um lugar que, diariamente tivesse apagado a idéia das nacionalidades que ali convivem. Na prática, isso não ocorre.

Pelos enunciados recolhidos em trabalho de campo foi possível observar as posições do sujeitos em relação ao idioma, ou seja, o valor lingüístico dessa língua na sociedade estudada. No caso de Tabatinga-Letícia, prevalecem duas línguas diferentes e dois grupos nacionais distintos.

5. Conclusões

Entende-se que a comunidade estudada é bilíngüe, alternando o português e o espanhol segundo o território onde esteja o indivíduo e não devido ao valor que um ou outro idioma apresente na região. Para eles, as duas línguas possuem o mesmo status como língua nacional. Não ocorre diglossia, a não ser em momentos extremamente restritos, dentro de cada país, quando, por exemplo, um brasileiro vai estudar em Letícia e sabe que o espanhol é a língua da escola. Não usa, então, o português. Os sujeitos aceitam essa situação, embora defendam seus idiomas.

As atitudes lingüísticas indicaram que os estereótipos reafirmam as diferenças entre brasileiros, que defendem o português como seu idioma, e colombianos que preferem o espanhol e o indicam como língua de seu país. Cada grupo demarca seu território geográfico e lingüístico com seu símbolo, embora não exista fronteira física estrita. As divisões estão no imaginário binacional da região.

Dois grupos étnico-nacionais em contato, duas comunidades de fala: brasileiros e colombianos, podem conviver na região de limite político, mas o imaginário de fronteira entre os dois países se mantém, separando as pessoas segundo suas nacionalidades. As línguas e seus usos dão conta disso, pois uma vez mais a forma de contato lingüístico não supõe uma mistura dos dois idiomas. Ainda utilizando as duas línguas em família ou nas ruas, a comunidade continuou gerando atitudes lingüísticas que denotam preferências por uma das duas como símbolo de identidade nacional de cada grupo.

Anexo A

Anexo B

Anexo C

1 "El español es la lengua más elegante de esta región, pero yo no sé si es la más elegante de todas en el mundo" ("O español é a lengua mais elegante desta região, mas não sei se é a mais elegante de todas no mundo").

2 "El español es mi idioma" ("O espanhol é meu idioma").

3 "El brasileño es una lengua importante, pues Brasil es un país grande y desarrollado" ("O brasileiro é uma língua importante, pois o Brasil é um país grande e desenvolvido").

4 "Nunca se nos ha ocurrido esa posibilidad" ("Essa possibilidade nunca nos passou pela cabeça").

5 "El español es meu idioma" ("O español é meu idioma").

6 "El acento de ellos es bonito, pero creo que es por ser diferente" ("O sotaque deles é bonito, mas acho que é porque é diferente").

7 "Ellos dicen muchas groserías" ("Eles dizem muitas grosserias").

8 "O espanhol é bonito, mas entre todos no mundo não sei".

9 "Às vezes ficamos cansados de falar só o espanhol".

10 " Se o brasileiro lá é estrangeiro, tem que falar a língua de lá".

11 "São decentes, respeitáveis".


Referências

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