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Investigación y Educación en Enfermería

Print version ISSN 0120-5307

Invest. educ. enferm vol.32 no.1 Medellín Jan./Apr. 2014

 

ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

Liderança dialógica: estratégias para sua utilização no ambiente hospitalar

 

Dialogic leadership: strategies for application in the hospital environment

 

Liderazgo dialógico: estrategias para su utilización en el ambiente hospitalário

 

 

Simone Coelho Amestoy1; Vânia Marli Schubert Backes2; Maira Buss Thofehrn3; Jussara Gue Martini4; Betina Hörner Schlindwein Meirelles5; Letícia de Lima Trindade6

 

1Enfermeira, Doutora. Professora Universidade Federal de Pelotas -UFPel- Pelotas (RS), Brasil. email: simoneamestoy@hotmail.com.

2Enfermeira, Doutora. Professora Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC- Florianópolis (SC), Brasil. email: oivania@ccs.ufsc.br.

3Enfermeira, Doutora. Professora UFPel- Pelotas (RS), Brasil. email: mairabusst@hotmail.com.

4Enfermeira, Doutora. Professora UFSC Florianópolis (SC), Brasil. email: jussarague@gmail.com.

5Enfermeira, Doutora. Professora UFSC Florianópolis (SC), Brasil. email: betinam@ccs.ufsc.br.

6Enfermeira, Doutora. Professora UFSC Florianópolis (SC), Brasil. email: letrindade@hotmail.com.

 

Fecha de Recibido: Abril 30, 2013. Fecha de Aprobado: Agosto 20, 2013.

 

Artículo vinculado a investigación: Liderança Dialógica: perspectivas na formação de enfermeiros-líderes, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Catarina -UFSC- Florianópolis (SC), Brasil, em 2012.

Subvenciones: ninguna.

Conflicto de intereses: ninguno.

Cómo citar este artículo: Amestoy SC, Backes VMS, Thofehrn MB, Martini JG, Meirelles BHS, Trindade LL. Dialogic leadership: strategies for application in the hospital environment. Invest Educ Enferm. 2014;32(1): 119-127.

 


RESUMO

Objetivo. Analisar as estratégias utilizadas pelos enfermeiros que facilitam a inserção da liderança dialógico no ambiente hospitalar. Metodologia. Investigação qualitativa, do tipo estudo de caso. Participaram 25 enfermeiros que trabalhavam em três hospitais da cidade de Florianópolis, Santa Catarina (Brasil). A informação foi obtida de maio a dezembro de 2010. Para a recolha dos dados se realizaram entrevistas semiestruturadas, observação não-participante e ateliês dialógicos. Os dados foram analisados por meio da proposta operativa de Minayo. Resultados. As estratégias mencionadas pelos participantes do estudo foram: diálogo, humildade, dar exemplo, solução, reuniões e trabalho em equipe. Observou-se que uma estratégia complementava à outra, o que contribuía à instrumentalização dos enfermeiros para a liderança. Conclusão. O reconhecimento das estratégias de liderança dialógico em ambiente hospitalar ajuda ao enfermeiro a potencializar o cuidado no seu ambiente de trabalho.

Palavras chaves: enfermagem; liderança; serviços de saúde.


ABSTRACT

Objective. To analyze the strategies used by nurses to support the insertion of dialogic leadership in the hospital environment. Methodology. Qualitative study, case study type. Twenty five nurses working in three hospitals in the city of Florianopolis, in the state of Santa Catarina (Brazil) participated in the study. Data were collected from May to December 2010. For data collection, semi-structured interviews were performed, non-participant observation and dialogue workshops. Data analysis was performed through Minayo's operational proposal. Results. The strategies mentioned by the study participants were: dialogue, humility, setting an example, resoluteness, meetings and teamwork. It was observed that one strategy completed the other, which contributed to the nurses' leadership. Conclusion. The acceptance of dialogic leadership strategies in hospitals helps nurses strengthen the care provided in their workplace.

Key words: nursing; leadership; health services.


RESUMEN

Objetivo. Analizar las estrategias que facilitan la inserción del liderazgo dialógico en el ambiente hospitalario utilizadas por los enfermeros. Metodología. Investigación cualitativa, del tipo estudio de caso. Participaron 25 enfermeros quienes trabajaban en tres hospitales de la ciudad de Florianópolis, Santa Catarina (Brasil). La información fue obtenida de mayo a diciembre de 2010. Para la recolección de los datos se realizaron entrevistas semiestructuradas, observación no-participante y talleres dialógicos. Los datos fueron analizados mediante la propuesta operativa de Minayo. Resultados. Las estrategias mencionadas por los participantes del estudio fueron: diálogo, humildad, dar ejemplo, solución, reuniones y trabajo en equipo. Se observó que una estrategia complementaba a la otra, lo que contribuía a la instrumentalización de los enfermeros para el liderazgo. Conclusión. El reconocimiento de las estrategias de liderazgo dialógico en ambiente hospitalario ayuda al enfermero a potenciar el cuidado en su ambiente de trabajo.

Palabras clave: enfermería; liderazgo; servicios de salud.


 

 

INTRODUÇÃO

O trabalho do enfermeiro vem adquirindo grande visibilidade nas instituições hospitalares, em virtude da gama de atividades sob sua responsabilidade, dentre elas: o gerenciamento do cuidado e das atividades da equipe de enfermagem, ações educativas e de pesquisa, resoluções de conflitos e o exercício da liderança. Tendo em vista a pluralidade de atividades desenvolvidas pelo enfermeiro, destaca-se uma proposta diferenciada de liderança, baseada no diálogo, com vistas a potencializar sua atuação no ambiente hospitalar.1

A liderança dialógica consiste na capacidade do líder de influenciar seus colaboradores a atuarem de maneira crítica e reflexiva sobre sua práxis, por meio do estabelecimento de um processo comunicacional eficiente. A mesma caracteriza-se pela construção de relações horizontais no ambiente de trabalho, nas quais florescem oportunidades de trocas de conhecimentos e aprimoramento coletivo entre o líder e seus colaboradores, bem como há espaço para a autonomia e participação ativa de enfermeiros, equipe e usuários, enquanto atores sociais.1 O diálogo, na perspectiva Freireana, representa um fenômeno humano, que não pode ser reduzido ao simples depósito de ideias de um sujeito no outro, por se tratar do encontro entre os homens, enquanto seres pensantes, para problematizar situações com a finalidade de alterar a realidade na qual estão inseridos.2 No entanto, é relevante esclarecer que o diálogo entre os sujeitos não os torna iguais, porém indica a posição democrática entre eles. O diálogo tem significado porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade, mas a defendem, crescendo um com o outro, consequentemente, o diálogo não nivela, não gera reducionismos, pelo contrário impulsiona o respeito entre as pessoas engajadas.2

Muitas vezes, as pessoas recusam a inserção do diálogo em sua prática profissional, por receio que isto interfira em sua autoridade, uma vez que o enfermeiro possui autoridade legal para exercer a profissão e coordenar as ações da equipe de enfermagem. Desta forma, a adoção de uma postura democrática e participativa, não irá prejudicar em nada o trabalho, ao contrário, poderá aproximar os sujeitos envolvidos e possibilitar trocas de saberes e crescimento mútuo. O líder não nasce pronto, sua construção dar-se-á no decorrer de sua formação pessoal e profissional. Quanto à formação do enfermeiro-líder, cabe destacar que no ano de 2001, foram criadas as novas Diretrizes Curriculares do Curso de Graduação em Enfermagem baseadas em competências, que definem a formação de enfermeiros generalistas, humanos, críticos e reflexivos, capazes de aprender a aprender e que atendam as necessidades de saúde da população. Desta forma, para o exercício da Enfermagem torna-se necessário o desenvolvimento de algumas competências profissionais, dentre elas a liderança.3

Os enfermeiros que desejam prosperar enquanto líder da equipe de enfermagem precisam desenvolver e aprimorar algumas características, tais como: comunicação, domínio do conhecimento, responsabilidade, bom senso e autoconhecimento.4 Estas habilidades poderão facilitar o exercício de uma liderança crítica e consciente, baseada no diálogo e no respeito ao ser humano.Com vistas ao fortalecimento da liderança, objetivou-se com o desenvolvimento deste estudo, analisar as estratégias utilizadas pelos enfermeiros que facilitam a adesão da liderança dialógica no ambiente hospitalar.

 

METODOLOGIA

O estudo representa uma abordagem qualitativa do tipo descritiva, na qual se optou pelo estudo de caso como estratégia de investigação, por representar um método utilizado em situações que desejam estudar um fenômeno singular que possua valor em si mesmo.5 Diante disso, investigou-se novas perspectivas referentes à formação de enfermeiros-líderes, dando-se enfoque no estudo em questão, para a necessidade de reconhecer as estratégias que o enfermeiro utiliza em sua prática, as quais podem facilitar o desempenho de uma liderança baseada no diálogo. Fizeram parte do estudo 25 enfermeiros interessados em discutir e refletir sobre liderança na enfermagem. Destes, 10 trabalham no Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago, 10 no Imperial Hospital de Caridade e cinco no Hospital Governador Celso Ramos. Estas instituições hospitalares foram escolhidas por serem referência em assistência à saúde na cidade de Florianópolis, Santa Catarina.

Cabe informar que foram convidados a participar do estudo, enfermeiros que exercem sua prática nos hospitais em questão, os quais possuíam até seis anos de formação. Escolheu-se este período, com o intuito de contemplar enfermeiros formados segundo as Novas Diretrizes Curriculares Nacionais. Os sujeitos concordaram em participar da pesquisa, permitiram a gravação das entrevistas e das oficinas dialógicas durante a coleta dos dados, a realização da observação, bem como autorizaram a divulgação dos dados analisados nos meios científicos.

Para a coleta dos dados utilizaram-se as seguintes técnicas: entrevistas semiestruturadas, observação não-participante e oficinas dialógicas. As informações foram coletadas de maio a dezembro de 2010. As entrevistas foram realizadas no próprio local de estudo, de forma individual, com data e hora pré-estabelecida, conforme contato prévio com os participantes. Elaborou-se um roteiro para nortear a coleta. As entrevistas foram gravadas e transcritas logo após seu término. Os depoimentos de cada sujeito foram identificados pelas letras E de entrevista e o número ordinal correspondente a sua realização com os enfermeiros E1, E2... E25.

A observação não-participante correspondeu a segunda técnica de coleta dos dados. Observou-se em média quatro horas, a rotina de trabalho de cada participante, totalizando 100 horas de observação, as quais permitiram melhor reconhecer os elementos do processo de trabalho dos profissionais, especialmente as ferramentas de trabalho utilizadas por eles. As observações foram identificadas pela letra O de observação, seguidas do número ordinal por enfermeiro O1, O2...O25.

Também foram realizadas três oficinas, uma em cada hospital, a fim de proporcionar a discussão em grupo sobre a temática. Destaca-se que os enfermeiros participaram das oficinas realizadas no hospital em que trabalham, não foi possível realizar uma oficina com todos os sujeitos do estudo em um mesmo local, mediante dificuldades encontradas para reuni-los. Cada oficina dialógica durou em média uma hora e meia, as mesmas foram gravadas em áudio. Os depoimentos oriundos das oficinas dialógicas foram identificados com as letras OD, mais o número ordinal representando cada enfermeiro OD1, OD2...OD25.

Com o intuito de analisar os dados utilizou-se a proposta operativa de Minayo,6 que se caracteriza por dois momentos operacionais. O primeiro inclui as determinações fundamentais do estudo, o qual é mapeado na fase exploratória da investigação. E o segundo momento denomina-se de interpretativo, pois consiste no ponto de partida e no ponto de chegada de qualquer investigação, representa o encontro com os fatos empíricos. A fase interpretativa apresenta duas etapas: a ordenação dos dados e a classificação dos dados, que inclui a leitura horizontal e exaustiva dos textos, leitura transversal, análise final e a construção do relatório com a apresentação dos resultados.

Durante a realização da pesquisa foram respeitados os princípios éticos estabelecidos pela Resolução 196/96, 7 com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, sob o Protocolo n° 658/10.

 

RESULTADOS

Após a análise dos dados obteve-se uma grande categoria, a qual foi denominada de Estratégias utilizadas pelos enfermeiros que facilitam a inserção da liderança dialógica no ambiente hospitalar, sendo esta composta pelos seguintes elementos: diálogo, humildade, dar o exemplo, resolutividade, reuniões e trabalho em equipe. Desta forma, apresentam-se na sequência, as principais estratégias elencadas pelos enfermeiros durante a realização desta pesquisa.

A primeira estratégia refere-se ao diálogo, o qual foi destacado como elemento chave na condução das relações no ambiente de trabalho. Este resultado fortalece a adoção de um estilo de liderança democrático e horizontal, capaz de aproximar os sujeitos dialógicos: Eu acho que o diálogo é a principal. Como fazer as coisas conversando tanto com o paciente como quem está cuidando dele, com o médico. Eu acho que isso é super importante assim, desenvolver uma liderança com base no diálogo, na conversa, acho que isso é primordial pra satisfação de todos (E5).

Destaca-se que ao longo das observações, foi possível evidenciar na prática, a inserção do diálogo no ambiente hospitalar, facilitando o processo comunicacional e relacional entre enfermeiro e demais profissionais que desempenham suas atividades neste cenário, com vistas a melhorar a qualidade da assistência. Aspecto evidenciado na seguinte observação: uma médica chega ao posto de enfermagem e dialoga com a enfermeira a respeito do estado de saúde de uma paciente que havia realizado cirurgia vascular. Ambas aproveitam a oportunidade para discutir aspectos relevantes relacionados às necessidades de saúde desta paciente. Após encaminham-se ao leito para a realização, em conjunto, do curativo (O13).

A humildade também emergiu como estratégia que facilita as relações entre o enfermeiro e equipe de enfermagem. Por meio deste posicionamento, o líder poderá angariar confiança, pois não se trata de humildade no sentido de sujeição, mas sim no sentido intelectual, pois sempre o aprendiz terá alguma coisa para aprender e deste modo, os profissionais devem estar acessíveis e abertos para novas possibilidades de aprendizado: [...] se eu não sei, eu digo que eu não sei, nunca fiz, como é que é, me ensina. Eu acho que é assim que a gente tem que aprender, a gente não sabe tudo (E4).

Lembrando que a liderança caracteriza-se como a capacidade do líder de exercer influência, verificou-se que os profissionais que conseguirem de fato influenciar seus colaboradores serão visualizados como exemplo para a equipe. Desta forma, dar o exemplo consiste em outra estratégia relevante a ser desenvolvida pelos enfermeiros que desejam assumir posições de liderança: De tu fazeres um procedimento nas técnicas corretas e ai o técnico te observa e depois reproduz esse procedimento com as técnicas corretas. Eu acho que isso que é o exemplo (E6).

Nas oficinas dialógicas, os participantes enfatizaram que para dar o exemplo é necessário haver coerência entre as ações e o discurso: Deve-se agir da mesma forma que tu falas, não adianta falar uma coisa e agir de outra forma. A gente tem muito o peso nas costas de ser justas e de dar o exemplo, sempre! (OD, 21).

Ser resolutivo frente aos problemas emergidos no ambiente de trabalho compõe outro aspecto importante, o qual foi valorizado pelos participantes do estudo. Assim, o enfermeiro destaca-se na área da saúde por sua capacidade de promover transformação, superando as situações limitadoras que possam surgir nos serviços de saúde: Liderança eu acho que é resolutividade [...] o fato de ser líder não significa que ele seja o salvador da pátria, mas eu acho que é, resolutividade no sentido dele conseguir subsídios para melhorar uma situação, para melhorar uma rotina, para melhorar uma escala (E12).

A realização de reuniões periódicas também foi compreendida como estratégia que facilita a adoção da liderança dialógica no ambiente hospitalar, por caracterizarem-se em momentos propícios para discussão, reflexão e aproximação entre os profissionais: [...] eu gosto muito de fazer reunião. Eu acho que a reunião lembra coisas que precisam ser melhoradas, são acertadas, coisas que precisam ser modificadas. Então, eu acho que o fato de ter uma reunião pelo menos, sei lá, trimestral, seria de fundamental importância (E20).

Este último depoimento vai ao encontro do que foi observado, pois se identificou que os enfermeiros, costumam aproveitar momentos de descontração com a equipe como o horário do intervalo e lanche, bem como as passagens de plantão para realizá-las de maneira informal, a fim de dialogar sobre suas ações. Trabalhar em equipe compõe a última estratégia enfatizada pelos participantes, por compreenderem que o trabalho na enfermagem representa um processo coletivo. Uma coisa fundamental também é que não adianta tu teres um excelente conhecimento científico, uma excelente ideia se tu não tiveres o apoio, se não tiver a colaboração do grupo [...] se não tens o apoio da tua equipe, não adianta. Aquilo ali vai ficar estagnado, ninguém executa (OD21). Os depoimentos oriundos das oficinas dialógicas, entre outros achados, evidenciam que o trabalho em equipe emergiu de modo expressivo entre os sujeitos e cenários pesquisados.

 

DISCUSSÃO

Diante dos resultados, ficou evidente a necessidade de utilizar o diálogo enquanto estratégia para facilitar a comunicação no ambiente de trabalho, bem como potencializar a liderança do enfermeiro. Ao abordar o diálogo, primeiramente, torna-se relevante destacar que não há palavra verdadeira que não seja práxis, ou seja, reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo, sem ela é impossível a superação da contradição entre opressor-oprimidos, ou seja, superação de relações inflexíveis e autoritárias. A palavra verdadeira implica na transformação do mundo. Deste modo, não é no silêncio que os homens se constituem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão. Dizer a palavra não pode ser privilégio de alguns, mas direito de todos, assim, ninguém pode dizer a palavra verdadeira no isolamento, ou dizê-la para os outros como um ato prescritivo.2

Por esse motivo, o diálogo representa o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, a fim de pronunciá-lo, não se esgotando na relação eu-tu. Trata-se de uma necessidade existencial do ser humano, na qual, a partir do encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos para transformar e humanizar o mundo, não podendo reduzir-se a um simples ato de depositar ideias de um sujeito no outro. Salienta-se que o diálogo não pode ser reconhecido como uma estratégia de que um sujeito se utilize para a conquista do outro. Essa conquista que o diálogo abrange é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro, ou seja, consiste na conquista do mundo para libertação dos homens.2 Reforça-se ainda que o diálogo por representar uma relação eu-tu, implica na relação entre dois sujeitos. Contudo, cada vez que o tu desta relação é resumido a um mero objeto se terá pervertido a ação dialógica.8 Ao estender o olhar da formação de enfermagem para o exercício da profissão, visualiza-se que a autenticidade do diálogo facilita as relações interpessoais, além disso, faz com que os sujeitos se sintam valorizados e conscientes da importância de seu papel social.

Ao resgatar as competências profissionais estabelecidas pelas Novas Diretrizes Curriculares para o Curso de Graduação em Enfermagem, cabe destacar que para o exercício da profissão torna-se necessário o desenvolvimento das seguintes competências: atenção à saúde, tomada de decisões, comunicação, administração e gerenciamento, educação permanente e liderança.3 Assim, compreende-se o diálogo como uma estratégia que poderá facilitar além do exercício da liderança, a prática profissional do enfermeiro levando em consideração sua multiplicidade de ações, deveres e responsabilidades. No cenário da saúde, cabe ao enfermeiro o gerenciamento do cuidado, a execução de atividades administrativas, educativas e de pesquisa, a fim de aprimorar a prática profissional9. Seu processo de trabalho envolve o ato de cuidar e o educar, sem que haja o depósito de conhecimentos e sua absorção passiva pelos sujeitos, o qual na perspectiva freireana denomina-se de educação bancária.2

Emerge então, a relevância de inserir o diálogo freireano no cotidiano do enfermeiro, em termos de relacionamento interpessoais com os membros da equipe de enfermagem e com os usuários dos serviços de saúde. Trata-se de relações dialógicas autênticas de A com B e não de A sobre B, as quais podem beneficiar os profissionais que estiverem sensibilizados quanto a sua importância, no sentido de possibilitar uma relação horizontal, mediante a exposição aberta de ideias, tendo como foco o cuidado de enfermagem. As atividades de educação em saúde, o enfermeiro tem a responsabilidade de valorizar os conhecimentos advindos do senso comum, já que ninguém educa ninguém e nem tampouco ninguém educa a si mesmo, mas sim, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.2 Com base nisso, busca-se tornar as pessoas mais conscientes de sua realidade concreta, a fim de superar a prática educativa baseada em um modelo de comunicação verticalizado, ou seja, um discurso monológico, em que uma pessoa fala a outra e não ''com'' a outra.10 A humildade, enquanto construto do diálogo, também foi reconhecida, como uma estratégia, por aproximar o líder e seus colaboradores, pois onde não há humildade não há diálogo. A pronúncia do mundo realizada pelos homens não pode constituir-se em uma ação arrogante, já que os homens que não possuem humildade ou a perdem, distanciam-se dos demais, tornando-se incapazes de agir como seres de pronúncia do mundo.

Pode-se afirmar com base no pensamento freireano, que a humildade manifesta-se como uma preciosa certeza: a de que ninguém é superior a ninguém. Por isso, a carência de humildade, anunciada na arrogância e na falsa superioridade de um ser sobre o outro exprime uma transgressão da condição humana.11 É nas relações de poder construídas no ambiente de trabalho que se observa, muitas vezes, a falta de humildade. A humildade representa uma virtude que deve ser cultivada, principalmente pelas pessoas que desejam assumir posições de liderança. Ser humilde é condição sine qua non para o enfermeiro-líder que almeja angariar confiança e exercer influência positiva em sua prática. Compete a este profissional aceitar novas opiniões, já que o homem é um ser inacabado e inconcluso, em constante transformação e aprendizado, bem como promover a participação de seus colaboradores visando fomentar um processo decisório horizontal, estando aberto para o diálogo verdadeiro, caso contrário tem-se um ditador, com atitudes cristalizadas e inflexíveis e não um agente de transformação, inserido no mundo e capaz de criá-lo e recriá-lo.

Para os participantes, um enfermeiro-líder que busca influenciar a equipe pelas suas atitudes, sendo o primeiro a dar o exemplo no ambiente de trabalho e que adota uma postura imparcial, fundamentada na justiça, colhe o respeito e obtém confiança de seus colaboradores. Os sujeitos associam dar o exemplo à participação ativa do enfermeiro no cuidado, atuando junto à equipe de forma participativa e estando disponível a auxiliar o grupo quando se fizer necessário. O profissional que tem este olhar compreensivo e que, além disso, tem competência técnico-científica é bastante valorizado pelos membros da equipe.

Diante disso, o enfermeiro que almeja influenciar de modo positivo sua equipe necessita dar o exemplo e utilizar com coerência suas palavras e ações. As pessoas que não conseguem estabelecer uma relação harmoniosa entre o falar e o fazer acabam perdendo a confiança e a credibilidade de seus colaboradores e, por consequência abalando a sua própria liderança.12

O estabelecimento de laços de confiança também representa um pré-requisito para a formação de relações dialógicas entre os diversos atores sociais. A confiança intensifica o companheirismo entre os sujeitos dialógicos, por isso sugere o relato que um sujeito transmite aos demais suas autênticas intenções. Portanto, um falso amor, uma falsa humildade e a descrença nos homens não podem gerar confiança.2 Sabe-se que problemas de relacionamentos interpessoais consistem em um dos principais conflitos enfrentados pelos enfermeiros no seu ambiente de trabalho, aspecto que põe em foco, ainda mais a importância da manutenção de relações pautadas no exemplo, na confiança e no diálogo.

A resolutividade foi outra estratégia enfatizada pelos enfermeiros. Na visão dos participantes do estudo em questão, ser resolutivo não reflete, exatamente, solucionar o problema, porque possuem a consciência que nem sempre a solução está nas mãos do enfermeiro, ou seja, em sua alçada, mas se refere à boa vontade deste profissional em se expor, ir à busca e não ficar passivo esperando que as soluções ''caiam do céu''. A resolução de problemas é inerente ao trabalho do enfermeiro. No entanto, torna-se necessário que estes profissionais promovam atitudes proativas que refutem a acomodação, que potencializem mudanças, escolhas e novos olhares frente à realidade.

As reuniões também emergiram como estratégias, sendo vislumbradas pelos participantes, como encontros formais e informais, as quais podem ser realizadas com data e hora marcada previamente ou até mesmo, em conversas rápidas, durante a passagem do plantão. As reuniões auxiliam de modo significativo no estabelecimento de vínculos profissionais, devendo ser interpretadas como momentos para propiciar o retorno à equipe de sua atuação, oportunizar espaços para reivindicações e reclamações, bem como momentos privilegiados de integração entre os membros da equipe, favorecendo o aprimoramento das relações interpessoais e minimizando conflitos.13

Sugere-se, partindo do pensamento freireano, que as reuniões no ambiente de trabalho, poderiam ser organizadas conforme os princípios do Círculo de Cultura, no qual as pessoas são dispostas ao redor de uma roda, fazendo com que ninguém ocupe um lugar de destaque. O círculo costuma deixar as pessoas mais à vontade para participar, e ainda, ser vistas e ouvidas. Além disso, as reuniões representam um espaço de encontro e descoberta do outro como ator social, detentor de aspirações, sentimentos e vivências, as quais necessitam ser desveladas, mediante o diálogo grupal, a participação nas discussões, a troca de conhecimentos e experiências.14

Mesmo sendo destacadas como estratégias, algumas pessoas as relacionam com a existência de problemas. Resultado semelhante foi encontrado em outro estudo, no qual as reuniões ainda despertam medo e certo receio, sendo associadas a brigas e conflitos no contexto do trabalho. Todavia, cumpre esclarecer que as reuniões não são realizadas apenas para solucionar conflitos, mas para preveni-los, por meio de um processo comunicacional horizontalizado. Deste modo, reuniões periódicas podem colaborar para o aumento da confiança na equipe, e por consequência, fortalecer a liderança do enfermeiro.15

A integração na equipe é fomentada quando seus integrantes estão satisfeitos com o que fazem e estão abertos para trabalhar em equipe, mediante o compartilhamento de informações, bem como o desenvolvimento das atividades em parceria e apoio mútuo.16 Saber trabalhar em equipe consiste em uma habilidade essencial para o enfermeiro, mesmo porque o trabalho em enfermagem é regido pela coletividade. Torna-se relevante destacar que durante a coleta dos dados, não foi possível reunir os participantes do estudo dos três hospitais em uma oficina dialógica, já que alguns possuíam outros vínculos empregatícios. Acredita-se que a oficina dialógica, contando com a participação de enfermeiros das três instituições, poderia contribuir para uma discussão mais aberta e consciente sobre a temática e em parte revela uma fragilidade desse estudo.

Contudo, almeja-se que este estudo possa contribuir para a construção de outros, com o intuito de sensibilizar os diversos atores sociais, para a necessidade de produzir saúde centrada no usuário, com vistas à promoção da saúde e prevenção de doenças, desafios presentes, especialmente, no trabalho nos serviços hospitalares ofertados pelo Sistema Único de Saúde SUS. Acredita-se que as estratégias emergidas no estudo podem instrumentalizar o enfermeiro-líder e fortalecer a liderança dialógica. Esta proposta representa o distanciamento de práticas autoritárias e engessadas que dificultam as ações e relações. Lembrando que por sua essência o ambiente hospitalar, ainda é regido por relações de poder hierárquicas e pela atuação, muitas vezes, individualizada e fragmentada dos profissionais. Desta forma, vislumbra-se no diálogo freireano uma possibilidade de desconstruir estes arranjos de trabalho e aproximar os sujeitos, com vistas melhorar a assistência hospitalar.

Considerações finais

O desenvolvimento deste estudo permitiu a análise das estratégias utilizadas pelos enfermeiros que facilitam a inserção da liderança dialógica no ambiente hospitalar. A partir do seu reconhecimento, o enfermeiro poderá colocá-las em prática em seu ambiente de trabalho, potencializando o gerenciamento do cuidado e da equipe de enfermagem, colaborando para a melhor qualidade da assistência. Identificou-se a articulação entre cada estratégia, reconhecendo-se que uma complementa a outra, contribuindo na instrumentalização dos enfermeiros para exercer a liderança. Esta, ainda se mostra desafiadora e emerge no contexto do SUS como potencializadora de seus princípios, especialmente no ambiente hospitalar que tende a seguir a prática biomédica.

Defende-se a importância desta proposta de liderança na enfermagem, pois é por meio do diálogo, que o homem difere-se dos demais, tornando-se um ser singular, capaz de produzir inovações, transpor limites e transformar o contexto social. Frente ao exposto, compreende-se a liderança dialógica como uma estratégia alicerçada na autonomia de todos os integrantes do processo de trabalho da enfermagem, podendo colaborar e servir de exemplo para as demais profissões da área da saúde. Fortalecer a liderança enquanto competência profissional, conforme as diretrizes curriculares que regem a formação de novos enfermeiros, representa um desafio também para as instituições de ensino superior. Acredita-se que para o enfermeiro estar apto a utilizar as estratégias elencadas nesta pesquisa, o mesmo necessita estar exposto a uma educação que promova sua liderança, a prática do diálogo e sua autonomia, desde os semestres iniciais de sua formação. Uma educação capaz de superar as disparidades sociais, econômicas, culturais, dentre tantas outras. Além de despertar no educando, independente de sua realidade, um olhar crítico e o potencial para intervir no mundo, consciente de seu poder de transformação.

 

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