SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.33 issue2Sexual debut in young adults in Cali as transition: keys for careHistoric perspectives from anthropology. Reflections proposed to Transcultural Nursing author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • On index processCited by Google
  • Have no similar articlesSimilars in SciELO
  • On index processSimilars in Google

Share


Investigación y Educación en Enfermería

Print version ISSN 0120-5307

Invest. educ. enferm vol.33 no.2 Medellín May/Aug. 2015

http://dx.doi.org/10.17533/udea.iee.v33n2a19 

ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

DOI: 10.17533/udea.iee.v33n2a19

 

 

Episiotomia: percepções de puérperas adolescentes

 

Episiotomy: perceptions from adolescent puerperae

 

Percepciones de las puérperas adolescentes sobre la episiotomía

 

Graziele Figueiredo1; Márcia Barbieri2; Maria Cristina Gabrielloni3; Elizete Sampaio Araújo4; Angelita José Henrique5

 

1Enfermeira, Especialista. Unidade de Saúde da Família Vila São Pedro, São Bernardo do Campo-SP, Brasil. email: grazifig@hotmail.com.

2Enfermeira, Doutora. Professora, Universidade Federal de São Paulo –UNEFESP-, São Paulo-SP, Brasil. email: mbarbieri@unifesp.br.

3Enfermeira, Doutora. Professora, Universidade Federal de São Paulo –UNEFESP-, São Paulo-SP, Brasil. email: crisgabrielloni@gmail.com.

4Enfermeira, Mestre. Professora, Centro Universitário São Camilo e da Universidade Paulista, São Paulo-SP, Brasil. email: elizete.sampaio@uol.com.br.

5Enfermeira, Doutoranda. Professora, Centro Universitário São Camilo, São Paulo-SP, Brasil. email: angel.henrique@terra.com.br.

 

Fecha de Recibido: Agosto 28, 2014. Fecha de Aprobado: Abril 15, 2015.

 

Artículo vinculado a investigación: Percepção de puérperas adolescentes relacionada à prática da episiotomia.

Subvenciones: Ninguna.

Conflicto de intereses: Ninguno.

Cómo citar este artículo: Figueiredo G, Barbieri M, Gabrielloni MC, Araújo ES, Henrique AJ. Episiotomy: perceptions from adolescent puerperae. Invest Educ Enferm. 2015; 33(2): 365-373.

DOI: 10.17533/udea.iee.v33n2a19

 


RESUMO

Objetivo. Identificar a percepção de puérperas adolescentes com relação à prática da episiotomia. Metodologia. Estudo de natureza qualitativa desenvolvido com 11 puérperas adolescentes em Unidade de Obstetrícia de hospital localizado na região metropolitana de São Paulo, Brasil. Resultados. As adolescentes sabia da existência da episiotomia, porém desconhecia os motivos de sua realização. Dor, incômodo e ardência foram as repercussões negativas apresentadas, porém grande parte acredita que o procedimento auxiliou em seu parto demonstrando confiança no profissional que o realizou. Conclusão. As adolescentes apresentaram percepções diversas diante da prática da episiotomia, variando do conformismo à indignação.

Palavras-chave: episiotomia; gravidez na adolescência; parto humanizado; enfermagem obstétrica.


ABSTRACT

Objective. To identify the perception of the teenager puerperas regarding the practice of episiotomy. Methodology. This is a study with qualitative nature developed with 11 teenage puerperas in the Obstetrics Unit of one hospital located in the metropolitan region of São Paulo, Brazil. Results. Teens knew of the existence of episiotomy, but they unaware the reasons for its realization. Pain, discomfort and burning were negative repercussions presented, but most of them believe that assisted procedure in their delivery showing confidence in the professional who carried it out. Conclusion. Adolescents have different perceptions on the practice of the episiotomy, ranging from resignation to outrage.

Key words: episiotomy; pregnancy in adolescence; humanizing delivery; obstetrical nursing.


RESUMEN

Objetivo. Identificar la percepción de puérperas adolescentes con relación a la práctica de la episiotomía. Metodología. Estudio cualitativo en el que se hicieron entrevistas semiestructuradas a 11 puérperas adolescentes en la Unidad de Obstetricia de un hospital localizado en la región metropolitana de São Paulo, Brasil. Los datos fueron sometidos a la técnica de análisis de contenido. Resultados. Las adolescentes sabían de la existencia de la episiotomía pero desconocían los motivos para su realización. Aunque el dolor, la incomodidad y el ardor representaron repercusiones negativas, manifestaron que el procedimiento ayudó al nacimiento y que tuvieron confianza en el profesional que lo llevó a cabo. Conclusión. Los adolescentes tenían diferentes percepciones sobre la práctica de la episiotomía, que van desde la resignación a las repercusiones físicas a las de indignación.

Palabras clave: episiotomía; embarazo en adolescencia; parto humanizado; enfermería obstétrica.


 

 

INTRODUÇÃO

A prática humanizada na assistência obstétrica é complexa, pois está relacionada ao cuidado técnico-profissional, respeito aos direitos do indivíduo, subjetividade e cultura envolvidos no processo da parturição. Realizar de modo rotineiro a episiotomia é um procedimento muito questionado na prática assistencial da atualidade entre os profissionais preocupados com a humanização no atendimento ao processo de parturição. A episiotomia é definida como a lesão decorrente da ampliação cirúrgica do orifício vaginal por meio da realização de uma incisão no períneo na assistência ao parto normal.1 Contrariando as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a episiotomia é um procedimento que deve ser evitado,2 esta intervenção ainda é praticada de forma rotineira, principalmente em primíparas e parturientes submetidas ao procedimento previamente em decorrência da falta de estabelecimento de protocolos ou de critérios únicos, do modelo intervencionista de assistência difundido nas escolas universitárias e das controvérsias entre autores, órgãos governamentais, instituições de saúde além da experiência de cada profissional.3

O Ministério da Saúde não estabelece uma porcentagem ideal de prática da incisão, mas acredita-se que esta deve estar entre 10 a 30% dos quase 1,4 milhões de partos vaginais ocorridos a cada ano no Brasil.4,5 Já a OMS recomenda sua realização de forma seletiva em cerca de 10 a 15% dos partos.2 Estudo realizado em um hospital público do Distrito Federal com 384 mulheres submetidas ao parto normal com o objetivo de determinar a prevalência e os fatores associados à prática da episiotomia identificou maior ocorrência da incisão em adolescentes chegando a 75%, mesmo na falta de evidências que comprovem a associação entre idade materna e trauma perineal.3

Os autores de um estudo retrospectivo realizado na região de Lisboa que buscou comparar o parto e o seguimento da gestação em adolescentes e não adolescentes defendem que a maior prevalência da episiotomia entre as adolescentes está relacionada à musculatura perineal mais tensa neste grupo populacional prolongando o período expulsivo além de outros fatores como imaturidade biológica e a intenção dos profissionais em proteger o períneo de jovens parturientes.6 Aliado a isso, durante a gestação e o processo de parturição, a mulher, em especial, a adolescente, muitas vezes assume posição de submissão devida, em grande parte, ao desconhecimento. Além disso, a realização da episiotomia como todo procedimento cirúrgico em uma mulher saudável, deveria ocorrer apenas após a informação e o consentimento da parturiente, o que não acontece na prática.7

Neste contexto, o profissional enfermeiro obstetra assume papel fundamental, reconhecido pelo Ministério da Saúde por meio da Portaria nº 163 de 22 de setembro de 1998, de atuar na assistência ao parto normal sem distócia de maneira comprometida em direção a uma assistência mais humanizada e de melhor qualidade. Suas ações devem ir além da intervenção em riscos e em quadros patológicos, atuando também como veículo de informação referente à saúde e aos direitos femininos, favorecendo uma relação mais igualitária. Porém, o preconceito e a falta de reconhecimento dos médicos sobre as competências do enfermeiro obstetra constituem barreiras à sua atuação. Como resultado, o enfermeiro, caracterizado por ser menos intervencionista em comparação ao médico, tem realizado episiotomia em proporções comparáveis aos demais profissionais.1,3,8

Um estudo realizado entre 1983 e 2012 com o objetivo de caracterizar a produção científica de uma revista de Enfermagem revelou que a prática da enfermagem, categoria na qual se poderia encontrar a episiotomia foi tema de estudo de apenas 6% dos artigos. Neste contexto, a motivação para o presente estudo deu-se a partir da percepção de que a literatura existente aborda o tema episiotomia, na maioria das vezes, apenas como procedimento cirúrgico em seus aspectos técnico-científico, clínico e biológico e pouco discute a visão das parturientes. Assim, sua relevância baseia-se no fato de que poderá proporcionar uma discussão e possibilitar reflexão para o enfermeiro obstetra sobre sua prática, muitas vezes pautada em paradigmas difíceis de serem quebrados e refletidos em índices distantes dos ideais.

Assimsendo, a abordagem do tema proposto é de grande relevância para a enfermagem, uma vez que possibilita o resgate de uma discussão fundamental para a essência da profissão: a humanização. Estudar a percepções de puérperas adolescentes frente à prática da episiotomia é estudar o sentimento de jovens mães que vivenciaram um momento em que o enfermeiro está diretamente envolvido, o parto normal. Diante da exposição acerca dos riscos decorrentes da prática da incisão e considerando as transformações da adolescência no âmbito emocional, da autoestima e reorientação da imagem corporal, ainda mais intensa na adolescente mãe, o presente estudo tem como objetivo identificar a percepção de puérperas adolescentes com relação à prática da episiotomia.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo e exploratório de natureza qualitativa, desenvolvido no período de maio a julho de 2012 com puérperas adolescentes internadas na Clínica Obstétrica de um Hospital Geral localizado no município de Carapicuíba, região metropolitana da cidade de São Paulo, Brasil. A instituição é destinada ao atendimento dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e a unidade que serviu de cenário para o estudo conta com 34 leitos distribuídos entre binômios mãe-filho e gestantes com risco obstétrico. Em conformidade com a Resolução nº 466 de 12 de dezembro de 2012 do Conselho Nacional de Saúde brasileiro, referente a estudos realizados com seres humanos, o projeto foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa (CoEP) do Centro Universitário São Camilo e a coleta de dados foi iniciada após a aprovação deste sob o protocolo nº 153/011 tendo sido atendidas, dessa forma, as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa.

A proposta do estudo foi apresentada pessoalmente pela pesquisadora às adolescentes, que concordaram em participar, sendo orientadas a assinar voluntariamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A amostra para o estudo foi constituída por 11 adolescentes internadas na unidade de puerpério do referido hospital, após consulta ao prontuário médico para triagem daquelas que atendiam aos critérios de inclusão, a saber: puérpera entre 10 e 19 anos, orientada quanto ao tempo e espaço, ter sido submetida a parto normal com episiotomia e já ter realizado atividades como levantar, sentar e caminhar após o parto. Foram excluídas aquelas que apresentaram patologias geniturinárias. Não houve qualquer recusa ou desistência por parte das participantes.

Uma vez que a jovem atendeu aos critérios de inclusão, foi informada sobre os objetivos do estudo, deixando claro o direito à livre escolha de sua participação, a possibilidade de desistir a qualquer momento, foi esclarecida sobre a não participação da pesquisadora na equipe assistencial, não acarretando risco de prejuízo no seu atendimento, bem como a garantia do sigilo na divulgação dos resultados por meio da substituição dos nomes verdadeiros por nomes de flores. Para obtenção dos dados foi utilizado questionário semi-estruturado e verificação do prontuário obstétrico. As entrevistas ocorreram em cenário que propiciou privacidade, foram gravadas e posteriormente transcritas, tiveram duração média de dez minutos.

Os dados qualitativos foram avaliados a partir da análise de conteúdo proposta por Minayo, a qual apresenta três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados e interpretação.10 Sendo assim, em um primeiro momento foi realizada uma leitura para se ter uma visão do conjunto, permitindo a escolha do material a ser analisado, e posteriormente foi feita a aproximação de semelhanças e identificação de divergências a fim de construir categorias descritivas relevantes para o alcance dos objetivos do estudo por meio da especificação das ideias centrais. Trechos das narrativas foram utilizados para exemplificar o conteúdo das categorias.

 

RESULTADOS

Características da amostra. A média de idade das 11 participantes foi de 17,8 anos, variando entre 15 a 19 anos. A maioria das adolescentes declarou não trabalhar fora de casa (7), duas possuíam trabalho remunerado e duas eram estudantes. O grau mais alto de escolaridade foi verificado em duas jovens que declararam ter concluído o ensino médio. Cinco informaram possuir o ensino médio incompleto e quatro interromperam os estudos antes de completar o ensino fundamental. Quanto ao histórico obstétrico, grande parte das adolescentes declararam-se primíparas (8), mas também foram observadas secundíparas (3). Não houve relato de adolescentes com história de abortamento anterior. Com relação ao estado civil houve aquelas que declararam manter união consensual com o parceiro (7), algumas afirmaram serem solteiras (3) e apenas uma oficializou a união. As que declararam manter união consensual ou estar casada relataram morar com o parceiro e filho(s), sendo que uma delas declarou morar também com a sogra. As demais declararam morar com outros familiares sem a presença do parceiro.

Conhecimento prévio sobre episiotomia. A maioria das adolescentes já tinha ouvido falar sobre episiotomia e sobre a possibilidade de ser feita durante o parto, como se pode verificar nas falas seguintes: Já tinha ouvido falar! Minha mãe e minhas irmãs já tinham falado (Begônia); Isso já! Pessoal que teve neném, colegas (Jasmim); Já tinha ouvido falar porque no primeiro parto fizeram (Amarílis). A maneira com que se expressaram demonstra que não tinham um conhecimento profundo sobre o assunto. Com relação à fonte de informação, chama a atenção o fato de nenhuma delas ter indicado o profissional de saúde. Embora aquelas que demonstraram conhecimento sobre a episiotomia fosse maioria, nenhuma delas soube informar o porquê da realização da incisão. Quando questionadas se conheciam o motivo do procedimento as respostas encontradas foram: [...] eu não entendi, a enfermeira agora que subiu e falou (Flor de Lis); Não (sabe o porquê) (Gardênia).Enquanto algumas apresentaram um conhecimento, mesmo que limitado, outras sequer tinham ouvido falar: Nunca tinha ouvido falar que cortava embaixo (Copo-de-leite); Nunca tinha ouvido falar (Flor de Lis).

Informação/autorização para a episiotomia. Outro aspecto abordado durante a entrevista foi com relação à solicitação de autorização após informação prévia sobre a episiotomia. Algumas puérperas relataram que foram informadas, mas que a autorização para o procedimento não foi solicitada: Avisou [...]. Não pediram a autorização (Azaleia); [...] Avisaram! (Begônia).Outras puérperas entrevistadas sequer foram informadas sobre o procedimento, como demonstraram nas falas a seguir: Não! Só fez! Não sabia que ia precisar cortar (Copo-de-leite); Não me avisaram [...] (Violeta).Algumas puérperas relataram que ficaram sabendo do corte apenas no momento da episiorrafia: Não informaram! Fiquei sabendo na hora que começaram a me costurar (Gardênia); Comunicaram os pontos, mas não o corte (Margarida).Destacou-se entre as entrevistadas, a fala de uma puérpera, a qual não foi informada em momento algum sobre a episiotomia e foi ter conhecimento do procedimento algumas horas depois do parto quando já se encontrava no quarto, na maternidade, sendo questionada pelos profissionais sobre o aspecto do corte: Não! Só fizeram, agora que fui saber porque as mulheres (profissionais de enfermagem) me perguntaram, mas não avisaram (Flor de Lis).Outro aspecto a ser destacado é o fato da dúvida sobre a solicitação de autorização, evidenciando também que o momento do parto não é o melhor para que a mulher seja informada sobre a incisão, pois se encontra vulnerável devido à dor e ao desconforto não tendo condições de julgar sobre os riscos e benefícios de um procedimento: Não! Se pediram eu aceitei na hora (risos) (Tulipa).

Repercussões físicas da episiotomia. Algumas das entrevistadas apontaram como efeitos da episiotomia o incômodo, a dor e a ardência, como se pode observar nas falas seguintes:No começo foi ruim. (Agora) está dolorido! (Rosa); Incomoda quando mexe a perna (Margarida); Dor para urinar e sentar dependendo da posição (Copo-de-leite); Uma dorzinha nos pontos (Tulipa); Está queimando quando mexe (Azaleia); Dói um pouco, só quando tosse (Gardênia).Outras não apontaram nenhum desconforto relacionado ao procedimento: Até que não está doendo! (Amarílis); Normal (Flor de Lis).

Percepções relacionadas aos profissionais e ao procedimento.Houve puérperas que relataram acreditar que a episiotomia veio como um método de abreviar o parto, aliviar a dor e caracterizaram a assistência prestada como adequada: Acho que fez bem, porque eu estava sentindo muita dor então ajudou (Azaleia); Ajudou bastante, senão teria demorado mais [...]. Achei tudo adequado, deram muita atenção (Begônia). Em contrapartida, outras puérperas demonstraram descontentamento quando questionadas quanto às suas percepções relacionadas ao profissional e ao procedimento: (Gostaria) que tivessem mais cuidado (Rosa); Só essa questão do corte mesmo, na hora ninguém me falou nada (Flor de Lis).Uma delas sequer tinha uma opinião formada sobre sua percepção acerca da episiotomia e sua fala demonstra certo conformismo com a situação: Nada! Fazer o quê (Gardênia).Outras demonstraram confiança no julgamento do profissional sobre a necessidade ou não da episiotomia: Confio nos profissionais! É necessário! (Jasmim); Eu confio nos médicos! (Tulipa).

 

DISCUSSÃO

A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS) de 2006 revela que no Brasil há uma redução da idade em que as mulheres têm seu primeiro filho em comparação a décadas anteriores, aumentando o número de mulheres que engravidam entre 15 e 19 anos.11 Um estudo realizado com o objetivo de investigar os efeitos da crioterapia no alívio de dor puerperal em 1338 mulheres submetidas à episiotomia na Maternidade do Complexo Aeroporto em Ribeirão Preto evidenciou que 32% das mulheres exerciam algum tipo de atividade ocupacional remunerada. As demais se declararam como trabalhadoras do lar (68%).12 Cenário semelhante foi observado no estudo atual, com o acréscimo de uma parcela de estudantes, o que se supõe não ter sido observado em outros estudos devido à faixa etária mais elevada. Neste contexto, de acordo com a PNDS-2006, 41,8% das mulheres entre 15 e 19 anos nunca trabalharam e 28% trabalham atualmente, sendo que 11% nunca haviam trabalhado pela existência de filhos e necessidade de prestar cuidados maternos e 9% por terem engravidado.11

O grau de escolaridade está relacionado com a idade de início da atividade sexual. Dados da United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) revelam que as adolescentes têm iniciado a vida sexual cada vez mais cedo, pois a primeira relação sexual que nos anos 90 era tida aos 16 anos de idade, na última década caiu para 15 anos, em média.13 Dados da PNDS revelam que há tendência de aumento da idade de início da atividade sexual de acordo com o aumento do grau de escolaridade.11 Também a baixa escolaridade relaciona-se à maior ocorrência de episiotomia. Um estudo quantitativo realizado com 279 prontuários de puérperas, tendo por objetivo descrever o perfil de mulheres que tiveram seus filhos via vaginal e sua relação com a frequência de lesões perineais, evidenciou que 50,18% das mulheres apresentavam baixa escolaridade. De acordo com as autoras, tal fator dificulta o entendimento da fisiologia do nascimento, limita o conhecimento sobre seu corpo, sobre as mudanças ocasionadas pela gestação e sobre seus direitos, ficando a mercê da decisão dos profissionais.14

Em relação ao histórico obstétrico, no presente estudo observou-se maior ocorrência de primigestas. Da mesma maneira, um estudo realizado em um centro de referência no estado de Pernambuco com o objetivo de analisar a prevalência e os fatores associados à ocorrência de episiotomia em 495 mulheres submetidas ao parto normal evidenciou que as primíparas e mulheres com ausência de parto vaginal anterior apresentaram risco dez vezes maior de serem submetidas ao procedimento do que as gestantes em geral.15 Não foi objetivo da presente investigação avaliar a taxa de episiotomia em parturientes adolescentes em um hospital-escola, embora, em estudo semelhante, cujo objetivo foi avaliar a prevalência e a intensidade da dor em 303 puérperas em Unidade de Alojamento Conjunto de um Hospital Universitário da cidade de São Paulo, foi encontrada taxa de episiotomia superior a 70%, havendo relação do fato ao ensino prático na instituição.16 Com isso, acredita-se que taxas de episiotomia superiores àquelas recomendadas pelo Ministério da Saúde e OMS possam ser encontradas na instituição pesquisada, porém recomenda-se que estudos quantitativos sejam realizados.

Com relação ao conhecimento prévio sobre a episiotomia, achados da literatura corroboram os dados encontrados no estudo atual. Um estudo realizado em um hospital-escola do interior de Minas Gerais com o objetivo de avaliar o conhecimento e a participação de 16 puérperas que haviam sido submetidas à episiotomia em seu processo de parturição, observou-se que 31,2% delas não tinham qualquer conhecimento sobre o procedimento, não sabiam do que se tratava tampouco sua finalidade, apesar de ser uma prática de rotina na instituição pesquisada.17 De maneira semelhante ao presente estudo, uma pesquisa qualitativa com 14 mulheres realizada em uma Unidade Básica de Saúde na cidade de Teresina, Piauí, Brasil encontrou exemplos de mulheres que não haviam tido nenhuma informação sobre episiotomia antes do parto.18 Outro estudo, realizado em uma maternidade pública do interior da Bahia com o objetivo de avaliar o conhecimento e a participação de 20 puérperas na realização da episiotomia verificou, de maneira semelhante ao estudo atual, que aquelas que tinham algum conhecimento, apresentaram como fonte mulheres de suas famílias ou por experiência anterior. Ressalta-se o fato de que o profissional da saúde não aparece como fonte de informação na literatura, tampouco no estudo atual, ocultando-se do seu dever de informar e esclarecer a mulher durante todo o ciclo gravídico-puerperal sobre os procedimentos aos quais o seu corpo pode ser submetido.19

Enquanto no presente estudo, foi unânime o desconhecimento dos reais motivos para realização da episiotomia, estudos semelhantes apontaram a abreviação do período expulsivo, otimização da passagem para o feto, prevenção de lacerações e dos riscos para o bebê como respostas verbalizadas pelas voluntárias.17,19 A Portaria nº 1820 de 13 de agosto de 2009, que dispões sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde afirma que deve estar garantida a informação clara, objetiva, respeitosa e compreensível sobre objetivos, riscos e benefícios de procedimentos diagnósticos, cirúrgicos, preventivos ou terapêuticos. Após tais informações, deve ainda estar assegurado o consentimento livre, esclarecido e voluntário sobre qualquer procedimento, podendo ser revogado a qualquer momento sem prejuízos de qualquer natureza.20

Apesar de seus direitos, a presente investigação evidenciou que algumas parturientes tiveram apenas a comunicação da episiotomia no momento de sua realização, outras durante a sutura e outras ainda não a tiveram em qualquer momento da assistência ao parto. Além disso, a autorização para o procedimento não foi solicitada para nenhuma delas. Na literatura pode-se observar estudos com resultados análogos, evidenciando que grande parte das mulheres não recebeu qualquer tipo de informação sobre o procedimento. Aquelas que disseram terem sido informadas, na verdade foram apenas comunicadas durante o período expulsivo ou já no pós-parto e mesmo assim apresentaram dúvida se foram realmente noticiadas.17, 18 A episiotomia sem a informação prévia da mulher é um dos grandes exemplos de desrespeito aos seus direitos.17 Neste contexto, o desconhecimento das mulheres contribui para que seu direito de ser esclarecida previamente e consentir a realização de intervenções obstétricas não seja respeitado.18

Porém, os profissionais, em especial médicos residentes e preceptores, acreditam que essa decisão deva ser tomada apenas pelo profissional, pois consideram que neste momento a mulher não tem condições de decidir sobre o que é melhor para si mesma e para seu filho. Desta forma, algumas autoras destacam a infração de um dos direitos básicos da mulher e um dos princípios da bioética, a autonomia.17,21 Uma das falas que merece destaque é a que a adolescente após muitas horas do parto desconhecia a realização da episiotomia. Este fato permite a suposição de que a mulher desconhecendo a realização do procedimento, também não tenha sido orientada com relação aos cuidados locais e a absorção dos pontos. Destacou-se dentre as entrevistadas a afirmação de uma das puérperas que deixou claro que seu maior desejo durante o expulsivo seria o alívio de sua dor e que teria aceitado qualquer procedimento com tal objetivo. Neste contexto, autores afirmam que durante o parto, a dor advinda do processo, bem como a expectativa pelo seu término o mais rápido possível, faz com que a mulher aceite a episiotomia sem questioná-la.22 O Ministério da Saúde recomenda que durante o trabalho de parto a mulher não receba excesso de informações e não seja dela exigida a tomada de decisões sobre assuntos para os quais ela necessitaria de maior tranquilidade e tempo para ponderação.4

Sendo assim, o momento ideal para abordagem do assunto sobre a episiotomia é o pré-natal, quando o profissional tem a oportunidade de informar, orientar os riscos e benefícios, motivos da realização do procedimento, bem como preparar a mulher para a possibilidade de ser submetida à incisão. Semelhante ao discurso de uma puérpera adolescente que não tinha opinião formada sobre o procedimento e demonstrou certo conformismo com a situação, a literatura pesquisada destaca que, apesar da maioria das adolescentes incluídas no estudo terem tido um número considerável de consultas de pré-natal, muitas vezes as jovens não expressam nenhuma opinião sobre a episiotomia, pois sequer são informadas sobre o procedimento.23 Tal situação foi evidenciada também no presente estudo, no qual algumas adolescentes demonstraram descontentamento com o procedimento e com a atitude do profissional, mas não contestaram.

Com relação às repercussões físicas da episiotomia, houve relatos de dor, ardência e incômodo, queixas condizentes com as encontradas em estudos que tiveram como objetivo a avaliação da dor.1,12 Nossos achados encontram-se em consonância com a literatura no que diz respeito ao fato de algumas puérperas não expressarem nenhum incômodo diferente relacionado à episiotomia, associando a experiências anteriores, anestesia e ao próprio parto.22 Porém, a negação à dor e ao incômodo é discutida pela literatura, em um estudo em que 76% das mulheres referiu suportar bem a dor. A autora assegura que muitas vezes essa afirmação é uma forma da mulher manter a imagem de "boa mãe".12

A dor no pós-parto, apesar de ser a principal queixa e a morbidade mais comum decorrente do processo de parturição, é pouco valorizada pelos profissionais e até mesmo pela mulher e seus familiares devido às atenções direcionadas ao recém-nascido.1,12 Corroborando os achados do estudo atual, a subordinação das mulheres em relação à decisão do profissional, especialmente do médico, sobre a realização da episiotomia é algo documentado em outros estudos. Autores referem que a mulher mesmo não recebendo o devido esclarecimento e não sendo consultada durante a decisão de realizar ou não o procedimento, toma como normal e necessária as decisões médicas.19 Nesse contexto, muitas vezes os profissionais não dão espaço para a expressão da vontade da mulher e para que ela exerça seus direitos por acreditar também na superioridade de seu conhecimento, colocando a questão científica e tecnológica como mais importante do que a qualidade e o bem estar do binômio.24

A decisão final sobre a realização da incisão deve ser do profissional que assiste o parto uma vez que se presume que este possui qualificação adequada para indicar procedimentos e evitar complicações, porém é preciso que tal decisão seja tomada a partir de evidências científicas e que práticas realizadas por rotina sejam abandonadas, bem como que o direito da mulher de ser informada e consentir a realização das intervenções necessárias seja considerado.21 É neste contexto de orientação, humanização, respeito aos direitos da mulher e restrição do uso da episiotomia que o enfermeiro deve estar inserido.

Conclusão. Conclui-se que as adolescentes apresentam conhecimento limitado sobre a episiotomia, desconhecem os motivos de sua realização, apresentam a dor como principal repercussão do procedimento e demonstram percepções diversas diante da prática da incisão, variando do conformismo à indignação pela desconsideração de seu direito de escolha. Apesar disso, é comum a confiança no saber do profissional.

 

REFERÊNCIAS

1. Pitangui ACR, Sousa L, Ferreira CHJ, Gomes FA, Nakano AMS. Mensuração e características da dor perineal em primíparas submetidas à episiotomia. Acta Paul Enferm. 2009; 22(1):77-82.         [ Links ]

2. Organização Mundial da Saúde. Assistência ao parto Normal: um guia prático [Internet]. Relatório de um grupo técnico. Genebra: OMS; 1996. Available from: http://abenfo.redesindical.com.br/arqs/materia/56_a.pdf        [ Links ]

3. Costa LC, Souza LM. Prevalência e correlação de fatores associados à prática de episiotomia em um hospital público do Distrito Federal. Com Ciênc Saúde. 2009; 20(4):315-23.         [ Links ]

4. Brasil, Ministério da Saúde. Parto, aborto e puerpério: assistências humanizadas à mulher [Internet]. Brasília: MS; 2001. Available from: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd04_13.pdf        [ Links ]

5. Brasil, Ministério da Saúde. DATASUS: Nascidos vivos; Nascimento por residência da mãe segundo região; Tipo de parto: vaginal, 2010 [cited: Jun 13, 2011]. Available from: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinasc/cnv/nvuf.def         [ Links ]

6. Metello J, Torgal M, Viana R, Martins L, Maia M, Casal E, et al. Desfecho da gravidez nas jovens adolescentes. Rev Bras Ginecol Obstet. 2008; 30(12):620-5.         [ Links ]

7. Progianti JM, Araújo LM, Mouta RJO. Repercussões da episiotomia sobre a sexualidade. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2008; 12(1):45-9.         [ Links ]

8. Brasil, Ministério da Saúde. Portaria nº 163, de 22 de setembro de 1998. Dispõe sobre as atribuições do enfermeiro obstetra e da obstetriz. Diário Oficial da União, Seção 1, (24 de setembro de 1998). p.24.         [ Links ]

9. Rodríguez-Gázquez MA, Chaparro-Hernández SJ, Rojas-Minota WM. Scientific production of the journal Investigación y Educación en Enfermería during its 30 editing years. Invest Educ Enferm. 2013;31(3):341-53.         [ Links ]

10. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12a ed. São Paulo: Hucitec; 2010.         [ Links ]

11. Brasil. Ministério da Saúde. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher - PNDS 2006: dimensões do processo reprodutivo e da saúde da criança. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. 300 p. : il. - (Série G. Estatística e Informação em Saúde).         [ Links ]

12. Beleza ACS. A dor perineal no pós-parto normal com episiotomia: mensuração, caracterização e efeitos da crioterapia [Dissertation]. Ribeirão Preto: USP/EERP; 2008.         [ Links ]

13. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO).Pesquisa: juventude e sexualidade [Internet]. 2010 [cited: Mar 19, 2010]. Available from: http://www.observatorio.ucb.unesco.org.br/publicacoesjuventudes         [ Links ]

14. Santos JO, Bolanho IC, Mota JQC, Coleoni L, Oliveira MA. Frequência de lesões perineais ocorridas nos partos vaginais em uma instituição hospitalar. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2008; 12(4):658-63.         [ Links ]

15. Carvalho CCM, Souza ASR, Moraes Filho OB. Prevalência e fatores associados à prática da episiotomia em maternidade escola do Recife, Pernambuco, Brasil. Rev Assoc Med Bras. 2010; 56(3):333-9.         [ Links ]

16. Francisco AA, Oliveira SMJV, Santos JO, Silva FMB. Avaliação e tratamento da dor perineal no pós-parto vaginal. Acta Paul Enferm. 2011; 24(1):94-100.         [ Links ]

17. Santos JO, Shimo AKK. Prática rotineira da episiotomia refletindo a desigualdade de poder entre profissionais de saúde e mulheres.Esc Anna Nery Rev Enferm. 2008; 12(4):645-50.         [ Links ]

18. Costa AVM, Sales RM, Moura FMJSP, Costa RS, Moura LJSP. Vivência das mulheres sobre episiotomia. Rev Enferm UFP. 2012; 1(1):50-5.         [ Links ]

19. Santos LM, Lopes DM, Santana RCB, Leal SR. O conhecimento e a participação das puérperas nas decisões referentes à episiotomia. Abenfo-MG. 2011; 584: 5001-15.         [ Links ]

20. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 1820, de 13 de agosto de 2009. Dispões sobre direitos e deveres dos usuários da saúde. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Seção I (13 ago 2009).         [ Links ]

21. Carvalho VF, Kerber NPC, Busanello J, Gonçalves BG, Rodrigues EF, Azambuja EP. Como os trabalhadores de um Centro Obstétrico justificam a utilização de práticas prejudiciais ao parto normal. Rev Esc Enf USP. 2012; 46(1):30-7.         [ Links ]

22. Lopes DM, Bonfim AS, Sousa AG, Reis LSO, Santos LM. Episiotomia: sentimentos e repercussões vivenciadas pelas puérperas. R Pesq Cuid Fundam. 2012; 4(1):2623-35.         [ Links ]

23. Busanello J, Kerber NPC, Mendoza-Sassi RA, Mano PS, Susin LRO, Gonçalves BG. Atenção humanizada ao parto de adolescentes: análise das práticas desenvolvidas em um Centro Obstétrico. Rev Bras Enferm. 2011; 64(5): 824-32.         [ Links ]

24. Wolff LR, Waldow VR. Violência consentida: mulheres em trabalho de parto e parto. Saúde Soc. 2008; 17(3):138-51.         [ Links ]