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Universitas Philosophica

versão impressa ISSN 0120-5323

Univ. philos. vol.36 no.72 Bogotá jan./jun. 2019

http://dx.doi.org/10.11144/javeriana.uph36-72.nbaf 

Artículos

NIETZSCHE E BOSCOVICH: DAS AÇÕES FÍSICAS AOS PRECONCEITOS SENSORIAIS

NIETZSCHE AND BOSCOVICH: FROM PHYSICAL ACTIONS TO SENSORIAL PRECONCEPTIONS

Adilson Felicio Feiler* 

* Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Unisinos, São Leopoldo, Brasil. Correo electrónico: afeiler@unisinos.br

RESUMO

A tradução de Nietzsche, da teoria da física da matéria, que se depreende da física de Roger Joseph Boscovich para a linguagem de uma atomística sensorial, provoca o desvelamento de vários preconceitos morais. Para Boscovich os pontos materiais são sintomas de uma ação que não é pertencente ao ponto em si, mas se dá à distância, como resultado de um atuar de um ponto A sobre um ponto B e vice versa. Nietzsche, apropriando-se da física de Boscovich, equipara a sua dinamicidade temporal à teoria da sensação. Neste sentido, os pontos sensoriais são providos de ação e toda a ação é uma ação sensorial à distância, como resultado de um atuar de um sobre um outro. Não reconhecer esta diversidade sensorial seria falsear a constituição física dos organismos. Este desreconhecimento não estaria ligado à origem de nossos preconceitos morais?

Palavras-Chave: Nietzsche; Boscovich; matéria; força; moral

ABSTRACT

Nietzsche's translation of phycisist Roger Joseph Boscovich's theory of matter to the language of a sensorial atomism evokes the emergence of several moral prejudices. For Boscovich, material points are the symptoms of an action that itself does not belong to those points, but is produced from a distance by other points, as the result of an operation from point A to point B and vice versa. By appropriating aspects of Boscovich's physics, Nietzsche equates this dynamism to a theory of sensation. In this sense, sensorial points receive actions from afar and every action is a sensory action from a distance, as the result of the points acting one on another. To neglect this sensorial diversity would be to mistake the physical constitution of organisms. Is not this lack of recognition at the origin of our moral prejudices?

Key words: Nietzsche; Boscovich; matter; force; morals

A leitura que Nietzsche realizou do físico jesuíta Roger Joseph Boscovich1, ainda em sua juventude, o levou a buscar, na física, elementos que pudessem auxiliar, mesmo que ainda de forma incipiente, a diversos trabalhos que ele veio a realizar. Tais problemas, inclusive, vieram a marcar o período de sua produção madura, entre os quais se destaca a moral.

Para Nietzsche, tal como lê em Boscovich, é impossível igualar aquilo que, em si, é diverso, fazendo-se necessário livrar-se de tudo aquilo que se estabelece como raiz do costume e eterno condicionado (KSA, N/FP 1881, IX, 11[167], p. 506)2. Fazê-lo equivaleria a cair num falseamento da realidade, num contras- senso, dando azo a toda a sorte de preconceitos. A natureza física é marcada pela diversidade, fato que é ponto central da tese de Boscovich, quando diz que toda a ação se dá pelo atuar de um ponto A sobre um ponto B. Ambos estes pontos materiais são, em si, desprovidos de força, pois a força se dá à distância entre os mesmos, constituindo um momento único e irrepetível. Os pontos atuam uns sobre os outros por forças ativas, que dependem das distâncias relativas entre eles.

Nietzsche busca na ciência natural e na matemática inspiração para auxiliar a fundamentação de seu pensamento juvenil, que, por sua vez, constitui a base dos elementos incipientes de seu pensamento maduro. Essa busca de Nietzsche foi motivada pela insuficiência de fundamentação de seu pensamento, dominado por um pessimismo romântico. A ampliação de seu pensamento na direção de um positivismo cético corresponde ao período em que Nietzsche vai buscar na ciência auxílio para a fundamentação e clarificação de inúmeros trabalhos filosóficos - o que vai permitir a Nietzsche responder a alguns problemas que estão para além do campo meramente físico, espraiando-se, inclusive para o campo ético. Dusan Nedelkovich (1922) reforça a tese de que assim como o físico croata, o filósofo alemão segue um positivismo cético que não busca por verdades, e sim teorias simples capazes de responder a todos os fenômenos (p. 212). A releitura do pensamento de Boscovich realizada por Nietzsche tem a intenção de elevar o pensamento ao nível da ciência. Por mais controversas que tenham sido as conclusões de Boscovich, veiculadas em seu famoso Philosophiae naturalis Theoria, a teoria da física da matéria, que se depreende dessa leitura, exerceu uma contribuição significativa sobre o pensamento filosófico nietzschiano. Quando mencionamos “contribuição significativa” nos afastamos de leituras que compatibilizam, de forma completa, os pensamentos de Nietzsche e Boscovich. Há pontos sim de aproximação, contudo há distanciamentos.

Ao traduzir a atomística temporal de Boscovich para uma atomística sensorial, Nietzsche, embora o faça de uma maneira não tão clara e definida, se apropria desta leitura da física como de um instrumental fundamental para pensar questões que estão para além da ciência natural. Questões estas que apontam, inclusive, para elementos epistemológicos relativos às noções de matéria e forma, causa e efeito, bem como elementos morais e éticos relativos às noções de sujeito e objeto. Nietzsche se identifica com Boscovich basicamente pelo afastamento da noção de matéria, que carrega toda a sorte de dicotomias, em função da noção de força. E a noção de força, por sua vez, motiva uma leitura do vir-a-ser do mundo como vontade de potência, que se impõe, no dizer de Eduardo Nasser (2008) com um caráter de ser. Identificamos esta apropriação boscovichiana de Nietzsche nos Fragmentos póstumos da primavera de 1873, em que o filósofo alemão trata de maneira científica a releitura de Boscovich ao acentuar que pontos atômicos atuam um sobre o outro, resultando desta reciprocidade ativa, ações à distância que constituem momentos únicos e descontínuos no tempo. Neste mesmo ano Nietzsche escreve um pequeno texto intitulado Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral; neste opúsculo, embora sem referência explícita, se nota a aplicação das conclusões do pensamento de Boscovich no campo epistemológico e ético, como é o caso de tudo o que corresponde e o que não corresponde aos fatos, de como a mentira tomou o lugar da verdade e vice versa, bem como as consequências disso para o campo da ética, o que diz respeito aos diversos preconceitos morais, por cristalizarem em verdades tudo aquilo que não passa de perspectiva, na qual a força desempenha papel fundamental. O interesse de Nietzsche pela teoria atômica de Boscovich se dá, nesta altura do desenvolvimento de seu pensamento, na medida em que pode traduzir o funcionamento das ações físicas para o âmbito sensorial, ou seja, fazendo, como recorda Eduardo Nasser (2015, p. 6), do sensualismo o novo referencial epistemológico. Esta tradução ocorre no âmbito dos conceitos de verdade e de mentira fora da esfera moral, apresentando assim, pelos seus desdobramentos, os inúmeros preconceitos e imprecisões a que foram submetidos tais conceitos.

É da ciência que Nietzsche irá extrair elementos que servirão de base para pensar diversos outros campos em torno dos quais gira o seu pensamento. A mecânica dos movimentos da atomística temporal é nada senão a descrição de concepções acerca de problemas, os mais diversos, do mundo da vida, assim como a própria matéria não é nada senão a sensação, pontos da experiência sensorial primitiva, ou seja, um nível fenomênico profundo em planos diferenciados que dão acesso ao mundo.

Principiamos nossa investigação com uma parte inicial (“Nietzsche, leitor de Boscovich”) dedicada a verificar a releitura de Boscovich sobre o pensamento de Leibniz e Newton. Na sequência, tendo presente a releitura de Nietzsche sobre Boscovich, atentamos às implicações da atomística temporal de Boscovich sobre o projeto nietzschiano da multiplicidade perspectivística (“De uma atomística temporal para uma multiplicidade perspectivística”). Por fim, na última parte (“A teoria das sensações como antídoto contra os preconceitos morais”), verificamos as implicações epistemológicas e éticas daquela tradução da física da matéria para uma teoria das sensações.

1. Nietzsche, leitor de Boscovich

No primeiro volume da biografia de Nietzsche, escrita por Curt Paul Janz (2016), lemos que Nietzsche “se dedicou à ‘Philosophiae naturalis Theo- ria', do jesuíta R. J. Boscovich, famoso e controverso em seu tempo, e cuja obra Nietzsche leu, quando a encontrou em 28 de março de 1873 na biblioteca da Universidade de Basileia” (p. 440). Apesar de mencionar Boscovich em apenas uma de suas obras publicadas, no aforismo 12 de Além do bem e do mal, há diversas referências ao matemático jesuíta em seus Fragmentos póstumos e em sua troca Epistolar com Heinrich Koselitz/Peter Gast3. Além do mais, o suporte científico derivado do pensamento de Boscovich acompanha o desenrolar da filosofia de Nietzsche até o desenvolvimento de suas noções centrais. O pessimismo romântico que se expressa pelo tom predominantemente de tributo, identificado sobretudo, pela redação do Nascimento da tragédia, vai dando espaço a uma escrita marcada por polêmicas específicas. Entre estas polêmicas, vai-se preparando para os ataques que se depreendem do período final da obra de Nietzsche: o da trans- valoração dos valores. Isso corrobora as conclusões de Greg Whitlock (1999), de que a influência de Boscovich sobre Nietzsche percorre toda a sua obra desde seus anos da juventude até o tempo de seu colapso mental em 1889 (p. 187). Contudo, a influência de Boscovich sobre o pensamento de Nietzsche se assenta, sobretudo, sobre a dinamicidade desenvolvida pelo físico croata. Esta irá plasmar a noção de força (Marton, 2010, p. 79) e, consequentemente, a visão de mundo de Nietzsche.

Afim de responder à altura aos diversos desafios que se depreendem dos mais diversos âmbitos da sociedade da época, Nietzsche sente a necessidade de se munir de alguns aparatos científicos. Sua formação não pode permanecer unilateral, mas precisa ampliar-se suficientemente no que diz respeito ao conhecimento nas áreas da ciência e da matemática. Uma carta de Nietzsche endereçada a Carl von Gersdorff atesta esta necessidade do respaldo científico ao seu pensamento filosófico. Nesta passagem vemos como Nietzsche quer “comparar as Ureines4 com as células de Darwin” (KGB, B/C, III1, pp. 139-140)5. É sabido, no entanto, que Nietzsche não vai se destacar como grande cientista. Os conhecimentos que o filósofo desenvolve são básicos para que acompanhe os desafios da época, e, na medida do possível, possa responder a estes.

O interesse de Nietzsche pela física atômica, no fundo, serve para responder, seguindo a metodologia científica, a problemas de ordem epistemológica e ética. Estas polêmicas não tardam a ocorrer, pois já são postas no escrito Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral, deste mesmo ano de 1873. Referimo-nos a todos aqueles pontos básicos dos ataques que compreendem ao período maduro da obra, que reaparecerão, porém, a forma pela qual serão trabalhados será diferente. Em muitos casos, inclusive, a elaboração filosófica que demanda da forma de tratar estes diversos temas dá origem a um novo significado aos temas. O tom de polêmica de Nietzsche se liga àquele de Boscovich, embora dez anos antes, pois ambos, ao seu modo, ousaram quebrar paradigmas em seu tempo e em seus problemas específicos.

Ao opor-se à ideia leibniziana de que as mônadas são pontos materiais de força e à noção newtoniana de que os princípios de gravidade, coesão e fermentação derivam de leis de forças específicas, Boscovich se apresenta como um autor controverso e polêmico. Os axiomas centrais que se depreendem de sua Teoria da filosofia natural são: 1. Doutrina da continuidade, tal como enunciada por Leibniz, segundo a qual cada coisa toma o seu lugar passo por passo, nada acontece per saltem; 2. Doutrina da impenetrabilidade, que defende a tese de que dois pontos materiais não podem tomar o mesmo lugar no espaço simultaneamente. Pela oposição à monodologia leibniziana, Boscovich defende que tais pontos materiais ocasionam uma ação à distância. Para Nietzsche, no entanto, saltos e ação à distância coexistem, pois a ação à distância, por sua descontinuidade, carrega o preconceito mecanicista e “[...] também a necessidade atomista” (KSA, JGB/BM, V, § 12, p. 26 )6.

A tese principal do físico croata se resume na ideia de que a matéria é composta de pontos discretos, perfeitamente indivisíveis e não estendidos. Assim, os pontos materiais são como as mônadas de Leibniz, com a diferença de que são inativos. A força destes pontos se manifesta a partir da distância entre cada par de pontos, sendo a magnitude da força, sua aceleração, medida pela distância entre os pontos: quanto maior a distância a força é menor, é atrativa, e quanto menor a distância a força é maior, e passa a ser repulsiva, seguindo assim uma lei continua e definida, “baseada na finitude da força no universo” (Whitlock, 1999, p. 195)7. Eduardo Nasser (2008), ao comentar sobre as heranças leibnizianas de Boscovich, pontua que para compreender a constituição da matéria não se pode fazê-lo a partir das noções de extensão e massa: “No seu entender, existem puncta materiais inextensos e discretos, cuja impenetrabilidade se dá pela ação à distância das forças de atração e repulsão” (p. 100). Nesta constante transição entre os pontos de atração e de repulsão vai se determinando a forma da curva de força inteira, o que expressa a ordem da lei de tais forças que influenciam o governo do mundo. O legado de Boscovich sobre esta dinâmica das forças impressionou Nietzsche a tal ponto que o levou a considerar o físico como o grande representante da “visão dinâmica do mundo” (Whitlock, 1999, p. 189)8. “Boscovich nos ensinou a abjurar a crença na última parte da terra que permanecia firme, a crença na ‘substância', na ‘matéria'” (Nietzsche, KSA, JGB/BM, V, § 12, p. 26)9. Por sua maneira revolucionária de tratar o tempo e o espaço, Boscovich é considerado, inclusive, um precursor da física de Einstein (Cassirer, 1979, p. 461). Contudo, ao não equiparar matéria e força, Hesse (1962) considera que Boscovich permanece atrelado ao mecanicismo (p. 20). Nietzsche, em contrapartida, dilui a noção de matéria na noção de força. Ainda, como observa Nasser (2008), Nietzsche segue a teoria de Boscovich, “mas não sem antes radicalizar os seus objetivos” (p. 100). Com base nesta visão dinâmica, Boscovich, com sua incrível originalidade, conduziu Nietzsche “na ideia de que não há matéria, mas apenas forças” (Whitlock, 1999, p. 189)10. Nietzsche entende que Boscovich considera a matéria um conceito ilusório e não substancial e sobre isso elabora a sua tese onto-mecanicista. Aquilo que se chama massa, matéria, nada mais são do que pontos atômicos em luta, dispostos no tempo. A luta da qual se depreende o movimento - princípio fundamental heraclitiano, que move o pensamento de Nietzsche - passa, como recorda Matthew Tones (2015) pela contribuição do fisicalismo de Boscovich, a remodelar sistematicamente aquela teoria do devir de Heráclito, a partir de uma atualidade sensível do mundo finito do devir (p. 308). A teoria da matéria de Boscovich passa, através do pensamento de Nietzsche, a implicar numa atomística dos pontos sensoriais, dos fenômenos que vem a influir numa visão de mundo como vontade de potência. Daqui seguem dois elementos do modelo de Boscovich sobre o pensamento de Nietzsche: a teoria da física da matéria como precursora da visão da dinamicidade do filósofo alemão e a teoria das forças como precursora da noção de vontade de potência - “é preciso liquidar aquele outro e mais funesto atomismo [...] o atomismo da alma [...] essa crença deve ser eliminada da ciência [...] para novas versões e refinamentos da hipótese da alma [...] como estrutura social de impulsos e afetos” (KSA, JGB/BM, V, § 12, p. 27)11.

O vir-a-ser incessante no pensamento do filósofo alemão, ao atuar sobre a unidade inseparável entre matéria e espaço, atualiza o corpo sensível na realidade da força. Pela força é desencadeado um movimento de sensação, através do processo de ação e reação, de modo que já não se fala mais em pontos atomísticos e sim em pontos sensoriais. A força se constitui pelo atuar incessante da matéria nela mesma, mediante a multiplicidade de perspectivas de interpretação do mundo físico. A mudança de perspectiva altera a maneira com que se interpreta sensorialmente um determinado ponto físico, num processo incessante de sempre novas perspectivas.

A teoria da física da matéria - da qual se depreendem, como exemplo, os átomos temporais de Boscovich - compreende pontos simples conectados com uma série contínua de instantes de tempo. Assim, “um instante simples de tempo estaria conectado com uma série contínua de pontos do espaço” (Boscovich, 1922, p. 65, n.51)12. Apesar da variação da distância entre os pontos implicar na variação da força, existe uma partícula de matéria que conecta com cada uma das outras partículas, não importando quão grande seja a distância entre elas. Isso quer dizer que há uma conexão entre os pontos que confere continuidade, apesar de todas as variações e diferenças entre as partículas. Por não admitir a extensão contínua que cresce da ideia de pontos consecutivos não estendidos, a teoria de Boscovich difere e ultrapassa a teoria de Leibniz. Muito embora a força seja a mesma do sistema de Leibniz, resultante da compenetração de todos os tipos de pontos consecutivos não estendidos.

Diferentemente de Newton, Boscovich, movido pela flexibilidade da natureza dependente da composição das forças com as quais as partículas de matéria atuam umas sobre as outras, derivou todos os princípios, de gravidade, coesão e fermentação de uma única lei das forças - de repulsão e atração conforme a menor ou maior distância entre os pontos respectivamente. As forças vão constituindo uma curva de extensão contínua que se depreende da natureza, assim como todos os movimentos têm lugar em linhas contínuas. Este movimento que se dá no tempo em linhas contínuas compostas por dois pontos A e B, um atuando sobre o outro reciprocamente, foi lido por Nietzsche sobre a teoria de Bosco- vich. Esta atomística filosófica original - que se traduz numa visão dinâmica da matéria - foi, segundo Pietro Gori (2007), o que motivou a leitura de Nietzsche sobre o jesuíta (p. 52). A ação efetivamente é o atuar dos dois pontos um sobre o outro. “Nós tomamos a atividade no tempo, tanto é que em cada mais pequeno momento de tempo de atividade está um expirar” (Nietzsche, KSA, N/FP, VII, 26 [12], p. 575)13. Está aí pois evidenciado que no tempo há um persistir da força que não permite engessamentos, tudo está a todo momento em constante mudança.

Em 1873, Nietzsche aplica essa noção da mudança constante, que se depreende da força, dos pontos atômicos (Zeitatomenlehre, ou teoria dos átomos temporais (Nietzsche, KSA, N/FP, VII, 26 [12], p. 579) à metafísica e à moral. Esta é uma “teoria singular temporal que representa uma reelaboração pessoal de leitura científica elaborada naquele período” (Gori, 2007, p. 63)14. Isso já é visível, de maneira embrionária, no tratado juvenil Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral, “em que sua filosofia se mostra pela primeira vez abertamente” (Ross, 1994, p. 333)15. Ou seja, aqueles grandes temas polêmicos que seguirão até a maturidade do pensamento de Nietzsche já estão todos postos, permeados, inclusive, pela moderna leitura científica que se exerce, sobretudo, sobre a noção de força. Pela força, o filósofo alemão busca por em movimento de superação as ilusões que se foram tornando verdades, tal como ele mesmo se expressa a respeito de inúmeras paradigmas que são: “[...] ilusões tomadas por verdade.” (Nietzsche, KSA, WL/VM, I, 1, p. 878)16.

Boscovich (1922) afirma que a força deve ser mútua e atuar em direções opostas, alternando a velocidade do corpo. Este princípio de ação e reação que afirma que: “A força é mútua com atos em direções opostas” (p. 77)17, influenciou a concepção nietzschiana do movimento no tempo como identificamos na seguinte proposição de Nietzsche: “O movimento se situa em uma contradição, que o constrói em um espaço estabelecido através da recepção de um tempo, e novamente esta lei se faz impossível; isto é, ao mesmo tempo é e não é” (KSA, N/FP, VII, 26[12], p. 576)18. Nietzsche expressa esta impossibilidade de estabelecer uma regra e/ou lei universal em seu tratado Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral: “o emprego da máscara, o véu da convenção, a comédia para os outros e para si mesmo, [...] são de tal maneira a regra e a lei, que quase nada se torna mais inconcebível que o aparecimento de [...] um instinto de verdade” (KSA, WL/VM, I, 1, p. 876)19. O intervalo da relação do atuar entre todos os átomos temporais, que compõe o mundo, guarda no tempo um espaço infinito. Cada instante, em Nietzsche, é um instante infinito que quer se afirmar em seu sentido mais pleno, para além da necessidade atomística, mecânica e causal. Logo, dada a multiplicidade de instantes infinitos que cobre a face da terra, estamos diante de uma física que, em seus átomos temporais, se abre para uma multiplicidade perspectivística. Tal acepção nos coloca frente à seguinte questão: como esta multiplicidade atômica em perspectivas atua no âmbito sensorial?

2. De uma atomística temporal para uma multiplicidade perspectivística

Para que a massa corpórea seja possível, Boscovich considera necessário um número de várias combinações entre os pontos atômicos. Esse grande número de combinações torna a massa de elementos perfeitamente homogênea e simples. Pois, na natureza há toda uma série de curvas de forças derivadas do fenômeno natural, que vai determinando a constituição dos elementos primários da matéria derivados das forças. Logo, estes elementos primários da matéria estão totalmente unidos em um todo sem partes, não compostos e não estendidos, compreendendo pontos de força da inércia e das forças ativas. Ou seja, a força dos pontos é inerte, pois estes não são dotados de forças, como acima foi dito, e as forças ativas se depreendem da atuação entre os pontos20. Nietzsche compreende cada átomo, tal como herda da leitura de Boscovich, como um pequeno infinito, assim como também cada intervalo entre os átomos é infinito e indivisível, de modo que ao fim e ao cabo “todos os átomos pontuais se juntam em um ponto” (KSA, N/FP, VII, 26[12], p. 576)21. Estes constituem, portanto, uma única massa homogênea.

A concepção de cada corpo espacial e de cada intervalo de tempo como um dado corpóreo simples e homogêneo, faz pensar que todo o mundo possível não passa de mero fenômeno e que em cada fenômeno deste é possível ser posto um ponto no espaço, infinitas vezes. Nietzsche lança aqui as bases científicas para pensar a doutrina do eterno retorno, acentuando uma visão dinâmica do mundo. Como nos apresenta Ross (1994), “só depois de anos inteiros de silêncio absoluto, pretendia aparecer entre os homens como mestre do eterno retorno! Tratar- se-ia de uma ideia absurda? Era genial? O que ele havia lido de ciências naturais com o velho jesuíta polaco22 Boscovich?” (p. 653)23. Pela atomística temporal, Nietzsche pensa uma multiplicidade de fenômenos simples que se colocam no tempo e no espaço, e por isso vão constituindo múltiplas perspectivas, pois cada ponto de tempo é distinto pela força que deles se depreende no atuar mútuo, ainda que cada ponto, visto isoladamente, permaneça o mesmo. “A ideia de uma quantidade de força finita em eterno movimento quer concluir a repetição infinita de eventos numericamente idênticos” (Gori, 2007, p. 151)24. Assim, o eterno retorno é o retorno infinito do mesmo. Pois aqueles mesmos pontos irão retornar uma série de vezes. Cada retorno constitui um intervalo, dentro do qual tem espaço para pontos de tempo infinitos, dos quais é possível pensar todo um mundo corporal. Este último é um corpo em linhas fragmentadas, ou seja, uma curva de linha de forças. Boscovich compreende que a cada curva de linha de forças segue proporcionalmente uma série de curvas similares no universo. Tudo isto em conformidade com a simplicidade com que contemplamos as coisas na natureza.

Esta simplicidade da natureza, tal como Boscovich tem concebido, serve de base para Nietzsche elaborar sua teoria sobre a natureza, que está para além de toda a complexidade científica e metafísica. Ou seja, a simplicidade “será central no discurso feito por Nietzsche relativamente ao perspectivismo científico: Boscovich fala dos prejuízos cognoscitivos, aos quais os homens estão relacionados pela sua dispensa de sensibilidade” (Gori, 2007, p. 119)25. É nada mais do que um vitalismo fundado na terra que segue suas funções orgânicas compreendidas por nada mais senão por pontos que agem um sobre o outro reciprocamente. E neste atuar mútuo, quando há áreas que sejam parcialmente atrativas e parcialmente repulsivas, as suas diferenças devem ser levadas em consideração a fim de marcar os limites das forças que atuam em direções opostas. É que estas mesmas forças estão relacionadas às diferenças de opostos. E nesta oposição, pela atração e repulsão, o movimento é garantido. Na natureza não há forças vivas e sim fenômenos naturais dos quais se depreendem movimento e equilíbrio. Tudo visa ao fim de busca de um equilíbrio que age em um plano natural, conectado pela flexibilidade, coesão e forças mútuas. O que resulta é um ponto que é o centro de oscilação e de suspensão relativos um ao outro. Estes constituem, em linguagem nietzschiana, instantes de plenitude quando as forças atingem o máximo de acumulação e tem de se descarregar (Auslõsung). (Nietzsche, KSA, N/FP, 1881, IX, 11[139], p. 493). Embora não passem de apenas instantes, são instantes que envolvem a totalidade. A cada novo equilíbrio que se atinge, uma nova perspectiva se exerce, e, consequentemente, novas forças são demandadas para operar uma nova oscilação, e assim sucessivamente, numa multiplicidade de curvas de forças.

Observada na natureza dos corpos das várias espécies, as forças são responsáveis por manterem as suas partes perfeitamente unidas, constituindo uma conexão contínua. A extensão destes mesmos corpos cresce à medida do aumento de forças repulsivas. A diversidade das forças de coesão e de resistência, pertencentes à distribuição nas diferentes partículas, serão as responsáveis pelas diferenças principais da grande variedade de corpos. Contrário a tudo o que inspira uniformidade, massificação e fixidez, Nietzsche aposta na diversidade, que por sua vez implica em relações, e estas em forças que se colocam umas contra as outras. Gilles Deleuze (1976) diz que a filosofia de Nietzsche consiste em dominação que se exerce através de “uma pluralidade de forças agindo à distância, onde a distância é o elemento diferencial compreendido em cada força e pelo qual cada uma se relaciona com as outras” (p. 6). Gori (2007) ressalta que o filósofo “incorpora a reflexão científica sob o conceito de força em uma filosofia de cunho pessoal” (p. 192)26. A pluralidade dos componentes de um corpo marca a sua constituição que é única, ao lado de diferentes corpos. Portanto, a diversidade se faz presente necessariamente desde a constituição até o acabamento final dos vários corpos que compõem a natureza. E a cada novo corpo uma nova perspectiva se inaugura, num movimento que continuamente se repete. Esta repetição é demandada por um pequeno ponto “em um momento de tempo menor que repete” (Nietzsche, KSA, N/FP, VII, 26[12], p. 577)27. O eterno retorno do mesmo, portanto, se dá por este pequeno momento de tempo, que, no fundo, é derivado daqueles pontos atômicos que permanecem sempre os mesmos, já que não são dotados de força. Esta força só é possível pelo atuar que se dá, simultânea e reciprocamente, sobre um e outro ponto, portanto, à distância. À medida do atuar, pela oposição entre pontos contrários, uma nova perspectiva se inaugura para o enriquecimento das diferenças que se manifestam desde o funcionamento orgânico do mundo até ao desempenho dos aparelhos sensoriais. Estes últimos culminam naquilo que Gori chama de perspectivismo cognoscitivo (Gori, 2007, p. 27) derivado da teoria das forças de Boscovich, que não permitem nenhuma representação objetiva da realidade.

O atuar constante da física não pode permanecer apenas como mero atuar mecânico. As forças que se depreendem das relações entre os átomos implicam em um vitalismo orgânico, porque, segundo Whitlock (1999), “há uma tentativa em construir uma ponte que ligue o mundo da força atômica e o da vida orgânica” (p. 195)28. Há implicações também no campo sensorial, a saber, sobre a multiplicidade de pulsões que provém não simplesmente do funcionamento orgânico e fenomênico, mas que possui componentes de ordem cognitiva. Estes componentes serão um dos grandes alvos da crítica de Nietzsche, não da maneira como contribuem para a força dos organismos vivos, mas por uma compreensão que faz da consciência a sede de todas as concepções morais (Gewissen). A consciência moral, ou má consciência, impede a manifestação da força, não como aquela que potencializa o movimento do atuar que produz o criar, mas que engendra preconceitos de ordem moral na consciência, tornando-a engessada, e incapaz de romper os limites que se impõem ao seu campo de ação para expandir o movimento do criar.

Perguntamos: em que medida a física da matéria lida a partir da teoria das sensações traz implicações epistemológicas e éticas capazes de desfazer preconceitos que impedem o atuar?

3. A teoria das sensações como antídoto contra os preconceitos morais

Com as reflexões dos capítulos anteriores fomos levados a perceber que os pontos atômicos são desprovidos de força, permanecendo por isso, sempre os mesmos. Contudo, estes átomos tendem a atuar sobre outros pontos reciprocamente; sendo que, a sua ação é sempre à distância. Portanto, o resultado do atuar entre os pares atômicos é simplesmente uma multiplicidade de corpos que a cada momento abre para uma perspectiva diferenciada. Esta variedade de corpos e fenômenos é relativa às forças com as quais os pontos, ao atuarem sobre um e outro ponto, formam uma partícula, e que esta, por sua vez, atua sobre outra partícula. Um atuar caracterizado pela atração ou pela repulsão, até formar a massa de grande número de partículas.

Todo este incomensurável número de partículas se move no tempo seguindo as diferentes direções e combinações. Resulta, assim, a magnitude que é o fenômeno da natureza. Estas diferentes combinações das circunstâncias individuais, pertencentes aos diferentes pontos, são responsáveis pela sensibilidade. Aplicado aos aparelhos sensoriais, todo o movimento que envolve pontos, partículas e massas contribui para a manutenção da sua individualidade. A sensação, compreendida em sua essência, consiste em figuras sutis no tempo, num sentir e medir. A representação destas figuras se dá uma ao lado da outra de acordo com a continuação do mundo. Pois a ordem deste último foi a garantia da regularidade das figuras no tempo. É no tempo, portanto, que se dá a atuação das forças, e a consequente manifestação das sensações.

Se as sensações são resultado de um constante atuar de um ponto sobre o outro reciprocamente, que impedem este campo de ação, equivale estabelecer limites na manifestação das forças. O impedimento destas forças conduz ao estabelecimento de toda a sorte de preconceitos, que no fundo são aqueles conceitos que já não podem mais ser aplicados às coisas, pois perderam a sua força e se tornaram obsoletos. Neste sentido se expressa Nietzsche em uma carta a Heinrich Koselitz, de 20 de março de 1882: “Se uma coisa é bem refutada então isso é um preconceito da matéria e, na verdade, não por um idealista senão por um matemático - por Boscovich. Ele e Corpérnico são os maiores adversários da aparência” (KGB, B/C, II3, p. 183)29. Ainda em uma importante referência a Boscovich em Além do bem e do mal, única em uma obra publicada, Nietzsche enfatiza que “enquanto Copérnico nos persuadiu a crer, contrariamente a todos os sentidos, que a terra não está parada, Boscovich nos ensinou a abjurar a crença na ‘substância', na ‘matéria', nesse resíduo e partícula da terra, átomo: o maior triunfo sobre os sentidos que até então se obteve na terra” (KGB, JGB/BM, V, § 12, p. 26)30. Há um grande problema quando uma aparência quer reivindicar o estatuto de verdade. Aquele instinto de verdade, evocado em Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral, reproduz o resultado do déficit da ação sobre o aparato sensorial fenomênico. “Quer dizer que se fixou agora o que deve ser ‘verdade' daqui em diante. Significa: encontrou-se uma designação uniformemente válida e obrigatória para as coisas e a própria legislação da linguagem contém as primeiras leis da verdade : pois nasce aqui, pela primeira vez, o contraste entre a verdade e a mentira” (Nietzsche, KSA, WL/VM, I, 1, p. 877)31. O filósofo afirma que este contraste só foi possível, no fundo, porque houve uma ausência de movimento, de forças. O estancamento da ação abriu espaço para a fixidez conceitual. Daquele conjunto de metáforas, metonímias, antropomorfismos passando por um longo uso se transformou em uma realidade solidificada, firme, regular e constrangedora (Nietzsche, KSA, WL/VM, I, 1, p. 880).

Toda essa realidade de solidificação da verdade, aplicada ao campo moral, faz da verdade um dogma, uma lei que uniformiza e impede que aquela riqueza presente na força sensório linguística da metáfora se expresse. O resultado não é nada senão preconceitos que comumente se denominam verdade. Assim a física atômica, no sentido parmenídico, da qual se depreendem forças invariáveis, não pode atuar. Para atuar é necessário que sejam variáveis, abertas, despidas de preconceito, porque toda a força possui a sua razão de ser no tempo. A força é ação que se depreende da atuação entre dois pontos à distância; no intervalo entre os mesmos, que é o tempo, se concretiza a ação livre, não necessária. Sendo uma força à distância sabe-se pouco sobre a mesma; é impossível esgotá-la, bem como concebê-la enquanto estagnada, a não ser enquanto equilíbrio entre elas (Nietzsche KSA, N/FP 1881, IX, 11[245], p. 534). A expressão da força se dá em graus que podem ser de aceleração suprema, de onde se depreende o grande infinito. A força é, portanto, um movimento para além de todos os preconceitos. Pouco se sabe dela, porque tudo o que dela se dissesse como verdade seria novamente um preconceito. Por ela se abre uma acepção infinita e plena de sentido, que é o campo das múltiplas perspectivas, as quais destroem os preconceitos e apontam para a tradução de uma dinâmica necessária da vontade de potência. Assim, Gori (2007) afirma que tanto o “conceito nietzschiano de vontade de potência como o modelo dinâmico da ciência natural de Boscovich” (p. 232)32 rompem antigos preconceitos e paradigmas. Há uma analogia entre as concepções físicas da realidade de Boscovich e o conceito de vontade de potência de Nietzsche como lembra André Luis Mora Itaparica (2004):

Nietzsche concebe a vontade de potência como pontos de força dotados de um querer interno, concepção sem dúvida limítrofe, pois os centros de força são o resultado da adição de uma contribuição de concepções físicas da realidade, notadamente de Boscovich, com uma certa analogia estabelecida com a vontade humana. Devido a esta analogia, na vontade de potência ainda permaneceria um forte componente antropomórfico (p. 109).

O querer interno, que é a força interior ao mundo, faz da força não uma grandeza e sim uma qualidade. Deleuze (1976) a este respeito diz que o que diferencia a qualidade das forças é o fato de umas serem ativas e outras reativas. Neste sentido, para além do mecanicismo que considera apenas a qualidade, a quantidade torna a força abstrata, incompleta e ambígua. “A qualidade não é outra coisa senão a diferença de qualidade e corresponde a esta em cada força em relação” (p. 23). De modo que os juízos de valor mais ou menos fortes ao garantirem qualidade à força fazem com que o mundo seja constituído numa hierarquia de forças em combate, numa busca incessante de mais potência. Nasser (2008) ressalta que “formam-se hierarquias entre comandantes e comandados que sofrem constantes modificações, isto é, uma força que é submetida numa luta nunca deixa de resistir, de aspirar ser mais forte, resultando em transições contínuas na relação de mando e obediência” (p. 101). O que faz com que o vir-a-ser constante ocasionado pelas relações de força, ao romper com as ideias de proporcionalidade e constância, põe em marcha a inequívoca atuação da vontade de potência.

A quebra daqueles velhos paradigmas que Nietzsche já antevia aqui nestes textos de 1873, no fundo são inspirados nesta teoria da ciência natural de que nenhum movimento que acontece no tempo é constante. O tempo que compreende o intervalo entre os pontos A e B é sempre descontínuo, como momentos de diferença, marcados por uma ação à distância. Ou seja, “a ação à distância vem [...] com a presença de um fluido que compenetra tudo” (Nasser, 2008, p. 101), uma ação que resulta da atuação dos pontos mutuamente; por isso, dadas as circunstâncias em que uma destas atuações acontece, modifica-se a ação resultante.

A atomística temporal supõe um tempo e um espaço, pois é neste tempo e espaço que a qualidade do momento dinâmico acontece. Segundo Nasser (2008), “o modelo cosmológico que Nietzsche assume da teoria de Boscovich descreve a realidade em termos de um conjunto de quantas dinâmicos” (p. 157). Este momento dinâmico, ao fim se identifica com o ponto sensorial. Por essa razão, a atomística temporal é, no fundo, uma teoria da sensação. Uma teoria de sentidos, pulsões, afetos que compõe o referencial epistemológico de Nietzsche, para além de um mecanicismo causal. O sistema de Boscovich, no entanto, contrapondo- se ao modelo de Newton, considera tempo e espaço não como entidades e que não existem independentemente da dinâmica das forças. As forças, neste sentido, ganham importância fundamental dissipando o caráter de absolutidade que as categorias de tempo e espaço assumem em um tipo de teoria de cunho mecanicista. Muito embora Boscovich permaneça ainda atrelado ao modelo me- canicista, por não equiparar matéria e força. O sistema de Boscovich, ao permanecer ainda numa fixidez hermética, cria dificuldades em se abrir ao referencial epistemológico sensualista. Nietzsche, ao servir-se da interpretação da física da matéria de Boscovich - porém, levando até às últimas consequências os seus objetivos - utiliza-se de toda a precisão científica, agora reduzida à noção da força. Presente em todas as instâncias do mundo vivente, as forças se fazem sentir sobre os pontos sensoriais quebrando o aguilhão da verdade que a razão e a moral instituíram. Ao assumir a forma da intuição, a força quebra a rigidez da razão. Diante disso, o filósofo alemão pergunta, através daquele escrito da juventude que se tornou referência para toda a sua obra: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos [...] que foram enfatizadas [...] após longo uso [...] a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias” (Nietzsche, KSA, WL/VM, I, 1, p. 880)33.

O filósofo alemão aplica a teoria das forças aos pontos sensoriais, a saber, para uma nova epistemologia, gnoseologia e uma moral, o que implica em desfazer-se de preconceitos que foram tomando conta do funcionamento do aparelho sensorial, dando assim margem a toda a sorte de mal-entendidos e ilusões. A força tem a sua razão de ser em seu atuar, pondo em movimento de constante destruir e reconstruir aquilo que a noção de verdade acabou cristalizando. Pela força nasce uma nova epistemologia no sentido de que a verdade se torna perspectiva, uma nova gnoseologia pela razão que dá lugar aos instintos e uma nova moral pelos valores que são destronados em nome do valor dos valores: a vida. Com respeito “aos limites cognoscitivos dos órgãos sensoriais [...] Nietzsche defende a necessidade de superar os limites sensíveis” (Gori, 2007, p. 309)34. O desfazer destes preconceitos morais pela teoria dos pontos sensoriais - que são pontos de força dotados de um querer interno via física da matéria - equivale a inspirar-se no funcionamento da própria natureza. A simplicidade e inocência da natureza rompe todo tipo de falsificações impostas pelas diversas modalidades da verdade, da razão e da moral. A força do querer interno, presente na atomística sensorial, em sua dinamicidade constante, dissolve aquelas estruturas que se pretendem como finalidades universais. Pois a única razão destas forças é o seu atuar para além de toda a finalidade senão a de instantes de plenitude que se alcançam a cada ponto culminante de potência que se atinge. Com sua simplicidade, o funcionamento da natureza, tal como é compreendido por Boscovich, revela um monismo da força, o que se revela significativo para um filósofo como Nietzsche interessado no mecanicismo, enquanto traça as linhas de sua genealogia. Tal como Boscovich, Nietzsche opera uma virada inovadora da física pela passagem da matéria em força. A física da matéria passa a configurar uma nova interpretação do mundo que, como recorda Günter Abel (1998), é vontade de potência, e que retorna eternamente (p. 43).

Conclusão

A recepção de Boscovich na obra de Nietzsche representa um passo de clareza científica sobre a reflexão filosófica sensorial, no sentido de se fundamentar cientificamente a concepção de força. O próprio filósofo percebeu essa necessidade pela unilateralidade de sua formação. Para tanto, os conhecimentos oriundos da ciência natural e da matemática foram cruciais neste processo. No entanto, o filósofo alemão, tal como compreende Nasser (2008), dá um passo além, no sentido de radicalizar os objetivos de Boscovich no que tange a desma- terialização em direção à força. A posição de Nasser se distancia de Gori, para quem a compatibilização entre matéria e força, sem uma devida diferenciação e discernimento, no físico croata é acolhida por Nietzsche tal e qual. No entanto, seguimos a posição de Nasser, que compreende a preocupação do filósofo alemão em ultrapassar elementos mecanicistas ainda presentes em Boscovich para os conduzir a radicalização do dinamicismo até o monismo da força, cuja meta é um querer interno que busca assenhoramento. Pois é somente mediante este as- senhoramento desencadeado pelo querer interno à força que se terá condições de superação dos preconceitos sensoriais. Preconceitos estes tributários, em grande parte, da herança mecanicista que tem operado dicotomias entre matéria e forma, verdade e mentira, sujeito e objeto. Superar estes preconceitos presentes nos sentidos e nos fenômenos é apostar no acesso ao mundo, pelo experienciar fenomênico profundo, via os quanta de força que em tudo têm como meta a superação, perfazendo cada instante culminante de plenitude que se atinge.

A física da matéria de Boscovich, que em sua imediatidade e inércia, ao fazer atuar um ponto sobre o outro, foi produzindo ação no intervalo entre tais pontos - portanto, à distância - e o conjunto de tais ações, foi contribuindo para a constituição das forças na natureza. Contudo, o filósofo alemão, na leitura de Nasser, compreende que a ação à distância de Boscovich, por se efetivar no intervalo entre pontos, carrega ainda o preconceito mecanicista. Por essa razão, movido pelo dinamicismo monista das forças, ultrapassa a dicotomia que dá azo a toda sorte de preconceitos; como aqueles a respeito da verdade e da mentira, do sujeito e do objeto, da matéria e da forma. Nesse intuito, essa mesma constituição simples da física da matéria, Nietzsche aplicou à teoria dos pontos sensórias - uma experiência sensorial primitiva - um fenômeno profundo que possibilita o acesso ao mundo. Assim, a manifestação pulsional, da qual brota o fenômeno da vida, caracteriza-se como a simplicidade da atuação de um ponto sobre outro. Por esta simplicidade, Nietzsche desmascara as falácias da complexidade epistemológica que ela tem exercido sobre a compreensão do mundo da vida, da metafísica e da moral.

A física da matéria possui uma estrutura marcadamente simples, contudo o que a faz sair desta monotonia é a sua propensão para atuar sobre um outro ponto. Este atuar tem como resultado a ação que é múltipla, pois se dá num intervalo entre os pontos, que é o tempo. Este movimento provocado pelo atuar de dois pontos no tempo é sempre distinto. Por essa razão, a ação nunca é uniforme, mas múltipla e diversa. Esta multiplicidade, mais uma vez, quebra o engessamento metafísico que tende a uniformizar o diverso. O que permanece é apenas a física da matéria; a ação muda constantemente a cada momento que sucede. Aqui temos, pois, a base científica da doutrina do eterno retorno, o retorno do mesmo que é a física da matéria que, em momentos sucessivos, demanda ações sempre novas e diversas. Estas ações são forças que, na teoria de Boscovich, são compre-endidas, como quantas potenciais, que apontam para o perspectivismo dinâmico da ciência natural. A releitura desta concepção de força, realizada por Nietzsche, culmina na visão de que no universo dinâmico não há matéria, mas apenas força, o que dá azo à concepção da vontade de potência, um querer interno que busca apenas assenhorarse.

Logo, a diversidade de ações demandadas pela aplicação de pares de pontos temporais sobre os pontos sensoriais implica em desfazer preconceitos morais que ansiavam por inscreverse como verdade. Neste sentido, a influência do Boscovich, para quem o mundo é um complexo de forças, foi decisiva no desmantelamento de preconceitos que se pretendiam verdade sobre os âmbitos mais variados. Nietzsche foi, por esta tradução da física da matéria para pontos sensoriais, ou seja, da matéria em força, constituindo a base para as diversas polêmicas que compreendem o seu pensamento, sobretudo, em sua concepção da vontade de potência, em que o querer interno à potência visa o ultrapassamento, em pontos de força que atingem sua plenitude a cada momento culminante que continuamente se atinge.

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1Roger Joseph Boscovich nasceu em 1711 na cidade croata de Dubrovnik. No ano de 1725 Bos- covich ingressa na Companhia de Jesus, destacando-se em seu apostolado o papel de astrônomo, físico, matemático, arquiteto, filósofo, poeta e teólogo. Como cientista, foi precursor da teoria atômica, com diversas contribuições para a astronomia, incluindo o procedimento geométrico que determina a rotação do planeta. Dentre suas inúmeras publicações se destaca sua Teoria da filosofia natural (1758). Não fosse a solicitação do papa Bento XIV para que ele realizasse alguns trabalhos em Roma, entre os quais um reparo na cúpula da Basílica de São Pedro, Boscovich teria se juntado a uma expedição portuguesa destinada a realizar um trabalho de inspecionar o Brasil e a mensuração de um grau do arco do meridiano. Apesar de desenvolver uma pesquisa controvertida, sua honestidade intelectual se contrapôs os censores de Roma. Mesmo com o Decreto de extinção da Companhia de Jesus, publicado pelo papa Clemente XIV, em 1773, Boscovich seguiu com seu trabalho intelectual até sua morte na cidade de Milão, em 1787.

2Para as obras de Nietzsche, adotamos a seguinte convenção para a citação: as obras publicadas JGB/BM -Jenseits von Gut undBose (Para além do bem e do mal) e N/FP - Nachlass (Fragmentos póstumos), após o nome, KSA (Kristische Studienausgabe Herausgegeben von Giorgio Colli und Mazzino Montinari), seguida da abreviação do título, o volume, o número, o ano e a página; para os escritos inéditos inacabados WL/VM - Über die Wahrheit und Lüge im aussermoralischen Sinn (Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, seguida do nome, KSA (Kristische Studienaus- gabe Herausgegeben von Giorgio Colli und Mazzino Montinari), seguida da abreviação do título, o volume, a parte, o ano e a página; para as cartas: B/C - Briefe (Cartas), seguida do nome, KGB (Kritische Gesamtausgabe Briefwechsel), o volume, o ano e a página.

3Peter Gast foi um pseudônimo atribuído por Nietzsche a Koselitz. Heinrich Koselitz procurava ser reconhecido como compositor na Itália e como seu nome era praticamente impronunciável pelos italianos, ocorreu a Nietzsche cognominá-lo de Peter Gast. Este pseudônimo foi aceito e utilizado por Koselitz pelo resto de sua vida.

4Ureine: substância cristalina da fórmula OC(NH2)2, incolor, inodora, não tóxica.

5„das Ureine wurde mit,DarwinS Urzelle‘verglichen.“Esta e todas as traduções de textos não disponíveis em português são de minha autoria.

6„auch dem ,atomistischrn Bedürfnisee."

7“based on the finitude of the force in the universe.”

8“dynamic view of the world.”

9„lehrte Boscovich dem Glauben an dasLetzte, was von der Erde feststand abschwõren, dem Glauben an den ,Stoff‘ an die ,Materie‘“

10“on the idea that there is no matter but only forces.”

11„man musszunachstauch jener anderen undverhangnissvolleren Atomistik [...]der Seelen-Atomistik [...] diesen Glauben soll man aus der Wissenschaft hinausschaffen [...]zu neuen Fassungen und Ver- feinerungen der Seelen-Hypothese [...]als Gesellschaftsbau der Triebe undAffekte“

12“a simple instant of time would be connected with a continuous series of points of space.”

13„Nehmen wir das Wirkende in der Zeit, so ist das in jedem kleinsten Zeitmomente Wirkende ein Verschiedenes.“

14“teoria temporale singolare che rappresenta una rielaborazione personale della lettura scientifica elabo- rata in quel periodo”.

15“en el que su filosofia se muestra por primera vez abiertamente”.

16„Iusionen für Wharheiten einhandeln.“

17“La fuerza es mutua con actos en direcciones opuestas”.

18„Die Bewegung laborirt an dem Widerspruch, daftsie nach Raumgesetzen construir und durch An- nahme einer Zeit wieder diese Gesetze unmoglich macht: d.h. zugleich ist und nicht ist.“

19„Trieb zur Wharheit.“

20O passo que estamos dando aqui é mostrar que é necessária uma diversidade imensa de relações entre pontos atômicos, que vão constituindo a massa material.

21„alle aus einem Punkte bestritten.“

22Sabe-se que Boscovich não era polaco e sim croata. Nietzsche menciona, no aforismo 12 de Além do bem e do mal, Boscovich equiparado a Copérnico como ambos sendo poloneses. “Graças, antes de tudo, ao polonês Boscovich, que foi, até agora, juntamente com o polonês Copérnico, o maior e mais vitorioso adversário da evidência” (KSA, JGB/BM, V, § 12, p. 26) [„Dank vorerst jenem Polen Boscovich, der, mitsammt dem Polen Kopernicus, bisher der grõsste und siegreichste Gegner des Augenscheins war.“]. Esta atribuição de cidadania polonesa a Boscovich é demonstrada por dois motivos: a) pela proximidade deste à genialidade de Copérnico; b) pela admiração que Nietzsche atribui ao povo polonês. No entanto, Boscovich era, na verdade croata.

23“Sólo después de años enteros de silencio absoluto pretendía [...] aparecer entre los hombres como el maestro del eterno retorno. ¿Se trataba de una idea absurda? ¿Era genial? ¿Lo que él había leído de ciencias naturales con el viejo jesuita polaco Boscovich?”.

24“L'idea di una quantità limitata di forza nel moto eterno vuole completare l'infinita ripetizione di eventi numericamente identici”.

25“sarà al centro del discorso di Nietzsche sul prospettivismo scientifico: Boscovich parla delle menoma- zioni cognitive a cui gli uomini sono legati dalla loro dispensazione di sensibilità”.

26“incorpora la riflessione scientifica sotto il concetto di forza in una filosofia personale”.

27„in den kleinsten Zeitmomenten wiederholt dachten“

28“there is an attempt to build a bridge connecting the world of atomic force and organic life.”

29„ Wenn irgendEtwasgut widerlegt ist so ist es das Vorurtheil vom ,Stoffe‘: undzwar nicht durch einen Idealisten sondern durch einen Mathematiker — durch Boscovich. Er und Copernikus sind die beiden grossten Gegner des Augenscheins.“

30„Wàhrend namlich Kopernicus uns überredet hat zu glauben, wider alle Sinne, dass die Erde nicht feststeht, lehrte Boscovich dem Glauben an dasLetzte, was von der Erde ,feststand‘, abschworen, dem Glauben an den ,Stoff‘, an die ,Materie‘, an das Erdenrest- undKlümpchen-Atom: es war dergrosste Triumph über die Sinne, der bisher auf Erden er rungen worden ist“

31„Jetzt wird ndmlich dasfixirt, was von nun an Wahrheit sein soil d.h. es wird einegleichmdssiggül- tige und verbindliche Bezeichnung der Dinge erfunden und die Gesetzgebung der Sprache giebt auch die ersten Gesetze der Wahrheit: denn es entsteht hier zum ersten Male der Contrast von Wahrheit und Lüge.“

32“Il concetto di potere di Nietzsche sarà il modello dinamico della scienza naturale di Boscovich”.

33„Was ist also Wahrheit? Ein bewegliches Heer von Metaphern, Metonymien, Anthropomorphismen kurz eine Summe von menschlichen Relationen, die, poetisch und rhetorisch gesteigert, übertragen, geschmückt wurden, und die nach langem Gebrauche einem Volke fest, canonisch und verbindlich dünken.“

34“ai limiti cognitivi degli organi sensoriali [...] Nietzsche sostiene la necessità di superare i limiti sensibili”.

Para citar este artículo

Feiler, A. (2019). Nietzsche e Boscovich: das ações físicas aos preconceitos sensoriais. Universitas Philosophica, 36(72), 279-303. ISSN 0120-5323, ISSN en línea 23462426. doi: 10.11144/Javeriana.uph36-72.nbaf

Recebido: 05 de Março de 2018; Aceito: 12 de Dezembro de 2018

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