Introdução
A Proatividade e o Capital Psicológico (PsyCap) são temas considerados emergentes no campo da Psicologia, sendo definidos como forças e virtudes psicológicas positivas que podem ser aprendidas e desenvolvidas, impactam positivamente no desempenho e no clima organizacional. Esse entendimento, tanto no âmbito das organizações como no meio científico, desencadeou um número expressivo de publicações, se intensificando para a Proatividade a partir da década de 1990 e para o Capital Psicológico a partir do início da década de 2000, com a ascensão da Psicologia Positiva. Nota-se que ambos os temas, Proatividade e PsyCap, estão bem sedimentados na literatura (Bandura, 1997; Bateman & Crant, 1993; Frese et al., 1996; Grant & Ashford, 2008; Luthans et al., 2007; Parker & Sprigg, 1999; Seligman, 1998). A Proatividade neste estudo foi considerada um construto que envolve os aspectos relacionados à personalidade proativa, iniciativa pessoal e os comportamentos proativos. Já o PsyCap foi relacionado às virtudes psicológicas positivas dos indivíduos que emergiu a partir dos preceitos da Psicologia Positiva.
Ao se analisarem os aspectos históricos dos estudos sobre a Proatividade de uma forma geral, isto é, em oposição ao passivo e ligada ao papel ativo do ser humano, há evidências de que os estudos iniciais tenham sido inspirados nas bases de duas teorias: a Teoria dos Construtos Pessoais (Kelly, 1955) e a Teoria Social Cognitiva (TSC) (Bandura & National Institute of Mental Health [NIMH], 1986). A Teoria dos Construtos Pessoais de George Kelly aponta que a construção dos indivíduos se dá pelos modos como antecipam os acontecimentos. No que tange à TSC esta retrata o papel de agência do ser humano, que comanda as ações (Bandura & NIHM, 1986), papel este, igualmente importante no contexto do PsyCap (Djourova, 2018). Essas duas teorias, sob uma ótica cognitivista, colocam o ser humano como um agente ativo, que se antecipa, define e testa suas hipóteses em direção ao futuro (Bandura & NIHM, 1986; Kelly, 1955).
A Proatividade como construto emerge na literatura estudada como personalidade proativa (Bateman & Crant, 1993), iniciativa pessoal ou comportamntos proativos, estes mais associados aos aspectos contextuais (Frese et al., 1996; Parker et al., 2006). Quando estudada como personalidade, associa as características dos indivíduos, ao autodeterminismo, à autorregulação e à predisposição das pessoas no sentido de provocar e estimular mudanças ambientais (Bindl & Parker, 2010). Além desse aspecto disposicional, a Proatividade está relacionada à iniciativa pessoal, mais próxima de fatores contextuais, de comportamentos proativos, autopartida, ações antecipatórias e prospectivas (Grant & Ashford, 2008). Alguns autores corroboram a ideia de que a Proatividade é uma síndrome comportamental, que leva o indivíduo a ter iniciativa, uma posição ativa direcionada para o futuro, uma oposição ao comportamento tradicional do trabalho, passivo ou reativo (Cangiano & Parker, 2015; Crant & Bateman, 2000; Ohly et al., 2006; Parker & Sprigg, 1999; Parker et al., 2006;Sonnentag, 2003; Strauss & Parker, 2014).
Já o PsyCap é considerado uma estrutura de ordem superior que surgiu com base nas concepções da Psicologia Positiva. Semelhante a um estado psicológico, é formado pelas dimensões da Autoeficácia, Esperança, Otimismo e Resiliência (Luthans et al., 2007). A autoeficácia é considerada a crença dos indivíduos acerca de suas capacidades (Bandura, 1997); a Esperança rotas alterativas rumo aos objetivos (Snyder, 2000); o Otimismo é considerado um estado psicológico que atribui os eventos positivos ao mérito individual (Seligman, 1998) enquanto à Resiliência está associada ao êxito em lidar com a adversidade, a incerteza e o fracasso (Luthans et al., 2007). Segundo seus idealizadores, Fred Luthans e colaboradores, o PsyCap seria uma evolução do capital nas organizações, um capital baseado nas virtudes humanas, revestidas de recursos pessoais (Xanthopoulou et al., 2007) que se complementam e interagem sinergicamente. Dado esse aspecto particular, a sinergia criada pelos elementos do PsyCap gera um todo maior do que seus elementos isolados. O PsyCap está associado ao desempenho e à satisfação no trabalho (Cenciotti et al., 2016; Luthans et al., 2007), e tem origem nos estudos relativos a atitudes e comportamentos positivos (Salas-Vallina et al., 2018).
Alguns estudos indicam que há indícios de relações entre a Proatividade e o PsyCap e evidências de associação com outros construtos. Exemplos disso, estão nos estudos de Chen (2013), e Klemme Larson e Bell (2013), que concluíram que um construto pode dar origem ao outro, ou seja, o PsyCap pode despertar as práticas proativas, e estas, proporcionarem níveis elevados de PsyCap (Hwang et al., 2015; Xie et al., 2014). Observam-se, ainda, associações e tendências de que o PsyCap e a Proatividade podem se relacionar com outros construtos como o feddback (Leroy et al., 2015; Wang et al., 2017) e o engajamento (Alessandri et al., 2018), que impactam no sucesso da carreira profissional (Cenciotti et al., 2016; Dahling & Whitaker, 2016; Huang, 2017; Pieterse et al., 2010). Enquanto possibilidade de aprender, desenvolver e gerir o PsyCap (Luthans et al., 2007), estudos apontam que outros construtos e conceitos podem ser estudados para compô-lo. Neste contexto podem ser citados, a autenticidade, a criatividade, o mindfulness, a inteligência emocional, o perdão, a gratidão e a espiritualidade (Luthans et al., 2015) e à Proatividade (Bento & Silva, 2018; Chen, 2013; Grant & Ashford, 2008; Klemme Larson & Bell, 2013).
Diante das repercussões desses temas na atualidade, e dos argumentos até aqui apresentados, este estudo teve por finalidade integrar o conhecimento científico referente às interfaces entre o PsyCap e a Proatividade. Assim, nas próximas seções desta revisão integrativa, buscar-se-á responder às principais indagações norteadoras deste estudo, as quais são enumeradas a seguir: a) Quais as relações descritas na literatura entre a Proatividade e Capital Psicológico? b) Quais os principais construtos e conceitos que aparecem na literatura associados à Proatividade e ao PsyCap? c) Quais as diferenças e pontos negativos descritos na literatura no âmbito da Proatividade e do PsyCap?.
Metodologia
O presente estudo consiste em uma revisão integrativa da produção científica sobre os temas Proatividade e PsyCap. Uma revisão integrativa é o exame da produção científica de um determinado período, por meio da qual se resumem e se integram os estudos empíricos ou teóricos sobre temas ou fenômenos específicos (Broome, 2000). Tal procedimento permite a produção de conhecimentos baseada em resultados de estudos anteriores (Mendes et al., 2008). Esta revisão contemplou a produção científica de janeiro de 2000 até 24 de fevereiro de 2020, portanto, dentro de um lapso temporal superior a 20 anos. A pesquisa foi realizada no Portal de Periódicos da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) (periodicos.capes.gov.br) do governo brasileiro. É considerado um dos maiores acervos científicos virtuais do Brasil, contempla e disponibiliza estudos produzidos nacionalmente e outros de bases internacionais. Foram considerados apenas documentos com arbitragem científica, sendo excluídas imagens ou quaisquer outros materiais. Utilizaram-se como descritores, no idioma português: “proativo”, “proatividade”, “capital psicológico” e “PsyCap”. No idioma espanhol, os descritores foram: “proactivo”, “proactividad”, “capital psicologico” e “PsyCap”. Por fim, no idioma inglês: “proactive, “proactivity”, “psychological capital” e “PsyCap”).
A primeira fase da pesquisa contou com uma busca aberta para se obter uma visão geral das publicações sobre os temas. Nessa fase, buscaram-se os documentos que tivessem pelo menos um dos descritores no título, sem envolver cruzamentos ou simultaneidade com os demais descritores, o que resultou no total apurado de 7.741 documentos. Em seguida, em uma segunda fase, pesquisaram-se os documentos com os descritores simultaneamente presentes nos títulos, o que gerou 3 documentos apenas. Em vista dessa quantidade reduzida, não foi escolhida uma base de dados específica, optando-se por expandir a busca com os descritores nos títulos e em “qualquer” parte dos documentos, e em todas as bases de dados presentes no sistema CAPES, o que resultou em 208 publicações. Como a quantidade de artigos que envolve os dois temas se mostrou limitada, e para não correr o risco de perder artigos importantes, todos os documentos foram analisados, os quais estavam distribuídos nas seguintes bases de dados: Scopus (Elsevier); Social Sciences Citation Index (Web of Science); Emerald Insight; OneFile (GALE); Engineering Research Database; Springer (CrossRef) ; Sociological Abstracts; PubMed Central (PMC); MEDLINE/PubMed.
Após esses procedimentos, os documentos foram organizados por ano de publicação com a exclusão dos artigos repetidos. Os resumos foram analisados e posteriormente eleitos por conveniência dos autores, além disso foram incluídos todos os documentos que continham os descritores tanto no título quanto no resumo, o que resultou em 26 artigos. Como o PsyCap é formado por quatro dimensões (Autoeficácia, Esperança, Otimismo e Resiliência) e iniciais “Psycho”, quando essas palavras apareceram nos resumos e nos títulos em conjunto com “Proatividade”, os documentos também foram selecionados. A Tabela 1 apresenta a produção científica dentro dos critérios preestabelecidos para este estudo, com o quantitativo dos documentos encontrados, ano de publicação, estudos escolhidos e a classificação em teórico ou empírico.
Tabela 1 Quantidade de documentos analisados e selecionados para o estudo.

Nota: A partir de 2011 as publicações se intensificaram.
Fonte: Autores.
Observa-se nesta revisão da literatura que, os primeiros documentos com evidências de relações entre o PsyCap e a Proatividade foram publicados somente a partir de 2006. É importante salientar que, entre os anos 2000 e 2003, não foram localizadas publicações com os descritores escolhidos envolvendo simultaneamente os dois temas, o que justifica tal período não figurar na Tabela 1. Já a partir de 2013, as publicações se intensificaram, com destaque para 2018 e 2019. A pesquisa encerrou-se no dia 24 de fevereiro de 2020, o que pode justificar apenas 1 documento encontrado nesse ano.
Resultados e Discussão
No decorrer desta revisão integrativa, foram encontradas afinidades, diferenças conceituais, pontos positivos e negativos, ao se considerarem as interfaces entre o PsyCap e a Proatividade. Ambos os temas foram associados a outros construtos que se orientam por características revestidas de positividade, como, por exemplo, satisfação com a vida, desempenho, engajamento, busca por feedback e felicidade (Salas-Vallina et al., 2018). Identificaram-se também relações associadas aos conceitos de liderança, carreira e empreendedorismo (Hu et al., 2018; Prabhu et al., 2012), e foi constatado que a maioria dos estudos convergiu para impactos positivos, porém alguns revelaram efeitos negativos que podem advir das práticas da Proatividade e dos componentes do Capital Psicológico.
A partir dessas descobertas preliminares proporcionadas pelo estudo, nas seções seguintes passar-se-á a responder às perguntas eleitas para nortear esta revisão integrativa.
Relações entre a Proatividade e o Capital Psicológico
De modo geral, a Proatividade apareceu associada a todas as dimensões do PsyCap. Alguns estudos mencionam as dimensões individualizadas do PsyCap e outros tratando-o como um PsyCap geral ou total com relação de mutualidade com a Proatividade (Chen, 2013; Klemme Larson & Bell, 2013). O PsyCap pode caracterizar a Proatividade no trabalho com impacto na carreira (Van Veldhoven & Dorenbosch, 2008). As ações proativas influenciam o nível de cada componente do PsyCap em benefício do desempenho individual (Andri et al., 2019; Grant & Ashford, 2008).
A Autoeficácia foi a dimensão do PsyCap que mais apareceu nos documentos analisados com associações positivas com a Proatividade (Hwang et al., 2015; Xie et al., 2014). Os estudos apontaram que a Autoeficácia pode ser considerada preditora de comportamentos proativos (Gruman et al., 2006), mediadora (Xie et al., 2014) e com relação de mutualidade, ou seja, a Autoeficácia tem impacto na Proatividade, esta, por sua vez, influenciará os componentes do PsyCap (Chen, 2013; Klemme Larson & Bell, 2013). Esse empoderamento psicológico originado pela Autoeficácia faz emergir atitudes positivas, cujo sentimento de poder promove comportamentos proativos frequentes (Huang, 2017; Pieterse et al., 2010; Spreitzer, 1995; Zhang & Bartol, 2010). Os comportamentos proativos impactam na criatividade (Lee et al., 2016) frente à necessidade de lidar com as incertezas e transpor barreiras (Bindl & Parker, 2010). Ainda no tocante à Autoeficácia, quando aliada às demais dimensões do PsyCap, cria uma atmosfera sinérgica favorável para o surgimento de comportamentos de agência. Esse papel de agência, defendido por Bandura (1997), por meio da TSC, situa o ser humano como um agente ativo e autorregulado, que se autogerencia, o que sugere as crenças de Autoeficácia de prática.
No âmbito do desenvolvimento humano e profissional, os seres humanos são considerados agentes ativos, sistemas vivos, autoconstruídos (Hirschi & Freund, 2014) e autorregulados do ponto de vista social (Zikic & Saks, 2009). Essas características ativas permitem aos indivíduos planejar, gerenciar, alcançar metas (pessoais e profissionais) (Zikic & Klehe, 2006), e obter enriquecimento financeiro (Premchandran & Priyadarshi, 2018). Assim, pessoas com alto grau de Proatividade podem adquirir mais Autoeficácia à medida que buscam desafios (Zikic & Saks, 2009) ou quando são desafiadas. Contudo, mesmo diante dessas relações positivas, em alguns contextos essa conexão não se estabeleceu, por exemplo, a Autoeficácia atuou como mediadora na busca de emprego, porém sem relação com a Proatividade (Urquijo et al., 2019).
Além da Autoeficácia, a Esperança aparece igualmente atrelada à Proatividade. A Esperança pode ser despertada a partir de comportamentos proativos de carreira (Chen, 2013), enquanto a Proatividade favorece a clareza e a racionalidade na caminhada em direção aos objetivos (Hirschi, 2013). A contribuição da Esperança para o PsyCap está na combinação do papel de agência e no pensamento de rotas alternativas e viáveis (Gruman et al., 2006; Madrid et al., 2017; Snyder, 2002). Pode ainda potencializar a Proatividade do indivíduo na gestão da sua carreira, bem como melhorar a motivação proativa (Parker & Collins, 2010), a adaptabilidade, a capacidade de aprendizagem e o otimismo de carreira (Tolentino et al., 2014).
A Resiliência foi outra capacidade mencionada e associada à Proatividade, embora menos citada nos documentos quando comparada com a Autoeficácia e a Esperança. Está ligada a contextos de adversidades e instabilidades, cujas definições se sobrepõem, de alguma forma, à Proatividade, que também está relacionada às incertezas ambientais (Farsen, 2017; Griffin et al. 2007; Luthans, 2002). Mesmo sendo considerada semelhante a um estado psicológico pelos idealizadores do PsyCap, a Resiliência foi debatida também como um traço de personalidade, sendo vinculada à personalidade proativa (Kuntz et al., 2016; Sarkar & Fletcher, 2014). Essa concepção de traços de personalidade é contrariada por alguns estudos que afirmam que a Resiliência e a Proatividade são passíveis de serem aprendidas, o que as distingue de traços fixos de personalidade (Avey et al., 2009; Bindl & Parker, 2010; Parker & Liao, 2016). Portanto, nesta concepção, são capacidades psicológicas maleáveis, flexíveis e passíveis de desenvolvimento (Fletcher & Sarkar, 2013; Lengnick-Hall et al., 2011; Mache et al., 2014; Sarkar & Fletcher, 2014; Segovia et al., 2012).
No que se refere à dimensão do Otimismo, notam-se algumas associações conceituais nos estudos analisados. Seligman (1998), por exemplo, entende que pessoas otimistas são nutridas pela autoestima e pelo entusiasmo, assim como a Proatividade é descrita por alguns autores como um estado de entusiasmo e alta excitação (Griffin et al., 2007). O Otimismo é concebido como perspectivas pessoais favoráveis em relação ao futuro (Scheier et al., 2001), enquanto a Proatividade, nesta mesma esteira conceitual, foi definida como uma iniciativa orientada para o futuro (Grant & Ashford, 2008; Parker et al., 2006). Portanto, tanto a Proatividade como o Otimismo estão voltados para o sucesso e os acontecimentos positivos no futuro.
Diante do exposto, a seguir, a Tabela 2 ilustra os principais debates e relações conceituais entre a Proatividade e o PsyCap.
Construtos e conceitos que aparecem na literatura associados à Proatividade e ao PsyCap
Além das relações e associações observadas nos artigos analisados entre o PsyCap e a Proatividade, verificam-se congruências dos dois temas com outros construtos e conceitos que os envolvem, como a empregabilidade, emoções positivas (Cai et al., 2018; Fuller & Marler, 2009; Torrent-Sellens et al., 2016), adaptabilidade (Hou et al., 2014), rotatividade (Avey et al., 2011; Shin & Jeung, 2019; Vandenberghe & Basak Ok, 2013), engajamento no trabalho (Alessandri et al., 2018; Macey & Schneider, 2008), comportamentos de cidadania, feedback, autodeterminismo e liderança (Crant & Bateman, 2000; Salas-Vallina et al., 2018; Zhang et al., 2015). Um dos aspectos mais destacados é o engajamento, que é definido como sentimentos de persistência, vigor, energia, dedicação, absorção, entusiasmo, alerta, orgulho e lealdade (Macey & Schneider, 2008; Salanova et al., 2005). O engajamento no trabalho pode ser potencializado por níveis elevados de Otimismo, Autoeficácia e Resiliência (Bakker & Demerouti, 2008). A Figura 1 sintetiza as conexões da Proatividade e do PsyCap com outros conceitos e construtos.
Pode-se observar que vários conceitos e construtos associam de alguma forma a Proatividade e o PsyCap. Um aspecto muito mencionado nos estudos desses conceitos foi o feedback, considerado na literatura essencial para o desenvolvimento do PsyCap (Leroy et al., 2015; Runhaar et al., 2010; Wang et al., 2017). De modo idêntico, pessoas proativas utilizam ativamente o feedback para manter e obter recursos, assim como alcançar objetivos pessoais e profissionais (Li et al., 2010). Aperfeiçoar e corrigir erros, moldar ambientes e impactar processos criativos e inovadores, são outros atributos ligados ao feedback (Cenciotti et al., 2016; Dahling & Whitaker, 2016; Huang, 2017; Pieterse et al., 2010; Spreitzer, 1995; Zhang & Bartol, 2010). Juntamente com o feedback, a Proatividade e o Psycap são percebidos em funcionários recém-chegados. Os estudos demonstram níveis elevados de PsyCap e Proatividade nos momentos iniciais nas organizações (Ashford & Black, 1996; Klemme Larson & Bell, 2013; Luthans et al., 2007).
A felicidade é outro construto que se relaciona com o PsyCap e a Proatividade. O perfil proativo dos indivíduos pode ajudar nas interações sociais e na busca pelo conhecimento, e com isso eles podem ser mais felizes (Salas-Vallina et al., 2018). Os aspectos eudaimônicos da felicidade incluem autoaceitação, relações sociais positivas, crescimento pessoal, propósitos de vida, domínio ambiental, autonomia e autorrealização (Deci & Ryan, 2000; Ryff, 1989; Seligman, 2002; Waterman, 1993). Nesse contexto autônomo, a autodeterminação antecede a Proatividade, a Esperança e a eficácia (Stander et al., 2015).
A Proatividade e o PsyCap também foram associados ao empreendedorismo e ao desempenho em diversas culturas, dentre elas a norte-americana (Crant & Bateman, 2000), a portuguesa (Rodrigues & Rebelo, 2013) e a chinesa (Gan & Cheung, 2010). Nesse âmbito do empreendedorismo, a Proatividade está vinculada ao planejamento, à intenção de empreender e ao crescimento profissional (Prabhu et al., 2012; Prieto, 2011). Essas intenções de empreender revestidas de decisões conscientes são energizadas e ativadas por alguns momentos, como, por exemplo o relaxamento fora do ambiente de trabalho (Ouyang et al., 2019). Atreladas ao empreendedorismo, destacam-se as lideranças, que aparecem como preditoras da Proatividade e do PsyCap (Hu et al., 2018; Huang et al., 2016; Zhang et al., 2015). A energia positiva e ativa do líder tem implicações comportamentais nos liderados (Shin & Jeung, 2019; Sweetman & Luthans, 2010), o que pode promover o Otimismo e a Esperança nos funcionários (Avolio & Gardner, 2005).
Por fim, na seção que segue são apresentadas as descobertas referentes às distinções entre Proatividade e PsyCap.
Diferenças entre a Proatividade e o Capital Psicológico
Além das semelhanças entre a Proatividade e o PsyCap, são identificadas diferenças. A proação (Bandura, 2006) envolve gerar mudanças, antecipação, flexibilidade, previsibilidade e necessidade de realização e controle (Bandura, 2006; Crant & Bateman, 2000). Esses aspectos aparentemente não estão inseridos no PsyCap. O próprio Fred Luthans, um dos idealizadores do Psycap, reconheceu a necessidade dessas estratégias proativas para reduzir riscos e estresse, quando formulava o construto da Resiliência (Luthans et al., 2006; Masten & Reed, 2002; Youssef & Luthans, 2005). Alguns estudos também sinalizam que parte do comportamento humano é orientado por processos mentais não conscientes (Bargh & Chartrand, 1999) e roteiros irracionais (Ashforth & Fried, 1988;Langer, 1989). Não foram observadas nesta revisão da literatura ações deliberadas presentes nas características das dimensões do PsyCap. Dessa forma, e nesse contexto, há diferenças relevantes entre o PsyCap e a Proatividade, algumas características presentes na Proatividade não foram observadas na literatura estudada associadas ao PsyCap. A Figura 2 traz a síntese das principais características da Proatividade não observadas nesta revisão nos elementos do PsyCap.
Os componentes do PsyCap aparentam possuir características passivas, reativas e poucas evidências proativas propositais. Já a Proatividade é caracterizada por atitudes de cunho intencional, consciente e deliberado (Parker & Collins, 2010) com impactos na construção e gestão da carreira profissional (Beal & Crockett, 2010; Chen, 2013; Chiaburu et al., 2006; Creed et al., 2003; Gutman & Schoon, 2012; Unsworth & Parker, 2003).
Nesta perspectiva, indivíduos com fortes orientações proativas tendem a ter esforços e estratégias de carreira autorregulados, como autoconsciência e engajamento proativo (Bandura, 2006; Chang-E et al., 2017; Fugate et al., 2004; Glaub & Frese, 2011; Kostal & Wiernik, 2017; Seibert et al., 2001). Nessa esteira de divergências entre a Proatividade e o PsyCap, também se destacam a responsabilidade e a autonomia, ambas não presentes no PsyCap (Bergeron et al., 2014; Chang-E et al., 2017; Shin & Jeung, 2019). A seguir, serão abordados os fatores negativos decorrentes da Proatividade e do PsyCap.
Aspectos negativos que envolvem a Proatividade e o Capital Psicológico
Após analisados vários estudos e abundantes relatos sobre os benefícios e pontos positivos da Proatividade e do PsyCap, procurou-se identificar os aspectos negativos que abarcam os dois construtos. Os estudos de Falvo et al. (2013) por exemplo, investigaram a Proatividade disposicional (personalidade proativa) e a Autoeficácia em relação ao vício no trabalho (workaholismo). Os resultados demonstraram que tanto a Proatividade como a Autoeficácia não apresentaram relações com esse tipo de vício, portanto não houve associação significativa com o workaholismo (Falvo et al., 2013). Relatos curiosos também chamam a atenção. Pesquisas apontaram que a fofoca no ambiente de trabalho pode ter influência sobre a iniciativa das pessoas e sua postura proativa. Quando os funcionários percebem que são vítimas de fofocas, tendem a reduzir o envolvimento proativo (Qi-tao et al., 2019).
Outros estudos destacaram o estresse, a sobrecarga e os conflitos entre colegas de mesmo perfil proativo, o que parece influenciar negativamente as relações no ambiente de trabalho. Nesse sentido, o comportamento colaborativo dos colegas pode ser um contributo importante do comportamento proativo em direção à satisfação no trabalho e à redução dos conflitos (Ghitulescu, 2018). De fato, a Proatividade tem raízes na competitividade, instabilidade e intensidade, e isso indica que fatores negativos podem ocorrer nas rotinas e disputas internas (Thompson et al., 2005), como a busca pela inovação que, envolve projeção de cenários impulsionada pela Proatividade (Bento & Silva, 2021), e esse fato pode prejudicar a colaboração entre os indivíduos e equipes, oposição às iniciativas no ambiente de trabalho (Lau & Murnighan, 2005), bem como resultar em atitudes mais centralizadoras, autônomas e estresse (Parker & Liao, 2016).
No que concerne ao PsyCap, a exemplo da Proatividade, os estudos enfatizaram, em sua maioria, os benefícios e pontos positivos. No entanto, a crença de Autoeficácia foi aludida como preditora de violência no ambiente escolar, mas ao mesmo tempo, níveis elevados de Capital Psicológico dos alunos reduziu os sentimentos negativos como ansiedade, estresse e esgotamento, criando ambientes mais equilibrados e menos violentos (Aliyev & Karakus, 2015; Taiwo, 2004). Esse aspecto pode ser considerado importante em caso de intervenções para potencializar o PsyCap, ao lembrar que outros construtos como a gratidão, a empatia e a espiritualidade podem ser trabalhados visando conscientizar e equilibrar as forças psicológicas.
Neste estudo integrativo, não se observaram outras menções e aspectos negativos para as demais dimensões do PsyCap, ou seja, para Otimismo, Resiliência e Esperança, o que pode levar a duas reflexões: esses componentes estão fortemente alinhados à positividade e à predominância de benefícios, ou há carência de estudos sobre os aspectos negativos relacionados ao PsyCap. Cita-se, nesse contexto, o excesso de Otimismo e autoeficácia, que, a depender da situação, pode ser uma ameaça, portanto novos estudos podem ser necessários para demonstrar esses pontos negativos.
Considerações finais
Diante desses resultados, notam-se pontos convergentes e divergentes entre a Proatividade e o PsyCap. Constatou-se que a Proatividade se relacionou de várias formas com o PsyCap geral e todos os componentes que o integram (Autoeficácia, Esperança, Resiliência e Otimismo). No entanto, essas associações e relações nem sempre foram diretas; em algumas passagens, apareceram mediadas por meio de outros construtos e conceitos como empregabilidade, orientações de carreira, feedback, engajamento, comportamentos de cidadania organizacional, lideranças, dentre outros. Também se constatou associação com o desempenho e certos fatores emocionais, como humor e emoções positivas. Há igualmente indícios de que existe uma relação de mutualidade entre o Psycap e a Proatividade, em que um seria antecedente ou consequente um do outro e que podem ser desenvolvidos por meio de intervenções.
Ficou evidenciado que tanto a Proatividade como o Psycap estão alinhados à positividade, ao desempenho e às incertezas ambientais, e essas incertezas podem ser razões que despertam esses recursos psicológicos. Foram observadas também diferenças relevantes, a orientação proativa, por exemplo, parece mais pautada e revestida de intencionalidade e comportamentos propositais, enquanto os componentes do PsyCap estiveram mais ligados às atitudes menos deliberadas e mais distantes das ações. Alguns construtos e conceitos como o feedback, o engajamento e a adaptabilidade foram atribuídos ao PsyCap e ao mesmo tempo à Proatividade, o que pode significar a necessidade de delimitar melhor essas fronteiras. Concomitantemente aos benefícios, foi verificado que há a possibilidade de conexão desses construtos com aspectos negativos, como excesso de autoeficácia, de Otimismo e de Proatividade, que podem ter consequências negativas como decepções, conflitos e estresse.
Sobre as divergências, quando se compara o PsyCap à Proatividade, esta, além de ser um recurso psicológico, emerge na literatura associada ao papel ativo do ser humano, ao autocontrole, às atitudes deliberadas em direção às mudanças, à autoconsciência, intencionalidade, previsibilidade e capacidade de se antecipar. Já as dimensões do PsyCap, aparentemente, são ativadas circunstancialmente; podem possuir dinamicidade própria, mas a literatura estudada revela tendências e características passivas e/ou reativas até que eventos ou intervenções possam despertá-las. Esse cunho ativo, intencional, consciente e proposital da Proatividade parece ser a diferença central quando comparada aos elementos do PsyCap, que não apresentaram neste estudo tais características. A literatura aponta diversas contribuições do PsyCap para as organizações, inclusive alguns documentos analisados, deixam transparecer que esta ordem superior do PsyCap seria suficiente para sanar grande parte das deficiências das organizações. No entanto, as organizações do século 21 participam de um mercado competitivo com disputas acirradas e grandes desafios. Dessa maneira, necessitam muito mais do que níveis elevados de PsyCap de seus funcionários, provavelmente, necessitarão desenvolver outras habilidades e outros recursos psicológicos não abarcados nesta revisão integrativa.
Aplicabilidade e futuros estudos
Conforme ficou evidenciado, tanto a Proatividade como o PsyCap causam impactos positivos no desempenho e no ambiente organizacional. Os estudos apontam que ambos os construtos são maleáveis, flexíveis, que podem ser aprendidos e desenvolvidos. Diante disso, recomenda-se incorporar no escopo das atribuições dos profissionais de recursos humanos (RH) o desenvolvimento dessas virtudes psicológicas positivas (PsyCap e Proatividade), por meio de intervenções.
No campo de novos estudos, sugerem-se novos estudos em torno de outras dimensões no intuito de ampliar a composição do PsyCap; especificamente, recomendam-se mais estudos sobre a Proatividade e como esta pode ampliar a sinergia entre os componentes do PsyCap. Finalmente, faz-se relevante realizar novos estudos sobre os impactos negativos da Proatividade e do PsyCap, poucos documentos abordaram os aspectos negativos desses construtos.
Limitações do estudo
Houve algumas limitações metodológicas nesta revisão integrativa. Alguns documentos não foram disponibilizados pelas bases de dados integralmente, alguns documentos foram liberados apenas resumos. Notou-se que algumas bases de dados ficavam inacessíveis na internet em determinados momentos e a quantidade de documentos variava na Base de dados dependendo do dia de acesso.

















