Introdução
Os padrões de vinculação afetiva estabelecidos na infância com figuras significativas têm sido identificados como base das relações de proximidade, podendo permanecer como modelos de referência ao longo de todo o processo desenvolvimental (Ainsworth, 1969; Bowlby, 1988). Uma vinculação segura refere-se ao estabelecimento de uma relação emocional próxima entre a criança e os cuidadores, pautada pela confiança, segurança, suporte e proteção, especialmente em situações adversas e de promoção da individualidade e autonomia (Bowlby, 1988).
A segurança nas relações com as figuras de vinculação promove o desenvolvimento de modelos internos dinâmicos, através dos quais o indivíduo constrói uma imagem positiva de si e dos outros. Estes modelos são representações mentais generalizadas e tendencialmente estáveis sobre o self, os outros e o mundo, e funcionam como mapas cognitivos e afetivos capazes de orientar a ação futura (Bowlby, 1988).
Indivíduos seguros conquistam maior autonomia e, durante a adolescência, aproximam-se aos pares de acordo com a semelhança de vivências, proximidade e partilha de experiências, facilitando o processo de separação e individuação (Erikson, 1968; Fleming, 2005), em que conquistam gradualmente autonomia face às figuras parentais e iniciam a exploração do meio circundante (Arnett, 2007). Os pais deixam de ocupar o papel central na rede de relações dos filhos, e as relações de pares tornam-se predominantes. A qualidade das relações está associada àquela pré-estabelecida com as figuras de vinculação (Correia & Mota, 2016).
A literatura refere que um vínculo parental seguro prediz positivamente o desenvolvimento de relações próximas e recíprocas com os pares, maior autonomia, melhor gestão de Impulsos e emoções, mais capacidade na resolução de problemas, mais competências sociais e maiores níveis de autoestima e autoconfiança. Contrariamente, adolescentes com vinculações inseguras tendem a apresentar perturbações de ansiedade e do comportamento, maior isolamento, sintomas depressivos e problemas nas relações interpessoais (e.g.Henriques, 2014; Meier et al., 2013; Veríssimo et al., 2012).
É através da qualidade das relações de vinculação precoces que o indivíduo determina estratégias de Regulação Emocional face às relações de proximidade (Assunção, 2016; Nunes & Mota, 2017; Soares & Dias, 2007; Xie et al., 2015). A Regulação Emocional traduz-se na capacidade de adaptação do indivíduo face a situações desafiantes por meio da gestão das suas emoções. A ausência de acesso a estratégias de regulação, como a aptidão de conscientização, compreensão e aceitação de emoções, inibição de comportamentos impulsivos e adequação dos mesmos a diferentes situações, parecem indicar dificuldades na Regulação Emocional (Gratz & Roemer, 2004).
Karaiskos et al. (2010) evidenciaram que uso excessivo da internet está frequentemente associado a uma utilização como estratégia de fuga à realidade, ao stresse, à depressão e à preocupação com situações quotidianas. Kim e Davis (2009) sublinharam que os utilizadores de internet que apresentam um défice na autorregulação, tendem a preferir interações sociais online como forma de regular as emoções. Os padrões de Uso Problemático da Internet e, especificamente, das redes sociais são igualmente associados a mais problemas de Regulação Emocional (Hormes et al., 2014; Xie et al., 2015).
Com o aumento exponencial do uso das novas tecnologias, a internet e particularmente as redes sociais definiram-se como a nova ferramenta de comunicação e relacionamento. Assim, o Uso Problemático da Internet é geralmente conceituado por pesquisadores cognitivo-comportamentais como uma utilização da internet que envolve dificuldades no controlo de impulso com impactos psicológicos e comportamentais negativos (e.g. aumento da ansiedade social) (Weinstein, et al., 2015), níveis mais elevados de depressão (Pontes et al. 2014), uma maior incidência de déficit de atenção e transtorno de hiperatividade (Sariyska et al., 2015), níveis mais elevados de problemas no funcionamento familiar e satisfação com a vida, aumento da solidão no contexto educacional (Pontes et al. 2014), mal-estar emocional (Piguet et al., 2015) e aumento dos comportamentos de uso de substâncias (Rücker et al., 2015).
Por outro lado, o Uso Problemático da Internet também se refere à condição em que um indivíduo apresenta comportamentos no uso da internet de natureza desadaptativa com um propósito específico, como por exemplo o sexting (envio de conteúdo sexual geralmente produzido pelo remetente) (Burén & Lunde, 2018), o cyberbullying (violência intencional através de meios eletrónicos) (Boniel-Nissim & Sasson, 2018), aliciamento (práticas online com propósito de satisfação sexual) (Gámez-Guadix et al., 2018), bem como acesso a conteúdo impróprio e perda de privacidade (Kayes & Iamnitchi, 2017).
Desta forma, dada a sua continuidade de permanência e intensidade de utilização, o uso problemático poderá chegar ao uso aditivo enquanto psicopatologia (Davis, 2001; Davis, et al., 2002; Tokunaga, 2015).
Alguns autores apresentam uma proposta que avalia o Uso Problemático da Internet com base na teoria cognitiva-comportamental, por meio da Generalized Problematic Internet Use Scale 2 (GPIUS-2, Pontes et al., 2016), nas seguintes dimensões: Preferência pela Interação Social Online (sintoma cognitivo caracterizado por crenças de que se é mais seguro, eficaz, confiante e confortável as interações e relacionamentos interpessoais online do que face a face), Regulação de Humor (reflete a motivação dos indivíduos para usar a Internet a fim de melhorar seus estados de humor), Preocupação Cognitiva (padrões de pensamento obsessivo no uso da Internet), Uso Compulsivo (natureza comportamental e compulsiva no uso da Internet) e Resultados Negativos (impactos comportamentais e sociais negativos), tendo sido o instrumento de avaliação usado no presente estudo.
Os estudos que relacionam o Uso Problemático da Internet e a vinculação parental são limitados. No entanto, um estudo de Assunção et al. (2017) cujo objetivo era testar se a alienação aos pares tem um papel mediador entre a vinculação aos pais e o uso problemático do facebook, demonstra que quando os adolescentes têm relações seguras com os pais patenteiam menor alienação aos pares e, consequentemente, usam o facebook de forma menos problemática. Também, uma investigação realizada por Jenkins-Guarnieri et al. (2012) com jovens adultos constatou que a competência interpessoal mediou a relação entre a vinculação insegura e o uso do facebook, encontrando-se a vinculação insegura associada negativamente com as competências interpessoais e estas, por seu turno, apresentam uma associação positiva com o uso ativo do facebook.
Assumindo a crescente e intensa mudança na forma de interação e relacionamento social em função do uso da internet (Rial et al., 2014; Smahel et al., 2012), verifica-se a necessidade de aumentar o conhecimento do fenómeno, bem como os fatores que podem estar na génese de um Uso Problemático da Internet e consequente exposição a riscos inerentes.
De forma a contribuir para o alargamento do conhecimento nesta área, o presente trabalho debruça-se sobre o Uso Problemático da Internet a que os utilizadores estão expostos aquando do Uso Problemático da Internet, e visa estudar possíveis variáveis associadas. O corrente artigo visa analisar do efeito da vinculação parental no desenvolvimento de comportamentos de Uso Problemático da Internet por adolescentes e jovens adultos, bem como testar o papel moderador da Regulação Emocional da referida associação. Pretende-se ainda analisar as diferenças da vinculação aos pais, Regulação Emocional e o Uso Problemático da Internet, especificamente no uso problemático das redes sociais, em função de variáveis sociodemográficas sexo, número de horas de uso e tipo de amigos das redes sociais.
Método
Se trata de una investigación empírica transversal con una muestra aleatoria.
Participantes
Participaram 936 adolescentes e jovens adultos portugueses entre os 14 e os 20 anos de idade (M = 16.6, DP = 1.19), sendo 321 (34.3%) do sexo masculino e 615 (65.7%) do sexo feminino.
Relativamente à configuração familiar, 753 (80,5%) pertencem a uma família tradicional (ambas figuras parentais e filhos), 148 (15,8%) apresentam configuração monoparental, e 35 (3,7%) vivem com outros familiares. No que refere ao estado civil dos pais, 762 (81,4%) estão casados/união de facto; 132 (14,1%) divorciados; 4 (0,4%) viúvos, e 38 (4,1%) referem outro estado civil.
Em relação às redes sociais, 925 jovens (98,8%) são utilizadores ativos e 11 (1.3%) não exercem qualquer uso. Face à importância do seu uso, 38 participantes (4,1%) consideram-no imprescindível; 170 (18,2%) como muito importante; 391 (41,8%) bastante importante, e 337 (36%) pouco importante. Quanto à frequência de utilização diária, 224 (23,9%) utilizam as redes sociais mais de 3 horas por dia; 478 (51,1%) entre 1 e 3 horas, e 234 (25,0%) menos de 1 hora. A frequência de utilização foi escalonada considerando que em Portugal alguns estudos apontam para uma utilização das tecnologias numa média diária de uma hora e 30 minutos nos jovens (Faria et al., 2018).
Instrumentos
Questionário de Dados Sociodemográficos. Para recolha de dados pessoais como a idade, sexo, frequência de uso das redes sociais e tipo de amigos.
Questionário de Vinculação ao Pai e à Mãe. Instrumento de autorrelato, original de Matos e Costa (2001, versão revista), para avaliar representações dos adolescentes e jovens adultos acerca da qualidade da sua relação de vinculação com as figuras parentais, separadamente. A escala é composta por 30 itens e três dimensões: Qualidade do Laço Emocional (importância das figuras parentais enquanto figuras de vinculação), Inibição da Exploração e Individualidade (perceção de restrições à expressão e exploração da individualidade própria), e Ansiedade de Separação (relação de dependência). Segue uma escala tipo Likert-6 pontos que varia entre 1 (“Discordo totalmente”) e 6 (“Concordo totalmente”). Revela um Alpha de Cronbach de .84 para o pai e .78 para a mãe. No que se refere à consistência interna de cada dimensão, registaram-se os seguintes valores de Alpha Cronbach: QLE =.93 /.89, IEI =.77 /.78, AS =.83 /.80, para o pai e para a mãe, respetivamente. As análises fatoriais confirmatórias indicaram bons valores de ajustamento para o modelo tanto para o pai, χ2 (396) = 1619.53; p = .001; χi 2/gl = 4.09; CFI = .89; SRMR = .08; RMSEA = .06; como para a mãe: χ 2 (398) = 1357.65; p = .001, χi 2/gl = 3.41; CFI = .89; SRMR = .06; RMSEA = .05.
Escala de Dificuldades na Regulação Emocional. Original de Gratz e Roemer (2004) e adaptada para a população portuguesa por Coutinho et al. (2010). Avalia as dificuldades de Regulação Emocional clinicamente significativas nos seis níveis típicos de desRegulação Emocional. É constituída por 36 itens divididos em seis subescalas: Não-aceitação (de respostas emocionais); Objetivos, (dificuldades em agir de acordo com os objetivos); Impulsos (dificuldades no controlo de Impulsos); Estratégias (acesso limitado a estratégias de Regulação Emocional); Consciência (falta de consciência emocional) e Clareza (falta de clareza emocional). Segue uma escala tipo Likert-5 pontos (1= quase nunca se aplica a mim; 5= aplica-se quase sempre a mim) e revela um Alpha de Cronbach de .92. No que se refere à consistência interna de cada dimensão, registaram-se os seguintes valores de Alpha de Cronbach: .87 para as Estratégias, .88 para a Não-aceitação, .70 para a Consciência, .85 para os Impulsos, .82 para os Objetivos e .76 para a Clareza. As análises fatoriais confirmatórias indicaram os seguintes valores de ajustamento para o modelo, χ2 (576) = 2873,38, χi 2/gl = 4.99; p =.001, CFI = .86; SRMR = .08; RMSEA = .07.
Generalized Problematic Internet Use Scale 2. De Caplan (2010), adaptada por Pontes et al. (2016). Avalia o Uso Problemático da Internet com base na teoria cognitivo-comportamental de uso patológico da internet. Os utilizadores são classificados de baixo, médio e alto risco. É constituída por 15 itens em cinco subescalas: Preferência pela Interação Social Online, Regulação de Humor (dificuldades), Preocupação Cognitiva, Uso Compulsivo e Resultados Negativos. Os itens seguem uma escala tipo Likert-7 pontos (1= "Totalmente discordo" e 7= "Totalmente de acordo"). O instrumento revela um Alpha de Cronbach de .91, o que sustenta a sua utilização. No que se refere à consistência interna de cada dimensão, registaram-se os seguintes valores de Alpha Cronbach: .85 para a Preferência pela Interação Social Online, .81 para a Regulação de Humor, .80 para a Preocupação Cognitiva, .83 para o Uso Compulsivo e .76 para os Resultados Negativos. As análises fatoriais confirmatórias indicaram os seguintes valores de ajustamento para o modelo, χ2 (77) = 431,48; χi 2/gl = 5.61; p = .001; CFI = .95; SRMR = .04; RMSEA = .07.
Procedimento
A amostra foi recolhida em seis escolas de Ensino Secundário da Região Norte de Portugal. O protocolo foi proposto e aprovado à Comissão de Ética da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) nº 32/2027(doc 26/CE/2017), Portugal e à Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEST), processo n.º 0608400001, Portugal. A investigação seguiu o Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Europeia e o Código de Ética e Deontologia para a investigação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
Foi obtida autorização junto dos responsáveis de cada Escola e/ou Agrupamento, clarificados aspetos relativos ao objetivo e pertinência do estudo, e solicitadas autorizações para envio aos encarregados de educação. Após a aprovação, foi explicado o termo consentimento livre e esclarecido, e posteriormente foram convidados ao preenchimento protocolar. Foi assegurada a voluntariedade da participação, bem como a garantia de confidencialidade e anonimato. A aplicação do protocolo teve a duração de 30 minutos, foi realizada em contexto de aula e realizada por dois investigadores psicólogos treinados, disponíveis para esclarecer os participantes, observar e encaminhar para apoio em caso de potencial risco.
Estratégias de análise de dados
A análise de dados foi realizada no programa SPSS - Statistical Package for Social Sciences - na versão 23.0. Para efeitos de limpeza de dados, foram excluídos os missing values e os outliers. No que refere à estatística descritiva, foram testados os pressupostos de normalidade (medidas de assimetria e achatamento), sendo assumida a normalidade quando os valores absolutos se encontram entre -1 e 1. Foi analisada a informação estatística relativamente ao teste de Kolmogorov-Smirnov, os gráficos de Histogramas, Q-QPlots e Boxplot. Procederam-se as análises com testes paramétricos.
Foram realizadas correlações, médias e desvio padrão das respetivas variáveis, análises de comparação de médias e de variância multivariada. O efeito moderador da Regulação Emocional foi testado a partir da utilização do programa AMOS (versão 24.0). Os resultados foram analisados com um valor de significância de p.<.05.
Resultados
Variância da qualidade de vinculação aos pais, dificuldade da Regulação Emocional e Uso Problemático da Internet em função do sexo
Para a análise das diferenças na qualidade de vinculação aos pais, dificuldade da Regulação Emocional e Uso Problemático da Internet, em específico do uso problemático das redes sociais em função das dimensões sociodemográficas, foram realizadas várias análises de comparação de médias (teste-t para amostras independentes) e análise de variância multivariada (MANOVA).
Na análise da variância da vinculação ao pai, verificam-se diferenças estatisticamente significativas na dimensão Ansiedade de Separação, t (934)=4.17, p= <.001 em função do sexo, sendo que o sexo feminino apresenta maior perceção de Ansiedade de Separação face ao pai em comparação com o sexo masculino. A variável vinculação à mãe também varia de acordo com o sexo, nomeadamente Qualidade de laço emocional t (934) = 2.05, p=.040, e Ansiedade de Separação t (934) =4.54, p= <.001. O sexo feminino evidencia maior perceção de Qualidade de laço emocional ao pai e à mãe; e apresenta mais Ansiedade de Separação à mãe em comparação com o sexo masculino (Tabela 1).
Nas dificuldades de Regulação Emocional, verificam-se diferenças significativas em função do sexo (Estratégias t (934) = 2.04, p=.042 e Clareza t (934) = 3.95, p= <.001), em que o sexo feminino apresenta níveis superiores de dificuldades de acesso a Estratégias e Clareza emocional em comparação com o sexo masculino (Tabela 1).
Quanto ao Uso Problemático da Internet, verificaram-se diferenças significativas em função do sexo, nomeadamente na Preferência pela interação social online t (934) = -3.13, p=.002, Regulação de humor t (934) = -2.28, p=.023, Preocupação cognitiva t (934)=2.41, p=.016 e Resultados negativos t (934) = -3.20, p=.001. O sexo masculino apresenta maiores níveis de Preferência pela interação social online, Regulação de humor, Preocupação cognitiva e Resultados negativos em comparação com o sexo feminino (Tabela 1).
Tabela 1. Análise diferencial da qualidade de vinculação aos pais, dificuldade da Regulação Emocional e Uso Problemático da Internet em função do sexo.
Relativamente à análise da variância número de horas de uso das redes socias, procedeu-se à categorização em três níveis (menos de 1 hora por dia, 1 a 3 horas por dia, mais de 3 horas por dia).
No que refere à qualidade de vinculação ao pai, verificaram-se diferenças estatisticamente significativas em relação ao número de horas de uso das redes sociais F (6,1852)= 2.89, p=.008, ղ2 =.90, particularmente, na dimensão Inibição da Exploração e Individualidade F (2,927)= 6.48, p=.002, ղ2 =.91, em que jovens que usam as redes sociais por mais de 3 horas percecionam maiores níveis de Inibição da Exploração e Individualidade em comparação com os que usam as redes sociais de 1 a 3 hora por dia. No que respeita à vinculação à mãe, verificaram-se, igualmente, diferenças significativas F (6,1852)= 3.75, p=.001, ղ2 =.96, nomeadamente, nas dimensões Qualidade do Laço Emocional F (2,9272)= 4.70, p=.009, ղ2 =.79 e Inibição da Exploração e Individualidade F (2,927)= 8.78 p=<.001, ղ2 =.97. Os jovens que usam as redes sociais por mais de 3 horas por dia percecionam maiores níveis de Inibição da Exploração e Individualidade em comparação ao grupo que usa as redes sociais por menos de 1 hora por dia, e os jovens que usam as redes sociais entre 1 a 3 horas percecionam maior Qualidade de laço emocional à mãe em comparação com os indivíduos que usam mais de 3 horas (Tabela 2).
Na análise das dificuldades na Regulação Emocional em função do número de horas de uso das redes sociais, encontraram-se diferenças estatisticamente significativas F (12,1846)=3.96, p= <.001, ղ2 =.99, nomeadamente, nas dimensões Estratégias F (2,927)= 12.34, p= <.001, ղ2 =.99, Não-aceitação F (2,927)= 3.40, p=.34, ղ2 =.64, Impulsos F (2,927)= 9.55, p= <.001, ղ2 =.98, Objetivos F (2,927)= 7.09, p=.001, ղ2 =.30 e Clareza F (2,927) = 8.22, p= <.001, ղ2 =.96. Os jovens que usam as redes sociais por mais de 3 horas apresentam maiores níveis de dificuldades de Estratégias, Impulsos, Objetivos e Clareza, em comparação com o grupo de jovens que usam por menos de 1 hora. O grupo que usa as redes sociais entre 1 a 3 horas por dia tende a apresentar maiores níveis de dificuldades de Estratégias, Impulsos, Objetivos e Clareza em comparação com o grupo que usa menos de 1 hora (Tabela 2).
Quanto ao uso problemático em função do número de horas de uso das redes sociais, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas F (10,1848) =17.15, p= <.001, ƞ2=1.0, nomeadamente, na Preferência pela interação social online F (2,927) =13.81, p= <.001, ƞ2=1.0, Regulação de humor F (2,927) =11.08, p= <.001, ƞ2=.99, Preocupação cognitiva F (2,927) =55.68, p= <.001, ƞ2=1.0, Uso compulsivo F (2,927) =80.60, p= <.001, ƞ2=1.00, e Resultados negativos F (2,927) =14.06, p= <.001, ƞ2=1.0. Os jovens que utilizam as redes sociais durante mais de 3 horas e entre 1 a 3 horas por dia têm níveis mais elevados de preferência pela interação social online, regulação do humor, preocupação cognitiva, uso compulsivo e Resultados negativos, em comparação com o grupo de jovens que utiliza as redes sociais há menos de 1 hora. (Tabela 2).
Tabela 2. Análise diferencial da qualidade de vinculação aos pais, dificuldade da Regulação Emocional e Uso Problemático da Internet em função do número de horas de uso das redes sociais.
Quanto ao tipo de amigos, foram agrupados em quatro categorias (amigos próximos, conhecidos, desconhecidos e pessoas que conheci online) para as análises diferenciais.
Em relação à qualidade de vinculação ao pai encontraram-se diferenças estatisticamente significativas F (9,2775) =5.971, p= <.001, ƞ2=.99, nomeadamente, nas dimensões Qualidade do Laço Emocional F (3,925) =5.971, p= <.001, ƞ2=.96 e Inibição da Exploração e Individualidade F (3,925)=6.406, p= <.001, ƞ2=.97. Jovens com maioritariamente amigos próximos nas redes sociais apresentam maiores níveis de perceção de Qualidade do Laço Emocional ao pai em comparação com os que têm maioritariamente pessoas que conheceram online e, apresentam, ainda, maior Qualidade do Laço Emocional ao pai do que os jovens que revelam ter maioritariamente pessoas conhecidas. Os jovens que têm maioritariamente amigos que conheceram online revelam maiores níveis de Inibição da Exploração e Individualidade face ao pai em comparação com o grupo que têm maioritariamente amigos próximos e com os jovens que têm maioritariamente pessoas conhecidas. Os resultados são idênticos no que refere à Qualidade de vinculação à mãe, onde se encontraram igualmente diferenças estatisticamente significativas F (9,2775) =3.836, p= <.001, ƞ2=.99, nomeadamente, na dimensão Qualidade do Laço Emocional F (3,925)=5.014, p=.002, ƞ2=.92 e Inibição da Exploração e Individualidade F (3,925) =9.478, p= <.001, ƞ2=1.0. Os jovens que têm maioritariamente amigos próximos nas suas redes sociais apresentam maiores níveis de perceção de Qualidade do Laço Emocional à mãe em comparação com os que têm maioritariamente pessoas que conheceram online, e tendem a apresentar maior Qualidade do Laço Emocional à mãe do que os jovens que revelam ter maioritariamente pessoas conhecidas. Aqueles que têm maioritariamente pessoas que conheceram online apresentam maiores níveis de Inibição da Exploração e Individualidade face à mãe em comparação com o grupo que têm maioritariamente amigos próximos e do que os que têm maioritariamente pessoas conhecidas.
Quanto à dificuldade na Regulação Emocional em função do tipo de amigos, verificam-se diferenças estatisticamente significativas F(18,2766) = 2.921, p=<.001, ղ2 =.99, particularmente nas dimensões Estratégias F(3,925) = 3.07, p=.027, ղ2 =.72, Não-aceitação F(3,925) = 3.22, p=.022, ղ2 =.74, Impulsos F(3,925) = 8.06, p= <.001, ղ2 =.991, Objetivos F(3,925) = 2.78, p=.040, ղ2 =.673 e Clareza F(3,925) = 5.01; p=.002, ղ2 =.916. Os jovens com maioritariamente pessoas que conheceram online apresentam maiores níveis de dificuldades de Estratégias, Impulsos, Objetivos e Clareza em comparação com o grupo de jovens que têm maioritariamente amigos próximos, e tendem a relatar maiores dificuldades do que os jovens que revelam maioritariamente amigos conhecidos (Tabela 3).
Em relação ao uso problemático das redes sociais em função do tipo de amigos, verificaram-se diferenças significativas F (15,2769)= 4.735, p=<.001, ղ2=1.0, nomeadamente, na Preferência pela interação social online F (3,925)= 15.547, p=<.001, ղ2=1.0, Regulação de humor F (3,925)=9.639, p=<.001, ղ2 =1.0, Preocupação cognitiva F (3,925)= 11.056, p=<.001, ղ2 =1.0, Uso compulsivo F (3,925)= 10.737, p=<.001 ղ2=1.0 e Resultados negativos F (3,925) = 11.443, p=<.001, ղ2 =1.0. Os jovens que têm maioritariamente pessoas que conheceram online apresentam maiores níveis de Preferência pela interação social online, Regulação de humor, Preocupação cognitiva, Uso compulsivo e Resultados negativos em comparação com o grupo que têm maioritariamente amigos próximos. Tendem ainda, a apresentar maiores níveis de Uso problemático em comparação com os jovens que têm maioritariamente pessoas conhecidas (Tabela 3).
Efeito moderador da Regulação Emocional na associação entre a vinculação aos pais e o Uso Problemático da Internet em adolescentes e jovens adultos
Foram realizadas análises de regressão múltipla hierárquica com o intuito de clarificar o papel preditor da vinculação aos pais no Uso Problemático da Internet. Para tal, foram introduzidos quatro blocos controlando o sexo, idade, vinculação ao pai e vinculação à mãe. É importante referir igualmente, que foram testadas todas as dimensões referentes à Regulação Emocional, mas apenas a dimensão Uso compulsivo se mostrou significativa.
Analisando o contributo individual das variáveis independentes dos blocos, constata-se que a variável Inibição da Exploração e Individualidade à Mãe (β =.217) revela um contributo significativo, seguido da Idade (β = -.063), enquanto variáveis preditoras do uso compulsivo no que concerne ao Uso Problemático da Internet (Tabela 4).
Tabela 4. Regressão múltipla hierárquica para o uso compulsivo.

Nota: B, SE e β para um nível de significância de p <.05.
Bloco 1- Sexo; Bloco 2- Idade; Bloco 3- Dimensões da Qualidade de Vinculação ao Pai (QVPM); Bloco 4- Dimensões da Qualidade de Vinculação à Mãe (QVPM).
Procedeu-se à análise do papel moderador da Regulação Emocional na associação entre a vinculação aos pais e o Uso Problemático da Internet. Os resultados apontam que a dimensão da dificuldade da Regulação Emocional Impulsos exerce um efeito moderador na associação entre a dimensão da Vinculação ao pai nomeadamente na Inibição de Exploração e Individualidade e no Uso Problemático da Internet (β =.270; Z = 7.462; p = <.001) (Figura 1).

Figura 1. Efeito moderador da dimensão da Regulação Emocional impulso na associação entre a dimensão da vinculação ao pai Inibição de Exploração e Individualidade e o Uso Problemático da Internet.
A partir da análise da interação entre as variáveis verifica-se que, na presença de elevados níveis de Inibição de Exploração e Individualidade ao pai e ao mesmo tempo se percebem baixos níveis de Impulso, o Uso Problemático da Internet por adolescentes e jovens adultos tende a diminuir (Figura 2).

Figura 2. Efeito moderador da dimensão da Regulação Emocional - Impulsos na associação entre a dimensão da vinculação ao pai Inibição de Exploração e Individualidade e o Uso Problemático da Internet.
Relativamente à vinculação à mãe, os resultados revelam que a dimensão da dificuldade de Regulação Emocional Impulsos exerce um efeito moderador na associação entre a dimensão da Vinculação na Inibição de Exploração e Individualidade e o Uso Problemático da Internet (β =.251; Z= 7.005; p = <.001) (Figura 3).

Figura 3. Efeito moderador da dimensão da Regulação Emocional -Impulsos na associação entre a dimensão da vinculação à mãe Inibição de Exploração e Individualidade e o Uso Problemático da Internet.
Na presença de elevados níveis de Inibição de Exploração e Individualidade à mãe e baixos níveis de Impulso, o Uso Problemático da Internet por adolescentes e jovens adultos tende a diminuir. Realça-se o papel protetor do Controlo dos Impulsos na relação entre a Vinculação aos pais e o Uso Problemático da Internet por adolescentes e jovens adultos (Figura 4).

Figura 4. Efeito moderador da dimensão da Regulação Emocional- Impulsos na associação entre a dimensão da vinculação à mãe Inibição de Exploração e Individualidade e o Uso Problemático da Internet.
Nesta medida, verifica-se que os Impulsos, enquanto dimensão da dificuldade de Regulação Emocional, exerce um efeito moderador na associação entre a Inibição de Exploração e Individualidade ao pai e à mãe e o Uso Problemático da Internet por adolescentes e jovens adultos.
Discussão
O objetivo deste estudo visou a análise do papel da qualidade de vinculação aos pais, da dificuldade de Regulação Emocional e comportamentos de Uso Problemático da Internet em adolescentes e jovens adultos.
A análise comparativa da vinculação aos pais em função do sexo demonstrou que os participantes do sexo feminino apresentam maiores índices de Qualidade de Laço Emocional face à mãe e de Ansiedade de Separação a ambas as figuras parentais. Os dados obtidos sugerem a maior proximidade por parte das raparigas na relação com as figuras parentais, especialmente, com a mãe, bem como uma maior necessidade de proximidade física e emocional. De acordo com a literatura, apesar da configuração familiar tradicional ter sofrido grandes alterações determinando a redefinição dos papéis parentais, existe a tendência de se eleger uma figura principal na procura de segurança e conforto, na qual a mãe tende a assumir primazia (e.g. Monteiro et al., 2008). E a figura materna continua a representar, em geral, a fonte de vinculação primordial, com tendência à manutenção e continuidade da relação (Silva Mendes & da Luz Vale Dias, 2018). Estes resultados confirmam estudos empíricos anteriores que sugerem que as raparigas são, tendencialmente, mais dependentes e emocionalmente mais próximas dos pais do que os rapazes (e.g. Del Giudice, 2019; Moura & Matos, 2008) e, ainda patenteiam maior Ansiedade de Separação face à mãe comparativamente com o sexo oposto (Del Giudice, 2019; Matos & Costa, 2006).
Quanto às dificuldades na Regulação Emocional, os participantes do sexo feminino apresentam níveis de dificuldades de acesso a Estratégias e Clareza Emocional mais elevados. Na presente amostra, os resultados obtidos poderão justificar-se pela existência de alguma suscetibilidade, por parte do sexo feminino, no envolvimento emocional que se prende com o próprio funcionamento interno, caracterizado por uma maior procura de proximidade nas relações amorosas (e.g.Correia & Mota, 2016), manifestando, desta forma, uma maior dependência, e por isso poderão ter menor acesso a Estratégias e Clareza Emocional. Estes dados parecem contrariar os estudos anteriores (e.g. Machado & Pardal, 2013) que assumem o sexo feminino como o que mais tende a recorrer a estratégias adaptativas de Regulação Emocional. McRae et al. (2008 cit. in Gardener et al., 2013) vão ao encontro dos resultados observados no presente estudo, apontando que o sexo masculino apresenta uma maior capacidade em regular as respostas emocionais negativas.
Os resultados evidenciam diferenças no Uso Problemático da Internet no qual os participantes do sexo masculino revelam maiores níveis de preferência pela interação social online, Regulação de Humor, Preocupação Cognitiva, Uso Compulsivo e Resultados Negativos. Estes apresentam maiores níveis de Uso Problemático da Internet, o que poderá prender-se ao facto de o sexo feminino manifestar tendências mais emotivas, procurando suporte nas relações interpessoais (Mazman & Usluel, 2011). Contrariamente, o sexo masculino tende a usar a internet e especificamente as redes sociais para fazer novos amigos e criar relacionamentos com pessoas com interesses semelhantes, numa dimensão maior do que a das mulheres (Mazman & Usluel, 2011). Os resultados vão ao encontro dos apresentados pelos autores Wegmann et al. (2017) que referem que o sexo masculino tende a transportar as expectativas do contexto real para o mundo virtual, e ainda, a uma maior tendência para um comportamento online interpretado como uma tarefa e orientados para a informação.
No que concerne à análise da vinculação aos pais em função do número de horas de uso das redes socias, os jovens que usam as redes sociais por mais de 3 horas/dia percecionam maiores níveis de Inibição da Exploração e Individualidade a ambas as figuras parentais. Tais dados parecerem indicar que os jovens que usam com maior frequência a internet e, particularmente as redes sociais, evidenciam maiores restrições à expressão da individualidade própria por parte dos pais. Estes resultados podem ser explicados pelo facto de que quando as relações com as figuras parentais são pautadas pela Inibição da Exploração e Individualidade parecem promover uma maior insegurança e desvalorização pessoal, traduzindo a carência de interação dos jovens e levando a uma maior vulnerabilidade para experienciar dificuldades no contacto social. Os resultados analisados são corroborados pela literatura, e confirmam a associação entre uma vinculação insegura e a frequência do uso da rede social (tempo utilização) (e.g. Oldmeadow et al., 2013; Richards, et al., 2010).
Do mesmo modo, foram encontradas diferenças significativas no número de horas que os participantes usam da internet, especificamente no uso das redes sociais, face às dificuldades na Regulação Emocional. Os jovens que usam diariamente as redes sociais por mais de 3 horas apresentam maiores níveis de Acesso Limitado a Estratégias, Impulsos, Delineamento de Objetivos e Falta de Clareza. Tais resultados parecem demonstrar que os jovens que usam com maior frequência as redes sociais tendem a apresentar maiores dificuldades em gerir as suas emoções. Tal como tem sido descrito, a vivência dos jovens menos pautada pela proximidade das relações emocionais com as figuras significativas de afeto, pode advir de sentimentos de insegurança e uma imagem de si menos positiva (Bowlby, 1988), o que pode ser o reflexo de imaturidade emocional e uma maior procura de refúgio na vivência ilusória ou irreal que a internet pode ocasionar. Os resultados averiguados vão ao encontro do esperado, sendo que elevados índices de Desregulação Emocional estão associados a uma maior frequência de uso da internet e especificamente das redes sociais, e paralelamente, a padrões de uso mal adaptativos (Hormes et al., 2014; Karaiskos et al., 2010).
Face às análises do Uso Problemático da Internet, em função do número de horas de uso das redes socias, os jovens que usam diariamente as redes sociais por mais de 3 horas apresentam maiores níveis de Preferência pela Interação Social Online, Regulação de humor (com dificuldades na sua gestão), Preocupação Cognitiva, Uso Compulsivo e Resultados Negativos. Assim, jovens que passam um maior número de horas nas redes sociais parecem ser mais vulneráveis aos comportamentos de padrão negativo, uma vez que estão expostos durante mais tempo a uma variedade de riscos potenciais, como poderão ser por exemplo a exposição a conteúdo sexual desviante, contato com pedófilos, roubo de identidade, à exploração e manipulação comercial, invasão de privacidade e contato indesejado. Tendem a apresentar maiores dificuldades na gestão do humor e um pensamento tendencialmente mais parcial, ruminante e compulsivo, que os conduz a um progressivo insucesso. A vivência de uma vinculação insegura na relação com as figuras parentais tende a criar modelos internos negativos de si e uma visão dos outros como ameaçadora, pelo que as crianças e jovens apresentam geralmente maior vulnerabilidade, com a menor autoestima e ausência de crítica face ao seu valor e desejos, o que se reflete nas relações interpessoais e na maior suscetibilidade face ao risco (e.g. Oldmeadow et al., 2013; Richards, et al., 2010). Os resultados verificados vão ao encontro da literatura que expõe que o uso em excesso da internet está associado a níveis de risco mais elevados, podendo levar os utilizadores a desenvolverem maior vulnerabilidade e exposição face a diversos problemas psicossociais, como por exemplo a má gestão do tempo, baixo rendimento académico, isolamento social e comportamento desviante (e.g.Akin, 2012; Khoshakhlagh & Faramarzi, 2012; Moromizato, et.al., 2017; Wang et.al., 2011).
Verificou-se que os jovens com maioritariamente amigos próximos nas suas redes sociais apresentam maiores níveis de perceção de Qualidade do Laço Emocional a ambas as figuras parentais. Os que têm maioritariamente amigos que conheceram online apresentam maiores níveis de Inibição da Exploração e Individualidade a ambas as figuras parentais. Jovens com vinculação segura tendem a manter as relações previamente existentes no contexto offline, contrariamente aos jovens com maiores restrições de expressão emocional. No mesmo seguimento, Zimmermann (2004) refere que jovens adolescentes com uma representação de vinculação segura com os pais tendem a experienciar primordialmente relações de amizade mais próximas com os seus pares, em comparação com jovens cuja vinculação é insegura. Tal pode ser explicado pelo facto do adolescente transferir para as relações com os pares as características da relação de vinculação às figuras parentais (Bowlby, 1973).
No que tange às dificuldades de Regulação Emocional, os indivíduos que têm maioritariamente amigos que conheceram online apresentam maiores níveis de dificuldades de Estratégias, Impulsos, Objetivos e Clareza. Assim, para estes jovens a comunicação online parece facilitar a interação com os outros, na medida em que comparativamente com a interação pessoal permite aos utilizadores uma maior regulação das suas emoções e comportamentos (Hormes et al., 2014; Xie et al., 2015). Por outro lado, a interação online possibilita experiências que, muitas vezes, na vida real são consideradas como frustrantes para o adolescente, inclusive a aceitabilidade pelo grupo, o conhecimento de interesses no grupo, o número de amigos, o acesso rápido a interações como jogos, podendo potenciar um maior sentido de pertença e aceitação dos adolescentes. Estes resultados são corroborados com a literatura que refere que jovens com uso problemático e com maiores níveis de dificuldades na Regulação Emocional apresentam, tendencialmente menor qualidade nas relações interpessoais (Hormes et al., 2014; Kim & Davis, 2009; Xie et al., 2015), pelo que o uso online é mais acessível e imediato para fazer face às suas dificuldades.
Foi possível observar que os jovens com maioritariamente pessoas que conheceram online, apresentam maiores níveis de Preferência pela Interação Social Online, Regulação de Humor, Preocupação Cognitiva, Uso Compulsivo e Resultados Negativos. Os dados obtidos foram expectáveis, uma vez que ao comunicarem com pessoas desconhecidas, os jovens estão predispostos a comportamentos mais desadaptativos e problemáticos, em comparação com os jovens que comunicam com pessoas da sua esfera pessoal. Estes resultados vão ao encontro da literatura que indica que os jovens ao comunicarem com pessoas desconhecidas, estão predispostos a desenvolverem níveis mais elevados de uso problemático (Livingstone et al., 2011), o que torna evidente a importância da educação e consciencialização dos jovens e pais para o uso problemático inerentes ao Uso Problemático da Internet e especificamente das redes sociais, como forma de prevenção.
Cabe também ressaltar que, tal como esperado, a Inibição da Exploração e Individualidade à Mãe prediz negativamente o uso compulsivo das redes sociais. Nesta medida, os resultados alcançados enfatizam novamente o papel direto da figura materna no desenvolvimento psicoafetivo do adolescente (Nunes & Mota, 2017) e na predição do autocontrolo dos adolescentes na utilização das redes sociais (e.g.Hormes et al., 2014; Xie et al., 2015). Alguns autores vão ao encontro destes resultados no que concerne à associação entre a qualidade da vinculação e o Uso Problemático da Internet (e.g.Assunção, 2016; Kalaitzaki & Birtchnell, 2014) assumindo que um controlo excessivo por parte dos pais leva à falta de espaço para os jovens treinarem as competências e de se autonomizarem e, deste modo, poderá estimular o recurso mais problemático por parte dos jovens às redes sociais.
Por fim, por meio da análise do efeito moderador da Regulação Emocional na associação entre a vinculação aos pais e o uso das redes sociais, foi possível concluir que quando existem níveis elevados de Inibição de Exploração e Individualidade aos pais, mas ao mesmo tempo se percebem baixos níveis de Impulsos o Uso Problemático da Internet por adolescentes e jovens adultos é menor. De acordo com a literatura, os jovens expostos a uma vinculação insegura (e.g.Assunção, 2016) e com dificuldades na Regulação Emocional (Hormes et al., 2014; Xie et al., 2015) tendem a apresentar um défice no autocontrolo do uso das redes sociais em comparação com os jovens com elevada Qualidade de Laço Emocional face as figuras parentais e com capacidades de Regulação Emocional. Neste sentido, um maior controlo parental e restrições à expressão da individualidade própria por parte das figuras parentais na presença de baixo controlo de Impulsos do jovem parecer constituir-se como impulsionadores para o desenvolvimento de comportamentos que provoquem maior adrenalina e excitação e, consequentemente leva os jovens à exposição de maiores riscos.
Implicações práticas, limitações e pistas futuras
Na prática, o presente estudo pretende contribuir para a identificação de variáveis que interferem no desenvolvimento adaptativo dos jovens face ao uso da internet, e promover uma melhor orientação terapêutica. Realça-se a necessidade de desenvolver programas de prevenção e intervenção nas escolas destinados à formação dos pais, no que concerne à promoção de saúde mental, à dinâmica da utilização da internet, e aos riscos associados desta utilização, bem como consciencializar para o exercício de práticas parentais positivas e a importância da fomentação de uma vinculação segura. Quanto aos jovens, seria relevante uma intervenção de prevenção e promoção de educação emocional precoce, a iniciar na 1ª infância, como forma de gerir a dinâmica relacional e emocional dos jovens. Esta deve ter como propósito o desenvolvimento de estratégias de Regulação Emocional, de competências sociais, de regulação de relação com os pares, nomeadamente a nível da confiança e partilha nas relações, e ainda a prevenção dos comportamentos de Uso Problemático da Internet, nomeadamente na gestão da Regulação Emocional e valorização de si, evitando a exposição e interferência pessoal indesejada.
Foram identificadas diferentes limitações. O desenho transversal não permite o estabelecimento de relações causais entre as variáveis, sendo útil em investigações futuras um estudo longitudinal e que considere também informações qualitativas. Outra limitação relaciona-se com a recolha de dados, sendo que esta foi corporizada por questionários de autorrelato e, por isso foi passível a perceção subjetiva do conteúdo e aleatoriedade de respostas por parte dos respondentes, o que poderá justificar a exclusão de outliers. A investigação baseou-se na informação fornecida pelos adolescentes, em investigações futuras será pertinente beneficiar da inclusão de uma análise multi-informante, assim como a introdução de outras variáveis de estudo, que possam ser preditoras no Uso Problemático da Internet, tais como fatores da personalidade e resiliência, bem como da configuração familiar, estrato socioeconómico e rendimento académico.















