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Praxis & Saber

Print version ISSN 2216-0159

Prax. Saber vol.16 no.45 Tunja Apr./June 2025  Epub Jan 15, 2026

https://doi.org/10.19053/uptc.22160159.v16.n45.2025.18216 

Artigo de reflexão

"O todo é nada e o nada é tudo" Autismo e subjetividade na vida e obra de Donna Williams

"El todo es nada y la nada es todo" Autismo y subjetividad en la vida y obra de Donna Williams

"The all is nothing and nothing is everything" Autism and subjectivity in the life and work of Donna Williams

* Universidade de Brasília. Brasília, Brasil. Campus Universitário Darcy Ribeiro, S/S, Asa Norte, DF, Brasil. seorru@unb.br


RESUMO

O propósito deste artigo é destacar a complexa subjetividade contemporânea do autismo presente em nosso corpo social e que necessita ser compreendida e acolhida tanto pelas Ciências como pelos mais diversos e distintos espaços socias, principalmente no que diz respeito ao contexto escolar, universitário e laboral. O objetivo principal é apresentar a obra de Donna Williams, mulher com diagnóstico de autismo, cujo hiperfoco se encontra na arte e na literatura. Tem como caminho metodológico a análise e a discussão do tema na perspectiva da Teoria Crítica Feminista apoiada no paradigma da interseccionalidade. Para tanto, foram selecionados poemas publicados no livro "Meu mundo misterioso" que materializam os modos singulares da autora expressar seus sentimentos, emoções e percepções sobre si mesma, sobre as outras pessoas, a vida e o universo na condição de mulher com autismo, o que se caracteriza dupla condição interseccional. As conclusões revelam que sua autobiografia é um tesouro de conhecimento sobre o ser mulher atravessada pelo autismo ao mesmo tempo que é uma potência poética carregada de intensidades entranhadas em sua mente, alma, corpo e espírito.

Palavras-chave: mulheres com Autismo; Autismo; gênero; intersec-cionalidade; patriarcado; machismo na ciência

RESUMEN

El propósito de este artículo es resaltar la compleja subjetividad contemporánea del autismo presente en nuestro cuerpo social y que necesita ser comprendida y acogida tanto por las Ciencias como por los más diversos y distintos espacios sociales, principalmente en lo que respecta a la escuela, la universidad y el trabajo. El objetivo principal es presentar el trabajo de Donna Williams, una mujer diagnosticada con autismo, cuyo hiperenfoque está en el arte y la literatura. Su camino metodológico es el análisis y discusión del tema desde la perspectiva de la Teoría Crítica Feminista sustentada en el paradigma de la interseccionalidad. Para ello se seleccionaron poemas publicados en el libro "Mi mundo misterioso", que materializan las formas únicas que tiene la autora de expresar sus sentimientos, emociones y percepciones sobre sí misma, las demás personas, la vida y el universo como mujer con autismo, lo cual es caracterizado por una doble condición interseccional. Las conclusiones revelan que su autobiografía es un tesoro de conocimientos sobre ser una mujer atravesada por el autismo al mismo tiempo que es una potencia poética llena de intensidades arraigadas en su mente, alma, cuerpo y espíritu.

Palabras clave: mujeres con Autismo; Autismo; género; interseccionalidad; patriarcado; sexismo en la ciencia

ABSTRACT

The purpose of this article is to highlight the complex contemporary subjectivity of autism present in our society and that needs to be understood and welcomed by both the Sciences and the most diverse and distinct social spaces, especially with regard to the school, university and work context. The main objective is to present the work of Donna Williams, a woman diagnosed with autism, whose hyperfocus is on art and literature. Its methodological path is the analysis and discussion of the theme from the perspective of Feminist Critical Theory supported by the intersectionality paradigm. To this end, poems published in the book "My Mysterious World" were selected that materialize the author's unique ways of expressing her feelings, emotions and perceptions about herself, other people, life and the universe as a woman with autism, which is characterized by a double intersectional condition. The conclusions reveal that her autobiography is a treasure trove of knowledge about being a woman crossed by autism, while at the same time it is a poetic power charged with intensities ingrained in her mind, soul, body and spirit.

Keywords: women with Autism; Autism; gender; intersectionality; patriarchy; sexism in science

Introdução

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta o desenvolvimento e traz prejuízos na organização de pensamentos, sentimentos e emoções. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua quinta edição (DSM-5), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, ), estão presentes na vida da pessoa com autismo (PcA), dificuldades no âmbito da linguagem, no uso da imaginação, na interação social, além da existência de comportamentos restritos e repetitivos. O apego à rotina, o ávido interesse em temas e atividades específicas, a presença de rigidez cognitiva, a literalidade e as sensibilidades sensoriais são características que podem tornar a vida da PcA muito desafiadora.

Os primeiros estudos sobre o autismo apontavam sua manifestação em quadro, majoritariamente, masculino, onde a cada 4 meninos com diagnóstico de autismo, 1 era menina (Kanner, 1943). As noções masculinas de uma sociedade altamente patriarcal também influenciaram a Ciência em sua percepção sobre o autismo no sexo feminino, suscitando uma violenta negligência acerca das singularidades inerentes às mulheres com autismo em pesquisas e espaços da clínica. Estudos recentes evidenciam que a real prevalência do autismo é de 4 casos para o sexo masculino e 3 para o feminino, ou seja, o autismo não é raro em meninas e mulheres (Mccrossin, 2022).

Atualmente o TEA tem sido compreendido em três níveis de suporte, sendo que o nível 1 se apresenta como a forma mais leve do autismo, o nível 2 como moderado e o nível 3 é a sua manifestação mais grave. Os níveis 2 e 3 de suporte apresentam déficits mais acentuados na comunicação bem como maiores chances de terem outras condições clínicas associadas (APA, ; ).

A divisão de níveis de comprometimento/suporte tem causado confusões e muitos conflitos na sociedade de modo geral, o que tem levado a comunidade pró-autismo a tecer duras críticas ao DSM-V em razão de discursos capacitistas que prejulgam e invalidam as dificuldades, os desafios como as habilidades e os potenciais das PcA, independentemente do nível de suporte em que se encontram. Declarações constrangedoras e insipientes têm associado o autismo em sua manifestação mais severa a ausência de sentimentos, inteligência e total incapacidade. Em outro extremo, erroneamente supõem que a PcA em sua manifestação mais leve não tem dificuldades ou não necessita de nenhuma forma de apoio. Ocorre que o TEA traz prejuízos na qualidade de vida de toda PcA, em seus 3 níveis de suporte.

Na luta por se ajustarem às normas sociais que foram padronizadas sem nenhum respeito às diferenças e subjetividades humanas, as PcA nível 1 de suporte, principalmente as meninas e mulheres, desenvolvem uma capacidade de mascarar seus sentimentos e suas dificuldades desde a infância, como estratégia de sobreviver as crueldades (des)humanas. Embora a PcA nível 1 seja autônoma em diversas atividades, o impacto do autismo e, principalmente, seu mascaramento, atravessam duramente suas vidas de modo que necessitam de acesso à terapias e acompanhamento médico para tratar e prevenir o desencadeamento de depressões, bem como outros problemas de saúde mental e física pelo esgotamento vivido.

O propósito deste artigo é destacar a complexa subjetividade contemporânea do autismo presente em nosso corpo social e que necessita ser compreendida e acolhida tanto pelas Ciências como pelos mais diversos e distintos espaços socias, principalmente no que diz respeito ao contexto escolar, universitário e laboral. Neste intuito, apresentar a obra literária de Donna Williams, uma mulher com diagnóstico de autismo cujo hiperfoco e eixo de interesse se encontram na arte e na literatura. Analisar e discutir na perspectiva das contribuições da Teoria Crítica Feminista no paradigma da interseccionalidade, poemas publicados no livro Nobody Nowhere (Williams, ), traduzido para o português com o título "Meu mundo misterioso" (Williams, ) e que materializam os modos singulares da autora expressar seus sentimentos, emoções e percepções sobre si mesma, sobre as outras pessoas, a vida e o universo na condição de mulher com autismo. Neste prisma teórico-crítico, recorremos ao conceito de interseccionalidade elaborado pela advogada e professora universitária estadunidense, Kimberlé Crenshaw:

A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação de dois ou mais eixos de subordinação. Ela aborda a maneira pela qual o racismo, patriarcado, opressão de classe ou outros sistemas de opressão criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas das mulheres, raças, classes, etnias e outros (Crenshaw, 2002, p. 177).

O paradigma da interseccionalidade é contributivo na medida que possibilita uma compreensão e análise amalgamada do feminino com a condição do autismo, oprimidos pela sistemática patriarcal de, inclusive, fazer ciência. A presença enraizada do determinismo biológico em inúmeros estudos e pesquisas no campo da genética e da neurociência insistem em explicar e descrever as diferenças entre homens e mulheres. Tais descrições e explicações tomaram corpo por meio do poder médico (Foucault, 1999) de modo que as fixações do biologicismo desenharam as representações sociais dos homens e das mulheres na sociedade. Essas representações sempre retornam ao pretexto da base genética proposta como determinante para revelar os obscuros nexos de gênero relacionados ao desenvolvimento cognitivo e comportamental, frequentemente desconsiderando os acontecimentos e processos históricos ocorridos na sociedade e perpetuados pela cultura patriarcal conforme os interesses da roda dominante.

A ignorância machista no des-fazer Ciência

Notavelmente a Ciência sofreu influência dos preceitos patriarcais já que, majoritariamente, eram os homens (anatomistas) que falavam sobre tudo, nomeavam, decidiam e registravam acerca de tudo, inclusive sobre: o que é ser mulher, como funcionam seus corpos e mentes, suas (in)capacidades cognitivas, físicas e psicológicas, como devem ser tratadas para o controle de seus comportamentos, sobre seu sexo e seu (des)prazer. Para a historiadora feminista francesa, Michelle Perrot, é de grande importância as mulheres se retirarem do silêncio em que foram colocadas e falarem por si mesmas ocupando os mais diversos espaços sociais para abordar a história a partir do ponto de vista feminino:

Na medida em que a questão da mulher e da relação entre os sexos - que é mais importante ainda - foi colocada pelas mulheres o fazer histórico acontece. Os homens tomam a palavra homem no sentido universal. Os homens não são todo mundo. Pelas interrogações, pelo assunto, há uma interrogação e um ponto de vista feminino de abordar a história (Entrevista com Michelle Perrot por Schvarzman, 1995, p. 33).

Entre tantos autores que influenciaram robustamente a concepção do autismo de maneira minimizadora às mulheres está o renomado psicólogo britânico, Simon Baron-Cohen. O autor de diversos artigos foi um dos responsáveis pela postulação da dicotomia entre o cérebro feminino empático e o cérebro masculino sistematizador, alinhando os cérebros das pessoas com autismo à variações extremas do cérebro masculino de característica sistematizadora. Para ele o Autismo e a Síndrome de Asperger seriam formas extremas dos tipos cerebrais masculinos (Baron-Cohen & Hammer, ; Baron-Cohen, ). Em 2002 afirmou que o cérebro masculino é definido psicometricamente nos quais a sistematização é significativamente melhor do que a empatia e que o cérebro feminino é definido como o perfil cognitivo oposto, mais inclinado à empatia. Suas conclusões apontaram para uma "teoria do cérebro masculino extremo do autismo" (Baron-Cohen, ). Todavia, em uma perspectiva de análise crítica sob o ponto de vista feminista, é possível dizer que:

Em seus artigos o autor Baron-Cohen negligencia os aspectos culturais centrados no homem, aos quais todos os meninos e meninas são inseridos e submetidos durante toda a vida, e atribui as diferenças à questão biológica, atrelando os casos de diagnóstico de autismo e Síndrome de Asperger (hoje, abarcado pelo TEA nível 1) à formas extremas de cérebros masculinos. Na realidade, o "cérebro de autistas" é apenas uma versão anormal a da maioria dos indivíduos considerados "normais" pela ciência médica. E mais, o "cérebro de autistas", conforme seus escritos, é uma expressão generalizadora que se vincula a sua "teoria do cérebro masculino extremo do autismo", ou seja, o feminino (as mulheres com autismo) é engolido e digerido pelo masculino extremo do autor. Mas o que dizer sobre as inúmeras mulheres com autismo com a qualidade da empatia e da análise sistematizadora? O que discutir sobre os homens com autismo com esses mesmos atributos? Por que o isto ou aquilo é tão eletrizante para ser dicotomizado entre tantos acadêmicos das mais diversas áreas e sobre questões humanas que se mostram altamente complexas? (Orrú, 2024, p. 99-100).

O feminino e a sexualidade feminina foram cativados na humilhação, no constrangimento, na inferioridade, na vergonha, no obscurantismo, na ignorância, na rudeza do machismo, na covardia e insciência do patriarcado desde os primórdios da (des)humanidade, tanto pela filosofia, pela religião, quanto pela política e pela Ciência masculina (Chassot, 2019). No tocante ao autismo em meninas e mulheres, não é diferente, primeiro porque até pouquíssimo tempo a Ciência sequer reconhecia o sexo feminino em toda sua complexidade, singularidade e potência, logo, as pesquisas em torno do masculino eram generalizadas para o feminino inferiorizado e subalternizado. Segundo, porque os estudos e pesquisas sobre o autismo ainda estão engatinhando em conhecimento que possa ser considerado substancial e confiável.

São inesgotáveis as análises e discussões consoantes às marginalizações veladas e explícitas sofridas pelo feminino. O determinismo biológico e a (des)representação social das Mulheres com Autismo (McA) necessitam ser amplamente debatidos e desconstruídos de seus preceitos, preconceitos, discriminações e pré-destinações.

Donna Williams e seu mundo misterioso

Donna Leanne Williams nasceu em Melbourne, Austrália, em 12 de outubro de 1963. Ficou conhecida internacionalmente por ser uma das pioneiras no ativismo pelos direitos das PcA. Com seu eixo de interesse potencialmente focado em artes, ela se tornou uma prestigiada escritora e artista tendo composto músicas, pinturas, esculturas e vasta literatura, além de também ter desenvolvido pesquisas acadêmicas sobre o autismo. Donna foi diagnosticada na década de 60 como psicótica (época em que o autismo era compreendido como psicose infantil) aos 2 anos de idade, no entanto, sua família nunca lhe explicou nada a respeito. Profundamente perturbada em seu caos interior, ela foi vítima de relações abusivas, violências e traumas ocorridos em sua própria família e sociedade. À procura de um caminho de encontro consigo mesma, buscou ajuda profissional e após um período de muitas dificuldades para lidar com a complexidade de seus sentimentos e com os desafios cotidianos, decidiu fazer uma última tentativa para ter certeza de que havia dado o máximo de si mesma e passou a escrever um manuscrito sobre tudo o que sentia desde sua infância (Williams, ).

Donna descreveu todos os seus sentimentos, sua sensação de ter nascido louca e falta de pertencimento a tudo que se encontrava fora de seu mundo particular. Após o término de sua escrita, sua primeira intenção era queimar o manuscrito e se jogar na frente de um trem em movimento. Angustiada, decidiu entregar o material ao psiquiatra e saiu do país. Surpreso com a riqueza dos escritos de Donna, seu médico decidiu encaminhar o manuscrito a alguns agentes literários que pleitearam os direitos autorais para a publicação na forma de livro. Há 16 mil quilômetros de distância de sua casa, Donna foi localizada por uma editora que insistiu muito para que ela autorizasse a publicação do livro. Relutante por não ver sentido em tornar pública sua vida particular, cedeu à petição editorial. Em poucos meses, sua autobiografia se tornou um grande best seller (Williams, 2019).

Seu primeiro livro, "Ninguém em nenhum lugar" (Nobody Nowhere), publicado em 1992, tornou-se um grande best-seller internacional, com 15 semanas na lista dos livros mais vendidos de não-ficção do The New York Times em 1993 (Williams, 2019). Além de receber prêmios de literatura, sua autobiografia possibilitou que PcA e seus familiares tivessem acesso a importantes informações sobre a condição do autismo em uma época que havia poucas publicações sobre o tema, ainda mais se considerando ser uma autobiografia escrita por uma mulher no autismo.

Nobody Nowhere (Williams, 1992), foi traduzido para diversos idiomas. No Brasil o livro tem como título "Meu mundo misterioso" (Williams, ), tradução realizada pela professora aposentada da Secretaria de Educação do Distrito Federal, Terezinha de Jesus Braga Santos, que dedicou seus anos de trabalho à educação especial.

Convencida que seus escritos beneficiavam um sem-número de pessoas que se encontravam perdidas no universo do autismo, Donna seguiu compondo outras obras literárias. Amor, sexualidade, espiritualidade, aventura, migração, tristeza, perda de pessoas queridas e desconexão social são temas abraçados pela autora, sempre aproximando o leitor de um melhor entendimento sobre o impacto do autismo nos modos de ser, estar, perceber e se colocar no mundo. Humor e franqueza são as principais características de Donna impressas em suas obras. Suas esculturas, músicas e pinturas que estão disponíveis na internet, são modos singulares de expressar seus sentimentos, emoções e percepções sobre si mesma, as outras pessoas, a vida e o universo (Williams, 2019).

Por décadas acreditou-se que PcA não teriam capacidade imaginativa ou que esta seria restrita e limitada (Baron-Cohen & Hammer, 1997; Bailey et al., 1998). Sem dúvidas que há casos de dificuldades mais acentuadas na capacidade imaginativa, tal como descrito na literatura médico-científica. Considerando o machismo na Ciência em relação às mulheres, àquelas atravessadas pelo autismo, com certeza foram muito mais subestimadas em sua capacidade imaginativa e criativa. No entanto, os estudos mais recentes a partir da narrativa de McA têm revelado que mesmo vivenciando dificuldades em diversos contextos, elas também têm se destacado como artistas, escritoras, pesquisadoras, dentre tantas ocupações, pelos mais diversos lugares. Em uma perspectiva centrada no modelo médico de deficiência acerca do desenvolvimento normal hegemônico do que se entende por capacidade imaginativa, as PcA serão colocadas em um lugar de inferioridade à maioria da população e a McA se encontrará em um lugar ainda mais subalterno pela sua dupla condição interseccional de ser mulher e ser autista, além de outras condições que podem lhe ser agregadas, a exemplo: ser negra, ser lésbica, ser pobre.

De acordo com a feminista indiana, Gayatri Spivak, "se no contexto da produção colonial o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade" (Spivak, , p. 15). Neste prisma, a McA é este sujeito subalterno que não pode falar, e em muitos contextos, literalmente, ela não fala por não oralizar, o que a coloca em uma situação de abissal exclusão e invisibilidade social.

Donna Williams, McA, abala o paradigma capacitista e excludente e revela ao mundo que ela pode falar, pode escrever, pode imaginar, pode criar, pode ser tudo aquilo que ela é, com todas as adversidades, com toda a toxicidade masculina, com todos os estigmas e preconceitos que pesam sobre as McA.

O todo é nada e o nada é tudo: à flor da pele

Uma das características comumente presentes em pessoas que se encontram na condição singular do autismo é o hiperfoco, compreendido como um fenômeno que envolve a pessoa em um profundo estado de concentração por uma ou mais temáticas, atividades ou objetos de interesse seletivo. Esta super concentração e foco costumam implicar no destino de horas e horas vigorosas de dedicação ao estudo, conhecimento e satisfação na realização de atividades que sejam do eixo de interesse da PcA (Ashinoff & Abu-Akel, 2021). Consequentemente, o colecionamento de tudo o que diz respeito ao seu tema ou objeto de interesse, tal qual a repetição de músicas preferidas, filmes, leituras e atividades se convertem, muitas vezes, na indiferença pelas outras coisas, e em uma percepção diferenciada sobre o tempo, já que o tédio não ocupa espaço durante a presença ativa no hiperfoco. Nas palavras de Donna Williams é possível notar sua alegria, sua autoestima, sua forma de se relacionar consigo mesma e com o mundo a partir de seu hiperfoco centrado na música, na escultura e na escrita:

Foi no mundo dos objetos que eu ingressei quando comecei a readquirir o gosto pela vida. Fui tomada, então, de uma paixão pelas palavras e pelos livros e me obstinava a compensar meu caos interior com uma organização obsessiva do mundo exterior. [...]. Descobria ali palavras cuja sonoridade me agradava, palavras que eu não me cansava de repetir. Eu gostava particularmente das palavras que pertencem a conjuntos maiores, das que significam nomes concretos, não apenas substantivos que só indicam uma característica geral. [...]. A não ser que eu mesma escolhesse minha ocupação, meu espírito se recusava a concentrar-se e divagava, por mais que eu fizesse esforço para prestar atenção. A não ser que eu mesma as procurasse e as assimilasse, a cultura e a instrução me eram tão inacessíveis como toda outra intrusão vinda do mundo exterior. Eu adorava copiar, criar e organizar o que quer que fosse. [...] estava sempre verificando se as letras e os números estavam bem-organizados, e corrigia em caso de necessidade. Era minha maneira de estabelecer a ordem a partir do caos. [...] Eu elaborava um quadro exaustivo, ornamentando com ilustrações detalhadas, especificando (por exemplo) cada tipo de vaca. Minha curiosidade podia parecer repetitiva e sem criatividade, mas era a minha maneira de aprender a gostar das coisas que me cercavam. [...] Eu explorava, a meu modo, os conceitos de uniformidade, de conservação e de coerência (Williams, 2012, p. 84-85, 87, 89).

Narrativas de mulheres com autismo (McA) destacam o hiperfoco como algo muito apreciado que traz benefícios com relação a: aumentar a autoestima, diminuição da ansiedade e do tédio quando estão fazendo o que gostam, dissipação de tristeza e do estresse, possibilidade de abertura para o aprendizado de habilidades sociais, um caminho para o aprendizado de outros conteúdos, encorajar o desenvolvimento da escrita, da criatividade e da autonomia, ser uma via para a inclusão na formação universitária e no mundo do trabalho. Elas têm destacado interesse em assuntos referentes a animais, música, arte, literatura, ativismo ambiental, temas sobre psicologia, psicanálise, psiquiatria, neurociências e saúde em geral, seguido do interesse sobre a temática do autismo e espiritualidade (Orrú, 2024).

Importante dizer que há uma tendência à supervalorização dos interesses masculinos, geralmente centrados nas "coisas", nas tecnologias, ferramentas, matemática, animais selvagens, dentre outros, em detrimento dos temas de interesses específicos destacados na vida das McA, comumente voltados para aquilo que se relaciona com as pessoas, com as humanidades, com as artes, comunicação, natureza e temáticas que envolvem espiritualidade e autoconhecimento. Segundo Judith Butler, filósofa pós-estruturalista, "nesse caso, não a biologia, mas a cultura se torna o destino" (Butler, , p. 23), assim, a cultura sob a qual as meninas com autismo são educadas, influencia também em seus interesses de hiperfoco, elas podem estar mais expostas aos padrões sociais para se submeterem aos papéis de gênero e às normativas que orientam as interações sociais, de modo que é preciso atentar para tais contextos pois estes também podem estar carregados de relacionamentos tóxicos e abusivos que podem não ser percebidos com clareza pela menina e mulher com autismo.

Donna Williams a partir de seu hiperfoco na escrita, encontrou um caminho possível para expressar toda sua vivência no autismo e compartilhar com o mundo uma porção desse conhecimento que é tão relevante à sociedade, especialmente para educadores/as e profissionais da saúde mental. Sua vivência e escrita se fundem à flor da pele quanto mais consciência ela concebe sobre o universo à sua volta. Nesta intensidade entre o nada, o todo, o tudo, a morte e as ciladas da vida, o temor pelo que lhe era (des)conhecido, a esmagava para dentro de si mesma em profunda reflexão:

Senti uma voz baixinha em minha alma cochichar

Que o todo é nada e o nada é tudo.

Porque a morte está na vida,

E a vida na morte dos embustes (Williams, 2012, p. 31).

Aos 9 anos de idade, vítima de violência familiar, gerada principalmente por sua mãe, Donna experimentava crises nervosas avassaladoras. Na escola, embora quisesse cantar, dançar, desenhar, construir miniaturas disformes de seres de sua fantasia, tocar os cabelos de uma colega, Donna sofria com o preconceito e a discriminação daqueles que não a compreendiam e que tinham medo que ela ferisse o seu próximo. Era difícil suportar o tempo impassável sentada em uma cadeira, suas pernas não paravam de se mexer, as dores no corpo se faziam frequentes, a inabilidade de partilhar suas sensações físicas com alguém, as dificuldades de compreensão sobre as expressões faciais e verbais a confundiam e perturbavam sua relação social com as outras pessoas. Ela era capaz de compreender os atos dos outros, principalmente quando eram em excesso, mas não conseguia imaginar como as pessoas eram como um todo. Afastar-se de todos, muitas vezes (inconsciente, outras, consciente), era a saída para se livrar do que lhe fazia mal, do que lhe aborrecia em uma busca natural para evitar entrar em crise. Hoje, três décadas após a escrita de Donna, profissionais da saúde e da educação sabem da importância de dar espaço para que o estudante com autismo se ausente das salas de aula (tanto no contexto escolar como universitário) e seja acolhido em um ambiente amenizado que não o sobrecarregue em crises sensoriais e emocionais. Sobre sua aflição, ela exprime:

Sonhos devastadores com vidro quebrado,

Ecos de um passado ruidoso.

Uma vida calcada por uma multidão de pessoas anônimas Que nunca ajudaram a viver. Todas estas prisões Que despedaçam um ser

Vêm frequentar meu universo (Williams, 2012, p. 75).

Ao relatar que compreendia os atos das pessoas, mas que não conseguia imaginar como elas eram como um todo, Donna evidencia suas dificuldades em compreender a complexidade das relações pessoais e interpessoais também compostas por metáforas, palavras dúbias, ironias, expressões faciais não condizentes com o que era falado. A literalidade tão presente nas McA traz desafios para o entendimento de toda maquinaria perversa das relações dialógicas humanas normalizadas. Por outro lado, há muito o que se aprender pelo caminho da literalidade, onde a falsidade e o descompromisso com a fala do outro são defrontados pela sinceridade de quem vive a condição do autismo.

Ao enunciar seu passado ruidoso em "uma vida calcada por uma multidão de pessoas anônimas que nunca ajudaram a viver", ela denuncia não o isolamento "autista" categorizado pela literatura médica-cientifica, mas o apartheid que lhe foi imposto por uma sociedade rude e desumana, egóica e avessa a aceitação da diferença que é constitutiva da espécie humana. Neste sentido, vale ressaltar a des-lembrança do movimento feminista para pensar e se mover pelas demandas das McA, uma população de mulheres minorizadas, entendendo que essa ausência denota que o autismo também é uma questão de gênero subalternizada, não acolhida, olvidada como sequer sendo a "Outra" da outra, em empréstimo da análise originada pela teórica, Grada Kilomba, militante do feminismo negro:

Mulheres negras por não serem nem brancas, nem homens, passam a ocupar uma posição muito difícil dentro de uma sociedade patriarcal de supremacia branca. Nós representamos um tipo de ausência dupla, uma Outridade dupla, pois somos a antítese tanto da branquitude quanto da masculinidade. Nesse esquema, a mulher negra só pode ser a/o "Outra/o", e nunca o eu. [...]. As mulheres brancas têm um status oscilante, como o eu e como a "Outra" dos homens brancos porque elas são brancas, mas não homens. Os homens negros servem como oponentes para os homens brancos, bem como competidores em potencial por mulheres brancas, porque são homens, mas não são brancos. As mulheres negras, no entanto, não são brancas nem homens e servem, assim, como a "Outra" da alteridade. Nesse contexto de isolamento absoluto, o suicídio entre mulheres negras pode ser visto como a perfeição de sua existência como a "Outra" dos outros: perfeccionismo no sentido de que o suicídio é o retrato "perfeito" de um eu desqualificado, um eu que não tem um "outro" próprio - um ato impecável de não existência (Kilomba, 2019, p. 190-191).

Sob a lente de Kilomba (2019), uma vez que é parca uma literatura feminista teórica produzida por McA, esta se encontra em difícil lugar de existência e de fala em meio a uma sociedade patriarcal que também é capacitista e eugênica, onde o autismo é condição temida, odiada, discriminada, subestimada, superestimada, desprezada e, até mesmo, alvo de pensamentos estratégicos para sua extinção. Em razão da influência das noções masculinas e machistas na Ciência, o autismo se tornou "azul" de maneira que sua manifestação no feminino ainda é questionada, minimizada, negligenciada e depreciada. Logo, a menina no autismo (principalmente no nível 1 de suporte) sucumbe a anos sem uma avaliação diagnóstica correta, portanto, sobrevive à base da camuflagem social e do mascaramento do seu autismo (muitas vezes, inconsciente), sem apoio psicológico e em profundo adoecimento psíquico e, consequentemente, físico. Torna-se jovem, torna-se mulher, torna-se presa nas grades do desamparo violento que despedaça seu ser e que, se não acolhida devidamente, sucumbe às muitas angustias. Em profundo e denso isolamento íntimo e social, a mulher adulta no autismo (principalmente aquela com prejuízos significativos em sua habilidade de se comunicar, ou de comunicar seus sentimentos mesmo com a capacidade de oralizar), vê-se sem esperança de que falem por ela, já que falar por si mesma, sem nenhuma rede de apoio bem tecida, é quase irreal, portanto, um plano pouco provável de ser alcançado.

Kilomba (2019, p. 191), no contexto das mulheres negras, ao chamar a atenção do "sentido de que o suicídio é o retrato 'perfeito' de um eu desqualificado, um eu que não tem um 'outro' próprio - um ato impecável de não existência", dispõe-nos a reflexão para o cenário das McA [sem deficiência intelectual (DI) associada] que apresentaram maior risco de automutilação suicida, resultando em mais tratamento hospitalar do que homens autistas (HcA) sem DI (11,63% vs. 4,18%). Segundo o estudo, as McA apresentaram uma probabilidade maior de morrer por suicídio do que mulheres não autistas, e enquanto os HcA tinham 6,5 vezes mais chances de morrer por suicídio, as McA apresentavam 13 vezes mais chances de morrer por suicídio (Hirvikoski et al., 2016).

Por volta dos seus 12 anos de idade, determinada a fazer tudo o que era possível para se manter em um bom convívio social, Donna enfrentava sozinha momentos desafiadores de ansiedade e medo, o que a adoecia física e mentalmente. As dificuldades em lidar com suas emoções, com as imprevisibilidades cotidianas dos fatos e do humor instável das pessoas, afetaram diretamente sua qualidade de vida com a presença de terrores noturnos, problemas de visão em razão da sensibilidade com a luz, de audição pela insuportabilidade aos ruídos, dores musculares por tensões, fadigas, dificuldades para comunicar suas necessidades, sensações e sentimentos. Diante de seu comportamento considerado estranho por vizinhos e de toda opressão que vivia em uma tentativa de conviver junto a outras pessoas, ela se entregava à reflexão profunda de si para si mesma e de seu desejo ávido de ser livre, tal como nos enuncia:

Vejo no espelho esta jovem que me olha.

Vejo que ela pensa que sou louca, por acreditar

Que sou livre.

Mas vejo também nos seus olhos

Que ela tenta compreender que não me engano,

Eu que tento apenas encontrar o caminho

Que me conduzirá a mim mesma... (Williams, 2012, p. 44).

Donna se descobre em si quando toma ciência que ninguém poderia a alcançar, salvá-la de sua travessia no autismo. Há um encontro no espelho de seu eu, de sua alma e espírito com o atravessamento de seu olhar subjetivo para si, para o reflexo de seu corpo, para esta imagem que é apenas um pequeno recorte materializado da incomensurável realidade de sua existência e vivência em um mundo no qual se sente não pertencer. O conflito entre a lógica de seu raciocínio ("mas vejo também nos seus olhos, que ela tenta compreender") e a coerência de seus sentimentos ("que não me engano, Eu que tento apenas encontrar o caminho, que me conduzirá a mim mesma") confluem para o acolhimento árduo de si mesma quando se confronta com o simulacro de sua infeliz loucura, impossível liberdade: "vejo que ela pensa que sou louca, por acreditar que sou livre".

Na insuficiência de material teórico para a discussão interseccional sobre ser mulher e ser autista em uma sociedade patologizada e altamente medicalizada, lanço a reflexão da socióloga feminista, María Lugones, como um caminho de entendimento que a construção social do autismo enquanto transtorno, os critérios e os protocolos para o diagnóstico do autismo, são dispositivos de opressão, dominação, categorização, discriminação, segregação e exclusão da PcA, da McA. Em uma sociedade patriarcal cujos tentáculos do capitalismo e do colonialismo não cessam de estrangular as subjetividades, ser mulher na condição do autismo, é estar duplamente oprimida por ambas categorias (mulher e autista) que se entrelaçam e se fundem. Neste sentido, Donna encontra seu caminho e sua liberdade somente em si mesma, pois é impossível cogitar alguma liberdade no parâmetro do outro, dos outros, das outras que existem, mesmo que seja na precariedade.

As categorias e o pensamento categórico são instrumentos de opressão. [...]. A lógica da dominação impõe uma concepção categórica do que é de fato uma fusão ou uma rede de opressões. O locus de opressão pode ser entendido como uma sobreposição de opressões que se cruzam ou se entrelaçam, que se entrelaçam ou se fundem. Gênero e raça, por exemplo, não se cruzam como categorias de opressão separadas e separáveis. Pelo contrário, a opressão de gênero e raça afeta as pessoas sem qualquer possibilidade de separação. Essa é a razão pela qual existem mais de dois gêneros. Há uma multiplicidade de gêneros (Lugones, 2005, p. 68-69, tradução nossa).

Ainda na adolescência, Donna se encontrava cada vez mais na arte e na literatura, no esculpir na madeira e na cerâmica. Na matemática, relata que encontrava as soluções para os problemas mentalmente, mas como exigiam que demonstrasse como havia feito seus cálculos, acabou por tomar aversão à matéria. Na literatura, encontrava-se na escrita, mas ficava altamente perturbada se lhe dissessem o tema que deveria escrever. E neste caminho tortuoso de ocultar sua real identidade, seu sofrimento tomava ainda maiores proporções. Esta ocultação da identidade descrita em Nobody Nowhere (Williams, 1992) pela autora, hoje é denominada de camuflagem social e mascaramento do autismo. Estudos recentes revelam que a camuflagem social como forma de tentar se incluir ou se manter incluída nos grupos sociais e o mascaramento das manifestações do autismo, são comportamentos presentes em McA e que as levam a médio prazo a severo adoecimento físico e, principalmente, psíquico, podendo, inclusive, levar ao que é conhecido como "esgotamento autista" (Autistic Burnout) (Bennie, 2021; Sedgewick, 2021; Belcher, 2023).

Aos 15 anos de idade Donna deixou a casa de sua família e trabalhou em diversos locais na batalha por seu autossustento. Vivenciou relacionamentos amorosos que eram abusivos, consequência de sua dificuldade na área da comunicação, na interação social, por sua ingenuidade, bem como pelas tentativas exacerbadas de complacência e camuflagem social para compensar e mascarar o seu autismo. Aos 19 anos, iniciou seus estudos universitários na La Trobe University, no Bacharelado em Artes. Fez Licenciatura em Linguística e pós-graduação em Sociologia, tornando-se professora universitária e consultora sobre autismo em 1996 (Williams, ). Em sua adolescência e juventude, a profunda depressão se fez presente em diversas circunstâncias. Dizia que o silêncio no interior de sua cabeça era ensurdecedor e que nada em si queria reagir àquela tristeza angustiante. Seu mundo lhe parecia todo fragmentado em pequenos pedaços. Em reflexão crítica às brutas e incoerentes atitudes de sua mãe e às opressões vivenciadas nas relações humanas de modo geral, Donna denuncia em poema:

Dá alimento aos gatos abandonados,

Mas não recolhas as crianças desamparadas,

Porque ao contrário dos gatos

Elas não podem tomar conta de si próprias.

A estas crianças, faz como se não existissem,

Como se sua infelicidade não te comovesse,

E deixa-as a outros, não a ti (Williams, 2012, p. 109).

Donna acreditava que parte dela era intensamente espiritual, embora nenhuma parte de si fosse religiosa, e que poderia encontrar a essência de Deus em todas as coisas, inclusive dentro de si mesma. Em 2012, aos 48 anos, após o impacto do tratamento contra o câncer de mama que lhe tirou a capacidade de respirar durante o sono sem ajuda mecânica, ela decidiu se afastar de grande parte de suas atividades. Embora não viajasse mais, ainda assim, ela fez parte de um coral, deu aulas de francês para iniciantes, tornou-se professora de artes e teatro, e realizou trabalhos sobre autismo. Dizia que se sentia mais conectada do que nunca: "Meu autismo dança com minha personalidade... e minha personalidade também deve dançar com meu autismo, embora não sejam separáveis, nem intercambiáveis entre si" (Williams, ).

Em 2016 ela recebeu o diagnóstico câncer de mama metastático. Em seus últimos relatos Donna dialoga com seus leitores sobre seus sentimentos em seu estágio avançado da doença, sua percepção sobre a vida e a morte, sua luta contra a objetificação da beleza da mulher:

Sei de todo o coração que vivo em todos os que verdadeiramente me conheceram, amaram e foram inspirados por mim, e mesmo naqueles que não tiveram nada além de sentimentos perturbadores a meu respeito. Eu vivi uma vida de sorte, plena e abençoada. Como taoísta, fiz as pazes com a vida e passei a ser grata por tudo de ruim e de bom que resultou disso. Nunca deixei, diariamente, de viver, amar, rir com a bênção do bem que surgiu em meu caminho... especialmente meu melhor amigo e marido de 17 anos de casados, Chris Samuel... e nossos gatos Mini e Max. [...]. (Williams, , p.1).

Lutei contra a doutrinação generalizada de que a beleza das mulheres se resume aos seios, cabelos e unhas. Olhei fotos de lindas mulheres carecas e me convenci de que a careca poderia ser linda durante o verão australiano e, enquanto desenvolvia uma grande coleção de lenços ciganos e chapéus descolados, também aprendi a seguir em frente com a ousadia de uma mulher careca. Ao longo da minha jornada eu criei blogs, vídeos e apoiei outras mulheres com câncer de mama que entraram em contato comigo. [...]. Não me arrependo de nada. Foi uma vida maravilhosa vivida plenamente (Williams, , p.1).

Para aqueles que querem encontrar o meu túmulo - não haverá nenhum. Nem haverá um funeral. Nem serei enterrada. Eu não sou o meu corpo, ele é meu veículo pelo qual a natureza coletiva do "eu" (alguns podem chamar de sentido, essência, espírito) se conectou com o mundo. [...]. Entretanto, você pode plantar uma planta em minha memória, criar um pequeno espaço pessoal ou um jardim de fadas onde você possa ir e

comungar comigo em seu coração, onde esse sentido de mim viverá. [...]. Minhas cinzas serão espalhadas em vários lugares da natureza. Se você não puder visitar nenhum deles diretamente, então você poderá me encontrar no céu noturno, pois somos todos feitos de matéria estelar ou me encontrar na natureza, à qual me conectei durante toda a minha vida (Williams, , p.1).

Considerações finais

A autobiografia de Donna Williams é um tesouro de conhecimento narrado sobre o ser menina e mulher atravessada pela condição singular do autismo ao mesmo tempo que é uma potência poética carregada de intensidades entranhadas em sua mente, alma, corpo e espírito. Sua vivência e escrita no autismo se amalgamam à flor da pele em uma resiliência e persistência singular à procura de si e da ressignificação amorosa de sua vida no mundo.

Eu ia de um lugar a outro,

Vagando entre tantos rostos anônimos.

À procura vã de um alojamento,

Eu precisava recomeçar sempre.

Era sempre sedutora

Esta busca de um lugar que na verdade fosse meu.

Eu precisava resignar-me a aceitar o que se apresentasse,

Esquecendo-me de quem eu era.

O olhar que me reenviava o espelho

Cuidava em me responder.

Ele que me repetia:

"Como saber? Quem sou eu?" (Williams, 2012, p. 170).

Nas palavras da filósofa Djamila Ribeiro "pensar lugar de fala seria romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado, um movimento no sentido de romper com a hierarquia" (Ribeiro, , p. 50). Por meio da arte e da literatura Donna Williams, uma mulher com autismo, construiu o seu lugar de fala rompendo com o silenciamento das McA. Ela ocupou o seu lugar de fala e o compartilhou com outras centenas de McA que, de alguma maneira, puderam se reconhecer nesta mesma luta e movimento pessoal e coletivo. Sua fala literária e artística também alcançou outras milhares de pessoas que tiveram a oportunidades de romper com estigmas e estereótipos a partir de sua generosidade em partilhar sobre sua travessia de vida no autismo.

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0Para citar este artículo: Orrú, S. E. (2025). "El todo es nada y la nada es todo" Autismo y subjetividad en la vida y obra de Donna Williams. Praxis & Saber, 16(45), 1-17. https://doi.org/10.19053/uptc.22160159.v16.n45.2025.18216

Contribución de la autora A autora é a responsável pelos conceitos desenvolvidos, formulação dos objetivos, metas abrangentes de pesquisa, escrita e revisão crítica do artigo.

Financiación O artigo é o resultado da pesquisa "Primavera Autista: identidade, discurso, narrativa e produção artística e literaria". Financiamento próprio.

Implicações éticas O artigo resulta de investigação conceitual, a qual atende aos princípios éticos de realizar as devidas citações, não apresentado riscos a humanos e não humanos, bem como não apresentando conflitos de interesse

Dados abertos A autora declara que não há dados abertos disponíveis no momento para o artigo

Recebido: 05 de Novembro de 2024; Revisado: 30 de Julho de 2025; Aceito: 29 de Agosto de 2025; Publicado: 18 de Setembro de 2025

Conflictos de interés

Não há conflitos de interesse.

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