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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A democracia de cidadãos proprietários em Rawls: análise crítica acerca de diferentes interpretações]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The paper critically addresses several interpretations of the concept of "property-owning democracy", an institutional regime which allows for private property of production means and is preferable, according to Rawls, to welfare state capitalism. It is discussed, first, whether the capital dispersion ambitioned by property-owning democracy should be taken as tantamount to wealth dispersion. Secondly, it is inquired whether property- owning democracy should be associated only to a given result - e.g., capital or wealth dispersion- or also as a sort of regime under which such result is reached through certain means. Property-owning democracy would therefore be understood as a predistributive regime (in contrast with the redistributive welfare state). The conclusion, in sum, is that, putting aside issues regarding human capital, there are reasons to elect a simple definition of property-owning democracy as a regime that disperses wealth to a considerable degree. The final section answers some critiques of property- owning democracy as an alternative to welfare state capitalism]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[   <font size="2" face="verdana">      <p align="center"><font size="4"><b>A democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios em Rawls: an&aacute;lise cr&iacute;tica acerca de diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><b>Rawls's property-owning democracy: a critical analysis of several interpretations</b></font></p>     <p><i>Leandro Martins Zanitelli</i>    <br> Doutor em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil, e Professor Adjunto na Faculdade de Direito e Ci&ecirc;ncias do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Minas Gerais, Brasil. Tem interesse por Direito Privado (em particular, Direito das Obriga&ccedil;&otilde;es) e por pesquisa interdisciplinar envolvendo Direito, Filosofia Pol&iacute;tica e Economia. Direcci&oacute;n Postal: Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Direito e Ci&ecirc;ncias do Estado Av. Jo&atilde;o Pinheiro, 100, Belo Horizonte -Minas Gerais- Brasil. CP: 30130-180    <br> E-mail: <a href="mailto:leandrozanitelli@gmail.com" target="_blank">leandrozanitelli@gmail.com</a></p>      <p><b>Recibido:</b> agosto 21 de 2015    <br>  <b>Aprobado:</b> noviembre 19 de 2015</p>  <hr>      <p><font size="3"><b>Resumo</b></font></p>  	    <p>O trabalho apresenta diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es sobre a "democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios" (DCP), um regime que permite a propriedade privada dos meios de produ&ccedil;&atilde;o e se mostra superior, segundo Rawls, ao capitalismo de bem-estar. Discuto, primeiro, se a dispers&atilde;o do capital ambicionada pela DCP deve ser tomada como algo distinto de dispers&atilde;o da riqueza. Trato, em segundo lugar, da quest&atilde;o de saber se o que importa para a caracteriza&ccedil;&atilde;o da DCP &eacute; apenas o resultado - seja ele a dispers&atilde;o do capital ou da riqueza - ou tamb&eacute;m o meio de obt&ecirc;-lo, caso no qual a DCP poderia ser entendida como regime predistributivo (em contraposi&ccedil;&atilde;o ao "welfare state", um regime eminentemente redistributivo). Minha conclus&atilde;o, em suma, &eacute; que, afora o que concerne ao "capital humano", h&aacute; raz&otilde;es para preferir uma conceitua&ccedil;&atilde;o simples, que defina a DCP como regime que logra dispersar a riqueza em consider&aacute;vel medida. A &uacute;ltima se&ccedil;&atilde;o responde, ainda, a algumas cr&iacute;ticas &agrave; DCP como alternativa ao capitalismo de bem-estar.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave:</b> democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios; capitalismo; estado de bem-estar; predistribui&ccedil;&atilde;o.</p>  <hr>  	    <p><font size="3"><b>Abstract</b></font></p> 	    <p>The paper critically addresses several interpretations of the concept of "property-owning democracy", an institutional regime which allows for private property of production means and is preferable, according to Rawls, to welfare state capitalism. It is discussed, first, whether the capital dispersion ambitioned by property-owning democracy should be taken as tantamount to wealth dispersion. Secondly, it is inquired whether property- owning democracy should be associated only to a given result - e.g., capital or wealth dispersion- or also as a sort of regime under which such result is reached through certain means. Property-owning democracy would therefore be understood as a predistributive regime (in contrast with the redistributive welfare state). The conclusion, in sum, is that, putting aside issues regarding human capital, there are reasons to elect a simple definition of property-owning democracy as a regime that disperses wealth to a considerable degree. The final section answers some critiques of property- owning democracy as an alternative to welfare state capitalism.	</p>  	    <p><b>Keywords:</b> property-owning democracy; capitalism; welfare state; predistribution; redistribution.</p>    <hr>      <p><font size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>  	    <p>Neste trabalho, fa&ccedil;o uma revis&atilde;o da literatura sobre o conceito de "democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios" ("property-owning democracy") em Rawls. Meu objetivo &eacute;, primeiro, chamar a aten&ccedil;&atilde;o para as diferentes acep&ccedil;&otilde;es dadas a essa express&atilde;o. Segundo, procuro avaliar tamb&eacute;m se h&aacute; raz&otilde;es para preferir alguma acep&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras. Por &uacute;ltimo, e tendo em vista as conclus&otilde;es tiradas sobre a melhor maneira de entender a democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios (doravante, DCP), respondo a algumas cr&iacute;ticas.</p>  	    <p>A DCP &eacute; um dos regimes que Rawls reputa aptos &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios da sua concep&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a, a justi&ccedil;a como equidade ("justice as fairness"). No pref&aacute;cio &agrave; edi&ccedil;&atilde;o revista de "A Theory of Justice" (1971, 1999, XIV), ele lamenta n&atilde;o ter diferenciado mais nitidamente na primeira edi&ccedil;&atilde;o do livro as ideias da DCP e do "welfare state". Rawls descreve brevemente as caracter&iacute;sticas da DCP na se&ccedil;&atilde;o 43 de "A Theory of Justice" e retorna ao tema (e ao contraste entre a DCP e o "welfare state" ou "capitalismo de bem-estar") na parte IV de "Justice as Fairness: A Restatement" (Rawls, 2001). Embora permita, como o capitalismo de bem-estar (doravante, CBE), a propriedade privada dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, a DCP n&atilde;o apresenta as caracter&iacute;sticas que fazem do CBE um regime falho, do ponto de vista da justi&ccedil;a, por desrespeitar o valor equitativo das liberdades pol&iacute;ticas, a equitativa igualdade de oportunidades e o princ&iacute;pio da diferen&ccedil;a (Rawls, 2001, pp.137-138).<a href="#1" name="v1"><sup>1</sup></a></p>  	    <p>&Eacute; importante, pois, verificar como, precisamente, a DCP e o CBE se diferenciam. A primeira se&ccedil;&atilde;o deste trabalho trata a DCP como regime caracterizado pela dispers&atilde;o do capital e indaga sobre a diferen&ccedil;a entre dispers&atilde;o do capital ("capital") e dispers&atilde;o da riqueza ("wealth"). Embora o uso dos dois termos lado a lado em certas passagens sugere que Rawls pretendia lhes emprestar sentidos diferentes,<a href="#2" name="v2"><sup>2</sup></a> &eacute; duvidoso que a diferen&ccedil;a seja defens&aacute;vel. Na segunda se&ccedil;&atilde;o, examino a hip&oacute;tese de a DCP ser um regime que n&atilde;o apenas dispersa o capital (ou a riqueza), mas que o faz de uma certa maneira. Terei em vista, ent&atilde;o, a ideia de a DCP ser um regime predistributivo, que dispersa a riqueza sem lan&ccedil;ar m&atilde;o (ou sem lan&ccedil;ar m&atilde;o em grande medida) das pol&iacute;ticas redistributivas do capitalismo de bem- estar. Como se ver&aacute;, no entanto, h&aacute; certas dificuldades com a distin&ccedil;&atilde;o entre "predistribui&ccedil;&atilde;o" e "redistribui&ccedil;&atilde;o", o que sugere que a melhor maneira de definir a DCP talvez seja, de fato, como regime caracterizado pela dispers&atilde;o da riqueza. Na terceira se&ccedil;&atilde;o, avalio as cr&iacute;ticas de autores que negam ser a DCP uma alternativa defens&aacute;vel ao CBE. </p>       <p><font size="3"><b>DCP e dispers&atilde;o do capital</b></font></p>  	    <p>Pode-se definir a DCP como regime que se caracteriza por um certo resultado ou, alternativamente, como regime que se vale de certos meios para chegar a esse resultado. O resultado em quest&atilde;o &eacute; a dispers&atilde;o do capital.<a href="#3" name="v3"><sup>3</sup></a> Comparando a DCP com o CBE, Rawls (2001, p. 139) diz: "One major difference is this: the background institutions of property-owning democracy work to disperse de ownership of wealth and capital, and thus to prevent a small part of society from controlling the economy, and indirectly, political life as well." Antes, por&eacute;m, de verificar se o que realmente importa &eacute; o resultado em si ou o resultado e os meios de alcan&ccedil;&aacute;-lo, &eacute; preciso que nos detenhamos um pouco sobre o que dispers&atilde;o do capital significa.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma quest&atilde;o &eacute; se h&aacute; alguma diferen&ccedil;a entre "capital" ("capital") e "riqueza" ("wealth"). Rawls usa as duas palavras na senten&ccedil;a transcrita acima, o que sugere que seus sentidos sejam distintos. Consideremos duas afirma&ccedil;&otilde;es a respeito. Primeiro, capital e riqueza s&atilde;o diferentes porque a primeira abarca o capital humano. Segundo, al&eacute;m do capital humano, o capital se restringe aos bens de produ&ccedil;&atilde;o, enquanto que a riqueza &eacute; tamb&eacute;m constitu&iacute;da por outros bens, como os de consumo e a poupan&ccedil;a.</p>     <p>A primeira das duas afirma&ccedil;&otilde;es &eacute; menos problem&aacute;tica, n&atilde;o apenas porque Rawls se refere expressamente ao capital humano,<a href="#4" name="v4"><sup>4</sup></a> mas tamb&eacute;m, e principalmente, porque &eacute; condizente com a apregoada superioridade da DCP no que toca ao princ&iacute;pio da equitativa igualdade de oportunidades. Se a dispers&atilde;o de capital que esse regime realiza atende ao princ&iacute;pio em quest&atilde;o, &eacute; plaus&iacute;vel que seja por tamb&eacute;m dizer respeito &agrave;s capacidades humanas, isto &eacute;, ao capital humano.</p>      <p>Tratemos agora da distin&ccedil;&atilde;o entre capital como bens de produ&ccedil;&atilde;o e riqueza. H&aacute; uma sugest&atilde;o textual de que Rawls divide o capital em capital humano e "bens produtivos" ("productive assets").<a href="#5" name="v5"><sup>5</sup></a> Admitindo-se que o termo "capital" se refira (afora o capital humano) apenas aos bens de produ&ccedil;&atilde;o, duas quest&otilde;es se imp&otilde;em: que bens s&atilde;o esses, e qual o resultado que caracteriza a DCP quanto a eles (isto &eacute;, o que a dispers&atilde;o do capital, em tal acep&ccedil;&atilde;o, quer dizer). A primeira quest&atilde;o pode ser respondida com relativa facilidade: bens de produ&ccedil;&atilde;o s&atilde;o bens empregados para a produ&ccedil;&atilde;o de outros bens, como a terra e equipamentos. Um pouco mais dif&iacute;cil, em contrapartida, &eacute; definir o que a dispers&atilde;o do capital quer dizer: considerando-se que boa parte da produ&ccedil;&atilde;o tem lugar, hoje em dia, por meio de organiza&ccedil;&otilde;es empresariais -corpora&ccedil;&otilde;es, sobretudo-, dispers&atilde;o do capital querer&aacute; dizer dispers&atilde;o dos bens de produ&ccedil;&atilde;o entre essas organiza&ccedil;&otilde;es -implicando o fim das grandes corpora&ccedil;&otilde;es- ou bastar&aacute; que a propriedade nas organiza&ccedil;&otilde;es (isto &eacute;, a propriedade acion&aacute;ria) esteja dispersa? Nenhuma das respostas est&aacute; livre de inconvenientes. No caso da primeira, abrir-se-ia m&atilde;o da efici&ecirc;ncia que a produ&ccedil;&atilde;o em larga escala traz consigo. Uma DCP pode, talvez, dispor de meios legais que refreiem a tend&ecirc;ncia ao surgimento de grandes corpora&ccedil;&otilde;es, mas &eacute; bastante duvidoso que ela seja defens&aacute;vel como regime pelo qual essas corpora&ccedil;&otilde;es s&atilde;o simplesmente proscritas.<a href="#6" name="v6"><sup>6</sup></a></p>      <p>Considere agora que a DCP n&atilde;o requeira o fim das grandes corpora&ccedil;&otilde;es, mas, t&atilde;o-somente, que a propriedade nelas -a propriedade acion&aacute;ria, portanto- esteja dispersa.<a href="#7" name="v7"><sup>7</sup></a> O problema, a&iacute;, &eacute; determinar o que h&aacute; de especial na propriedade acion&aacute;ria -em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave; riqueza em geral- para que fa&ccedil;a sentido a defesa de um regime que se notabilize pela sua dispers&atilde;o. Em outras palavras, o que tem a dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria de t&atilde;o importante? A pergunta se justifica porque &eacute; f&aacute;cil transformar outras modalidades de riqueza em propriedade acion&aacute;ria, e vice-versa. Por que dever&iacute;amos nos preocupar, ent&atilde;o, com cidad&atilde;os que t&ecirc;m a&ccedil;&otilde;es em seu patrim&ocirc;nio, mas disp&otilde;em de recursos (como im&oacute;veis ou t&iacute;tulos da d&iacute;vida p&uacute;blica) que os permitem investir em a&ccedil;&otilde;es a qualquer momento? N&atilde;o pode ser pelo fato de que esses cidad&atilde;os, n&atilde;o sendo acionistas, n&atilde;o conseguem influir sobre a gest&atilde;o das empresas, porque esse tampouco &eacute; o caso, muitas vezes, dos que o s&atilde;o. Tendo em vista a fungibilidade entre a propriedade acion&aacute;ria e outras modalidades de riqueza e o fato de a propriedade acion&aacute;ria, em si mesma, n&atilde;o conferir poder de fato sobre a gest&atilde;o das empresas, &eacute; cab&iacute;vel perguntar se a DCP n&atilde;o deveria ser caracterizada como regime que dispersa a riqueza em geral, sem qualquer considera&ccedil;&atilde;o pelos bens de produ&ccedil;&atilde;o em particular.<a href="#8" name="v8"><sup>8</sup></a></p>      <p>Para Hsieh (2012, p. 157), a dispers&atilde;o dos bens de produ&ccedil;&atilde;o atua contra a desigualdade de <i>status</i> que decorreria da falta de poder decis&oacute;rio dos trabalhadores quanto &agrave; produ&ccedil;&atilde;o. A dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria n&atilde;o d&aacute; aos trabalhadores controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o, mas faz, ao menos, com que todos os cidad&atilde;os sejam, ao mesmo tempo, capitalistas e trabalhadores, evitando que a diferen&ccedil;a de pap&eacute;is &iacute;nsita &agrave; produ&ccedil;&atilde;o capitalista cause desigualdade de <i>status</i>. Williamson (2012, p. 226), por sua vez, alega que a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade do "capital produtivo" (<i>productive capital</i>) d&aacute; lugar a domina&ccedil;&atilde;o. Se entendidos como dizendo respeito &agrave; dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria, contudo, os dois argumentos s&atilde;o fr&aacute;geis. Quanto ao primeiro, &eacute; dif&iacute;cil imaginar que o simples fato de ser acionista altere para o trabalhador o efeito de <i>status</i> de rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o caracterizadas pela subordina&ccedil;&atilde;o. Em rela&ccedil;&atilde;o a outras modalidades de riqueza, que import&acirc;ncia pode ter a propriedade acion&aacute;ria, se as a&ccedil;&otilde;es em quest&atilde;o n&atilde;o forem da pr&oacute;pria companhia para a qual se trabalha? Hsieh parece supor, ao meu ver fantasiosamente, que o trabalhador subordinado tem seu igual "status" preservado pelo fato de outros trabalhadores estarem subordinados a ele, ainda que de maneira um tanto indireta - como trabalhadores de companhias que o primeiro talvez nem saiba quais sejam. A rela&ccedil;&atilde;o entre dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria e equidade pol&iacute;tica, por sua vez, n&atilde;o pode ser, sem mais, presumida. A influ&ecirc;ncia sobre o processo pol&iacute;tico &eacute; muito mais plausivelmente um fator do controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o do que da propriedade acion&aacute;ria, e o fato de essa propriedade estar dispersa pode n&atilde;o ser suficiente para evitar que o controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o esteja nas m&atilde;os de poucos.</p>      <p>Uma &uacute;ltima ideia a considerar quanto ao sentido da express&atilde;o "dispers&atilde;o do capital" seria a de ela se referir n&atilde;o &agrave; propriedade, mas ao controle. Embora alguns int&eacute;rpretes de Rawls flertem com essa sugest&atilde;o,<a href="#9" name="v9"><sup>9</sup></a> ela borra a distin&ccedil;&atilde;o entre a DCP e o socialismo liberal, o outro regime que Rawls reputa adequado aos princ&iacute;pios da justi&ccedil;a como equidade (Rawls, 2001, p. 139). Deixo-a, portanto, de lado. </p>       <p><font size="3"><b>DCP e a diferen&ccedil;a entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o</b></font></p>      <p>Consideremos agora a possibilidade de a DCP ser caracterizada n&atilde;o apenas por um resultado -que, doravante, reputarei ser a dispers&atilde;o da riqueza em geral-, mas tamb&eacute;m pelo meio como esse resultado &eacute; obtido. A ideia &eacute; inspirada pela enigm&aacute;tica continua&ccedil;&atilde;o da passagem transcrita anteriormente, na qual Rawls (2001, p. 139) explica como a DCP evita que uma pequena parte da popula&ccedil;&atilde;o controle os meios de produ&ccedil;&atilde;o:</p>      <blockquote>     <p>Property-owning democracy avoids this not by redistribution of income to those with less at the end of each period, so to speak, but rather by ensuring the widespread ownership of productive assets and human capital (that is, education and training skills) at the beginning of each period, all this against a background of fair equality of opportunity. The intent is not only to assist those who lose out through accident or misfortune (although that must be done), but rather to put all citizens in a position to manage their own affairs on a footing of a suitable degree of social and economic equality.</p> </blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando se trata do capital humano, a distin&ccedil;&atilde;o entre atuar antes e depois &eacute; f&aacute;cil de fazer, porque basta, ent&atilde;o, usar como refer&ecirc;ncia a vida de um ser humano. Atuar antes, ou "no in&iacute;cio", em tal sentido, quer dizer atuar nas fases iniciais da vida a fim de que os cidad&atilde;os desenvolvam suas aptid&otilde;es, algo que &eacute; feito pela DCP e por qualquer regime que atenda ao princ&iacute;pio da equitativa igualdade de oportunidades. O CBE, em contrapartida, &eacute; descrito por Rawls como um regime que n&atilde;o obedece ao princ&iacute;pio em quest&atilde;o e, como tal, atua apenas "ao final", assistindo cidad&atilde;os que, por n&atilde;o terem sido adequadamente educados em seus primeiros anos, n&atilde;o est&atilde;o aptos a ganhar a vida.</p>     <p>H&aacute; duas raz&otilde;es, no entanto, para concluir que Rawls n&atilde;o est&aacute; se referindo apenas ao capital humano na passagem acima. A primeira &eacute; literal, porque a passagem faz men&ccedil;&atilde;o a "bens de produ&ccedil;&atilde;o" ("productive assets") junto com o capital humano. A segunda &eacute; que uma interpreta&ccedil;&atilde;o que d&ecirc; muita import&acirc;ncia &agrave; diferen&ccedil;a entre a DCP e o CBE quanto &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da equitativa igualdade de oportunidades &eacute; problem&aacute;tica, uma vez que h&aacute; d&uacute;vida sobre por que o CBE n&atilde;o &eacute; capaz de incluir medidas (por exemplo, ensino p&uacute;blico universal) que atendam a esse princ&iacute;pio (O'Neill, 2012, pp. 84-87). Em outras palavras, se a diferen&ccedil;a entre atuar "no in&iacute;cio" e "no fim" estiver relacionada apenas ao capital humano, talvez seja o caso de dizer que o CBE tamb&eacute;m &eacute; um regime que atua "no in&iacute;cio". Para fazer uma interpreta&ccedil;&atilde;o generosa de Rawls, &eacute; preciso, portanto, que atribuamos &agrave; distin&ccedil;&atilde;o entre "in&iacute;cio" e "fim" algum outro significado.</p>     <p>Alguns autores usam o termo "predistribui&ccedil;&atilde;o" para designar a DCP em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave; "redistribui&ccedil;&atilde;o" do CBE (O'Neill e Williamson, 2012).<a href="#10" name="v10"><sup>10</sup></a> Isso parece condizer com a ideia de que a DCP n&atilde;o &eacute; meramente um regime que dispersa a riqueza, mas que o faz por um certo meio, que s&atilde;o as pol&iacute;ticas predistributivas. Parece condizer, tamb&eacute;m, com a afirma&ccedil;&atilde;o de que a DCP n&atilde;o se caracteriza pela "redistribution of income to those with less at the end of each period". &Eacute; preciso esclarecer, no entanto, o que &eacute; "predistribui&ccedil;&atilde;o" e no que "predistribui&ccedil;&atilde;o" e "redistribui&ccedil;&atilde;o" se diferenciam.<a href="#11" name="v11"><sup>11</sup></a></p>     <p><font size="3"><b>"Tax-and-transfer" e engenharia de mercado</b></font></p>     <p>O'Neill e Williamson (2012, p. 1) respondem assim:</p>     <blockquote>     <p>The core meaning of "predistribution" is simple to grasp. As Yale political scientist Jacob Hacker, the term's progenitor, puts it in his <i>Policy Network</i> paper on "The Institutional Foundations of Middle-Class Democracy" &#91;nota de rodap&eacute; omitida&#93;, the aim of predistribution is "to focus on market reforms that encourage a more equal distribution of economic power and rewards even before government collects taxes or pays out benefits". Ins- tead of equalizing unfair market outcomes through tax-and-spend or "tax- and-transfer", we instead engineer markets to create fairer outcomes from the beginning. To put things in a slightly different way, the need for <i>ex post</i> redistribution is reduced as the <i>ex ante</i> distribution of economic power is made more fair and equitable.</p> </blockquote>     <p>A passagem acima permite duas interpreta&ccedil;&otilde;es que gostaria de considerar. De acordo com uma delas, a diferen&ccedil;a se refere ao fato de a predistribui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o lan&ccedil;ar m&atilde;o de uma estrat&eacute;gia caracter&iacute;stica da redistribui&ccedil;&atilde;o, a saber: a tributa&ccedil;&atilde;o seguida da transfer&ecirc;ncia de recursos pelo Estado a uma parte da popula&ccedil;&atilde;o, seja em dinheiro ou outros benef&iacute;cios, ou <i>"tax-and-transfer"</i>. A predistribui&ccedil;&atilde;o, por sua vez, faria uso da "engenharia de mercado", uma express&atilde;o de aparente sentido residual para designar outras medidas de interfer&ecirc;ncia sobre o mercado que n&atilde;o as de "tax-and-transfer".</p>     <p>Exemplos do que se pode entender como engenharia de mercado abundam. O'Neill e Williamson (2012, p. 2) referem-se a regras que favore&ccedil;am os trabalhadores ao facilitar a negocia&ccedil;&atilde;o coletiva das condi&ccedil;&otilde;es de trabalho. Marti (2013) cita algumas medidas pelas quais a legisla&ccedil;&atilde;o pode incentivar as corpora&ccedil;&otilde;es a investir de maneira socialmente respons&aacute;vel. Com um pano de fundo te&oacute;rico um pouco diverso, Hsu (2014) ressalta a influ&ecirc;ncia sobre a taxa de retorno do capital de algumas &aacute;reas do direito norte-americano cuja reforma poderia ajudar na redu&ccedil;&atilde;o da desigualdade:<a href="#12" name="v12"><sup>12</sup></a> as regras do mercado financeiro, excessivamente permissivas &agrave; assun&ccedil;&atilde;o de riscos; o direito antitruste, com sua neglig&ecirc;ncia a quest&otilde;es distributivas; vantagens fiscais para companhias de extra&ccedil;&atilde;o de petr&oacute;leo e g&aacute;s; restri&ccedil;&otilde;es a aplica&ccedil;&atilde;o de novas disposi&ccedil;&otilde;es regulat&oacute;rias a atividades j&aacute; iniciadas ("grandfathering"); e c&aacute;lculo tarif&aacute;rio da energia el&eacute;trica.</p>     <p>O problema de entender a distin&ccedil;&atilde;o entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o como distin&ccedil;&atilde;o entre engenharia de mercado e "tax-and-transfer" &eacute; saber se, feita assim, ela tem a for&ccedil;a necess&aacute;ria para concluir que somente um regime eminentemente predistributivo, como a DCP, &eacute; capaz de atender aos princ&iacute;pios da justi&ccedil;a de Rawls. O que h&aacute; de t&atilde;o importante na diferen&ccedil;a entre "tax-and-transfer" e engenharia de mercado para que um regime que fa&ccedil;a uso exclusivo ou predominante de pol&iacute;ticas do primeiro g&ecirc;nero seja falho &agrave; luz da justi&ccedil;a?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma primeira resposta tem a ver com a efic&aacute;cia: ainda que, em tese, possa-se dispersar a riqueza de uma maneira ou de outra, as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" se mostram menos propensas, de fato, a alcan&ccedil;ar tal resultado. Essa sugest&atilde;o tem a ver com a ideia de que a predistribui&ccedil;&atilde;o seja uma alternativa para circunst&acirc;ncias nas quais as pol&iacute;ticas de "tax-and- transfer" n&atilde;o contem com suficiente apoio pol&iacute;tico - nas palavras de O'Neill e Williamson (2012), para um "world of scepticism about government spending and hostility to taxation".<a href="#13" name="v13"><sup>13</sup></a> Embora as pol&iacute;ticas de "tax-and- transfer" pare&ccedil;am, de fato, ter-se tornado mais impopulares nos &uacute;ltimos anos, a resposta em quest&atilde;o &eacute;, claramente, circunstancial e, como tal, pouco adequada para quem queira tirar conclus&otilde;es definitivas sobre a propens&atilde;o de um tipo de regime &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a. Se &eacute; apenas de viabilidade pol&iacute;tica que se trata, n&atilde;o se pode fazer qualquer afirma&ccedil;&atilde;o geral sobre a superioridade da predistribui&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; redistribui&ccedil;&atilde;o; dependendo das circunst&acirc;ncias, o "tax-and-transfer", e n&atilde;o a engenharia de mercado, pode ser o meio mais promissor de reduzir as diferen&ccedil;as de riqueza.</p>     <p>Outra ressalva &eacute; que o argumento da efic&aacute;cia tem a sua validade limitada a condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais, em que os cidad&atilde;os n&atilde;o apresentem o senso de justi&ccedil;a caracter&iacute;stico de uma sociedade bem-ordenada no sentido de Rawls, isto &eacute;, a motiva&ccedil;&atilde;o para atuar segundo os princ&iacute;pios da justi&ccedil;a e para apoiar institui&ccedil;&otilde;es que se conformem a esses princ&iacute;pios (Rawls 1971, 1999, p. 4). Considerando-se que s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es ideais as que Rawls quase sempre tem em vista (Rawls, 1971, 1999, pp.7-8), seria estranho se o seu argumento em defesa da DCP e contra o CBE fosse um argumento apenas para condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais, tal como ter&iacute;amos caso limit&aacute;ssemos a raz&atilde;o para preferir a predistribui&ccedil;&atilde;o &agrave; redistribui&ccedil;&atilde;o (e a DCP ao CBE) &agrave; superior viabilidade pol&iacute;tica da primeira.</p>     <p>Outros argumentos aludem n&atilde;o &agrave; inefic&aacute;cia, mas sim &agrave; insufici&ecirc;ncia, do ponto de vista da justi&ccedil;a, das pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer". Esses argumentos s&atilde;o muito mais promissores para quem pretenda explicar a apregoada superioridade da DCP sobre o CBE com base na diferen&ccedil;a entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o. Dois argumentos assim podem ser cogitados. De acordo com um deles, as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" s&atilde;o falhas porque minam o autorrespeito dos cidad&atilde;os que delas dependem (O'Neill, 2012, pp. 88-89). Devido ao fato de as bases sociais do autorrespeito serem, para Rawls (1971, 1999, p. 386), "perhaps the most important primary good", meios de dispers&atilde;o da riqueza que promovam o autorrespeito dos cidad&atilde;os s&atilde;o, "ceteris paribus", prefer&iacute;veis em termos de justi&ccedil;a. Outro argumento afirma que as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" atentam contra a liberdade, entendida no sentido republicanista de "n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o".</p>     <p>O argumento de O'Neill acerca da rela&ccedil;&atilde;o entre predistribui&ccedil;&atilde;o e autorrespeito &eacute; repleto de refer&ecirc;ncias ao fato de a DCP dispersar o controle sobre o uso dos recursos produtivos.<a href="#14" name="v14"><sup>14</sup></a> Antes, j&aacute; observei que atribuir &agrave; DCP uma altera&ccedil;&atilde;o substancial do modo como s&atilde;o tomadas as decis&otilde;es quanto ao investimento e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o -para al&eacute;m daquilo que a dispers&atilde;o da riqueza acarreta por si mesma- tem como consequ&ecirc;ncia borrar a distin&ccedil;&atilde;o entre os regimes da DCP e do socialismo liberal. H&aacute; uma parte do argumento, contudo, que trata como amea&ccedil;a ao autorrespeito n&atilde;o a concentra&ccedil;&atilde;o do poder decis&oacute;rio sobre a produ&ccedil;&atilde;o, mas os benef&iacute;cios que as pol&iacute;ticas redistributivas outorgam a alguns cidad&atilde;os (O'Neill, 2012, p. 89):</p>      <blockquote>     <p>(T)he recipient of "welfare" payments may come to see himself as a pas- sive beneficiary, rather than as a free and equal individual with his own valuable plan of life, and of equal standing with his or her fellow citizens. The recipient of such <i>ex post</i> transfers may experience these transfers as the <i>source</i> of his diminished status, and thereby as the mechanism that undermines his self-respect.</p> </blockquote>      <p>Repare, em primeiro lugar, como o argumento do autorrespeito talvez tenha (a exemplo do argumento da efic&aacute;cia) sua validade circunscrita a condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais nas quais falte &agrave; maioria dos cidad&atilde;os um senso de justi&ccedil;a. &Eacute; sob tais condi&ccedil;&otilde;es, alegavelmente, que se podem encarar os resultados do mercado como "merecidos", com consequ&ecirc;ncias negativas para a autoestima<a href="#15" name="v15"><sup>15</sup></a> dos cidad&atilde;os cujos talentos n&atilde;o s&atilde;o "vend&aacute;veis". Em uma sociedade na qual os princ&iacute;pios da justi&ccedil;a como equidade foram adequadamente internalizados, em contrapartida, os resultados do mercado s&atilde;o, em geral, atribu&iacute;dos a uma distribui&ccedil;&atilde;o aleat&oacute;ria de aptid&otilde;es inatas sobre as quais ningu&eacute;m pode reclamar m&eacute;rito. A assist&ecirc;ncia estatal aos desfavorecidos deve ser percebida, em tal caso, como quest&atilde;o de direito e n&atilde;o de caridade ou condescend&ecirc;ncia.</p>     <p>&Eacute; importante definir, tamb&eacute;m, o quanto o dano ao autorrespeito &eacute; causado mais pela falta de ocupa&ccedil;&atilde;o do que pelas pol&iacute;ticas de "tax-and- transfer" propriamente ditas.<a href="#16" name="v16"><sup>16</sup></a> &Agrave; medida que a amea&ccedil;a ao autorrespeito decorra da desocupa&ccedil;&atilde;o, o primeiro ponto a considerar &eacute; que parte, ao menos, do argumento sobre a predistribui&ccedil;&atilde;o tem sua for&ccedil;a limitada a condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais em que certas modalidades de trabalho -como o trabalho dom&eacute;stico e o cuidado- n&atilde;o s&atilde;o reconhecidas como tais. Segundo, se &eacute; a falta de ocupa&ccedil;&atilde;o que mina o autorrespeito, a substitui&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" pela engenharia de mercado apenas contar&aacute; como solu&ccedil;&atilde;o se trouxer consigo redu&ccedil;&atilde;o do desemprego. Sem um maior detalhamento acerca de como o mercado &eacute; reorganizado pelas pol&iacute;ticas predistributivas, n&atilde;o se pode dizer se esse &eacute; ou n&atilde;o o caso.</p>     <p>Passemos ao argumento da liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o. Ao inv&eacute;s dos efeitos psicol&oacute;gicos, o que se afirma agora &eacute; que as pol&iacute;ticas de "tax- and-transfer" atentam contra a liberdade dos cidad&atilde;os que delas dependem. "Liberdade" se entende, a&iacute;, no sentido republicanista de "n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o". Pettit (2014) explica a diferen&ccedil;a entre liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o e liberdade como n&atilde;o-interfer&ecirc;ncia com o exemplo de Nora, personagem da pe&ccedil;a "Casa de Bonecas", de Henrik Ibsen. Nora &eacute; a esposa de um banqueiro, Torvald, e, tal como sucedia com as demais mulheres casadas na Europa do s&eacute;culo XIX, encontrava-se sujeita ao poder do marido. Torvald, no entanto, n&atilde;o interfere sobre a rotina de Nora, que &eacute; livre, por exemplo, para ir ao teatro &agrave; noite com uma amiga ao inv&eacute;s de ficar em casa na companhia do marido. Pettit diz, por isso, que Nora tem liberdade na acep&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o- interfer&ecirc;ncia, porque Torvald n&atilde;o a constrange, mas n&atilde;o liberdade no sentido de n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que ela s&oacute; age como quer porque o marido o consente. Segundo Pettit (2014, posi&ccedil;&atilde;o 658), a liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o requer que: "1. you have the room and the resources to enact the option you prefer, 2. Whatever your own preference over those options, and 3. Whatever the preference of any other as to how you should choose."</p>     <p>Pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" podem ser acusadas de manter os cidad&atilde;os que delas dependem sob o dom&iacute;nio dos demais.<a href="#17" name="v17"><sup>17</sup></a> Mesmo que a riqueza redistribu&iacute;da por essas pol&iacute;ticas permita fazer certas escolhas, o fato de os cidad&atilde;os que delas se beneficiam permanecerem subordinados &agrave; vontade do restante da popula&ccedil;&atilde;o e de seus governantes violaria a terceira e &uacute;ltima das condi&ccedil;&otilde;es enunciadas por Pettit.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Diferentemente dos anteriores, o argumento da liberdade como n&atilde;o- domina&ccedil;&atilde;o se aplica &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es ideais de uma sociedade bem-ordenada. O fato de as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" serem apoiadas por uma maioria de cidad&atilde;os motivada a atuar de acordo com os princ&iacute;pios da justi&ccedil;a como equidade n&atilde;o invalida a obje&ccedil;&atilde;o da depend&ecirc;ncia: enquanto n&atilde;o estiverem aptos a se sustentar, os cidad&atilde;os assistidos pelo Estado seguir&atilde;o sujeitos &agrave; boa-vontade dos demais.</p>     <p>Algumas ressalvas, no entanto. Primeiro, poder-se-ia p&ocirc;r em d&uacute;vida a ideia de que os cidad&atilde;os beneficiados pelas pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" estejam em situa&ccedil;&atilde;o substancialmente diferente da dos demais. Esses cidad&atilde;os dependem, &eacute; verdade, da continuidade de certas pol&iacute;ticas, mas n&atilde;o ser&aacute; esse tamb&eacute;m o caso, em maior ou menor medida, do restante da popula&ccedil;&atilde;o? Mesmo os ricos dependem do Estado para proteger suas vidas e para fazer valer os direitos de propriedade que os tornam ricos. O importante seria, ent&atilde;o -uma preocupa&ccedil;&atilde;o recorrente entre os republicanistas- evitar que o exerc&iacute;cio do poder estatal engendre rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, o que tem a ver com o modo como o Estado &eacute; organizado (por exemplo, com um sistema de freios e contrapesos) e tamb&eacute;m com a participa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os.</p>     <p>Apesar de a ressalva ser importante, creio que h&aacute; um sentido no qual a situa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os beneficiados pelos programas de "tax-and-transfer" &eacute; diferenci&aacute;vel da dos demais. Afora na hip&oacute;tese -extrema- de viola&ccedil;&atilde;o generalizada de direitos de propriedade, s&atilde;o os cidad&atilde;os em quest&atilde;o (quando realmente desocupados) que n&atilde;o t&ecirc;m a oferecer aos demais sequer a sua for&ccedil;a de trabalho. Devido &agrave; falta de poder de barganha, eles se encontram, pois, em uma posi&ccedil;&atilde;o de especial vulnerabilidade, at&eacute; mesmo no caso de uma sociedade bem-ordenada (mas, sobretudo, nas que n&atilde;o o sejam).</p>     <p>O argumento da liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o perde for&ccedil;a, por outro lado, quando o benef&iacute;cio estatal n&atilde;o &eacute; prestado de maneira continuada. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; transfer&ecirc;ncia de renda, portanto, trata-se de um argumento que se op&otilde;e a programas de renda m&iacute;nima,<a href="#18" name="v18"><sup>18</sup></a> mas n&atilde;o aos de "outorga de capital" ("capital grant"), tais como o proposto por Ackerman e Alstott (1999), em que a transfer&ecirc;ncia ocorre uma &uacute;nica vez.</p>     <p>Note, por fim, que, diferentemente do argumento da efic&aacute;cia, os argumentos sobre os efeitos perversos das pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" para o autorrespeito e a liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o nada t&ecirc;m contra a tributa&ccedil;&atilde;o em si. Logo, se as raz&otilde;es para preferir a engenharia de mercado estiverem relacionadas ao autorrespeito e &agrave; liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o, faz sentido incluir a tributa&ccedil;&atilde;o entre as medidas pelas quais o mercado &eacute; ordenado (por exemplo, subs&iacute;dios fiscais para evitar a dispensa de trabalhadores).</p>     <p><font size="3"><b>Predistribui&ccedil;&atilde;o, redistribui&ccedil;&atilde;o e resultados do mercado</b></font></p>     <p>Outra interpreta&ccedil;&atilde;o acerca da distin&ccedil;&atilde;o entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o gira em torno da ideia de "resultados do mercado". De acordo com essa interpreta&ccedil;&atilde;o, predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o se diferenciam porque, enquanto a primeira procura fazer com que o mercado tenha resultados mais equ&acirc;nimes, a segunda aguarda que esses resultados se verifiquem para, s&oacute; depois, tratar de corrigi-los. Em contraste com a diferencia&ccedil;&atilde;o feita anteriormente, &eacute; poss&iacute;vel, agora, reputar certas pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" como predistributivas caso elas se destinem a surtir efeitos a longo prazo sobre os resultados do mercado. Faz sentido, por exemplo, reputar propostas de outorga de capital como as de Ackerman e Alstott (1999) e Williamson (2012) como predistributivas: ao conceder a cada cidad&atilde;o uma certa quantidade de recursos destinada a tornar as rela&ccedil;&otilde;es de mercado mais parit&aacute;rias, seja pela facilita&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o superior, seja pela independ&ecirc;ncia que a riqueza proporciona, o que se pretende n&atilde;o &eacute; apenas satisfazer a necessidades imediatas que a desigualdade proveniente do mercado engendra, mas reduzir, a longo prazo, essa desigualdade.</p>     <p>Este outro modo de distinguir predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o suscita, no entanto, uma dificuldade: ser&aacute; poss&iacute;vel chegar a uma defini&ccedil;&atilde;o n&atilde;o arbitr&aacute;ria do que sejam os resultados do mercado, a qual permita, ent&atilde;o, uma separa&ccedil;&atilde;o fundada das pol&iacute;ticas predistributivas e redistributivas?</p>     <p>Na passagem transcrita acima, &eacute; evidente que O'Neill e Williamson (2012) tratam como resultado do mercado a renda n&atilde;o tributada ("before government collects taxes"). Isso, no entanto, soa t&atilde;o arbitr&aacute;rio quanto dizer que h&aacute; direito de propriedade sobre a renda n&atilde;o tributada. Por que n&atilde;o dizer, ao contr&aacute;rio, que a tributa&ccedil;&atilde;o &eacute; parte das "regras do jogo", e que os resultados do mercado s&atilde;o, portanto, os verificados ap&oacute;s a incid&ecirc;ncia dos tributos? Em tal hip&oacute;tese, tanto o regramento da negocia&ccedil;&atilde;o coletiva quanto o imposto sobre a renda das corpora&ccedil;&otilde;es seriam anteriores aos resultados do mercado, isto &eacute;, determinariam esses resultados ao inv&eacute;s de meramente corrigi-los.<a href="#19" name="v19"><sup>19</sup></a> Pode-se ponderar, n&atilde;o obstante, que as pessoas percebem a renda n&atilde;o tributada como resultado do mercado. Segundo a percep&ccedil;&atilde;o comum, uma medida que favorece as organiza&ccedil;&otilde;es sindicais &eacute; parte das "regras do jogo"; j&aacute; a tributa&ccedil;&atilde;o, em contrapartida, atua, em geral, sobre os resultados do jogo, corrigindo-os. Essa alega&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apta, contudo, a dar &agrave; distin&ccedil;&atilde;o entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o o peso normativo que se pretende ao descrever a DCP como regime predistributivo. Quando muito, o fato de se perceber ou n&atilde;o que uma medida retifica os resultados do mercado pode ter import&acirc;ncia se estivermos preocupados com a viabilidade pol&iacute;tica (sob condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais, portanto) de diferentes instrumentos de dispers&atilde;o da riqueza.<a href="#20" name="v20"><sup>20</sup></a></p>     <p><font size="3"><b>S&iacute;ntese e breve an&aacute;lise de algumas cr&iacute;ticas &agrave; DCP</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A primeira se&ccedil;&atilde;o do artigo apresentou a DCP como um regime caracterizado por um certo resultado, a saber, a dispers&atilde;o do capital. Nela, argumentei que h&aacute; boas raz&otilde;es para tratar os termos "capital" (com exce&ccedil;&atilde;o do capital humano) e "riqueza" como equivalentes. N&atilde;o h&aacute; por que atribuir import&acirc;ncia especial &agrave; dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria, tendo em vista a facilidade com que outras modalidades de riqueza podem ser transformadas em a&ccedil;&otilde;es e o fato de a dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria n&atilde;o assegurar, por si s&oacute;, a dispers&atilde;o do controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o. Outra proposta, que &eacute; definir a DCP como regime que dispersa o controle, e n&atilde;o apenas a propriedade dos bens de produ&ccedil;&atilde;o, borra a linha que separa a DCP e o socialismo.</p>     <p>Na segunda se&ccedil;&atilde;o, considerei a possibilidade de caracterizar a DCP com base n&atilde;o apenas no resultado da dispers&atilde;o da riqueza, mas no meio de chegar a ele. A ideia, ent&atilde;o, &eacute; que DCP seja entendida como regime que dispersa a riqueza predistributivamente. O sentido da distin&ccedil;&atilde;o entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o, no entanto, &eacute; d&uacute;bio. Segundo uma interpreta&ccedil;&atilde;o, a redistribui&ccedil;&atilde;o corresponde &agrave;s pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer", e a predistribui&ccedil;&atilde;o a outras medidas de interfer&ecirc;ncia ou "engenharia de mercado". H&aacute; raz&otilde;es de variada ordem para entender a distin&ccedil;&atilde;o entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o assim. A uma, porque, tal como definida, a predistribui&ccedil;&atilde;o pode ser um meio mais eficaz ou politicamente vi&aacute;vel de dispersar a riqueza. A duas, porque as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" s&atilde;o falhas em termos de justi&ccedil;a, por solaparem o autorrespeito ou por ofenderem a liberdade (no sentido republicanista de n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o) dos cidad&atilde;os que delas dependem. Quanto a esses argumentos, manifestei a ressalva de que eles se referem, em parte (o argumento da efic&aacute;cia e tamb&eacute;m, possivelmente, o do autorrespeito), a sociedades em que n&atilde;o esteja disseminado o senso de justi&ccedil;a que Rawls atribui aos cidad&atilde;os de uma sociedade bem-ordenada. Pode-se alegar, ainda, que os argumentos em quest&atilde;o n&atilde;o se voltam contra as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" em si mesmas (caso do argumento do autorrespeito, que pode antes se referir &agrave; falta de ocupa&ccedil;&atilde;o) ou n&atilde;o contra a totalidade delas (caso do argumento da liberdade como n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o, que se restringe &agrave;s pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" em que os benef&iacute;cios s&atilde;o prestados de maneira continuada).</p>     <p>Outra interpreta&ccedil;&atilde;o designa como pol&iacute;ticas predistributivas as que procuram reduzir a desigualdade causada pelo mercado, ao inv&eacute;s de permitir que essa desigualdade se verifique primeiro para, s&oacute; ent&atilde;o, corrigi-la (o que seria caracter&iacute;stico das pol&iacute;ticas redistributivas). O problema dessa distin&ccedil;&atilde;o, como visto, &eacute; que ela parece tratar como "resultado do mercado" a renda n&atilde;o tributada, o que s&oacute; n&atilde;o &eacute; arbitr&aacute;rio se estivermos preocupados, mais uma vez, com a viabilidade pol&iacute;tica da tributa&ccedil;&atilde;o como meio de dispers&atilde;o da riqueza.</p>     <p>Tendo em vista a an&aacute;lise feita at&eacute; aqui, gostaria de examinar agora algumas cr&iacute;ticas feitas &agrave; DCP. Deixarei de lado, contudo, cr&iacute;ticas ao fato de a DCP n&atilde;o incluir reformas na propriedade ou controle dos meios da produ&ccedil;&atilde;o rumo ao socialismo (Schweickart, 2012). A discuss&atilde;o sobre os m&eacute;ritos comparados da DCP e do socialismo liberal &eacute; importante, por &oacute;bvio, mas n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para faz&ecirc;-la aqui. Tamb&eacute;m n&atilde;o tratarei de manifesta&ccedil;&otilde;es que, embora cr&iacute;ticas, possam se classificar como "emendas amistosas", como as de White (2012), para quem uma DCP est&aacute;vel requer uma interpreta&ccedil;&atilde;o republicanista das liberdades b&aacute;sicas, ou Hussain (2012), que defende uma DCP na qual as decis&otilde;es individuais sejam em parte suplantadas pelas de &oacute;rg&atilde;os representativos (o que ele designa como "corporatismo democr&aacute;tico"<i>,</i> "democratic corporatism"). Minha aten&ccedil;&atilde;o estar&aacute; limitada, assim, a cr&iacute;ticas a DCP como alternativa a regimes capitalistas e, em particular, ao CBE.</p>     <p>Para Weale (2013), o contraste entre CBE e DCP &eacute; o contraste entre um regime de redistribui&ccedil;&atilde;o "horizontal" (o CBE), ou de transfer&ecirc;ncia de recursos no ciclo-de-vida de um mesmo cidad&atilde;o, e um regime de redistribui&ccedil;&atilde;o "vertical" (a DCP), baseado em transfer&ecirc;ncias de recursos entre cidad&atilde;os. Considerando isso, duas preocupa&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; DCP s&atilde;o manifestadas, ambas baseadas na presun&ccedil;&atilde;o de que, ao dispersar a riqueza, a DCP substitua a seguridade social pelas decis&otilde;es de cada cidad&atilde;o, isto &eacute;: cada um, com os recursos de que disp&otilde;e, &eacute; incumbido de se precaver, mediante poupan&ccedil;a ou contrata&ccedil;&atilde;o de seguro, contra os riscos a que est&aacute; sujeito. O primeiro problema que adv&eacute;m disso &eacute; que falhas de mercado impe&ccedil;am os cidad&atilde;os de gozar da prote&ccedil;&atilde;o que desejam contra riscos como doen&ccedil;as e envelhecimento (Weale, 2013, p. 50). O segunda &eacute; que, por n&atilde;o instituir poupan&ccedil;a compuls&oacute;ria, a DCP atente contra um princ&iacute;pio de justi&ccedil;a entre gera&ccedil;&otilde;es (Weale, 2013, pp. 51-52).</p>     <p>A quest&atilde;o, por&eacute;m, &eacute; se uma dispers&atilde;o da riqueza na medida ambicionada por uma DCP requer, de fato, que parte substancial das contribui&ccedil;&otilde;es para a seguridade social caracter&iacute;sticas do CBE seja usada para aumentar a renda dos mais pobres. Tendo em vista que a seguridade social costuma ser financiada pela grande parcela da popula&ccedil;&atilde;o economicamente ativa, uma solu&ccedil;&atilde;o para dispersar riqueza sem abrir m&atilde;o da seguridade social consistiria em aumentar a carga fiscal dos mais ricos apenas (em particular, do 1% mais rico), preservando, assim, a capacidade de contribui&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o em geral.</p>     <p>Vallier (2015) ataca a DCP em duas frentes. Em condi&ccedil;&otilde;es ideais, que ele define como condi&ccedil;&otilde;es de disseminada obedi&ecirc;ncia &agrave;s regras, a DCP enfrentaria um problema de incentivo, j&aacute; que, com a dispers&atilde;o da riqueza, desincentivam-se as atividades capazes de acumul&aacute;-la (Vallier 2015, p. 289). Al&eacute;m disso, h&aacute; o problema da grande quantidade de informa&ccedil;&atilde;o de que os &oacute;rg&atilde;os de Estado necessitariam para a regula&ccedil;&atilde;o do mercado, a qual envolveria fazer "specific numerical judgments about appropriate price- levels, wage-levels, stock distributions, and the like" (Vallier, 2015, p. 293). Sob condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais, acrescentar-se-ia a esses problemas o da captura dos &oacute;rg&atilde;os reguladores por grupos de interesse, um problema que, embora encontrado em outros regimes, seria agravado devido ao "extraordinary power" (Vallier, 2015, p. 295) conferido ao Estado em uma DCP.</p>     <p>Vallier tem raz&atilde;o quanto ao risco de desincentivo a atividades que levem ao ac&uacute;mulo de riqueza. Esse desincentivo &eacute;, de fato, uma consequ&ecirc;ncia de qualquer regime que se caracterize pela dispers&atilde;o da riqueza, e &eacute; um problema que se agrava em uma DCP caso entendamos que o que a diferencia do CBE &eacute;, justamente, a medida com que essa dispers&atilde;o &eacute; realizada. &Eacute; pr&oacute;prio de qualquer regime baseado no princ&iacute;pio da diferen&ccedil;a de Rawls procurar meios de combate &agrave; desigualdade que sejam o menos danosos poss&iacute;vel aos cidad&atilde;os em pior situa&ccedil;&atilde;o. Admitindo-se que nem todas as pol&iacute;ticas de dispers&atilde;o da riqueza desincentivem em mesma medida atividades socialmente desej&aacute;veis, uma DCP deve dar prefer&ecirc;ncia a dispersar a riqueza valendo-se de instrumentos cujo efeito desincentivador seja menor.<a href="#21" name="v21"><sup>21</sup></a></p>     <p>Os outros dois pontos da cr&iacute;tica de Vallier baseiam-se na suposi&ccedil;&atilde;o de que uma DCP requer "incredibly large and powerful bureaucracies" (2015, p. 293), as quais enfrentariam os problemas de obter a informa&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria ao adequado desempenho de suas tarefas e, em condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais, o risco de captura. Para justificar essa suposi&ccedil;&atilde;o, Vallier (2015, p. 286) compara quatro fun&ccedil;&otilde;es governamentais de uma DCP segundo a descri&ccedil;&atilde;o de Rawls (1971, 1999, se&ccedil;&atilde;o 43) -alocativa, estabilizadora, transferidora e distributiva- com o CBE:</p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Note that welfare states contain many of the same branches, but with more restrictive functions. In a welfare state, the allocation branch will not pre- vent the formation of "unreasonable" market power, but will correct for market inefficiences, whereas the distribution and transfer branches will simply ensure that social safety nets are adequately funded through redis- tributive taxation. The function of the stabilization branch is similar under both regime types, though welfare state capitalism will tend to realize sta- bilization, transfer and distribution functions through less coercive means, perhaps by relying largely on redistributive taxation and Keynesian fiscal and monetary stimulus, while forgoing the deliberate transfer of capital stock.</p> </blockquote>      <p>Nada assegura, entretanto, que a fun&ccedil;&atilde;o alocativa - a qual concerne, em resumo, &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o da concorr&ecirc;ncia e ao combate a falhas de mercado em geral - em uma DCP esteja voltada a algum objetivo outro que n&atilde;o a efici&ecirc;ncia, sem se distinguir, pois, do modo como essa fun&ccedil;&atilde;o &eacute; exercida, segundo a descri&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Vallier, no CBE. Se &eacute; apenas da dispers&atilde;o da riqueza que estamos falando, lembre-se que isso n&atilde;o &eacute; o mesmo que dispers&atilde;o da propriedade dos bens de produ&ccedil;&atilde;o, e que, no que se refere a esses bens, uma DCP pode se contentar com a dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria, o que &eacute; igualmente compat&iacute;vel com um mercado mais ou menos oligopolizado. &Eacute; verdade que, tendo em vista a sua maior ambi&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; dispers&atilde;o da riqueza, uma DCP pode atribuir &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o antitruste algum objetivo outro que n&atilde;o meramente a efici&ecirc;ncia (tal como defende Hsu, 2014, pp. 21-29), e que, em um dos sentidos do termo "predistribui&ccedil;&atilde;o", medidas antitruste pertencem &agrave; "engenharia de mercado" que &eacute; preferida &agrave;s pol&iacute;ticas de "tax- and-transfer" como meio de dispersar a riqueza. N&atilde;o &eacute; claro, entretanto, o quanto tal mudan&ccedil;a de objetivo dependeria de um incremento dos &oacute;rg&atilde;os estatais encarregados da tarefa em um CBE e o quanto, ao contr&aacute;rio, poderia ter lugar por meio de uma mera reorienta&ccedil;&atilde;o da atividade desses &oacute;rg&atilde;os.</p>     <p>A afirma&ccedil;&atilde;o de que o CBE desempenha as fun&ccedil;&otilde;es estabilizadora, transferidora e distributiva "through less coercive means, perhaps by relying largely on redistributive taxation and Keynesian fiscal and monetary stimulus" (Vallier, 2015, p. 286) contradiz a ideia de que, como regime que se diferencia do CBE apenas pela medida com que a riqueza &eacute; dispersada, a DCP pode se valer eminentemente de pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer". Quando n&atilde;o, isto &eacute;, quando entendida como regime predistributivo (em um dos sentidos que se pode atribuir ao termo), a DCP deve, de fato, fazer uso com mais frequ&ecirc;ncia de meios n&atilde;o fiscais para dispersar a riqueza (embora a tributa&ccedil;&atilde;o possa fazer parte das medidas de "engenharia de mercado"). &Eacute; dif&iacute;cil avaliar, no entanto, a alega&ccedil;&atilde;o de que esses outros meios s&atilde;o mais coercivos do que a tributa&ccedil;&atilde;o. Vallier faz v&aacute;rias afirma&ccedil;&otilde;es nas quais parece atribuir a uma DCP restri&ccedil;&otilde;es consider&aacute;veis &agrave; compra e venda de a&ccedil;&otilde;es. Essa &eacute; uma interpreta&ccedil;&atilde;o provocada, possivelmente, pela suposi&ccedil;&atilde;o de que o objetivo da dispers&atilde;o do capital seja algo diferente da dispers&atilde;o da riqueza. Nenhuma das descri&ccedil;&otilde;es da DCP que Vallier tem em vista, contudo, faz refer&ecirc;ncia expl&iacute;cita a restri&ccedil;&otilde;es ao mercado acion&aacute;rio al&eacute;m das contidas na proposta de outorga de capital de Williamson (2012), que inclui, entre os 50 mil d&oacute;lares a serem concedidos a cada cidad&atilde;os, a&ccedil;&otilde;es que, embora n&atilde;o liquid&aacute;veis, podem ser permutadas por a&ccedil;&otilde;es de outras companhias.<a href="#22" name="v22"><sup>22</sup></a> </p>     <p>&Eacute; o caso de perguntar, por fim, se h&aacute; alguma raz&atilde;o para supor que a DCP requeira um aparato estatal mais encorpado do que o do CBE. Se considerarmos apenas o objetivo da dispers&atilde;o da riqueza, parece plaus&iacute;vel concluir que, em boa medida, o que diferenciaria uma DCP das vers&otilde;es conhecidas de CBE n&atilde;o &eacute; o tamanho do Estado, mas as consequ&ecirc;ncias distributivas das suas a&ccedil;&otilde;es. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; tributa&ccedil;&atilde;o, por exemplo, a DCP pode se diferenciar do CBE n&atilde;o tanto por tributar mais, mas por tributar mais precisamente. Quanto &agrave;s demais &aacute;reas, cr&iacute;ticas como a de Vallier parecem se basear na falsa premissa de que a desigualdade &eacute; um resultado "natural" do mercado, de modo que, quanto menos desigualdade quisermos, de mais interven&ccedil;&atilde;o estatal precisaremos. Essa premissa &eacute; falsa, porque nenhum mercado causa desigualdade "naturalmente", isto &eacute;, sem a interven&ccedil;&atilde;o do Estado para definir direitos de propriedade e faz&ecirc;-los valer.</p>     <p>Dito isso, n&atilde;o parece de descartar a hip&oacute;tese de que uma DCP exija, de fato, um aparato estatal um pouco maior do que o CBE. Levando em conta apenas o objetivo da dispers&atilde;o da riqueza, tal hip&oacute;tese se funda no fato de a DCP se caracterizar por uma maior precis&atilde;o distributiva das suas pol&iacute;ticas, precis&atilde;o essa que pode depender, em parte, de maior investimento na m&aacute;quina p&uacute;blica. Aqui vale como ressalva, no entanto, a expectativa "predistributiva" de que uma DCP que privilegie a engenharia de mercado consiga, de fato, reduzir a necessidade das pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer", poupando recursos que o CBE consome com tais pol&iacute;ticas.</p>     <p><font size="3"><b>Conclus&atilde;o</b></font></p>     <p>Boa parte deste trabalho foi dedicada a definir em que consiste a "democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios" (DCP), um dos regimes que Rawls considera prop&iacute;cios a satisfazer os princ&iacute;pios da sua concep&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a (a "justi&ccedil;a como equidade"). Na primeira se&ccedil;&atilde;o, considerei a possibilidade de a DCP ser um regime caracterizado pela dispers&atilde;o do capital. A principal quest&atilde;o a examinar, ent&atilde;o, &eacute; se "dispers&atilde;o do capital" e "dispers&atilde;o da riqueza" s&atilde;o no&ccedil;&otilde;es distintas. Pondo de lado o capital humano e a hip&oacute;tese de a DCP ser concebida como regime no qual grandes corpora&ccedil;&otilde;es s&atilde;o banidas, argumentei n&atilde;o haver maior raz&atilde;o para distinguir dispers&atilde;o do capital e da riqueza, j&aacute; que a propriedade acion&aacute;ria pode ser facilmente transformada em outras modalidades de riqueza e n&atilde;o assegura, por si mesma, qualquer controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, entender que dispers&atilde;o do capital significa dispers&atilde;o do controle sobre os bens de produ&ccedil;&atilde;o torna dif&iacute;cil distinguir a DCP do outro regime que Rawls reputa apto &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a, o socialismo liberal.</p>     <p>A segunda se&ccedil;&atilde;o tratou da DCP como regime que dispersa a riqueza valendo-se da "predistribui&ccedil;&atilde;o" -em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave; "redistribui&ccedil;&atilde;o" caracter&iacute;stica do capitalismo de bem-estar (CBE). Sobre a diferen&ccedil;a entre predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o, duas propostas foram avaliadas. A primeira &eacute; que a redistribui&ccedil;&atilde;o se defina pela tributa&ccedil;&atilde;o seguida da transfer&ecirc;ncia de recursos pelo Estado a uma parte da popula&ccedil;&atilde;o, em dinheiro ou outros benef&iacute;cios- em outras palavras, por pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer", enquanto a predistribui&ccedil;&atilde;o consista na dispers&atilde;o da riqueza por outros meios, designados, genericamente, como "engenharia de mercado". O risco de fazer a distin&ccedil;&atilde;o em tais moldes &eacute; torn&aacute;-la importante apenas para condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais, em que a maioria dos cidad&atilde;os n&atilde;o esteja motivada a apoiar institui&ccedil;&otilde;es justas e as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" se mostrem menos vi&aacute;veis politicamente. Aventei, contudo, a possibilidade de haver argumentos de princ&iacute;pio -relacionados ao autorrespeito e, sobretudo, &agrave; liberdade, no sentido republicanista de n&atilde;o-domina&ccedil;&atilde;o- para preferir a engenharia de mercado &agrave;s pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer".</p>     <p>Outra maneira de distinguir predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o &eacute; dizer que a primeira procura influenciar o mercado de maneira a que seus resultados sejam menos desiguais, ao inv&eacute;s de (como fazem as pol&iacute;ticas redistributivas) permitir que esses resultados primeiro ocorram para, s&oacute; depois, corrigi-los. Contra essa distin&ccedil;&atilde;o, afirmei que &eacute; arbitr&aacute;ria a ideia, na qual ela aparentemente se baseia, de tratar como "resultado do mercado" a renda n&atilde;o tributada, a n&atilde;o ser que estejamos, mais uma vez, preocupados com condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais em que parte substancial dos cidad&atilde;os perceba a renda n&atilde;o tributada como resultado "leg&iacute;timo" do mercado, criando, com isso, dificuldade para a dispers&atilde;o da riqueza por meio da tributa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A conclus&atilde;o &eacute; que, com a ressalva dos argumentos contra as pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer" (em parte aplic&aacute;veis apenas a condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ideais), a melhor maneira de conceber a DCP -diferenciando-a, ao mesmo tempo, do capitalismo de bem-estar (CBE) e do socialismo liberal- &eacute; como regime que dispersa a riqueza. &Eacute; poss&iacute;vel que muitos tenham resistido a essa interpreta&ccedil;&atilde;o at&eacute; hoje por julg&aacute;-la insuficiente para diferenciar a DCP e o CBE, um regime caracterizado por pol&iacute;ticas de assist&ecirc;ncia aos mais pobres. Quanto a isso, &eacute; poss&iacute;vel que o trabalho de Piketty (2014) sobre o crescimento da desigualdade em pa&iacute;ses tidos como exemplos emblem&aacute;ticos de "welfare state" torne mais n&iacute;tida a diferen&ccedil;a entre a DCP -como regime equipado para manter a riqueza dispersa ao longo do tempo- e o CBE.<a href="#23" name="v23"><sup>23</sup></a> Rawls n&atilde;o dispunha, &eacute; claro, dos dados reunidos por Piketty e sua equipe quando escreveu sobre a DCP. Embora, pois, ele possivelmente n&atilde;o tenha pretendido limitar a diferen&ccedil;a entre a DCP e o CBE &agrave; dispers&atilde;o da riqueza, essa talvez seja, ao fim e ao cabo, uma maneira consistente de separar os dois regimes e -como o trabalho de Piketty agora sugere- n&atilde;o contradit&oacute;ria com a trajet&oacute;ria de longo prazo do CBE.<a href="#24" name="v24"><sup>24</sup></a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>Citas de pie de p&aacute;gina</i></font></p>      <p><a href="#v1" name="1"><sup>1</sup></a>Para uma an&aacute;lise cr&iacute;tica desses argumentos, v. O'Neill (2012).</p>      <p><a href="#v2" name="2"><sup>2</sup></a>No pref&aacute;cio &agrave; edi&ccedil;&atilde;o revista de <i>A Theory of Justice</i> (1999 (1971), XIV), Rawls afirma que "property-owning democracy (...) tries to disperse de ownership of wealth and capital"; em <i>Justice as Fairness: A Restatement</i> (2001, p. 139), h&aacute; uma frase similar: "the background institutions of property-owning democracy work to disperse de ownership of wealth and capital".</p>     <p><a href="#v3" name="3"><sup>3</sup></a>Que a DCP seja caracterizada como regime que dispersa o capital n&atilde;o significa que esse resultado tenha de ser considerado como fim em si mesmo. Pode-se estimar a dispers&atilde;o do capital por suas consequ&ecirc;ncias culturais (Wesche, 2013), para o trabalho (Hsieh, 2012) ou para o autorrespeito (O'Neill, 2012, pp. 88-89).</p>     <p><a href="#v4" name="4"><sup>4</sup></a>A refer&ecirc;ncia aparece logo ap&oacute;s a passagem transcrita anteriormente (Rawls, 2001, p. 139): "ensuring the widespread ownership of productive assets and human capital (that is, education and training skills)".</p>     <p><a href="#v5" name="5"><sup>5</sup></a>V. a passagem transcrita na nota anterior.</p>     <p><a href="#v6" name="6"><sup>6</sup></a>A julgar pelo relato de Jackson (2012), a ideia da DCP como sociedade constitu&iacute;da unicamente por pequenos produtores n&atilde;o goza de qualquer popularidade desde o s&eacute;culo XVIII.</p>     <p><a href="#v7" name="7"><sup>7</sup></a>A dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria &eacute; parte da proposta de Williamson (2012) para uma DCP norte-americana, que inclui a concess&atilde;o a cada cidad&atilde;o adulto de um total de 50 mil d&oacute;lares, dos quais 10 mil em t&iacute;tulos permut&aacute;veis unicamente por a&ccedil;&otilde;es. Schefczyk (2013, p. 210) exemplifica maneiras pelas quais se pode dispersar a propriedade acion&aacute;ria: "one could imagine that transfers are partly given in kind, for instance in form of the stock of nationalised companies; or by giving citizens shares in government funds; or mandatory employee stock ownership programs." Caso estejamos interessados apenas na dispers&atilde;o da propriedade acion&aacute;ria, no entanto, &eacute; irrelevante se as a&ccedil;&otilde;es que um trabalhador s&atilde;o da companhia para a qual trabalha ou de outra.</p>     <p><a href="#v8" name="8"><sup>8</sup></a>Piketty (2014, posi&ccedil;&atilde;o 890) usa "riqueza" e "capital" (com exclus&atilde;o do capital humano) como equivalentes.</p>     <p><a href="#v9" name="9"><sup>9</sup></a>V., e.g., O'Neill (2012, 89): "Only by making sure that the structure of the economy is such as to broadly disperse control over productive resources, therefore, can we ensure that all citizens are able to have this 'lively sense' of their own agency, and in so doing to head off the possibilities of harmful inequalities of power and status. In this way, the institutions of a property-owning democracy should be able to overcome problems of domination and social inequality in a way that the institutions of a capitalist welfare state are structurally incapable of doing." N&atilde;o &eacute; de surpreender, portanto, que O'Neill (2012, 76) veja "pouca diferen&ccedil;a real" ("little real difference") entre a DCP e o socialismo liberal, descrevendo a diferen&ccedil;a entre os dois regimes como limitada a "rela&ccedil;&otilde;es formais de propriedade" ("formal property relations"). N&atilde;o fica claro, entretanto, em que os direitos formais de propriedade da DCP e do socialismo liberal se diferenciariam. Se a DCP dispersar a propriedade acion&aacute;ria sem garantir aos trabalhadores direito de voto, &eacute; plaus&iacute;vel que a diferen&ccedil;a real entre os regimes seja consider&aacute;vel, n&atilde;o obstante o fato de a dispers&atilde;o da riqueza (n&atilde;o necessariamente da propriedade acion&aacute;ria) aumentar a independ&ecirc;ncia dos trabalhadores e com isso influenciar, como argumenta Hsieh (2012), as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#v10" name="10"><sup>10</sup></a>O termo "predistribution" &eacute; de Hacker (2011). Ele foi usado nos &uacute;ltimos anos pelo l&iacute;der do partido brit&acirc;nico, Ed Miliband, para designar algumas de suas propostas. Miliband renunciou ao cargo ap&oacute;s a derrota nas elei&ccedil;&otilde;es de maio de 2015.</p>     <p><a href="#v11" name="11"><sup>11</sup></a>O que segue &eacute; uma revis&atilde;o do que escrevi acerca do tema em um artigo anterior (Zanitelli, 2015b).</p>     <p><a href="#v12" name="12"><sup>12</sup></a>Baseando-se em Piketty (2014), Hsu atribui a desigualdade &agrave; diferen&ccedil;a entre <i>r</i>, a taxa de remunera&ccedil;&atilde;o do capital, e <i>g</i>, a taxa de crescimento da economia. O que ele prop&otilde;e, em consequ&ecirc;ncia, s&atilde;o reformas legais que diminuam a diferen&ccedil;a entre <i>r</i> e <i>g</i>.</p>     <p><a href="#v13" name="13"><sup>13</sup></a>A preocupa&ccedil;&atilde;o com as chances de sucesso de um projeto de dispers&atilde;o da riqueza baseado em "tax-and-transfer" &eacute; uma clara motiva&ccedil;&atilde;o de Hacker (2011, p. 35) ao distinguir predistribui&ccedil;&atilde;o e redistribui&ccedil;&atilde;o: "excessive reliance on redistribution fosters backlash, making taxes more salient and feeding into the conservative crique that government simply meddles with 'natural' market rewards." Hsu (2014, p. 6) afirma que uma mudan&ccedil;a das regras do mercado "would obviate the need for Piketty's proposed reform, a global wealth tax, which he acknowledges faces very high political obstacles in the near term (notas de rodap&eacute; omitidas)." V., ainda, Fennell e McAdams (2015), sobre as raz&otilde;es pelas quais os "custos da a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica" para a distribui&ccedil;&atilde;o por meio da tributa&ccedil;&atilde;o podem ser maiores do que os da distribui&ccedil;&atilde;o baseada em outras disposi&ccedil;&otilde;es legais. Dagan (2014), por sua vez, lembra de uma outra raz&atilde;o, n&atilde;o relacionada &agrave; falta de apoio pol&iacute;tico, para que medidas fiscais de distribui&ccedil;&atilde;o sejam comparativamente ineficazes: a facilidade (maior, quando se compara a tributa&ccedil;&atilde;o com outros meios legais) dos contribuintes para alterar a jurisdi&ccedil;&atilde;o a que est&atilde;o subordinados.</p>     <p><a href="#v14" name="14"><sup>14</sup></a>V., e.g., O'Neill (2012, p. 88): "Only <i>ex ante</i> mechanisms, which challenged the ruling group's position of dominance by, for example, granting more control over productive capital to others, will be able to head off inequalities of wealth, inequalities of power (thereby preventing relations of domination), and their associated inequalities of status (thereby preventing the erosion of self-respect of the subordinate group)."</p>     <p><a href="#v15" name="15"><sup>15</sup></a>O'Neill nitidamente interpreta o autorrespeito de Rawls como autoestima. Para uma diferencia&ccedil;&atilde;o, v. Darwall (1977).</p>     <p><a href="#v16" name="16"><sup>16</sup></a>Schefczyk (2013, pp. 200-202) atribui a Rawls a ideia de que o autorrespeito depende do trabalho, mas a critica.</p>     <p><a href="#v17" name="17"><sup>17</sup></a>Hsieh (2012, p. 156) reclama do fato de os benefici&aacute;rios das pol&iacute;ticas de "tax-and- transfer" estarem subordinados a uma decis&atilde;o estatal e n&atilde;o gozarem, portanto, do mesmo "degree of independence and security" dos donos do capital. Dagger (2006, p. 166) alude, por sua vez, &agrave; incongru&ecirc;ncia entre o republicanismo e "the dependence on government or the dole that is frequently attributed to welfare programs." O'Neill (2012, p. 88) afirma que as institui&ccedil;&otilde;es do CBE s&atilde;o incapazes de resolver problemas de domina&ccedil;&atilde;o, mas parece ter em vista n&atilde;o a depend&ecirc;ncia &agrave;s pol&iacute;ticas de "tax-and-transfer", mas a falta de controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o. Outros autores (Thomas, 2012; Williamson, 2012, p. 226) salientam a afinidade entre a DCP de Rawls e o republicanismo devido &agrave; dispers&atilde;o da riqueza em si, e n&atilde;o ao modo como ela &eacute; realizada.</p>     <p><a href="#v18" name="18"><sup>18</sup></a>O que n&atilde;o significa que n&atilde;o haja raz&otilde;es republicanistas em favor de programas de renda m&iacute;nima. Sobre isso, v. Dagger (2006, p. 166).</p>     <p><a href="#v19" name="19"><sup>19</sup></a>Poder-se-ia tentar distinguir os dois casos da seguinte maneira: o regramento da negocia&ccedil;&atilde;o coletiva &eacute; anterior aos resultados do mercado (e, nesse sentido, predistributivo) porque determina os termos de transa&ccedil;&otilde;es, enquanto que o imposto de renda incide depois que essas mesmas transa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o realizadas. Isso, contudo, &eacute; ilus&oacute;rio. A tributa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m pode influir sobre os termos das transa&ccedil;&otilde;es, porque os agentes j&aacute; contam com ela ao contratar. A redu&ccedil;&atilde;o da carga tribut&aacute;ria sobre a folha de pagamento, por exemplo, pode aumentar a procura por m&atilde;o-de-obra e alterar os termos de contratos de trabalho em favor dos trabalhadores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#v20" name="20"><sup>20</sup></a>Referindo-se a experimentos sobre os efeitos psicol&oacute;gicos de normas legais, Fennell e McAdams (2015, p. 34) afirmam o seguinte: "when a salary is stated in pre-tax terms, the difference between this amount and what the employee gets to keep inevitably appears as a loss. To the extent that loss aversion or an endowment effect makes losing things that one already has more painful that not receiving things that one never had, "tax-and-transfer" may be categorically more cognitively painful than alternative approaches that channel entitlements to the less well off in the first instance or that structure allocation systems to produce less salient cross-subsidies." Os autores tamb&eacute;m aludem &agrave; cren&ccedil;a de que os resultados do mercado s&atilde;o justos, e &agrave; dificuldade, da&iacute; decorrente, de angariar apoio para medidas que pare&ccedil;am se voltar contra esses resultados (Fennell e McAdams 2015, p. 36)</p>     <p><a href="#v21" name="21"><sup>21</sup></a>A falta de uma vis&atilde;o nuan&ccedil;ada sobre o efeito desincentivador da dispers&atilde;o da riqueza est&aacute; por tr&aacute;s da cr&iacute;tica de Hsu (2014, p. 5) ao que tem acontecido nos EUA (e, alegavelmente, em muitos outros pa&iacute;ses tamb&eacute;m), onde "many lawmakers are strongly inclined to believe that boosting private returns to capital (Piketty's <i>r</i>) is tantamount to boosting economic growth generally (Piketty's <i>g</i>)."</p>     <p><a href="#v22" name="22"><sup>22</sup></a>Vallier (2015, p. 293) presume que a DCP se caracterize por medidas que assegurem a participa&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores na gest&atilde;o das empresas, o que envolveria "(to) prevent the transfer of capital stock from workers to capitalists". Sobre isso, ele se baseia em trabalhos de O'Neill (2009; 2012), o qual, como j&aacute; observado acima (nota 9), descreve, de fato, a DCP de um modo que torna dif&iacute;cil diferenci&aacute;-la do socialismo.</p>     <p><a href="#v23" name="23"><sup>23</sup></a>V. Piketty (2014, cap. 10) sobre a desigualdade de riqueza nos EUA, Gr&atilde;-Bretanha, Fran&ccedil;a e Su&eacute;cia. Em nota (cap. 10, nota 3), Piketty relata que os dados sobre a Dinamarca e a Noruega sugerem um crescimento da desigualdade similar ao verificado na Su&eacute;cia.</p>     <p><a href="#v24" name="24"><sup>24</sup></a>Em outro artigo (Zanitelli, 2015a), argumentei que a tese de Piketty sobre a tend&ecirc;ncia de crescimento da desigualdade d&aacute; for&ccedil;a aos argumentos de Rawls sobre a incompatibilidade do CBE com os princ&iacute;pios do valor equitativo das liberdades pol&iacute;ticas, da equitativa igualdade de  oportunidades e da diferen&ccedil;a.</p> <hr>      <p><font size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>       <!-- ref --><p>Ackerman, B. &amp; Alstott, A. (1999). <i>The stakeholder society</i>. New Haven, USA: Yale University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252364&pid=S0120-4688201600010000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dagan, T. (2014). Pay as you wish: The global market for tax &amp; legal rules. Dispon&iacute;vel em <a href="http://ssrn.com/abstract=2506051" target="_blank">http://ssrn.com/abstract=2506051</a>, acesso em 25 fev. 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252366&pid=S0120-4688201600010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Dagger, R. (2006). New-republicanism and the civic economy. <i>Politics, Philosophy, and Economics</i>, 5, 151-73.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252368&pid=S0120-4688201600010000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Darwall, S. L. (1977). Two kinds of respect. <i>Ethics</i>, 88, 36-49.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252370&pid=S0120-4688201600010000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Fennell, L. A. &amp; Mcadams, R. H. (2015). The distributive deficit in law and economics. <i>Coase-Sandor Working Paper Series in Law and Economics</i>, 713. Acesso 21/05/2015 em <a href="http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2544519">http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2544519</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252372&pid=S0120-4688201600010000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Hacker, J. S. (2011/05/06). The institutional foundations of middle-class democracy. <i>Policy Network</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252374&pid=S0120-4688201600010000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Hsieh, N. (2012). Work, ownership, and productive enfranchisement. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.) <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 150-162). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252376&pid=S0120-4688201600010000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Hsu, S. (2014). The rise and rise of the one percent: Getting to Thomas Piketty's Wealth Dystopia. Selected Works of Shi-Ling Hsu. Acesso 21/08/2015 em <a href="http://works.bepress.com/cgi/viewcontent.cgi?article=1033&amp;context=shi_ling_hsu">http://works.bepress.com/cgi/viewcontent.cgi?article=1033&amp;context=shi_ling_hsu</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252378&pid=S0120-4688201600010000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Hussain, W. (2012). Nurturing the sense of justice: The Rawlsian argument for democratic corporatism. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.) <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 180-200). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252379&pid=S0120-4688201600010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Jackson, B. (2012). Property-owning democracy: A short history. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.) <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 33-52). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252381&pid=S0120-4688201600010000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Marti, E. (2013). Investing for a property-owning democracy? Towards a philosophical analysis of investment practices. <i>Analyse &amp; Kritik</i>, 1, 219-236.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252383&pid=S0120-4688201600010000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>O'neill, M. (2009). Three Rawlsian routes towards economic democracy. <i>Revue de Philosophie &Eacute;conomique</i>, 8, 29-55.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252385&pid=S0120-4688201600010000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>O'neill, M. (2012). Free (and fair) markets without capitalism: Political values, principles of justice, and property-owning democracy. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.) <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 75-100). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252387&pid=S0120-4688201600010000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>O'neill, M. &amp; Williamson, T. (2012). The promise of predistribution. <i>Policy Network</i>, 28 set. 2012. Acesso 20/03/2015 em <a href="http://www.policy-network.net/pno_detail.aspx?ID=4262&amp;title=The-Promise-of-Pre-distribution">http://www.policy-network.net/pno_detail.aspx?ID=4262&amp;title=The-Promise-of-Pre-distribution</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252389&pid=S0120-4688201600010000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Pettit, P. (2014). <i>Just freedom: A moral compass for a complex world, edi&ccedil;&atilde;o Kindle</i>. Nova York, USA: W. W. Norton.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252390&pid=S0120-4688201600010000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Piketty, T. (2014). <i>Capital in the twenty-first century</i> (Trad. Goldhammer A.), edi&ccedil;&atilde;o Kindle edition. Cambridge, UK: Belknap.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252392&pid=S0120-4688201600010000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Rawls, J. (1971). <i>A theory of justice</i>. Cambridge, UK: Belknap Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252394&pid=S0120-4688201600010000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Rawls, J. (2001). <i>Justice as fairness: A restatement</i>. Cambridge, UK: Belknap Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252396&pid=S0120-4688201600010000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Schefczyk, M. (2013). Background justice over time: Property-owning democracy versus a realistically utopian welfare state. <i>Analyse &amp; Kritik</i>, 1, 193-212.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252398&pid=S0120-4688201600010000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Schweickart, D. (2012). Property-owning democracy or economic democracy? Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.) <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 201-222). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252400&pid=S0120-4688201600010000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Thomas, A. (2012). Property-owning democracy, liberal republicanism, and the idea of an egalitarian ethos. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.). <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 101-128). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252402&pid=S0120-4688201600010000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vallier, K. (2015). A moral and economic critique of the new property-owning democrats: On behalf of a Rawlsian welfare state. <i>Philosophical Studies</i>, 172, 283-304.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252404&pid=S0120-4688201600010000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Weale, A. (2013). The property-owning democracy versus the welfare state. <i>Analyse &amp; Kritik</i>, 1, 37-54.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252406&pid=S0120-4688201600010000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Wesche, T. (2013). The concept of property in Rawls's property-owning democracy. <i>Analyse &amp; Kritik</i>, 1, 99-111.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252408&pid=S0120-4688201600010000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>White, S. (2012). Property-owning democracy and republican citizenship. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.) <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 129-146). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252410&pid=S0120-4688201600010000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Williamson, T. (2012). Realizing property-owning democracy: A 20-year strategy to create an egalitarian distribution of assets in the United States. Em, M. O'Neill e T. Williamson (Eds.). <i>Property-owning democracy: Rawls and beyond</i> (pp. 225-248). Malden, USA: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252412&pid=S0120-4688201600010000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Zanitelli, L.M. (2015a). Relendo Rawls ap&oacute;s Piketty: justi&ccedil;a, desigualdade e democracia de cidad&atilde;os propriet&aacute;rios. A ser publicado em <i>Revista de Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas (UFMA)</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252414&pid=S0120-4688201600010000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref -->&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2252415&pid=S0120-4688201600010000600028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><img src="img/revistas/pafi/n42/CC.jpg">    <br>  Praxis Filos&oacute;fica cuenta con una licencia Creative Commons <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/co/" target="_blank">"reconocimiento, no comercial y sin obras derivadas 2.5 Colombia"</a></p>   </font>      ]]></body>
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<source><![CDATA[The stakeholder society]]></source>
<year>1999</year>
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