<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0120-5587</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Lingüística y Literatura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Linguist.lit.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0120-5587</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidad de Antioquia]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0120-55872014000200010</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[LITERATURA INFANTO-JUVENIL E HOMOAFETIVIDADE EM É PROIBIDO MIAR DE PEDRO BANDEIRA*]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[CHILDREN'S LITERATURE AND HOMOAFFECTIVITY IN É PROIBIDO MIAR BY PEDRO BANDEIRA]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[de Jesus Cruz]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vanessa Rita]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pereira Camargo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Flávio]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Tocantins-UFT  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
<country>Brasil</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<numero>66</numero>
<fpage>189</fpage>
<lpage>205</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0120-55872014000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0120-55872014000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0120-55872014000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Esta pesquisa insere-se no campo dos Estudos Literários, em uma perspectiva interdisciplinar com os Estudos de Gênero e Diversidade Sexual. O objetivo geral é fazer uma análise das distintas representações da diversidade de gênero e sexual na literatura infanto-juvenil, de modo a evidenciar como essa diferença é representada na tessitura do texto literário. Além disso, procuramos explicitar como a leitura literária de obras que abordem essa temática pode contribuir para a formação de leitores na contemporaneidade. Trata-se, portanto, de uma pesquisa de cunho bibliográfico e teórico, por meio da qual empreendemos um exercício de hermenêutica em relação ao nosso corpus selecionado, constituído pela seguinte narrativa: É proibido miar de Pedro Bandeira.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This research falls within the field of Literary Studies in an interdisciplinary perspective with Gender Studies and Sexual Diversity. The overall objective is to analyze the different representations of gender and sexual diversity in child and adolescent literature, so as to show how this difference is represented in the texture of the literary text. Moreover, we seek to explain how to read literary works that address this theme can contribute to the formation of the contemporary readers. It is, therefore, a survey of literature and theoretical nature, by which we undertook an exercise in hermeneutics regarding our selected corpus, consisting of the following narrative: É proibido miar by Pedro Bandeira.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[literatura infanto-juvenil]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[currículo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[diferença]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[homoafetividade]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[children's literature]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[curriculum]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[difference]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[homoaffectivity]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[  <font face="verdana" size="2">          <p align="center"><font size="4"><b>LITERATURA  INFANTO-JUVENIL E HOMOAFETIVIDADE EM <i>&Eacute; PROIBIDO MIAR </i>DE PEDRO BANDEIRA<a href="#*a" name="*b">*</a></b></font></p>          <p align="center"><font size="3"><b>CHILDREN'S LITERATURE AND HOMOAFFECTIVITY IN <i>&Eacute;  PROIBIDO MIAR </i>BY PEDRO BANDEIRA</b></font></p>        <p>&nbsp;</p>          <p><b>Vanessa  Rita de Jesus Cruz, Fl&aacute;vio Pereira Camargo</b></p>          <p><i>Universidade  Federal do Tocantins-UFT, Brasil, <i><a href="mailto:vanessalinguagens@hotmail.com">vanessalinguagens@hotmail.com</a>, <a href="mailto:camargolitera@gmail.com">camargolitera@gmail.com</a></i>.</i></p>     <p>Recibido: 03/02/2014 - Aceptado: 09/05/2014</p> <hr size="1" />          <p>&nbsp;</p>          <p><b>Resumo</b></p>          <p>Esta pesquisa insere-se no campo dos Estudos Liter&aacute;rios, em  uma perspectiva interdisciplinar com os Estudos de G&ecirc;nero e Diversidade  Sexual. O objetivo geral &eacute; fazer uma an&aacute;lise das distintas representa&ccedil;&otilde;es da diversidade de  g&ecirc;nero e sexual na literatura infanto-juvenil, de modo a evidenciar como essa diferen&ccedil;a &eacute;  representada na tessitura do texto liter&aacute;rio. Al&eacute;m disso, procuramos explicitar como a leitura  liter&aacute;ria de obras que abordem essa tem&aacute;tica pode contribuir para a forma&ccedil;&atilde;o de leitores na  contemporaneidade. Trata-se, portanto, de uma pesquisa de cunho bibliogr&aacute;fico e te&oacute;rico,  por meio da qual empreendemos um exerc&iacute;cio de hermen&ecirc;utica em rela&ccedil;&atilde;o ao nosso <i>corpus </i>selecionado,  constitu&iacute;do pela seguinte narrativa: <i>&Eacute; proibido miar </i>de Pedro Bandeira.</p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Palavras-chave</i>: <i></i>literatura infanto-juvenil, curr&iacute;culo, diferen&ccedil;a, homoafetividade.</p>  <hr size="1" />          <p>&nbsp;</p>          <p><b>Abstract</b></p>          <p>This research falls within the field  of Literary Studies in an interdisciplinary perspective with Gender Studies and  Sexual Diversity. The overall objective is to analyze the different representations of  gender and sexual diversity in child and adolescent literature, so as to show how this difference is  represented in the texture of the literary text. Moreover, we seek to explain how to read  literary works that address this theme can contribute to the formation of the contemporary  readers. It is, therefore, a survey of literature and theoretical nature, by which we undertook an  exercise in hermeneutics regarding our selected corpus, consisting  of the following narrative: <i>&Eacute; proibido miar </i>by Pedro Bandeira.</p>     <p><i>Keywords</i>: <i></i>children's literature, curriculum, difference, homoaffectivity.</p>  <hr size="1" />          <p>&nbsp;</p>      <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o </b></p>          <p>A sociedade da qual fazemos parte vive,  hoje -como sempre-, a diversidade.   Esta se constitui como um tema da contemporaneidade. Fala-se  e vive-se a   diversidade. Por&eacute;m, &eacute; not&oacute;rio que nem todas as suas  variedades recebem a aten&ccedil;&atilde;o   e o respeito devidos. Por isso, alguns grupos, pessoas e  conceitos s&atilde;o mais valorizados   que outros.</p>     <p>Nesse &laquo;caldeir&atilde;o&raquo; das diferen&ccedil;as, muitas s&atilde;o as identidades  existentes; algumas   s&atilde;o supervalorizadas, enquanto outras s&atilde;o estigmatizadas e  &agrave;s vezes obrigadas a se   esconder, a se dissimular, a assumir outras performances,  vivendo camufladamente   ou ocultadas em novas identidades formadas no processo de  devir da exist&ecirc;ncia. Portanto,   muitos dos valores e paradigmas que, durante d&eacute;cadas, foram  suficientes para   responder &agrave;s necessidades humanas, j&aacute; n&atilde;o satisfazem, uma  vez que nos deparamos,   todos os dias, com novas identidades, que v&ecirc;m transgredindo  e desestabilizando   conceitos, normas, corpos e desejos.</p>     <p>A sociedade ocidental &eacute; eivada de preconceitos arraigados,  de modo que as identidades   n&atilde;o s&atilde;o compreendidas como um processo em constru&ccedil;&atilde;o, mas  como algo   j&aacute; definido, estabelecido e acabado, produzindo e  alimentando a discrimina&ccedil;&atilde;o e a   exclus&atilde;o. Assim, muitas vezes, nos distanciamos daqueles que  n&atilde;o se assemelham   a uma determinada identidade, considerada como modelo a ser  seguido.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A identidade que foge ao padr&atilde;o, que n&atilde;o est&aacute; pr&oacute;xima da  desejada, &eacute; reprovada,   questionada e n&atilde;o &eacute; tratada com o devido respeito, uma vez  que &eacute; apontada como   anormal e, por isso, precisa ser moldada e disciplinada.</p>     <p>H&aacute; d&eacute;cadas, a sexualidade, inerente ao ser humano, vem sendo  alvo de diferentes   discursos, proferidos por aqueles que det&ecirc;m a autoridade  para diz&ecirc;-los. Foi tamb&eacute;m   por meio desses discursos que a heterossexualidade  afirmou-se como norma e como   a sexualidade correta enquanto a homoafetividade foi  institu&iacute;da como a antinorma   e a sexualidade incorreta, considerada anormal.</p>     <p>Considerando-se esses aspectos, nossa pesquisa insere-se no  campo dos Estudos   Liter&aacute;rios, em uma perspectiva interdisciplinar com os  Estudos de G&ecirc;nero e Diversidade   Sexual. O objetivo geral &eacute; fazer uma an&aacute;lise das distintas  representa&ccedil;&otilde;es da   diversidade de g&ecirc;nero e sexual na literatura  infanto-juvenil, de modo a evidenciar   como essa diferen&ccedil;a &eacute; representada na tessitura do texto liter&aacute;rio.  Al&eacute;m disso, procuramos   explicitar como a leitura liter&aacute;ria de obras que abordem  essa tem&aacute;tica pode   contribuir para a forma&ccedil;&atilde;o de leitores na contemporaneidade.  Trata-se, portanto, de   uma pesquisa de cunho bibliogr&aacute;fico e te&oacute;rico, por meio da  qual empreendemos um   exerc&iacute;cio de hermen&ecirc;utica em rela&ccedil;&atilde;o ao nosso corpus  selecionado, constitu&iacute;do pela   seguinte narrativa: <i>&Eacute; proibido miar </i>de  Pedro Bandeira.</p>     <p>Em uma sociedade na qual os indiv&iacute;duos s&atilde;o praticamente  obrigados a desempenhar   diferentes performances, a literatura, por meio de suas  tem&aacute;ticas e personagens,   tem ajudado na melhor compreens&atilde;o da subjetividade no mundo  emp&iacute;rico,   ou seja, o conhecimento que temos e produzimos do mundo tem  sido mediado pela   linguagem, de modo que a fic&ccedil;&atilde;o pode permitir ao leitor um  melhor entendimento da   realidade emp&iacute;rica. Por isso, acreditamos na literatura como  um meio poss&iacute;vel para   que os jovens leitores possam conhecer e respeitar as  diferen&ccedil;as. Para n&oacute;s, por meio   da literatura, &eacute; poss&iacute;vel a forma&ccedil;&atilde;o de um sujeito cr&iacute;tico,  aut&ocirc;nomo e humanizado,   capaz de reconhecer-se e reconhecer o outro no mundo que o  cerca, desde que a ele   sejam oferecidos os meios de a ela achegar-se.</p>     <p>Neste trabalho, atribu&iacute;mos &agrave; leitura liter&aacute;ria uma fun&ccedil;&atilde;o  social. Acreditamos que   a leitura do texto liter&aacute;rio, como uma pr&aacute;tica social, pode  permitir ao leitor ir al&eacute;m   da simples leitura (Cosson, 2011), ou seja, &eacute; capaz de  possibilitar a emancipa&ccedil;&atilde;o, a   autonomia, a reflex&atilde;o e a humaniza&ccedil;&atilde;o do leitor. Ela pode,  ainda, provocar a frui&ccedil;&atilde;o e   a sensibilidade, auxiliar a forma&ccedil;&atilde;o efetiva de leitores  cr&iacute;ticos, assim como um leitor   capaz de compreender os discursos dominantes e os discursos  que a historiografia   silencia (porque &eacute; feita para o Estado), mas que a  literatura preenche e questiona.</p>     <p>O texto liter&aacute;rio nos permite um di&aacute;logo com o outro, com o  mundo que nos   cerca. Ao ler, travamos e transformamos rela&ccedil;&otilde;es humanas,  uma vez que o texto   liter&aacute;rio &eacute; repleto de conhecimentos &laquo;sobre o homem e o  mundo&raquo; e &laquo;na leitura e escritura   do texto liter&aacute;rio encontramos o senso de n&oacute;s mesmos e da  comunidade a que   pertencemos&raquo; (Cosson, 2011, p.17). A literatura permite ao  sujeito conhecer a vida   e vivenciar a experi&ecirc;ncia do outro. Ao fazer isso, ele pode  se solidarizar com o   sofrimento alheio, aprender a respeitar as diferen&ccedil;as e  refletir sobre as a&ccedil;&otilde;es e   rela&ccedil;&otilde;es existentes na sociedade.</p>     <p>A literatura, como pr&aacute;tica social, n&atilde;o est&aacute; alheia aos  conflitos existentes em   nossa sociedade. A orienta&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica e a posi&ccedil;&atilde;o &eacute;tica do  escritor podem possibilitar   ao leitor questionar, duvidar, ressignificar e refletir  sobre os conflitos sociais e,   principalmente, despertar um novo olhar em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;  diferen&ccedil;a e ao modo como o   diferente &eacute; representado discursivamente em nossa cultura.  Ao construir o seu texto,   o autor faz uma representa&ccedil;&atilde;o do outro, porque este est&aacute;,  assumidamente, presente   no discurso liter&aacute;rio (Paulino, 2007).</p>     <p>&Eacute; baseado nesta presen&ccedil;a do outro, ou em sua aus&ecirc;ncia, que  podemos falar de   uma (falta de) &eacute;tica no (do) texto liter&aacute;rio. O processo de  escrita do autor requer a   habilidade de aliar a est&eacute;tica e a &eacute;tica, dando lugar &agrave;s diversas  vozes que povoam o   texto liter&aacute;rio. A (est)&eacute;tica desse texto diz respeito ao  modo como o escritor, a editora,   o professor e o leitor representam o outro. Uma quest&atilde;o  &eacute;tica que se constitui como um elemento essencial na imagem que o leitor  construir&aacute; desse outro, que,   neste caso, se refere &agrave; diversidade sexual e de g&ecirc;nero.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.  Corpo, disciplina e sexualidade: breves considera&ccedil;&otilde;es</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na &eacute;poca cl&aacute;ssica, como afirma Foucault (1987), descobre-se  o corpo como objeto   e objetivo de poder. Justamente por isso, a sexualidade tem  sido objeto de discuss&atilde;o e   alvo de determinadas vigil&acirc;ncias, sobretudo no Ocidente. As  institui&ccedil;&otilde;es que lhe ditam   as normas e as &laquo;verdades&raquo; a serem seguidas rigidamente  proliferaram, assim como as   suas formas de regula&ccedil;&atilde;o social, cultural, e hist&oacute;rica, de  modo que o olhar sobre os   corpos e as subjetividades adquire novas t&eacute;cnicas de  controle.</p>     <p>Em toda a sociedade o corpo est&aacute; entre as rela&ccedil;&otilde;es de poder,  que lhe imp&otilde;e   limita&ccedil;&otilde;es, proibi&ccedil;&otilde;es e obriga&ccedil;&otilde;es. O que h&aacute; de novo no  s&eacute;culo xviii &eacute; a utiliza&ccedil;&atilde;o   de novas t&eacute;cnicas: o controle do corpo se d&aacute; n&atilde;o mais em  massa, procura-se trabalh&aacute;lo   detalhadamente; observam-se os gestos, os movimentos; os  objetos do controle   n&atilde;o s&atilde;o mais &laquo;os elementos significativos do comportamento&raquo;,  mas a &laquo;efic&aacute;cia dos   movimentos, sua organiza&ccedil;&atilde;o interna&raquo; (Foucault, 1987,  p.118); a modalidade passa a   ser uma coer&ccedil;&atilde;o ininterrupta e constante, que se preocupa  mais com os processos de   atividades que com os resultados; examina-se minuciosamente  o tempo, o espa&ccedil;o e   os movimentos desse corpo. Todos esses m&eacute;todos que controlam  o corpo, sujeitando   suas for&ccedil;as e impondo-lhe uma rela&ccedil;&atilde;o de  docilidade-utilidade, s&atilde;o denominados   por Foucault (1987) como &laquo;disciplinas&raquo; ou t&eacute;cnicas de  disciplinamento.</p>     <p>Os processos disciplinares j&aacute; existiam nos conventos, nos ex&eacute;rcitos  e nas oficinas,   mas somente nos s&eacute;culos xvii e xviii as disciplinas se  tornar&atilde;o regras gerais de   domina&ccedil;&atilde;o. Com esses processos pretende-se n&atilde;o apenas  aumentar as habilidades   do corpo ou sua sujei&ccedil;&atilde;o, mas torn&aacute;-lo mais obediente quanto  mais &uacute;til e torn&aacute;-lo   mais &uacute;til quanto mais obediente. A disciplina precisa  instalar os indiv&iacute;duos no espa&ccedil;o,   necessita &laquo;encarcer&aacute;-los&raquo; em pris&otilde;es, col&eacute;gios, quart&eacute;is,  f&aacute;bricas e hospitais. Mas isso n&atilde;o era suficiente, era necess&aacute;rio conhecer onde se  poderiam encontrar   esses indiv&iacute;duos, estabelecer as comunica&ccedil;&otilde;es que importavam  e cortar as in&uacute;teis,   vigiar a todo o momento o comportamento de cada sujeito,  para apreci&aacute;-lo, observar   suas qualidades, classific&aacute;-lo, posicion&aacute;-lo na fila -o  lugar do indiv&iacute;duo em uma   classifica&ccedil;&atilde;o-, sancion&aacute;-lo, conhec&ecirc;-lo, domin&aacute;-lo e utiliz&aacute;-lo.</p>     <p>Os m&eacute;todos disciplinares se instalaram em muitas  institui&ccedil;&otilde;es e em todas pretendiam   controlar os corpos, executar uma t&eacute;cnica de poder e ao  mesmo tempo exercer   um processo de saber.</p>     <p>Assim como os discursos sobre a sexualidade e as t&eacute;cnicas de  disciplinamento   dos corpos aumentaram e se modificaram, a pluralidade sexual  e de g&ecirc;nero se mul tiplicou e as fronteiras, diariamente, s&atilde;o atravessadas,  sendo a pr&oacute;pria fronteira o   lugar social em que alguns sujeitos vivem, rompendo com a  sexualidade legitimada   e ousando ultrapassar os seus limites.</p>     <p>No final da d&eacute;cada de 1970, gays e l&eacute;sbicas afirmavam na pr&aacute;tica  e discursivamente   uma identidade homoafetiva, demarcando suas fronteiras e  suas formas   de representa&ccedil;&atilde;o e o dilema entre o &laquo;assumir-se&raquo; ou ficar no  arm&aacute;rio torna-se um   elemento essencial para a comunidade e para fazer parte dela  era indispens&aacute;vel que   o sujeito se &laquo;assumisse&raquo;.</p>     <p>A pol&iacute;tica de identidade desses grupos buscava &laquo;a aceita&ccedil;&atilde;o  e a integra&ccedil;&atilde;o dos/   das homossexuais no sistema social&raquo; (Louro, 2008, p.34).  Gays e l&eacute;sbicas ganham   maior visibilidade, sugerindo que o movimento n&atilde;o incomodava  o <i>status quo </i>como   antes. Por&eacute;m, havia, internamente, tens&otilde;es e cr&iacute;ticas que  come&ccedil;aram a surgir.</p>     <p>Percebia-se que a comunidade possu&iacute;a muitas vozes  discordantes e que seria   dif&iacute;cil silenci&aacute;-las. O quadro se complica com o surgimento  da AIDS, em 1980,   que renova a homofobia das sociedades ocidentais. Voltam &agrave;  cena a intoler&acirc;ncia e   a exclus&atilde;o, pois a AIDS teve como efeito negativo o fato de  ter sido considerada   como um &laquo;c&acirc;ncer gay&raquo;.</p>     <p>No Brasil, por exemplo, devido &agrave; epidemia, ampliou-se o  debate sobre a crise da   pol&iacute;tica de identidade homossexual, fruto de uma concep&ccedil;&atilde;o  estreita que compreendia   a doen&ccedil;a como puni&ccedil;&atilde;o &agrave;queles sujeitos que ousaram romper  com as regras de uma   sociedade heteroc&ecirc;ntrica. De um modo geral, os movimentos,  os seus prop&oacute;sitos e   os seus interesses se multiplicam, evidenciando que &laquo;a  pol&iacute;tica de identidade homossexual   estava em crise e revelava suas fraturas e insufici&ecirc;ncias.  Gradativamente,   surgiriam, pois, proposi&ccedil;&otilde;es e formula&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas  p&oacute;s-identit&aacute;rias&raquo; (Louro, 2008,   pp.37-38). Dentro desse contexto &eacute; que precisamos  compreender a afirma&ccedil;&atilde;o de   uma pol&iacute;tica e de uma teoria <i>queer</i>.</p>     <p>A teoria <i>queer </i>surge como uma pol&iacute;tica p&oacute;s-identit&aacute;ria. O termo passa a ser   visto como aquilo que questiona, que provoca, que contesta e  vai contra a norma. Segundo Louro (2008, p.38) &laquo;queer pode ser traduzido por  estranho, talvez rid&iacute;culo,   exc&ecirc;ntrico, raro, extraordin&aacute;rio. Mas a express&atilde;o tamb&eacute;m se  constitui na forma   pejorativa com que s&atilde;o designados homens e mulheres  homossexuais&raquo;. O termo   representa uma vertente dos movimentos homossexuais,  caracterizando sua oposi&ccedil;&atilde;o   e contesta&ccedil;&atilde;o, tendo como um de seus alvos de oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;  heteronormatividade   compuls&oacute;ria da sociedade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A emerg&ecirc;ncia do movimento <i>queer </i>n&atilde;o se deve apenas a quest&otilde;es pol&iacute;ticas  ou   de teoriza&ccedil;&atilde;o gay e l&eacute;sbica. As condi&ccedil;&otilde;es de seu surgimento  precisam ser vistas   em um campo mais amplo do p&oacute;s-estruturalismo, uma vez que a  teoria <i>queer </i>pode vincular-se &laquo;&agrave;s vertentes do pensamento ocidental  contempor&acirc;neo&raquo; (Louro, 2008,   p.40) que no s&eacute;culo xx trataram de quest&otilde;es sobre o sujeito,  a identidade e a identifica&ccedil;&atilde;o. As teoriza&ccedil;&otilde;es que questionaram a racionalidade e a constru&ccedil;&atilde;o  discursiva   das sexualidades, evidenciada por Foucault, tornam-se  essenciais para a teoria <i>queer</i>. Por suas bases te&oacute;ricas, os estudos <i>queer </i>apontam  para o p&oacute;s-estruturalismo, em   uma perspectiva que almeja solapar os binarismos presentes  na sociedade ocidental.</p>     <p>Dessa forma, um processo desconstrutivo demonstraria a m&uacute;tua  rela&ccedil;&atilde;o e constitui&ccedil;&atilde;o   dos opostos, questionando os processos que instituiu a  heterossexualidade   como norma e a concebeu como &laquo;natural&raquo;. Os te&oacute;ricos <i>queer </i>prop&otilde;em  uma pol&iacute;tica   p&oacute;s-identit&aacute;ria que teria como alvo n&atilde;o as vidas e o futuro  dos homoafetivos, mas   a cr&iacute;tica &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o heterossexual/homossexual, que para  eles constitui-se como a   categoria central que direciona as pr&aacute;ticas sociais, o  conhecimento e as rela&ccedil;&otilde;es   entre as pessoas.</p>     <p>Para tanto, devemos mudar as estrat&eacute;gias de an&aacute;lise e adotar  uma perspectiva   epistemol&oacute;gica que se volte &laquo;para a cultura, para as  estruturas lingu&iacute;sticas e discursivas   e para seus contextos institucionais&raquo; (Louro, 2008, p.60).  Essa teoria n&atilde;o se   preocupa tanto em tratar sobre a repress&atilde;o da minoria  homoafetiva, prende-se mais   em analisar o par homossexualidade/heterossexualidade como  um regime de poder   e saber que controla os desejos e os comportamentos.</p>     <p>Pensar <i>queer </i>&eacute; questionar e contestar as formas de conhecimento e de  identidades. Uma pedagogia e um curr&iacute;culo <i>queer </i>se  preocupariam com o processo que   produz as diferen&ccedil;as e focariam a instabilidade das  identidades. Nesse processo, a   diferen&ccedil;a seria vista como constitutiva do sujeito e a  aten&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m se voltaria   para os processos que geram as diferen&ccedil;as e o curr&iacute;culo n&atilde;o  poderia isentar-se: n&atilde;o   bastaria &laquo;contemplar&raquo; a pluralidade da sociedade, mas  atentar-se para os conflitos   que permeiam as posi&ccedil;&otilde;es ocupadas pelos sujeitos.  Questionar-se-ia a polariza&ccedil;&atilde;o   heterossexual/homossexual e analisando a sua depend&ecirc;ncia,  desestabilizaria a no&ccedil;&atilde;o   da heterossexualidade como natural e superior. Os  questionamentos da teoria <i>queer</i>   n&atilde;o se restringem somente ao par hetero/homossexual, mas a  todo e qualquer r&oacute;tulo   preestabelecido que restringe, segrega e oprime as diversas  identidades culturais   presentes em contextos adversos. O posicionamento <i>queer </i>&eacute;  respons&aacute;vel por desestabilizar   conceitos, normas e preceitos arraigados, enrijecidos, ao  problematizar   no&ccedil;&otilde;es de identidade, ra&ccedil;a, etnia, g&ecirc;nero e sexualidade,  entre outras. &Eacute; um modo   diferente de pensar, de olhar o outro e a diferen&ccedil;a que lhe  &eacute; intr&iacute;nseca.</p>     <p>Nesse contexto, n&atilde;o bastaria denunciar a homofobia e a  nega&ccedil;&atilde;o dos homoafetivos,   mas questionar e desconstruir o processo que normaliza  alguns sujeitos e   marginaliza outros, mostrando a heteronormatividade e a  repeti&ccedil;&atilde;o de normas sociais   que regulam e garantem a identidade sexual considerada leg&iacute;tima.  A restri&ccedil;&atilde;o das formas de ser e viver tamb&eacute;m deveriam ser problematizadas,  assim como os   modelos de classifica&ccedil;&atilde;o e de enquadramento. E mais: a  transgress&atilde;o, o atravessamento   das fronteiras, a ambiguidade e a fluidez devem ter lugar.  Desconstruir at&eacute;   mesmo o binarismo conhecimento/ignor&acirc;ncia, demonstrando que  a ignor&acirc;ncia n&atilde;o   &eacute; neutra, mas pode ser produzida por um tipo de  conhecimento. A ignor&acirc;ncia da   homoafetividade pode representar uma forma particular de  conhecer a sexualidade   e ser ignorante a respeito da homoafetividade pode  significar conhecer pouco sobre   a heterossexualidade.</p>     <p>Uma das formas poss&iacute;veis de provocar uma desestabiliza&ccedil;&atilde;o em  rela&ccedil;&atilde;o aos   padr&otilde;es preestabelecidos &eacute; justamente por meio do texto  liter&aacute;rio, capaz de possibilitar   ao leitor, em seu processo de forma&ccedil;&atilde;o, novos modos de  olhar, compreender,   questionar e de se posicionar diante da diferen&ccedil;a do outro,  seja ela cultural, social,   econ&ocirc;mica, &eacute;tnica, de g&ecirc;nero ou sexual, que &eacute; representada  na tessitura do texto.</p>     <p>Nesse sentido, a literatura pode construir, difundir e  transformar sensibilidades   e representa&ccedil;&otilde;es e, justamente por isso, constitui-se como  elemento importante na   forma&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e dos adolescentes. Ela nos ajuda a  questionar aquilo que   somos e o mundo do qual fazemos parte, pois &laquo;toda  representa&ccedil;&atilde;o do outro &eacute;, de   certa forma, pol&iacute;tica, pois ela depende de quem fala, o que  e de onde fala, de que   perspectiva e com quais objetivos&raquo; (Camargo, 2012, p.05).</p>     <p>Nas obras ficcionais as personagens podem representar as  diferen&ccedil;as entre os   seres e a diversidade existente em uma sociedade em que, ao  contr&aacute;rio do que se   queira afirmar, as pessoas n&atilde;o t&ecirc;m as suas identidades j&aacute;  prontas e fixas. Logo, essas   pessoas n&atilde;o s&atilde;o &laquo;naturalmente&raquo; heterossexuais. Trata-se de  um constructo social,   hist&oacute;rico e ideol&oacute;gico, que prescreve a heterossexualidade  como normal e natural e   a homoafetividade como anormal.</p>     <p>Percebemos que a personagem que simboliza a homoafetividade  ainda &eacute; representada   na tessitura do texto liter&aacute;rio, algumas vezes, de forma  estereotipada, sendo   marcada pelo preconceito e por discursos sociais que a  enquadra em uma posi&ccedil;&atilde;o   inferior em rela&ccedil;&atilde;o a outros grupos em decorr&ecirc;ncia da  diferen&ccedil;a constitutiva de sua   identidade.</p>     <p>Mas &eacute; bom ressaltarmos que o espa&ccedil;o dado a essa quest&atilde;o  social no campo   liter&aacute;rio j&aacute; representa um avan&ccedil;o, uma vez que oferece aos  nossos jovens leitores   o contato com o outro, o (re)conhecimento da diversidade  sexual e de g&ecirc;nero e a   abertura ao di&aacute;logo sobre a homoafetividade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Dessa maneira, algumas personagens da narrativa infantil e  juvenil podem simbolizar   e abordar temas complexos da humanidade, dando &laquo;vida&raquo;, voz e  vez aos sujeitos que muitas vezes s&atilde;o negados, silenciados e feitos  &laquo;prisioneiros&raquo; em nossa   sociedade. Durante a leitura da obra liter&aacute;ria, o professor  pode auxiliar o aluno a   perceber os temas e os seres humanos que emergem na trama  ficcional. Para que   isso ocorra &eacute; importante que os formadores de leitores,  mediadores no processo   de leitura, tenham uma compreens&atilde;o do modo como a diferen&ccedil;a  &eacute; constru&iacute;da por   meio dos discursos e seus efeitos de sentido; quem e por que  &eacute; designado como o   diferente; por que alguns sujeitos podem se representar  enquanto outros s&oacute; podem   ser representados. Enfim, &eacute; necess&aacute;rio pensar em que medida  essa representa&ccedil;&atilde;o   discursiva do outro no texto liter&aacute;rio corrobora, questiona  ou problematiza as diferen&ccedil;as   -sociais, culturais, &eacute;tnicas, sexuais e de g&ecirc;nero-  contribuindo para a   forma&ccedil;&atilde;o de um leitor cr&iacute;tico.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3.  A representa&ccedil;&atilde;o discursiva da diferen&ccedil;a em </b><b><i>&Eacute;  proibido miar</i></b>   <b>de  Pedro Bandeira</b></p>     <p>Na obra <i>&Eacute;  proibido miar </i>de Pedro Bandeira, por meio de um  narrador onisciente,   conhecemos Bingo, um cachorrinho simp&aacute;tico, alegre,  carinhoso, brincalh&atilde;o, curioso,   sapeca, livre e &laquo;diferente&raquo;, caracter&iacute;sticas que incomodam  muitos &agrave; sua volta,   explicitando o preconceito, a exclus&atilde;o, a discrimina&ccedil;&atilde;o e as  inj&uacute;rias feitas por seus   pares no decorrer da trama ficcional.</p>     <p>A nossa sociedade ainda rejeita e discrimina aqueles  sujeitos que n&atilde;o vivem   dentro do molde daquilo que &eacute; considerado &laquo;normal&raquo;. Essa  sociedade persiste na   tentativa de &laquo;controlar, vigiar e disciplinar os corpos, os  desejos e suas pr&aacute;ticas sexuais   dentro de um padr&atilde;o preestabelecido que alija todos aqueles  que n&atilde;o se encaixam   nele&raquo; (Camargo, 2012, p. 08). Por isso, para ela existem os  sujeitos que realmente   importam -aqueles que materializam a norma- e os sujeitos  considerados abjetos   -aqueles corpos que n&atilde;o pesam, n&atilde;o t&ecirc;m valor por escaparem  da norma.</p>     <p>No in&iacute;cio da narrativa, o narrador estabelece um di&aacute;logo com  o leitor, fazendo-o   refletir sobre o nascimento e a alegria causada pela chegada  da &laquo;filharada&raquo; ou da   &laquo;cachorrada&raquo;:</p>     <blockquote>       <p>Quando nasce filho, todo mundo fica alegre.</p>       <p>Quando voc&ecirc; nasceu -faz um temp&atilde;o, n&atilde;o &eacute; mesmo?- foi uma  alegria de dar gosto.</p>       <p>Eu sei que voc&ecirc; n&atilde;o lembra. Afinal, voc&ecirc; era muito pequeno  naquele tempo e estava     mais preocupado com a hora da mamadeira. Mas pode acreditar:  todo mundo ficou     muito, muito satisfeito.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com os bichos &eacute; a mesma coisa.  (Bandeira, 2002, p.06)</p> </blockquote>     <p>Com a Dona Bingona, uma vira-lata de respeito, n&atilde;o foi  diferente. Ela estava   muito orgulhosa com sua enorme barriga e esperou at&eacute; que  nasceu um monte de cachorrinhos. Seu Bing&atilde;o, &laquo;filho, neto, bisneto e "transaneto" de  vira-latas de respeito&raquo;   (Bandeira, 2002, p.07) tamb&eacute;m estava muito orgulhoso da  cachorrada, que alegrava   as crian&ccedil;as do bairro. Os cachorrinhos, Dona Bingona e Seu  Bing&atilde;o moravam em   um galp&atilde;o nos fundos de uma grande casa.</p>     <p>Chegado o dia em que os filhotes iriam para o primeiro  passeio na rua com seus   pais, foi uma festa, mas tamb&eacute;m se iniciaram os problemas.  Mal sa&iacute;ram de casa,   eles se sentiram livres, correndo atr&aacute;s de autom&oacute;veis. Os  pais iam atr&aacute;s, orgulhosos,   pensando na inveja que sentiriam os outros cachorros. Um dos  filhotes preocupava   Seu Bing&atilde;o, era Bingo.</p>     <blockquote>       <p>Enquanto todos os machinhos da ninhada da Dona Bingona  farejavam os postes e as     ra&iacute;zes das &aacute;rvores para fazer xixi logo em seguida, Bingo  nem ligava. Ele estava mais     interessado em sacudir o rabinho para todos os humanos que  passavam, xeretar as     sacolas que as madames carregavam e lamber todas as m&atilde;os que  se abaixavam para     fazer-lhe festinhas. (Bandeira,  2002, p.12)</p> </blockquote>     <p>Sem contar que, ao inv&eacute;s de perseguir os carros como os  outros filhotes, Bingo   entrou em um jardim e ao se espetar nos espinhos das  roseiras, voltou ganindo para   encontrar aconchego na m&atilde;e. E pior ainda: quando Seu Bing&atilde;o,  com seu latido   amea&ccedil;ador, Dona Bingona e todos os cachorrinhos, menos  Bingo, enfrentaram um   vira-lata vagabundo, magro e sujo, acuando-o contra a  parede, Bingo, ao contr&aacute;rio,   sacudindo o rabo, foi at&eacute; o vira-lata importuno e lhe deu  umas lambidinhas,   convidando-o para brincar. Seu Bing&atilde;o ficou decepcionado com  o filho.</p>     <p>O pai deseja que Bingo fa&ccedil;a aquilo que ele acredita ser o  melhor. Seu Bing&atilde;o   idealiza um tipo de filho e quer que as suas vontades sejam  realizadas, independentemente   do desejo de Bingo, que n&atilde;o se envergonhava e sentia-se  feliz com o   passeio. Seu Bing&atilde;o &eacute; uma representa&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica do pai que  ocupa o lugar social de   patriarca machista em uma cultura faloc&ecirc;ntrica, n&atilde;o  aceitando que as vontades que   contrariam a norma vigente sejam realizadas.</p>     <p>Nessa cultura os filhos t&ecirc;m que se parecer com os pais,  imitar as suas atitudes   e comportamentos e, frequentemente, os homens devem provar  que s&atilde;o &laquo;machos&raquo;,   afirmarem a sua masculinidade, seja por meio de seus  trejeitos, seu vestu&aacute;rio, suas   a&ccedil;&otilde;es, conquistando muitas mulheres, bebendo exageradamente  ou at&eacute; mesmo usando   a for&ccedil;a f&iacute;sica. Quando Seu Bing&atilde;o diz que sente vergonha do  filho Bingo isso demonstra   o qu&atilde;o o fato de ser &laquo;diferente&raquo; &eacute; carregado de negatividade  e preconceito. Um preconceito que adv&eacute;m justamente da dificuldade  encontrada pelo pai de Bingo   em lidar com a diferen&ccedil;a do filho, com aquilo que foge &agrave;  regra estabelecida em uma sociedade normatizada, na qual os comportamentos  devem ser padronizados e os   corpos disciplinados.</p>     <p>Aconteceu que Bingo fez amizade com o vizinho de sua  fam&iacute;lia, um velho gato   -negro, s&aacute;bio e calmo- que morava no telhado do galp&atilde;o onde  residia a fam&iacute;lia   de Seu Bing&atilde;o. O gato teve simpatia pela alegria e  curiosidade de Bingo, que se   sentiu fascinado pela experi&ecirc;ncia e a vida de aventura do  gato. Bingo come&ccedil;ou a   imaginar o quanto a vida do gato deveria ser boa,  mergulhando na noite, possu&iacute;a um   mundo maior que o seu quintal, o mundo das alturas, negro da  noite, dominando os   telhados, &laquo;como o imperador da noite&raquo; (Bandeira, 2002,  p.16).</p>     <p>Ele, Bingo, tinha medo da noite, mas ficava fascinado com as  hist&oacute;rias do gato e   se imaginava passeando pelos telhados, pulando os muros,  enfrentando os desafios   das sombras. Ele queria a liberdade. Enquanto seus irm&atilde;os  dormiam, Bingo ficava   acordado, olhando para fora do galp&atilde;o, imaginando o que  podia acontecer al&eacute;m da   escurid&atilde;o. Ouvia o grito de liberdade do gato: &laquo;-  Miaaauuu!&raquo;. Esse som acabou   dominando a cabe&ccedil;a e o corpo do cachorrinho, ocupando os  espa&ccedil;os do latido de   Seu Bing&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Depois de algum tempo, quando os filhotes cresceram um pouco  mais, era o   momento de Dona Bingona mostrar que os cachorrinhos  continuariam a tradi&ccedil;&atilde;o   dos vira-latas de respeito e que sua voz imporia respeito.  Seu Bing&atilde;o, &laquo;com aquele   jeit&atilde;o de pai que se prepara para assistir ao filho declamar  um versinho e finge que   nem est&aacute; ligando&raquo; (Bandeira, 2002, p.18), cruzou as patas e  esperou. Com muito   trabalho, Dona Bingona conseguiu organizar os filhotes e  exibir as suas qualidades.</p>     <p>As rela&ccedil;&otilde;es intrafamiliares em nossa sociedade tamb&eacute;m foram  disciplinadas,   para isso recebiam (desde a era cl&aacute;ssica) recomenda&ccedil;&otilde;es da  escola, dos militares, dos   m&eacute;dicos, dos psiquiatras e psic&oacute;logos, para que a fam&iacute;lia  fosse o lugar primordial para   o disciplinamento do normal e do anormal. Sendo assim, um a  um, os cachorrinhos   apresentavam ao pai o seu latido, que lhe respondia com um  olhar de aprova&ccedil;&atilde;o ou   um rosnar orgulhoso.</p>     <p>Quando chegou a vez de Bingo, dando pulinhos at&eacute; Seu Bing&atilde;o,  deu-lhe uma   molhada lambida. O pai, imediatamente, empurrou o  cachorrinho e ficou esperando,   assim como toda a fam&iacute;lia. Ent&atilde;o, Bingo se preparou e lan&ccedil;ou  o seu primeiro miado:   &laquo;- MIAAAU!&raquo;. &laquo;Horror! Alvoro&ccedil;o! Pandem&ocirc;nio! Coisa nunca  vista!&raquo; (Bandeira,   2002, p.20). Os outros filhotes n&atilde;o sabiam o que estava  acontecendo, Dona Bingona   fingia um desmaio de cachorro e Seu Bing&atilde;o tinha uma express&atilde;o  de fogo nos olhos. Bingo ficou com medo e surpreso. Ele caprichou tanto e  parece que n&atilde;o tinham   gostado do seu miado. Seu Bing&atilde;o ficou sem saber o que  pensar.</p>     <p>O pai se preocupa com sua linhagem, com o que os outros cachorros v&atilde;o  dizer. Em nossa cultura espera-se que os sujeitos/animais do sexo  masculino sejam machos,   fortes, viris, que perpetuem o nome da esp&eacute;cie. &laquo;Mas h&aacute;  sujeitos de g&ecirc;nero   "incoerentes", "descont&iacute;nuos", indiv&iacute;duos que deixam de se  conformar &agrave;s normas   generificadas de inteligibilidade cultural pelas quais todos  deveriam ser definidos&raquo;   (Louro, 2008, p.67), contrariando assim as expectativas dos  pais, da fam&iacute;lia e da   sociedade.</p>     <p>Toda a fam&iacute;lia, com exce&ccedil;&atilde;o de Bingo, p&ocirc;s-se a ganir,  &laquo;desconsoladamente&raquo;. Ele   ficou sozinho em um canto, com o &laquo;rabo entre as pernas&raquo; e as  &laquo;orelhinhas murchas&raquo;   (Bandeira, 2002, p.20). Com toda a confus&atilde;o, os donos da  casa foram ver o que estava   acontecendo. Bingo, pensando que eles iriam compreend&ecirc;-lo,  pois sempre lhe faziam   cafun&eacute;, correu at&eacute; eles e deu um forte &laquo;- MIAAAU!&raquo;. O homem  e a mulher ficaram   muito assustados e discutiam, chegaram a falar da <i>carrocinha</i>. Bingo  n&atilde;o sabia do   que se tratava, mas Seu Bing&atilde;o e Dona Bingona sabiam a  respeito. A m&atilde;e tremia de   medo e em outras situa&ccedil;&otilde;es at&eacute; iria no lugar do filho, mas  nessa circunst&acirc;ncia n&atilde;o   deixaria que um filhote servisse de mal exemplo para os irm&atilde;os.  O marido, que sabia   que o pior que podia acontecer a um c&atilde;o &eacute; a carrocinha,  pensou que diante daquela   trag&eacute;dia, a carrocinha seria melhor que ter um filho miando  como se fosse um gato.</p>     <p>Seu Bing&atilde;o prefere perder o filho a ter a &laquo;dignidade  enlameada por um filho   seu, miando como... como um gato!&raquo; (Bandeira, 2002, p.24).  Quando Seu Bing&atilde;o   compara Bingo a um gato o faz com um sentido pejorativo, a  inten&ccedil;&atilde;o &eacute; ridicularizar   a imagem do filho. Cham&aacute;-lo de gato &eacute; uma forma de  menosprezar a diferen&ccedil;a de   Bingo. Trata-se, pois, de uma representa&ccedil;&atilde;o discursiva  compreendida por n&oacute;s como   negativa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; diferen&ccedil;a, &agrave; identidade de Bingo, que  mia ao inv&eacute;s de rosnar. O pr&oacute;prio ato de miar est&aacute; mais associado ao feminino,  enquanto o rosnar est&aacute; para   o masculino, o que fica evidente na expectativa dos pais ao  esperar um rosnado forte,   digno da ra&ccedil;a dos vira-latas de respeito.</p>     <p>&Eacute; v&aacute;lido observarmos tamb&eacute;m que na narrativa Dona Bingona  teme que as atitudes   de Bingo sirvam de mau exemplo para os outros filhotes. A  diferen&ccedil;a &eacute; vista   com maus olhos e pretende-se &laquo;cort&aacute;-la pela raiz&raquo; para que  n&atilde;o possa ser seguida   por outros filhotes. Muitas fam&iacute;lias n&atilde;o conseguem vencer o  preconceito e quando os   pais descobrem que t&ecirc;m um filho homoafetivo sentem vergonha dele,  se preocupam   com o que os familiares, os amigos e os vizinhos v&atilde;o dizer e  temem que a &laquo;rebeldia&raquo;   do filho que assume a homoafetividade possa &laquo;pegar&raquo; nos  outros filhos.</p>     <p>Os pais viraram as costas para Bingo e os filhotes fizeram o  mesmo, sem nada   compreenderem. Bingo estava sozinho em um canto, somente o  gato o olhava do   alto do telhado. Ningu&eacute;m se aproximava dele, &laquo;como se ele  tivesse alguma doen&ccedil;a   contagiosa, tipo catapora ou sarampo, que ningu&eacute;m quer  pegar&raquo; (Bandeira, 2002, p.26). Mais uma consequ&ecirc;ncia do &laquo;delito&raquo; de Bingo: a  solid&atilde;o. Esta se apresenta   como uma puni&ccedil;&atilde;o &agrave;queles que s&atilde;o diferentes da normalidade.</p>     <p>O sujeito homoafetivo &eacute; condenado a afastar-se da vida  social, &eacute; for&ccedil;ado a se   esconder nos guetos ou no arm&aacute;rio. &laquo;Atrav&eacute;s de m&uacute;ltiplas  estrat&eacute;gias de disciplinamento,   aprendemos a vergonha e a culpa; experimentamos a censura e  o controle&raquo;   (Louro, 2010, p.27). Aqueles que n&atilde;o se escondem, n&atilde;o ficam  em sil&ecirc;ncio, n&atilde;o   dissimulam ou n&atilde;o vivem segregados -s&atilde;o poucas as  alternativas que eles possuem-s&atilde;o rejeitados, exclu&iacute;dos e pagam o pre&ccedil;o por sua ousadia e  transgress&atilde;o. Parece que a homoafetividade &eacute; &laquo;contagiosa&raquo;, a aproxima&ccedil;&atilde;o  ou a simpatia a sujeitos   homoafetivos pode significar uma ades&atilde;o ou uma identifica&ccedil;&atilde;o  a essa identidade. Por   isso, a sociedade cria t&eacute;cnicas diversas para que os  indiv&iacute;duos n&atilde;o cometam desvios   e caso eles se desviem, h&aacute; tamb&eacute;m as t&eacute;cnicas de puni&ccedil;&atilde;o e  de disciplinamento do   corpo e de suas subjetividades.</p>     <p>A inobserv&acirc;ncia, aquilo que &eacute; inadequado &agrave; regra e o que se  afasta dela, os desvios,   tudo isso est&aacute; sujeito &agrave; penalidade disciplinar. Na escola,  os alunos s&atilde;o colocados   conforme as aptid&otilde;es e o comportamento que possuem; sobre  eles h&aacute; uma press&atilde;o   constante, para que tenham o mesmo modelo e assim serem  submetidos &agrave; subordina&ccedil;&atilde;o,   ao cumprimento dos deveres, &agrave; docilidade e &agrave; disciplina. A  penalidade, que   perpassar&aacute; todos os pontos e controlar&aacute; os momentos das  institui&ccedil;&otilde;es disciplinares,   servir&aacute; para comparar, diferenciar, hierarquizar,  homogeneizar e excluir, ou seja,   normalizar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Justamente em decorr&ecirc;ncia dessas t&eacute;cnicas de disciplinamento  e de vigil&acirc;ncia &eacute;   que no outro dia, chegou &agrave; casa dos pais de Bingo o pequeno  caminh&atilde;o cercado por   grades e cheio de cachorros. O homem do caminh&atilde;o, ao ouvir a  hist&oacute;ria dos donos   da casa, se recusou a levar Bingo. Ele nunca ouviu falar de  cachorro que mia. Depois   que o dono da casa lhe deu dinheiro, ele entrou no quintal  com uma corda. Foi   uma correria: Seu Bing&atilde;o e Dona Bingona se esconderam, os  cachorrinhos corriam   pelo quintal. A dona da casa chamou o Bingo, que se  aproximou do homem e fez   um triste &laquo;- Miau...&raquo;. O homem jogou o la&ccedil;o em Bingo. O gato  assistia a tudo. Jogaram Bingo dentro da carrocinha. E assim ele recebe o  castigo por ter cometido   t&atilde;o grave &laquo;delito&raquo;. Foi condenado &agrave; pris&atilde;o, assim como um  criminoso.</p>     <p>Muitas vezes, os homoafetivos s&atilde;o vistos como criminosos,  aqueles que amea&ccedil;am   a moral, que ofendem as pessoas de &laquo;bons costumes&raquo;. Trata-se  de corpos que n&atilde;o   s&atilde;o considerados pela sociedade como d&oacute;ceis nem obedientes  &agrave;s regras vigentes. Por   isso mesmo, o corpo desses sujeitos precisa ser  disciplinado, precisa de corre&ccedil;&atilde;o,   &eacute; necess&aacute;rio ensin&aacute;-lo e impor a ele certos gestos e  comportamentos culturalmente   aceit&aacute;veis. O controle disciplinar deve proporcionar a &laquo;boa&raquo;  rela&ccedil;&atilde;o entre um gesto   e toda a atitude do corpo.</p>     <p>O corpo que &eacute; bem disciplinado produz gestos eficientes. Os  mecanismos de   poder tornam o corpo o seu alvo e dessa forma esse corpo se  constitui como novas   maneiras de produzir o saber. Desse modo, a disciplina  trabalha na &laquo;fabrica&ccedil;&atilde;o&raquo; de   indiv&iacute;duos, sendo uma t&eacute;cnica que resulta de uma rela&ccedil;&atilde;o  poder-saber que transforma   os indiv&iacute;duos em objetos e instrumentos de sua pr&aacute;tica.</p>     <p>Para Bingo, tudo aquilo era um pesadelo, logo acordaria no  seu quintal. Dentro   da carrocinha, Bingo perguntou aos outros cachorros se  tamb&eacute;m estavam presos   porque miavam: &laquo;-Miar?!- horrorizou-se um cachorro de maus  bofes. -N&oacute;s   somos c&atilde;es vagabundos, mas somos cachorros de verdade&raquo;  (Bandeira, 2002, p.30). H&aacute; no discurso do cachorro a afirma&ccedil;&atilde;o de uma identidade  tida como &laquo;normal&raquo; e   &laquo;verdadeira&raquo;, a partir de uma performance e um gesto  desempenhado por sua &laquo;ra&ccedil;a&raquo;. A diferen&ccedil;a &eacute; vista e compreendida como algo que n&atilde;o pode  ser considerado parte de   uma &laquo;verdadeira&raquo; identidade canina. &Eacute; not&oacute;rio que a  diferen&ccedil;a causou rejei&ccedil;&atilde;o. At&eacute;   mesmo seus pares ridicularizam a diferen&ccedil;a de Bingo. A inj&uacute;ria,  quando proferida,   fere e marca a consci&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo com a vergonha. A  personalidade desse sujeito   ter&aacute; como um de seus elementos constitutivos uma consci&ecirc;ncia  envergonhada   de si mesma.</p>     <p>Os c&atilde;es foram levados para o Canil Municipal. Foi uma  confus&atilde;o na hora de   coloc&aacute;-los dentro da jaula. Bingo se perguntava onde estaria  o gato para socorr&ecirc;-lo   e como se o chamasse, deu um forte miau. Como s&atilde;o inimigos  dos gatos, os c&atilde;es de   todas as jaulas come&ccedil;aram a latir, queriam devorar aquele  que miava. Na jaula   de Bingo, os c&atilde;es n&atilde;o conseguiam compreender, pensaram que  ele era um gato   disfar&ccedil;ado e todos foram para cima dele, que corria  desesperado dentro da jaula. Apareceu um humano que mandou que todos calassem a boca.  Bingo foi salvo,   mas estava todo esfolado e cheio de arranh&otilde;es, o que mostrou  aos outros cachorros   que ele n&atilde;o estava usando disfarce. Ele era um c&atilde;o que  miava. Isso n&atilde;o foi aceito   pelos seus companheiros, pois apesar de vagabundos, &laquo;eram  cachorros de verdade&raquo;   (Bandeira, 2002, p.35). Para eles, era uma vergonha um  cachorro que miava. Bingo,   em um canto, estava abandonado e triste.</p>     <p>Al&eacute;m da solid&atilde;o, no canil Bingo teve que enfrentar as pulgas  -que n&atilde;o existiam   l&aacute; no seu quintal- e a pouca comida com gosto ruim -quanta  saudade ele   sentia da sua tigelinha de leite e das guloseimas do  quintal. A escolha tem um pre&ccedil;o   e o faz perder algumas &laquo;vantagens&raquo;. A homoafetividade tamb&eacute;m  faz os sujeitos   homoafetivos &laquo;perderem&raquo; os modos heterossexuais ou as  rela&ccedil;&otilde;es com as pessoas   das quais tiveram que se afastar ou se afastaram deles,  entre outras. Isso gera uma   melancolia, provocada, em alguns casos, pela perda das  rela&ccedil;&otilde;es com os pais e os   irm&atilde;os, pelo desejo de constru&iacute;rem uma fam&iacute;lia para eles  mesmos e pela suposi&ccedil;&atilde;o   de que eles n&atilde;o poder&atilde;o ter filhos.</p>     <p>Os cachorros da jaula de Bingo estavam pensando em fugir e  organizaram um   plano para a fuga, mas disseram a Bingo que ele n&atilde;o servia  para nada e cachorro   que miava n&atilde;o poderia participar. Aconteceu, por&eacute;m, que o  plano n&atilde;o funcionou e   quando o chefe dos carcereiros, na escurid&atilde;o, ouviu Bingo  miando pensou que fosse   um gato e o chutou para fora da jaula.</p>     <p>Vendo-se livre, Bingo come&ccedil;ou a correr e procurar o port&atilde;o.  Quando os homens   perceberam que havia um c&atilde;o fora da jaula, queriam la&ccedil;ar e  pegar Bingo, que n&atilde;o   tinha para onde escapar. Seus olhos, ent&atilde;o, cruzaram com os  do gato, que estava   no alto do muro. Os olhos dele pareciam chamar Bingo,  convidando-o a pular. O   gato era uma esp&eacute;cie de amigo e queria ajud&aacute;-lo, mas como  ele, um c&atilde;o de quintal,   poderia pular? O gato lhe deu for&ccedil;as e, cercado pelos  homens, Bingo viu que n&atilde;o   tinha outra op&ccedil;&atilde;o. Correu e saltou, mas bateu-se contra o  muro, tentou mais uma vez   e novamente n&atilde;o conseguiu. Bingo teve que livrar-se das  pauladas, correu e &laquo;lutando   pela vida, saltou como um gato&raquo; (Bandeira, 2002, p.44).  Diante da possibilidade de   ser agredido, verbal ou fisicamente, Bingo percebe o perigo  e tenta fugir das amarras   de uma sociedade que pretende prend&ecirc;-lo, disciplin&aacute;-lo,  torn&aacute;-lo um corpo d&oacute;cil.</p>     <p>Para os sujeitos homoafetivos, os amigos se tornam uma  fam&iacute;lia. Eles acabam   tendo a necessidade de romper com o meio familiar, o que faz  com que eles invistam   na constitui&ccedil;&atilde;o de amizades. N&atilde;o &eacute; uma tarefa f&aacute;cil  substituir os la&ccedil;os &laquo;naturais&raquo; e   familiares por outros que sejam escolhidos e constru&iacute;dos.  Renuncia-se &agrave; vida familiar   e essa ren&uacute;ncia for&ccedil;ada passa a fazer parte da subjetividade  do sujeito. Conforme   Didier Eribon (2008), a ruptura com a fam&iacute;lia, inicialmente,  &eacute; compreendida e vivida   como uma liberta&ccedil;&atilde;o, mas, com o passar do tempo, o  distanciamento para muitos   desses sujeitos vai se tornando dif&iacute;cil de enfrentar,  devido, sobretudo, &agrave; solid&atilde;o. Quando chega o momento de tentar reatar os la&ccedil;os familiares,  inicia-se uma longa   tentativa de reconcilia&ccedil;&atilde;o, que poder&aacute; durar at&eacute; mesmo a  vida inteira.</p>     <p>Com as patinhas agarradas no muro, Bingo n&atilde;o tinha for&ccedil;a  para subir. Os olhos   amarelos do gato lhe passavam for&ccedil;a e a proximidade da  liberdade. Bingo juntou   todas as suas for&ccedil;as e soltou um forte &laquo;- <i>Miaaau</i>!&raquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>L&aacute; embaixo, os homens viram, recortadas contra a lua cheia,  as sombras de um   gato e de um cachorro correndo sobre os telhados.</p>     <blockquote>       <p>Ningu&eacute;m mais p&ocirc;de encontrar o Bingo. Nunca se soube para  onde ele foi. Uns dizem que     ele partiu para bem longe e foi aprender outras l&iacute;nguas.  Dizem que, agora, Bingo sabe     cocoricar, mugir, balir e at&eacute; trinar. Outros acham que ele  foi para uma terra onde todo     mundo pode falar a l&iacute;ngua que quiser. Uma terra onde &eacute;  permitido miar. Uma terra onde &eacute;     permitido ser diferente! (Bandeira,  2002, p.47)</p> </blockquote>     <p>Na narrativa em quest&atilde;o n&atilde;o fica expl&iacute;cito qual foi o  destino de Bingo, mas &eacute;   certo que no lugar onde nasceu ele n&atilde;o ficou. Partir &laquo;para  bem longe&raquo; &eacute; uma forma   de fugir da inj&uacute;ria, podendo viver a sua identidade sem  precisar dissimul&aacute;-la ou   sofrer discrimina&ccedil;&atilde;o por ter coragem de assumi-la. N&atilde;o se  trata apenas de romper,   ultrapassar um espa&ccedil;o geogr&aacute;fico, &eacute; uma forma de &laquo;redefinir&raquo;  a sua identidade, a   partir de uma transitoriedade por espa&ccedil;os diversos. Da&iacute; a  constante peregrina&ccedil;&atilde;o   daqueles que ousam romper tais barreiras.</p>     <p>Muitos homoafetivos deixam as suas cidades em busca das  cidades grandes   que parecem mais acolhedoras. Elas representam o ref&uacute;gio  desses sujeitos, um   lugar onde eles possam tentar viver a sua sexualidade. A  migra&ccedil;&atilde;o traz consigo um   efeito de liberdade. No s&eacute;culo xix, por exemplo, cidades  como Nova Iorque, Paris   e Berlim atra&iacute;a &laquo;refugiados&raquo; de todo o pa&iacute;s e at&eacute; mesmo do  exterior com a ideia de   um &laquo;mundo gay&raquo;. Hoje a ideia de encontrar um lugar onde  esses sujeitos possam   viver a sua sexualidade ainda existe, pois persiste a  migra&ccedil;&atilde;o dos homoafetivos para   as cidades grandes: &laquo;Houve -e, com certeza, ainda h&aacute;- uma  fantasmagoria do   "outro lugar" nos homossexuais, um "outro lugar" que  ofereceria a possibilidade de   realizar aspira&ccedil;&otilde;es que tantas raz&otilde;es pareciam tornar  imposs&iacute;veis, impens&aacute;veis, em   seu pr&oacute;prio pa&iacute;s&raquo; (Eribon, 2008, p.33). Segundo este autor,  a cidade grande tornou   poss&iacute;vel o desenvolvimento dos modos de vida gay e ela  tamb&eacute;m pode possibilitar   a supera&ccedil;&atilde;o da solid&atilde;o e permitir a prote&ccedil;&atilde;o do anonimato.</p>     <p>N&atilde;o &eacute; que n&atilde;o houvesse nos espa&ccedil;os de sociabilidade das  grandes metr&oacute;poles   -quase nunca exclusivamente gays- as batidas policiais, as  averigua&ccedil;&otilde;es e as   pris&otilde;es para pressionar essa &laquo;minoria&raquo;. Esses espa&ccedil;os eram  compartilhados por homoafetivos   e heterossexuais e esse contato com o exterior proporcionava  um embate   entre o segredo e a visibilidade, entre o medo e o temor.  Eribon (2008) pontua que o   &laquo;mundo gay&raquo; n&atilde;o se originou repentinamente com as revoltas  de <i>Stonewall. </i>Estas s&oacute;   se tornaram poss&iacute;veis porque essa denominada &laquo;subcultura&raquo; j&aacute;  existia, o que ocorre   &eacute; uma maior visibilidade a partir de <i>Stonewall</i>.</p>     <p>O espa&ccedil;o da cidade grande n&atilde;o representa apenas a liberdade.  Junto com ela, ele   traz tamb&eacute;m aspectos negativos: a viol&ecirc;ncia, as agress&otilde;es, a  hostilidade, os embates   com a pol&iacute;cia -que tamb&eacute;m possui um poder disciplinador- e a  transmiss&atilde;o   de doen&ccedil;as, dentre outros. O discurso conservador dir&aacute; que a  cidade &eacute; o local da   perdi&ccedil;&atilde;o. Na cidade est&aacute; a &laquo;cultura gay&raquo; e a vigil&acirc;ncia  social, a solidariedade e a   abje&ccedil;&atilde;o. A &laquo;identidade homossexual&raquo; &eacute; poss&iacute;vel, desde que  seja &laquo;deixada em sil&ecirc;ncio   e exclu&iacute;da -pelo menos de modo fict&iacute;cio- a sexualidade&raquo;  (Eribon, 2008, p.69). O   homoafetivo geralmente aceito &eacute; aquele que disfar&ccedil;a e/ou  esconde a sua sexualidade,   o seu desejo e as suas pr&aacute;ticas. A manifesta&ccedil;&atilde;o em p&uacute;blico,  feita abertamente, de   sujeitos e pr&aacute;ticas que n&atilde;o sejam heterossexuais, ainda  incomoda e gera preconceito   e discrimina&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4.  Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>As identidades s&atilde;o inst&aacute;veis, fragmentadas e plurais, mesmo  assim a sociedade   ocidental insiste em reiterar e fixar certas identidades  enquanto outras s&atilde;o negadas   e recusadas. &Eacute; comum a aceita&ccedil;&atilde;o da transitoriedade de  classe, por exemplo, mas o   mesmo n&atilde;o acontece em se tratando das identidades de g&ecirc;nero  e sexuais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>S&atilde;o muitos os discursos sobre a sexualidade e eles n&atilde;o param  de se modificar,   por isso mesmo, as respostas, as resist&ecirc;ncias e as  interven&ccedil;&otilde;es -sociais, culturais   e pol&iacute;ticas- tamb&eacute;m se renovam, mas do &laquo;outro lado&raquo; surgem  as contesta&ccedil;&otilde;es e   os rompimentos com a emerg&ecirc;ncia de identidades oprimidas e  marginalizadas, que   insistem em se afirmarem social, pol&iacute;tica e abertamente. Com  essas disputas, vemos o   debate, o di&aacute;logo e o enfrentamento em diferentes frentes,  incluindo-se a&iacute; o liter&aacute;rio.</p>     <p>Pelos motivos expostos no decorrer de nossas reflex&otilde;es,  podemos concluir que   essa diferen&ccedil;a constru&iacute;da na tessitura da narrativa  liter&aacute;ria &eacute; simb&oacute;lica, justamente   por se tratar de uma literatura destinada ao jovem leitor. A  diferen&ccedil;a, na literatura   infantil e juvenil, conforme o corpus selecionado para esta  pesquisa, demonstra que   ela se refere, de um modo mais amplo, &agrave; diferen&ccedil;a de g&ecirc;nero  e sexual, ocorrendo de   forma expl&iacute;cita ou impl&iacute;cita. Da&iacute; a necessidade de um olhar  mais atento para essas   narrativas, atrav&eacute;s de um exerc&iacute;cio de hermen&ecirc;utica, que  pode permitir ao leitor,   em processo de forma&ccedil;&atilde;o, solapar alguns dos preconceitos  arraigados no &acirc;mago de   nossa sociedade ocidental.</p>       <p>&nbsp;</p>     <p>_____________________________    <br> <b>Notes</b>    <br> <a href="#*b" name="*a">*</a> Este artigo &eacute; um dos resultados do projeto de pesquisa &laquo;Representa&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero, de identidade e de sexualidade   na literatura infanto-juvenil brasileira contempor&acirc;nea: abordagens te&oacute;rico-cr&iacute;ticas e metodol&oacute;gicas&raquo; vinculado   ao grupo de pesquisa &laquo;Estudos sobre a narrativa brasileira contempor&acirc;nea&raquo; (CNPq/UFT), e tamb&eacute;m deriva da   Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado intitulada &laquo;Ensino de literatura infantil e juvenil e diversidade sexual: perspectivas   e desafios para a forma&ccedil;&atilde;o de leitores na contemporaneidade&raquo;, submetida ao Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Letras: Ensino de L&iacute;ngua e Literatura, da Universidade Federal do Tocantins - UFT.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias  bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>1. Bandeira, P. (2002). <i>&Eacute;  proibido miar</i>. 3<sup>a</sup> edi&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Moderna.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0120-5587201400020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>2. Camargo, F. P. (2012). Corpos ardentes, desejos latentes:  configura&ccedil;&otilde;es   homoer&oacute;ticas em <i>Abjetos:  Desejos </i>de Antonio de P&aacute;dua Dias da Silva. Em   <i>Anais do VI Congresso Internacional de Estudos sobre  a Diversidade Sexual</i>   <i>e de G&ecirc;nero da ABEH</i>.  Volume 1. N&uacute;mero 1. Salvador: UFBA. Dispon&iacute;vel em:   <a href="http://abeh.org.br/wp-login.php?redirect_to=http%3A%2F%2Fabeh.org.br%2Fwp-admin%2F&reauth=1" target="_blank">www.abeh.org.br</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0120-5587201400020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>3. Cosson, R. (2011). <i>Letramento liter&aacute;rio: teoria e pr&aacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0120-5587201400020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>4. Eribon, D. (2008). <i>Reflex&otilde;es  sobre a quest&atilde;o gay</i>. Rio de Janeiro: Companhia   de Freud.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0120-5587201400020001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>5. Foucault, M. (1987). <i>Vigiar  e punir: nascimento da pris&atilde;o</i>.  Petr&oacute;polis: Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0120-5587201400020001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>6. Louro, G. L. (2008). <i>Um  corpo estranho</i>. <i>Ensaios  sobre sexualidade e teoria</i>   <i>queer</i>. Belo  Horizonte: Aut&ecirc;ntica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0120-5587201400020001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>7. Louro, G. L. (2010). Pedagogias da sexualidade. <i>O corpo educado</i>. <i>Pedagogias</i>   <i>da sexualidade</i>. (8-34). Belo Horizonte: Aut&ecirc;ntica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0120-5587201400020001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>8. Paulino, G. (2007). Livros, cr&iacute;ticos, leitores: tr&acirc;nsitos  de uma &eacute;tica. Paiva,   A., A. Alves, G. Paulino, Z. Versiani (Eds.). <i>Literatura e letramento: espa&ccedil;os,</i>   <i>suportes e interfaces- o jogo do livro</i>. (13-20). Belo Horizonte: Aut&ecirc;ntica/CEALE/FaE/UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0120-5587201400020001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p> </font>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bandeira]]></surname>
<given-names><![CDATA[P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[É proibido miar]]></source>
<year>2002</year>
<edition>3ª</edition>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Moderna]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Camargo]]></surname>
<given-names><![CDATA[F. P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Corpos ardentes, desejos latentes: configurações homoeróticas em Abjetos: Desejos de Antonio de Pádua Dias da Silva]]></article-title>
<source><![CDATA[]]></source>
<year>2012</year>
<volume>1</volume>
<conf-name><![CDATA[VI Congresso Internacional de Estudos sobre a Diversidade Sexual e de Gênero da ABEH]]></conf-name>
<conf-loc> </conf-loc>
<publisher-name><![CDATA[UFBA]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cosson]]></surname>
<given-names><![CDATA[R]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Letramento literário: teoria e prática]]></source>
<year>2011</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Contexto]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Eribon]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Reflexões sobre a questão gay]]></source>
<year>2008</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Companhia de Freud]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<label>5</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Foucault]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Vigiar e punir: nascimento da prisão]]></source>
<year>1987</year>
<publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<label>6</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Louro]]></surname>
<given-names><![CDATA[G. L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Um corpo estranho: Ensaios sobre sexualidade e teoria queer]]></source>
<year>2008</year>
<publisher-loc><![CDATA[Belo Horizonte ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Autêntica]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<label>7</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Louro]]></surname>
<given-names><![CDATA[G. L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Pedagogias da sexualidade: O corpo educado. Pedagogias da sexualidade]]></source>
<year>2010</year>
<page-range>8-34</page-range><publisher-loc><![CDATA[Belo Horizonte ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Autêntica]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<label>8</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Paulino]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Livros, críticos, leitores: trânsitos de uma ética]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Paiva]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Alves]]></surname>
<given-names><![CDATA[A]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Paulino]]></surname>
<given-names><![CDATA[G]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Versiani]]></surname>
<given-names><![CDATA[Z]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Literatura e letramento: espaços, suportes e interfaces- o jogo do livro]]></source>
<year>2007</year>
<page-range>13-20</page-range><publisher-loc><![CDATA[Belo Horizonte ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[AutênticaCEALEFaEUFMG]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
