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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The author carries out a memory exercise by which he explores his years of academic education in Europe. The text, besides from being an exceptional personal record, is also an outlook of the intellectual debate present in French social sciences throughout a particularly interesting period of its history, seen through the eyes and experience of a Brazilian intellectual and researcher; debate that has also had a very strong presence in the history of Latin-American social sciences.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="Verdana" size="2">       <p align=center><b><font size="4">Memorial: uma trajet&oacute;ria intelectual</font></b></p>      <p><b>Renato Ortiz</b>      <p>Doctor en Sociolog&iacute;a y Antropolog&iacute;a de la &Eacute;cole des Hautes  &Eacute;tudes en Sciences Sociales &#40;Par&iacute;s&#41; . Profesor de Unicamp en Sao Paulo. Entre sus  obras est&aacute;n &quot;Mundializaci&oacute;n y cultura&quot;, &quot;Otro territorio&quot;, &quot;Modernidad y  espacio. Benjam&iacute;n en Par&iacute;s&quot;, &quot;Lo pr&oacute;ximo y lo distante. Jap&oacute;n y la  modernidad-mundo&quot;, y &quot;Taquigrafiando lo social&quot;, entre otras.</p>  <hr size="1">      <p><b>RESUMEN</b>     <p>El autor propone un ejercicio de la memoria a  trav&eacute;s del cual explora sus a&ntilde;os de formaci&oacute;n acad&eacute;mica en Europa. El texto,  adem&aacute;s de ser un registro personal excepcional, es tambi&eacute;n un panorama del  debate intelectual en las ciencias sociales francesas durante un per&iacute;odo  particularmente interesante de su historia, visto desde la experiencia de un  intelectual e investigador brasile&ntilde;o. Debate que por lo dem&aacute;s ha tenido una  presencia muy viva en la evoluci&oacute;n de las ciencias sociales latinoamericanas. </p>      <p><b>PALABRAS CLAVE</b>     <p>Memorial, trayectoria intelectual, habitus, Brasil, Mayo de 1968.</p>  <hr size="1">      <p align=center><b><font size="3"> &quot;Memorial: An Intelectual course&quot;</font> </b></p>      <p><b>ABSTRACT</b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>The author carries out a memory exercise by  which he explores his years of academic education in Europe. The text, besides  from being an exceptional personal record, is also an outlook of the  intellectual debate present in French social sciences throughout a particularly  interesting period of its history, seen through the eyes and experience of a  Brazilian intellectual and researcher; debate that has also had a very strong  presence in the history of Latin-American social sciences.</p>      <p><b>KEYWORDS</b>     <p>Memorial, intellectual course, habitus, Brazil, May 1968.</p>  <hr size="1">      <p>Em <i>Mati&eacute;re et M&eacute;moire</i>, Bergson distingue dois tipos de mem&oacute;ria, uma que  seria h&aacute;bito, a&ccedil;&atilde;o, outra, representa&ccedil;&atilde;o. O exemplo que ele trabalha &eacute;  sugestivo. Eu estudo uma li&ccedil;&atilde;o e para entend&ecirc;-la a leio in&uacute;meras vezes, cada  nova leitura &eacute; um progresso, as palavras se encadeiam e terminam por encaixar-se  dentro de um conjunto intelig&iacute;vel. Diz-se ent&atilde;o que ela tornou-se lembran&ccedil;a pois  encontra-se impressa na minha mem&oacute;ria. Entretanto, posso perceber o processo de  aprendizagem de outra maneira, neste caso, n&atilde;o &eacute; tanto o resultado que  interessa, o fato de t&ecirc;-la ou n&atilde;o decorado, mas como a li&ccedil;&atilde;o foi aprendida,  quais s&atilde;o as circunst&acirc;ncias que a envolveram, o clima afetivo que a submergia.  Cada leitura &eacute; assim um ponto descont&iacute;nuo, uma individualidade diferente das  outras, uma situa&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica. O primeiro tipo de lembran&ccedil;a &eacute; na verdade um  h&aacute;bito que permite agir nas leituras futuras, o segundo, uma representa&ccedil;&atilde;o, pois  a recorda&ccedil;&atilde;o de cada uma delas &eacute; irredut&iacute;vel a todas as outras. Refazer uma  trajet&oacute;ria intelectual &eacute; represent&aacute;-la, torn&aacute;-la presente atrav&eacute;s da  rememoriza&ccedil;&atilde;o, este momento arbitr&aacute;rio &eacute; o ponto de partida em torno do qual  organiza-se o relato. A distin&ccedil;&atilde;o proposta por Bergson &eacute; f&aacute;cil de ser entendida  quando se trata de estabelecer a diferen&ccedil;a entre mem&oacute;ria fisiol&oacute;gica e  simb&oacute;lica. Sua argumenta&ccedil;&atilde;o tinha o intuito de combater os psic&oacute;logos e a  Psicologia de seu tempo, quando reduziam a lembran&ccedil;a a um tra&ccedil;o material  inscrito no c&eacute;rebro. Dentro desta perspectiva, relembrar seria um procedimento  de car&aacute;ter puramente biol&oacute;gico. Existem por&eacute;m, outros contratempos, Proust bem  que os percebeu, e na busca de seu tempo perdido chegou a esbo&ccedil;ar um contraponto  entre mem&oacute;ria volunt&aacute;ria e involunt&aacute;ria. A primeira seria decorrente da raz&atilde;o, a  segunda da intui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o foi a vontade de sua consci&ecirc;ncia que o projetou no  passado, um acontecimento trivial, fortuito, o cheiro de uma madeleine, o  introduziu no rec&ocirc;ndido mundo da inf&acirc;ncia.</p>     <p>Dificilmente poderia argumentar que um memorial seria da ordem da mem&oacute;ria involunt&aacute;ria, meu impulso  inicial nada tem de casual, ele ancora-se num pressuposto anterior, a  necessidade de circunstanciar uma auto- narrativa visando a obten&ccedil;&atilde;o de um  t&iacute;tulo espec&iacute;fico. De alguma maneira devo provar que os fatos &quot;realmente se  passaram assim&quot;, e para isso, sou obrigado a anexar um volume de evid&ecirc;ncias  atestando a veracidade de minhas palavras -diplomas, c&oacute;pias de artigos,  exemplares de livros, atestados de freq&uuml;&ecirc;ncia &agrave; congressos. Ao afirmar que li Os  <i>Manuscritos Filos&oacute;ficos</i> de Marx posso demonstrar, para mim e para os  outros, que se trata de um algo concreto e n&atilde;o o eco long&iacute;nquo de uma lembran&ccedil;a  fugida. Meu exemplar em franc&ecirc;s, j&aacute; bastante manuseado, as passagens nele  grifadas, ou as anota&ccedil;&otilde;es que guardei na minha pasta do marxismo, n&atilde;o deixam  d&uacute;vidas de que estive por ali. Mesmo que eu as tivesse perdido, juntamente com o  livro, restaria &agrave; banca examinadora o recurso de interrogar-me sobre a mat&eacute;ria.  Teria ent&atilde;o de recorrer &agrave; mem&oacute;ria h&aacute;bito daqual Bergson nos falava, embora  long&iacute;nqua, ela me guiaria nas agruras do presente. Mas seria um memorial para a  recorda&ccedil;&atilde;o pura e simples de um passado &quot;verdadeiro&quot;? Meu olhar passeia pela  estante do escrit&oacute;rio e pousa sobre um texto de Walter Benjamim. S&atilde;o dois tomos  em franc&ecirc;s. Confesso, nunca entendi o titulo, <i>Mythe et Violence</i>, a  colet&acirc;nea incorpora um &uacute;nico escrito sobre a viol&ecirc;ncia, a maioria deles diz  respeito &agrave; literatura e &aacute; arte. Logo na primeira p&aacute;gina encontro uma dedicat&oacute;ria  de Paula: &quot;se voc&ecirc; tiver saco de ler at&eacute; o fim, considere-se bem presenteado&quot;,  em baixo uma data, vinte e cinco de dezembro de 1971. Um presente de natal. Eu  havia visto o livro na vitrine das livrarias, as resenhas e os coment&aacute;rios na  imprensa eram estimulantes, pois os franceses conheceram os pensadores  frankfurtianos um pouco tardiamente, j&aacute; em meados da d&eacute;cada de 60. Ele acabava  de ser lan&ccedil;ado com um pref&aacute;cio de Maurice de Gondillac, fiquei curioso, mas n&atilde;o  tinha dinheiro para adquiri-lo. Paula o roubou para presentear-me. N&oacute;s &eacute;ramos  concierges, t&iacute;nhamos uma vida dif&iacute;cil, eu guardava aquele pr&eacute;dio de sete andares  numa pequena rua pr&oacute;xima ao Jardim de Luxemburgo. Deixo o exemplar de Benjamin e  escolho outro: <i>Textos Dial&eacute;ticos</i>, de Hegel. Na capa, uma informa&ccedil;&atilde;o  adicional para o leitor: &quot;selecionados e traduzidos com introdu&ccedil;&atilde;o e notas pelo  prof. Djacir Menezes&quot;. Uma surpresa. O que faz este pensador conservador na  minha estante ao lado de Marx e de Engels? N&atilde;o teria sido mais apropriado ter  lido algo can&ocirc;nico como a introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; filosofia escrita por Koj&egrave;ve ou  Hippolyte? A data &eacute; de 1969, significa que eu ainda encontrava-me no Brasil, era  polit&eacute;cnico, come&ccedil;ava a me interessar pelas Ci&ecirc;ncias Sociais, e seguia alguns  cursos no Instituto de Filosofia, reduto dos conservadores, que eu inclusive  combatia no movimento estudantil. Paris -as livrarias - Paula -  <i>concierge</i>; Escola Polit&eacute;cnica - o curso no Instituto de Filosofia - a  politiza&ccedil;&atilde;o dos anos 60. J&aacute; n&atilde;o me encontro mais entre minhas anota&ccedil;&otilde;es, esses  livros projetam-me numa dimens&atilde;o que n&atilde;o pode ser atestada da mesma forma que os  diplomas, livros ou confer&ecirc;ncias. S&oacute; posso represent&aacute;-la.</p>     <p>A arte mnem&ocirc;nica realiza-se sempre a partir de um determinado ponto fixo, eu relembro o  passado numa situa&ccedil;&atilde;o na qual o presente age como filtro. Os negros africanos ao  celebrarem os mitos de sua mem&oacute;ria coletiva os misturaram aos elementos  brasileiros porque o mundo no qual viviam era inteiramente diferente da condi&ccedil;&atilde;o  em que se encontravam nas suas na&ccedil;&otilde;es de origem. O fato de terem sido deslocados  da &Aacute;frica para o continente americano fez com que v&aacute;rios tra&ccedil;os de sua cultura  fossem esquecidos. Seria a mem&oacute;ria dos candombl&eacute;s falsa ou verdadeira? A  pergunta cont&eacute;m uma armadilha e nos induz a um falso problema, na verdade,  interessa saber como ela se atualiza, e isso implica uma relativa arbitrariedade  na organiza&ccedil;&atilde;o das lembran&ccedil;as, pois o presente &eacute; um fator din&acirc;mico, intr&iacute;nseco  ao processo mnem&ocirc;nico. Este memorial-mem&oacute;ria vem marcado por uma contradi&ccedil;&atilde;o  estrutural, a necessidade de ser representa&ccedil;&atilde;o e verdade. Tenho de escrev&ecirc;-lo de  maneira convincente, relatando fatos que necessitam, e podem, ser comprovados,  caso contr&aacute;rio fracassaria na tentativa de obter minha Livre-Doc&ecirc;ncia. Mas n&atilde;o  posso escapar-me de mergulhar numa dimens&atilde;o imag&eacute;tica que se encontra nebulosa e  obscura para mim. Um texto, escrito aos quarenta e um anos de idade com uma  finalidade acad&ecirc;mica, no qual n&atilde;o devem vazar minhas recorda&ccedil;&otilde;es mais &iacute;ntimas.  Um memorial balan&ccedil;o de minhas inclina&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas, que n&atilde;o se reduz a meros  conceitos abstratos mas dizem ainda respeito a meus sonhos e  ilus&otilde;es.</p>     <p><b>1947-1964</b></p>     <p>Pierre Bordieu, quando desenvolve o conceito de habitus, recupera da velha escol&aacute;stica a id&eacute;ia que o  h&aacute;bito &eacute; um <i>modus operandi</i>, uma disposi&ccedil;&atilde;o est&aacute;vel para se operar numa  determinada dire&ccedil;&atilde;o. Atrav&eacute;s da repeti&ccedil;&atilde;o, cria-se uma conaturabilidade entre  sujeito e objeto, assegurando-se assim a realiza&ccedil;&atilde;o de uma a&ccedil;&atilde;o determinada.  Quado menino, acreditava que a senten&ccedil;a, &quot;o h&aacute;bito faz o monge&quot;, dizia respeito  a sua vestimenta, n&atilde;o havia compreendido ainda que eram os rigores da vida  mon&aacute;stica e a &eacute;tica frugal, inscritas no corpo, fruto de um aprendizado longo e  severo, os que constitu&iacute;am seu verdadeiro <i>habitus</i>. O conceito j&aacute; tinha  sido trabalhado no livro A <i>Reprodu&ccedil;&atilde;o,</i> escrito em colabora&ccedil;&atilde;o com  Passeron, de de quem fui aluno em Vincennes, e retomava as preocupa&ccedil;&otilde;es de  Althusser que considerava a escola como um &quot;aparelho ideol&oacute;gico de Estado&quot;.  Bourdieu, apesar de suas cr&iacute;ticas posteriores, na &eacute;poca encontrava-se pr&oacute;ximo da  corrente estruturalista dominante, e procurava entender como o indiv&iacute;duo,  enquanto ator social, era um elemento ativo na reprodu&ccedil;&atilde;o da ordem. A no&ccedil;&atilde;o foi  mais tarde melhor elaborada e aplicada &agrave;s pesquisas emp&iacute;ricas sobre a esfera da  cultura, teatro, cinema, museus, fotografia, procurando dar conta dos mecanismos  de distin&ccedil;&atilde;o social. Poder&iacute;amos resumi-las da seguinte maneira: diga-me que  museus freq&uuml;enta, os livros que l&ecirc;, seu gosto musical, sua inclina&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica,  as roupas que usa, a escola que freq&uuml;entou, e eu te direi quem &eacute;s. N&atilde;o tenho  d&uacute;vidas que os estudos realizados pela equipe de Bourdieu s&atilde;o importantes, mas  creio, eles seriam insuficientes para apreender meu itiner&aacute;rio. A forma&ccedil;&atilde;o de  meu habitus cultural orientava-me para tudo o que n&atilde;o fui. Muitas vezes  perguntam-me como tornei-me um intelectual, confesso, mesmo j&aacute; tendo refletido  algumas vezes sobre o assunto, ter ainda algumas dificuldades para encontrar uma  explica&ccedil;&atilde;o definitiva. Se n&atilde;o hesitasse em aceitar a id&eacute;ia de beruf resolveria o  dilema sem maiores complica&ccedil;&otilde;es, no entanto, o argumento da voca&ccedil;&atilde;o possui um  fundo religioso que me incomoda, n&atilde;o foi por acaso que Weber o encontrou na  releitura que Lutero fazia da b&iacute;blia. Talvez, sendo agora obrigado a colocar  minha trajet&oacute;ria no papel, consiga esclarecer meu comportamento desviante e  entender melhor as linhas de um destino que n&atilde;o havia sido ainda  tra&ccedil;ado.</p>     <p>Fora de uma disposi&ccedil;&atilde;o musical que herdei de minha m&atilde;e, e eu me  refiro &agrave; m&uacute;sica popular, a cl&aacute;ssica era uma dimens&atilde;o estranha ao ambiente no  qual fui educado, n&atilde;o consigo lembrar-me de nenhuma inclina&ccedil;&atilde;o cultural mais  sofisticada que porventura pudesse ter absorvido durante minha inf&acirc;ncia e  adolesc&ecirc;ncia. Do lado de meu pai, eu poderia talvez ter &quot;puxado&quot; meu tio Carlos,  ex-padre, que na d&eacute;cada de quarenta abandonou a batina, deixou o interior pela  capital, aproximou-se do partido comunista, foi jornalista e cineasta. Pude  recentemente ver seu longa-metragem, &quot;Alameda da Saudade 113&quot;, nada mau para a  &eacute;poca, embora o enredo seja um tanto melodram&aacute;tico, conta a hist&oacute;ria de um amor  esp&iacute;rita, o encontro de um homem apaixonado por uma mulher j&aacute; falecida. O n&uacute;mero  113, figurando no t&iacute;tulo, indica a localiza&ccedil;&atilde;o do jazigo no cemit&eacute;rio. Outro  dia, folheando um texto de Glauber Rocha, fui encontrar Carlos Ortiz em nota de  p&eacute;-de-p&aacute;gina, com suas cartilhas sobre cinema, resumo dos cursos que ministrava  no in&iacute;cio dos anos cinq&uuml;enta. Mas se coloco esta poss&iacute;vel influ&ecirc;ncia no  condicional &eacute; porque ela decorre de uma vis&atilde;o a posteriori. Minha mem&oacute;ria  organiza as lembran&ccedil;as a partir de informa&ccedil;&otilde;es que hoje possuo, como este  pequeno livro, <i>Carlos Ortiz</i> e o <i>cinema brasileiro na d&eacute;cada de  50,,</i> ele me ensina algo que nunca vivenciei. Meu tio Carlos foi uma exce&ccedil;&atilde;o  dentro de uma fam&iacute;lia provinciana para a qual o aprimoramento cultural era uma  preocupa&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria; meu pai n&atilde;o terminou o curso ginasial e sua profiss&atilde;o de  comerciante, era representante de produtos diversos, farinha, f&oacute;sforos, banha, o  fazia viajar por todo o vale do Para &iacute;ba apresentando aos donos dos pequenos  bares e armaz&eacute;ns a lista das marcas com as quais trabalhava. Morreu quando eu  tinha oito anos de idade o que definitivamente afastou-me da influ&ecirc;ncia da  fam&iacute;lia Ortiz. Minha m&atilde;e tinha mais estudo. Preparou-se para o magist&eacute;rio, fez  Escola Normal e um curso de especializa&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o F&iacute;sica, din&acirc;mica,  trabalhava fora quando as mulheres eram geralmente donas-de-casa, guiava  autom&oacute;vel, e cedo, vi&uacute;va, teve de arcar com uma fam&iacute;lia de tr&ecirc;s filhos. Ap&oacute;s o  falecimento de meu pai tentou por todos meios retornar a Ribeir&atilde;o Preto junto ao  cl&atilde; dos Henriques Pinto. Conseguiu por fim uma vaga numa pequena escola  secund&aacute;ria em Brod&oacute;squi e nos mudamos quando estava para completar quatorze  anos. Se a ascend&ecirc;ncia paterna tinha sido at&eacute; ent&atilde;o pequena, tornou-se p&aacute;lida a  partir da&iacute;. Os Henriques Pinto eram uma fam&iacute;lia numerosa, oito homens, oito  mulheres. A natureza dividiu em n&uacute;mero id&ecirc;ntico os sexos, como essas fratrias  das sociedades abor&iacute;genes cujo sistema de classifica&ccedil;&atilde;o social erigia uma ordem  harmoniosa e complementar. Meu av&ocirc;, imigrante portugu&ecirc;s, marceneiro, casou-se  com uma mulata de Cravinhos, semi-letrada, cuja origem os filhos persistiam em  esconder. Artif&iacute;cio in&uacute;til pois as marcas na epiderme denunciavam de maneira  clara o passado negro. Uma fam&iacute;lia afetiva, solid&aacute;ria. Os irm&atilde;os ajudavam-se  entre si, os mais velhos custeando os estudos e as despesas dos mais novos para  que todos tivessem melhores oportunidades na vida. Uma fam&iacute;lia endog&acirc;mica,  voltada sobre si mesma, professando ao extremo a ideologia de ajustamento  social, t&atilde;o caracter&iacute;stica de determinados grupos que n&atilde;o se encontravam ainda  plenamente integrados na sociedade brasileira.</p>     <p>Desde cedo aprendi a  import&acirc;ncia do trabalho, &quot;dar duro&quot;, a cultura, um ap&ecirc;ndice, identificava-se &agrave;  escola, instrumento de ascens&atilde;o social por excel&ecirc;ncia. Uma li&ccedil;&atilde;o que de alguma  maneira j&aacute; tinha sido testada pela gera&ccedil;&atilde;o anterior, alguns de meus tios, com  dificuldade, terminaram a universidade, minhas tias, na sua maioria,  contentaram-se em cursar a Escola Normal, transformando-se em professoras  prim&aacute;rias. No espa&ccedil;o de alguns anos, as cores estigmatizadas de minha av&oacute; ou o  passado prolet&aacute;rio de meu av&ocirc; come&ccedil;aram a ser apagados. Mas viv&iacute;amos uma  situa&ccedil;&atilde;o amb&iacute;gua. Ao lado do &ecirc;xito conseguido por alguns, coabitavam os  fracassados, um tio alco&oacute;latra, outro irrespons&aacute;vel por ter abandonado os  estudos, al&eacute;m &eacute; claro, do homossexualismo manifesto do primog&ecirc;nito, tema  protegido pelo tabu do sil&ecirc;ncio. A endogamia dos Henriques Pinto enfrentava a  contradi&ccedil;&atilde;o entre o conforto do presente e um tempo demasiadamente pr&oacute;ximo que  indelicadamente adulterava o retrato harm&ocirc;nico que se buscava esculpir. Esta  ambig&uuml;idade refletiu-se em v&aacute;rios momentos de minha educa&ccedil;&atilde;o.Por um lado,  percebia-se a escola como sendo a &uacute;nica via poss&iacute;vel de mobilidade social,  assim, os estudos eram valorizados, de prefer&ecirc;ncia as profiss&otilde;es mais t&eacute;cnicas  como medicina, engenharia, advocacia. Entretanto, permanecia uma consci&ecirc;ncia  latente, n&atilde;o confessada, que emitia sinais de que &quot;nem tudo era poss&iacute;vel&quot;. Isso  gerou uma atitude peculiar. Era importante estudar, tirar boas notas, mas  dever&iacute;amos desconfiar dos excessos, os primeiros lugares, os postos mais  vis&iacute;veis, eram sempre as posi&ccedil;&otilde;es mais cobi&ccedil;adas portanto as mais vulner&aacute;veis.  Minha m&atilde;e exultava com meu desempenho escolar, as distin&ccedil;&otilde;es que recebia na  escola prim&aacute;ria, os boletins atestando minha facilidade no estudo, mas ela  deixava tamb&eacute;m transparecer um certo mal estar ao perceber que isso me tornava  mais exposto ao mundo exterior. O melhor seria adequar-se a uma posi&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia  entre os extremos. Dever&iacute;amos fazer o poss&iacute;vel para entrarmos nas melhores  faculdades, mas no fundo, todas eram igualmente boas e seguras. Fui educado para  preservar a medianidade de uma classe m&eacute;dia conformista, at&eacute; mesmo a religi&atilde;o  era entendida assim, uma vis&atilde;o que expulsava os ru&iacute;dos e os contrastes. A missa  e os ensinamentos cat&oacute;licos deviam ser respeitados, mas sem muita convic&ccedil;&atilde;o, o  entusiasmo poderia levar-nos ao fanatismo ou a uma paix&atilde;o incontrol&aacute;vel pelos  par&acirc;metros familiares. Mais tarde, ao ler Nietzsche, naturalmente identifiquei  esta obsess&atilde;o pela normalidade &agrave; id&eacute;ia de rebanho, do homem med&iacute;ocre que concebe  a diferen&ccedil;a como estigma ou amea&ccedil;a. Foi com assim que minha m&atilde;e enviou-me para  escola agr&aacute;ria, n&atilde;o que ela n&atilde;o se interessasse pela minha educa&ccedil;&atilde;o, e no caso,  isso exigiria uma solu&ccedil;&atilde;o diversa pois o curso cientifico era mais apropriado do  que uma forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica. Quando entrei na Escola Polit&eacute;cnica, j&aacute; doente, ela  ficou orgulhosa com meu feito, afinal, era o primeiro na fam&iacute;lia a entrar numa  grande escola. Mas ao terminar o gin&aacute;sio seu racioc&iacute;nio foi outro, n&atilde;o havia  nada que lhe assegurasse que um dia eu chegaria l&aacute;, um acidente de percurso, uma  falha, bastaria para desviar-me de seus sonhos de seguran&ccedil;a. Entre um futuro  incerto e a garantia do presente era melhor n&atilde;o hesitar, afinal, aos dezessete  anos teria uma profiss&atilde;o e poderia exerc&ecirc;-la de forma independente, caso viesse  a me arrepender da escolha, bastaria reconverter minhas energias.    ]]></body>
<body><![CDATA[<BR>    <BR>N&atilde;o h&aacute;  muito a dizer de minha perman&ecirc;ncia no Instituto de Zootecnia e Ind&uacute;strias  Pecu&aacute;rias Fernando Costa. Deixei Ribeir&atilde;o Preto aos quinze anos e mal suspeitava  de que nunca retornaria &agrave; casa. Morando em regime de intemato, vivi na fazenda,  em Pirassunga, num quartel de jovens, onde ao menos aprendi as regras de  conviv&ecirc;ncia nos espa&ccedil;os coletivos. Um dormit&oacute;rio com quarenta pessoas,  refeit&oacute;rio comum, aulas pela manh&atilde;, matem&aacute;tica, f&iacute;sica, ingl&ecirc;s, &agrave; tarde,  zootecnia do gado leiteiro, microbiologia do leite, prepara&ccedil;&atilde;o e conserva&ccedil;&atilde;o de  queijos, higiene rural. Formei-me em 1964 como t&eacute;cnico em latic&iacute;nios. Quando  debru&ccedil;o-me sobre meu passado, seccionando-o para este memorial, enxergo mal os  nichos nos quais uma forma&ccedil;&atilde;o mais reflexiva pudesse ter se incrustado. Minha  ida para escola rural somente agravou a situa&ccedil;&atilde;o. Weber cultivava a id&eacute;ia que o  intelectualismo &eacute; uma qualidade das cidades, com sua racionalidade especifica, a  vida din&acirc;mica, o burburinho das ruas e das grandes aglomera&ccedil;&otilde;es. Jacques Le Goff  tem um belo livro sobre os intelectuais na Idade M&eacute;dia no qual mostra como na  Europa a intelligentzia nasce com as cidades. &Eacute; sugestivo o contraste que ele  descreve entre Abelardo, professor em Paris, cavaleiro da dial&eacute;tica, animado  pela paix&atilde;o intelectual, e S&atilde;o Bernardo, este homem rural, defensor das  cruzadas, para quem a for&ccedil;a bruta era a via certeira para se promover a f&eacute;. Sua  reflex&atilde;o nos remete a toda uma discuss&atilde;o a respeito do contraste entre a cidade  e o campo, o trabalho reflexivo e a contempla&ccedil;&atilde;o m&iacute;stica. Mas eu n&atilde;o possu&iacute;a na  &eacute;poca a erudi&ccedil;&atilde;o que agora exibo, desconhecia a exist&ecirc;ncia de Max Weber, e S&atilde;o  Bernardo era uma imagem santificada adornando os muros das igrejas. No entanto,  n&atilde;o era dif&iacute;cil intuir que a experi&ecirc;ncia agr&aacute;ria em nada privilegiava a  atividade intelectual, os valores que prez&aacute;vamos eram outros, a for&ccedil;a e a  masculinidade. &quot;Ser macho&quot;, &quot;inflex&iacute;vel&quot;, enfrentar com rigidez o gado leiteiro  e a vida eram as qualidades apreciadas, a sensibilidade e a reflex&atilde;o, vistas com  desconfian&ccedil;a, associavam-se a fraqueza do esp&iacute;rito e do corpo.</p>     <p>For&ccedil;ando  minha mem&oacute;ria, consigo reconhecer um aspecto, que talvez, de alguma maneira,  tenha influenciado em meu descaminho: o gosto excessivo pelo cinema e pela  leitura. Menino, quando a televis&atilde;o era um artefato raro, poucos a possu&iacute;am em  seus lares, eu tinha um fasc&iacute;nio pela sala escura dos cinemas e ali sentava-me &agrave;  espera do mundo de aventuras com o qual sonhava. Era capaz de assistir no  domingo, a sess&atilde;o mercurinho pela manh&atilde;, com seus desenhos animados, em seguida  as matin&ecirc;s do cine Palas, onde exibiam um filme mais o seriado, e as vezes,  quando sobrava uns trocados, corria para pegar o hor&aacute;rio do final da tarde.  Minha m&atilde;e n&atilde;o via com bons olhos esta minha avidez mas n&atilde;o chegava a colocar-se  contra ela. Em Taubat&eacute;, em frente de casa, havia um Circulo Oper&aacute;rio, seu  edif&iacute;cio modesto partilhava uma zona da cidade que foi aos poucos sendo tomada  por uma classe m&eacute;dia. Criadas para combater o socialismo e o comunismo, essas  institui&ccedil;&otilde;es, origin&aacute;rias da It&aacute;lia, atuavam como progagradoras da f&eacute; cat&oacute;lica e  congregavam as pessoas em torno de atividades diversas, festas juninas, cinema,  teatrinho infantil; ofereciam ainda servi&ccedil;os para as camadas m&eacute;dias e populares,  barbeiro, curso de datilografia, do qual n&atilde;o escapei por insist&ecirc;ncia de minha  m&atilde;e, estenografia, etc. A sala de proje&ccedil;&atilde;o era prec&aacute;ria, o palco funcionava como  cinema, lugar de apresenta&ccedil;&otilde;es musicais e teatrais, a tela era improvisada, o  som ruim, os duros e longos bancos de maneira,mas semanalmente ali se  apresentava uma filmografia saborosa: Rodolfo Valentino, Greta Garbo, Hopalong  Cassidy. Algu&eacute;m poderia imaginar tratar-se de uma escolha tipo erudita, g&ecirc;nero  cine-clube, mas ela resultava de uma inten&ccedil;&atilde;o aleat&oacute;ria, optava-se pelos filmes  dos anos trinta e quarenta por serem mais baratos. Eu era freq&uuml;entador ass&iacute;duo  dessas sess&otilde;es que dispensavam a censura existente nos cinemas cidades, na sala  do COTI &#40;Circulo Oper&aacute;rio dos Trabalhadores Industriais&#41;  n&atilde;o havia discrimina&ccedil;&atilde;o  entre crian&ccedil;as, jovens, adultos e velhos, &eacute;ramos todos cobi&ccedil;ados pelo  proselitismo religioso. Gra&ccedil;as a sanha piedosa iniciei-me nesta filmografia  preto e branco, que mais tarde fui reencontrar na <i>Cinemath&egrave;que du Palais du  Cha&iacute;llot</i>.</p>     <p>A mesma inclina&ccedil;&atilde;o pelo cinema refletia-se nos livros. Lia  muito e indiscriminadamente. Haviam prefer&ecirc;ncias, suspense e aventuras, uma  literatura a gosto do p&uacute;blico juvenil masculino: Maurice Leblanc, Conan Doyle,  Ellery Queen, Victor Hugo, Rafael Sabatini. Eu passeava pelos romances com  Ars&egrave;ne Lupin e Jean Vai Jean, eles estavam muito pr&oacute;ximos de meus her&oacute;is  cinematogr&aacute;ficos, Errol Flyn e John Payne, um ator de segunda linha que povoou  minha imagina&ccedil;&atilde;o com filmes de pirata. Minha avidez pela leitura estendia-se aos  gibis, &agrave;s fotonovelas, &agrave; biblioteca para mo&ccedil;as, e os romances compactados de  Sele&ccedil;&otilde;es. Fui um grande leitor de A.J.Cronin e de Daphn&eacute;e du Murier. Meu sentido  de escolha era no entanto restrito, lia o que estava dispon&iacute;vel. Quando nas  f&eacute;rias viajava para casa de meus tios em Ribeir&atilde;o Preto, tinha a minha  disposi&ccedil;&atilde;o uma pequena biblioteca que foi sendo aos poucos formada com as sobras  de leitura de minhas tias, do tempo em que estudavam na Escola Normal.<i>  Helena, O Guarani, A Moreninha</i>, escritos tidos como aborrecidos pelos  camaradas de gin&aacute;sio ca&iacute;am em minhas m&atilde;os, ao lado de outros, como O <i>Retrato  de Dorian Gray.</i> Minha voracidade de leitor, provavelmente uma estrat&eacute;gia  para escapar a meu em torno, n&atilde;o conseguia diferenciar autores e textos na  poeira de letras que sobravam em meus olhos. Volto &agrave; Bourdieu, ao estudar a  cultura da classe m&eacute;dia francesa ele diz que uma de suas caracter&iacute;sticas &eacute; a  &quot;boa vontade cultural&quot;, ela absorve indiscriminadamente tudo o que lhe &eacute;  proposto. H&aacute; pois uma dificuldade em se distinguir entre conhecer e reconhecer.  Na apropria&ccedil;&atilde;o dos bens simb&oacute;licos de consumo, Charles Aznavour ou Dan&uacute;bio Azul,  western ou Felini, fotografia ou pintura, n&atilde;o h&aacute; rupturas, paira uma  continuidade morosa reduzindo as diferen&ccedil;as a um m&iacute;nimo denominador comum. Minha  ansiedade tinha algo assim, eu absorvia tudo no processo de digest&atilde;o niveladora.  Talvez por isso, durante anos, cultivei um certo gosto pelas enciclop&eacute;dias.  Quando menino, os caixeiros-viajantes paravam em frente ao port&atilde;o de minha casa,  batiam palma, e minha m&atilde;e os fazia entrar at&eacute; a sala. Compenetrada ela me  chamava e discutia com seriedade a propriedade de se comprar esses livros  encadernados, que ordeiramente arrumados nas estantes dava a boa impress&atilde;o de um  tesouro imp&aacute;vido. Uma sensibilidade comum &agrave;s fam&iacute;lias da vizinhan&ccedil;a, o fasc&iacute;nio  pelo conhecimento definitivo sobre o mundo. Fascina&ccedil;&atilde;o- seguran&ccedil;a pois a  qualquer momento as d&uacute;vidas podiam ser dirimidas com uma simples consulta ao  tomo. Conservei o h&aacute;bito de apreciar este saber arrumado por v&aacute;rios anos. Quando  a biblioteca da fam&iacute;lia se ampliou, um velho amigo de meu tio, m&eacute;dico e  pesquisador da universidade, faleceu, deixando-lhe os livros como um legado, o  leque de op&ccedil;&otilde;es transformou-se qualitativamente: Nietzsche, Shopenhauer,  Voltaire. Entre eles, fui privilegiar a Hist&oacute;ria da Filosofia de Bertrand  Russeli, que li inteira, e a Hist&oacute;ria da Civiliza&ccedil;&atilde;o de Will Durant, que em  pouco tempo devorei da Mesopot&acirc;mia ao mundo cl&aacute;ssico europeu. Nunca me esque&ccedil;o  que os primeiros livros que comprei em Paris pertenciam &agrave; cole&ccedil;&atilde;o Histoire de Ia  Philosophie de Emile Br&eacute;hier, sete volumes, da Antig&uuml;idade &agrave; Filosofia moderna.  Folheando hoje esses textos, marcados a l&aacute;pis, na margem do papel, encontro  nomes como Jean Scott Erig&egrave;ne, Saint Anselme, An&eacute;xagore, Clazom&egrave;nes, que nada  significam para mim, encontram-se perdidos na minha mem&oacute;ria. Livros que foram  lidos para n&atilde;o serem lembrados, como esses best-sellers dos quais esquecemos o  enredo mal acabamos de virar a &uacute;ltima  pagina.</p>     <p><b>1965-1969</b>     <p>Cheguei em S&atilde;o Paulo em  dezembro de 1964, fui primeiro morar na casa de um de meus tios, alguns meses  depois, mudei-me para um pequeno e velho apartamento que meu pai havia comprado  na Pra&ccedil;a Clovis Bevil&aacute;qua. Uma tentativa frustrada de investimento pois a regi&atilde;o  s&oacute; tinha deteriorado ao longo dos anos, de qualquer maneira, ele nos foi  providencial. Serviu para que eu, e posteriormente meu irm&atilde;o, o habit&aacute;ssemos  quando viemos estudar na capital. Apesar da mudan&ccedil;a, os primeiros anos na cidade  seguiram a trilha provinciana &agrave; qual ajustava-me t&atilde;o bem. Uma sensa&ccedil;&atilde;o inc&ocirc;moda  de atraso me perseguia pois a escola agr&aacute;ria dificilmente poderia ser  considerada uma boa institui&ccedil;&atilde;o preparat&oacute;ria para o vestibular. Gastei o ano de  1965 debru&ccedil;ado sobre as apostilas do cursinho Universit&aacute;rio, esfor&ccedil;ando-me em  recuperar o tempo perdido, e o exame final tornou-se para mim uma obsess&atilde;o, um  pesadelo. Fiquei euf&oacute;rico quando ingressei na faculdade, passei em 150Â° lugar  uma posi&ccedil;&atilde;o an&ocirc;nima, bem a gosto de minha fam&iacute;lia, no contingente de 360 alunos  aprovados. Os antrop&oacute;logos ao estudarem os mecanismos acionados pelas popula&ccedil;&otilde;es  imigrantes nas grandes cidades mostram como elas tendem a reproduzir, em novas  condi&ccedil;&otilde;es de vida, o seu mundo anterior. Fiz o mesmo, incrustei a mem&oacute;ria  coletiva interiorana nas malhas da capita! descobrindo os nichos onde pudesse  florescer. Meus amigos eram velhos conhecidos da inf&acirc;ncia, tinham vindo de  Taubat&eacute; fazer cursinho e tentar a sorte numa universidade melhor, alguns deles  ficaram morando comigo, meu apartamento tinha dois quartos, at&eacute; que meu irm&atilde;o  Jaime, chegasse para ocup&aacute;-lo. Esta era tamb&eacute;m uma forma de se minorar os  gastos, pois a ex&iacute;gua pens&atilde;o que recebia, tinha de ser dividida com as despesas  de meu irm&atilde;o com a faculdade privada. Apesar de cultivar novos gostos, o teatro  &#40;Arena e Oficina&#41; , no in&iacute;cio S&atilde;o Paulo era uma extens&atilde;o dos antigos projetos  familiares. Minha m&atilde;e faleceu em setembro de 1966 v&iacute;tima de um c&acirc;ncer que se  prolongou por v&aacute;rios meses, um golpe duro, simbolizou uma ruptura para mim. De  repente vi-me cortado das rela&ccedil;&otilde;es familiares, morando s&oacute; com uma pequena  pens&atilde;o, suficiente por&eacute;m para uma vida de estudante. Comparado aos meus colegas,  passei a desfrutar de uma liberdade invej&aacute;vel, minhas refer&ecirc;ncia mais pr&oacute;ximas  haviam ru&iacute;do inteiramente. Longe da tutela dos parentes, vivendo uma crise  existencial que se agudizava, em pouco tempo percebi o equivoco em ter entrado  na Escola Polit&eacute;cnica. Comecei a redimensionar minha rota, uma matura&ccedil;&atilde;o lenta,  prolongada, at&eacute; minha decis&atilde;o em abandon&aacute;-la.</p>     <p>O per&iacute;odo que vai de  1965-1969 foi descrito por muitos como uma nova camada geol&oacute;gica que marca a  produ&ccedil;&atilde;o cultural brasileira, Roberto Schwartz costumava dizer que o  entrela&ccedil;amento entre cultura e pol&iacute;tica, efervesc&ecirc;ncia e criatividade, tinha  deixado o pa&iacute;s mais inteligente. Vidas Secas - Os Fuzis - Deus e o Diabo na  Terra do Sol; Arena Conta Zumbi -Tiradentes - Opini&atilde;o - Brecht e o Oficina; os  festivais de musica popular -Tropicalismo. Realiza&ccedil;&otilde;es sofisticadas, elas  afastavam-se das preocupa&ccedil;&otilde;es um tanto esquem&aacute;ticas dos CPCs da UNE, dos  movimentos de cultura popular ou dos Cadernos do Povo mas integravam em seu bojo  a pol&iacute;tica e o esp&iacute;rito de contesta&ccedil;&atilde;o. Momento em que os movimentos populares  refluem, desmantelados pelo golpe militar, e a esfera da universidade torna-se  um espa&ccedil;o privilegiado para se vivenciar a pol&iacute;tica. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil descrever  sociologicamente esta &eacute;poca, viv&ecirc;-la era mergulhar num turbilh&atilde;o de experimentos  que me possu&iacute;ram. Como o espa&ccedil;o geogr&aacute;fico no qual decorre nossas vidas &eacute;  importante? 0 golpe de 64 havia passado desapercebido para mim, era adolescente,  encontrava-me em Pirassunga envolvido pelos afazeres da fazenda, o verde, o  latic&iacute;nio, o gado, nada ali prenunciava uma crise nacional. A queda de Goulart  influenciava pouco o ritmo da natureza ou nossos h&aacute;bitos de masculinidade  exacerbada. Se fossemos contar nossas vidas a partir dos grandes fatos  hist&oacute;ricos perceber&iacute;amos que muitas vezes elas escapam de seu alcance, como  passassem ao largo da relev&acirc;ncia hist&oacute;rica. Minhas lembran&ccedil;as de 1964 reduzem-se  a um batalh&atilde;o de tanques e soldados concentrados na estrada &agrave; espera de ordens  para marchar para o sul. Movimento de tropas que bloqueava o caminho e nos  impedia de sair da fazenda. Com S&atilde;o Paulo foi diferente, o Esp&iacute;rito Objetivo,  diria Hegel, escolheu o meio estudantil para se alienar. Como escapar de sua  manifesta&ccedil;&atilde;o, eu encontrava-me topograficamente envolvido nas suas  malhas.</p>     <p>Tomar partido, imperativo categ&oacute;rico para uma gera&ccedil;&atilde;o de jovens      que vivenciou o circuito universit&aacute;rio. Nos festivais de m&uacute;sica popular      decidir-se entre a guitarra el&eacute;trica ou o viol&atilde;o, ser contra ou a favor do      ]]></body>
<body><![CDATA[Tropicalismo, ou ainda, apreciar ou n&atilde;o a est&eacute;tica sofisticada e herm&eacute;tica do      cinema novo. Direita ou esquerda, na&ccedil;&atilde;o ou imperialismo, escolher entre a      fam&iacute;lia, a tradi&ccedil;&atilde;o, a repress&atilde;o sexual, ou a liberdade disruptiva, anunciada      sem a promessa de sua realiza&ccedil;&atilde;o. No Brasil, o radicalismo do final dos anos      sessenta n&atilde;o possu&iacute;a a marca marginal dos movimentos da contra cultura, nem o      ludismo de maio de 68, suas palavras de ordem reproduziam o discurso oficial de      uma orienta&ccedil;&atilde;o frugal e ortodoxa da vida. A maconha, o LSD e o amor livre,      encaixavam-se mal neste ide&aacute;rio asc&eacute;tico, tampouco a cr&iacute;tica ao poder, aos      partidos pol&iacute;ticos era tolerada, pelo contr&aacute;rio, lutava-se pela cria&ccedil;&atilde;o de novos      partidos, desde, &eacute; claro, fossem revolucion&aacute;rios. A rigidez ideol&oacute;gica impedia a      ]]></body>
<body><![CDATA[libera&ccedil;&atilde;o individual e a &eacute;tica era envolta pela &aacute;urea f&eacute;rrea da devo&ccedil;&atilde;o      inconteste &agrave; grande transforma&ccedil;&atilde;o. Recordo-me de um texto, diagn&oacute;stico do      momento pol&iacute;tico, no qual algu&eacute;m exaltava a a&ccedil;&atilde;o dos      homens-horas-revolucion&aacute;rios, conscientemente e alertas eles n&atilde;o se desviariam      nunca de suas tarefas hist&oacute;ricas. Da&iacute; a conden&ccedil;&atilde;o ao futebol e ao carnaval, n&atilde;o      se tratava apenas da manifesta&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia alienada, contr&aacute;ria &agrave;      autenticidade do Ser, eles dispersavam a energia contestadora de seus      verdadeiros objetivos. Mas havia uma clivagem entre dirigentes e dirigidos,      discurso e hist&oacute;ria. A no&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;tica n&atilde;o se restringia ao significado      encontrado nos manifestos pol&iacute;ticos, a teoria da revolu&ccedil;&atilde;o, ou as assembl&eacute;ias      ]]></body>
<body><![CDATA[estudantis, ela revestia-se de um sentido amplo e condensava m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es      da vida, do cotidiano ao ato rebelde contra o regime militar. N&atilde;o diziam as      primeiras p&aacute;ginas de jornal, quando em S&atilde;o Paulo o ex&eacute;rcito invadiu o congresso      de estudantes em Ibi&uacute;na, que tinha sido encontrado anticoncepcional na bolsa das      meninas! Forma de se desqualificar o advers&aacute;rio, mas que revelava, al&eacute;m de um      gesto de intoler&acirc;ncia, a mescla entre manifesta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e ruptura de      valores. Creio que minha inicia&ccedil;&atilde;o intelectual come&ccedil;ou por esta via, n&atilde;o um      engajamento como lideran&ccedil;a, minha atua&ccedil;&atilde;o estava dilu&iacute;da na massa de jovens,      passeatas e batalhas campais contra os gorilas. Preenchia com satisfa&ccedil;&atilde;o      pequenas tarefas, distribu&iacute;a folhetos, fui servi&ccedil;o de seguran&ccedil;a na pe&ccedil;a Roda      ]]></body>
<body><![CDATA[Viva, e em meu apartamento, durante o congresso da UNE, ficaram abrigados      estudantes vindos de outros estados. Nada espetacular, uma atividade singela,      mas contrastante com meu passado, abrindo-me um horizonte radicalmente novo.      Tomar partido. A frase continha uma forte inclina&ccedil;&atilde;o antiburguesa. Na acep&ccedil;&atilde;o      limitada do termo aplicava-se a uma determinada classe social: &quot;o movimento      estudantil, aliado ao proletariado e ao campesinato, contra a burguesia      dominante&quot;. Palavra de ordem f&aacute;cil de se enunciar, dif&iacute;cil de se sustentar      te&oacute;rica e politicamente. Havia entretanto uma dimens&atilde;o subjetiva que a      extravasava pois uma exist&ecirc;ncia podia ser tamb&eacute;m qualificada de burguesa: o      pensamento conservador, a vida calma de nossos pais, o futuro ordenado &agrave; nossa      ]]></body>
<body><![CDATA[frente. Uma descoberta explosiva, embora pouca original se eu conhecesse melhor      a hist&oacute;ria das id&eacute;ias. Os surrealistas, ainda na d&eacute;cada de vinte a haviam      colocado em pr&aacute;tica, anos mais tarde, seria a vez dos existencialistas se      rebelarem. N&atilde;o t&iacute;nhamos lido A N&aacute;usea, muito menos O Ser e o Nada, os filmes de      Bunuel que conhec&iacute;amos eram Tristana e Belle de Jour, jamais ouv&iacute;ramos falar de      L&#39;Age D&#39;Or, mas partilh&aacute;vamos este sentimento vago e eficaz, o mundo burgu&ecirc;s era      polu&iacute;do. Lembro-me, j&aacute; em Paris, ao ler uma entrevista de Sartre, algu&eacute;m lhe      perguntava porque considerava os burgueses uns &quot;porcos&quot;, sua resposta foi      tautol&oacute;gica: parce qu&#39;ils sontdes bourgeois. Rebelar-se contra... a frase ficava      no ar, sem objeto direto. Enquanto durou o movimento pol&iacute;tico confiamos no seu      ]]></body>
<body><![CDATA[conte&uacute;do indefinido, com o Ato Institucional n 5, o avan&ccedil;o da repress&atilde;o, as      pris&otilde;es, as cassa&ccedil;&otilde;es dos professores nas universidades, tornou-se evidente a      fragilidade de nossas esperan&ccedil;as. Contudo, o sentimento de revolta permaneceu.      Bu&ntilde;uel, em sua biografia, dizia que o surrealismo foi antes de mais nada uma      &eacute;tica anti-burguesa, Sartre tinha uma vis&atilde;o semelhante. No entanto, ele      acrescentava, entre a circunst&acirc;ncia do momento e o destino uma alternativa se      entrebria: a escolha. Ela determinaria minha autenticidade ou inautenticidade. A      id&eacute;ia de projeto possui uma dimens&atilde;o subjetiva que confere a mim, apenas a mim,      a decis&atilde;o &uacute;ltima sobre minha liberdade. Sei hoje ser esta uma vis&atilde;o um tanto      idealizada das coisas, afinal, os existencialistas foram longe demais ao afirmar      ]]></body>
<body><![CDATA[que o homem poderia ser livre na pris&atilde;o. Sem contar com os limites objetivos que      encerram toda individualidade, condi&ccedil;&atilde;o de classe, educa&ccedil;&atilde;o familiar, renda,      lugar de nascimento. Mas a id&eacute;ia de projeto me seduzia, nela, de maneira      obl&iacute;qua, encontrava o caminho para ser o senhor de minha pr&oacute;pria vida.      Evidentemente, eu havia lido Sartre superficialmente, esqueci-me, ao escolher a      liberdade, que por ela seria tragado, dela me tornaria escravo. A &eacute;tica &eacute; uma      imposi&ccedil;&atilde;o que aprisiona &agrave; elei&ccedil;&atilde;o realizada. Quando percebi, minha revolta      tinha-me empurrado para o abismo, ao decidir abandonar o curso de Engenharia,      optar pelas Ci&ecirc;ncias Sociais, num momento em que a universidade se fechava, era      invadida pelas for&ccedil;as policiais, tomei talvez a &uacute;nica decis&atilde;o plaus&iacute;vel. Comprei      ]]></body>
<body><![CDATA[uma passagem de terceira classe num dos navios da linha &quot;C&quot;, uma companhia      italiana que atormentava minha imagina&ccedil;&atilde;o. Cada vez que retornava dos almo&ccedil;os na      casa de meu tio, ao lado da Pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica, caminhando pela avenida S&atilde;o      Luiz, eu parava diante desta ag&ecirc;ncia de viagem, minha mente divagava ao      contemplar a imagem tosca, esculpida em papel&atilde;o, daquele transatl&acirc;ntico enorme.      Um dia cruzei o umbral da porta e com a soma equivalente a um ter&ccedil;o de um DKW,      heran&ccedil;a de minha m&atilde;e, eu a havia guardado, comprei o bilhete de ida, n&atilde;o sem      antes tomar as precau&ccedil;&otilde;es para dificultar meu retorno. Ao abandonar a Escola      Polit&eacute;cnica recusei-me a trancar a matr&iacute;cula, fazer isso n&atilde;o teria sido uma      atitude burguesa...</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os anos de 1968 a 1969 foram um interregno, embora  continuasse cursando a Poli meus interesses j&aacute; eram outros. Uma mat&eacute;ria sobre  Filosofia e Evolu&ccedil;&atilde;o das Ci&ecirc;ncias, ministrada no terceiro ano da escola,  abriu-me novas perspectivas. Willem Fluser, meu professor, tinha o carisma para  mobilizar um pequeno c&iacute;rculo de ne&oacute;fitos, afastando-nos da rotina dos c&aacute;lculos  matem&aacute;ticos. Foi assim que acabei no Instituto de Filosofia, numa pequena sala  escura no centro da cidade, perto de meu apartamento, onde alguns cursos  noturnos eram oferecidos. Fiquei pouco tempo, se o tema me distanciava do  ambiente rarefeito da engenharia, os imperativos pol&iacute;ticos eram demasiadamente  fortes, terminei afastando-me desses fil&oacute;sofos conservadores. Retomei minhas  leituras err&aacute;ticas escolhendo por&eacute;m melhor os conte&uacute;dos, Caio Prado, Leo  Huberman &#40;que at&eacute; hoje pode ser encontrado nas bancas de aeroporto&#41; , Marcuse.  Dediquei uma aten&ccedil;&atilde;o especial a Marx e com dificuldade acompanhei os textos de  Hegel, preparados por Djacir Menezes. Minha compreens&atilde;o melhorou somente quando  me deparei com Raz&atilde;o e Revolu&ccedil;&atilde;o de Marcuse, uma exposi&ccedil;&atilde;o do sistema hegeliano,  que mesmo Fran&ccedil;ois Chat&ecirc;let, de quem seria mais tarde aluno, apesar de suas  reservas em rela&ccedil;&atilde;o aos frankfurtianos, apreciava bastante. Sartre, com Quest&otilde;es  de M&eacute;todo marcou-me bastante, sua proposta em articular o n&iacute;vel objetivo da  sociedade &agrave; dimens&atilde;o subjetiva do indiv&iacute;duo me encantava. Um autor que muito me  influenciou, foi Nietzsche. Nele me interessava n&atilde;o tanto a discuss&atilde;o sobre a  verdade, aspecto dominante entre alguns fil&oacute;sofos franceses quando cheguei em  Paris &#40;contradit&oacute;riamente, para se desdizer, Deleuze publicou um pequeno livro  com um roteiro para que pud&eacute;ssemos ter a &quot;correta&quot; leitura do autor&#41; . N&atilde;o, a  tem&aacute;tica que me seduzia era a do homem solit&aacute;rio e de sua revolta contra o  conformismo. Quando li Zaratrusta pela primeira vez, fiquei fascinado com o  cap&iacute;tulo &quot;DasTr&ecirc;s Transforma&ccedil;&otilde;es&quot;, mas n&atilde;o era a parte relativa &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o  do le&atilde;o em crian&ccedil;a, do saber, ao tornar-se mais leve constituindo-se em  sabedoria, que eu retinha, minha passagem predileta era quando o camelo  transmutava-se em le&atilde;o, e que o Eu, deixando-se de submeter-se &agrave;s for&ccedil;as  externas que o oprimiam, caminhava do &quot;Tu deves&quot; para &quot;Eu quero&quot;. Leitura  subjetiva, que articulava minhas inquieta&ccedil;&otilde;es com o mundo objetivo desfazendo-se  l&aacute; fora.</p>     <p><b>1970-1975</b></p>     <p>A escolha de Paris foi  relativamente arbitr&aacute;ria, tentei primeiro o consulado ingl&ecirc;s, mas percebi que  sem dinheiro era imposs&iacute;vel estudar na Inglaterra. Cheguei a buscar informa&ccedil;&otilde;es  no lado alem&atilde;o mas desisti diante da barreira da l&iacute;ngua, a Fran&ccedil;a oferecia-me  algumas vantagens, sem maiores delongas eles reconheciam meu diploma de estudos  agr&aacute;rios como equivalente ao baccalaur&eacute;at, a universidade era gratuita e o visto  de perman&ecirc;ncia no pa&iacute;s podia ser obtido com uma certa agilidade. No ano de 1969,  juntamente com um grupo de amigos da Poli, eu tinha iniciado um pequeno curso de  franc&ecirc;s com Onde J&ocirc;, tio de um de meus colegas de turma. Como recusava-me a  considerar a possibilidade de ir para os Estados Unidos, a cabe&ccedil;a do tigre de  papel, a Fran&ccedil;a surgiu como o caminho mais natural. Parti com uma mala, uma  m&aacute;quina de escrever port&aacute;til e o viol&atilde;o. No meu passaporte, o carimbo da Divis&atilde;o  de Pol&iacute;cia Mar&iacute;tima diz que embarquei em Santos no dia sete de mar&ccedil;o de 1970,  desci em Vigo duas semanas depois. Completava vinte e tr&ecirc;s anos. No navio,  conheci um aspirante a jogador de futebol que arriscava sua sorte na Espanha,  descendente de imigrantes, seu pai tinha sido goleiro do Vasco nos idos de 50,  ele sa&iacute;a do time juvenil. Arranjou-me alojamento na casa de sua av&oacute; em Madrid,  passei a&iacute; alguns dias e logo cruzei a fronteira em Irun. O trem deixou-me na  Gare d&#39;Austerlitz. N&atilde;o conhecia ningu&eacute;m em Paris, minha &uacute;nica refer&ecirc;ncia era o  endere&ccedil;o de um alojamento coletivo no Xlll&egrave;me que um amigo das Ci&ecirc;ncias Sociais  tinha me passado. Estava lotado, mas numa sala improvisada ao lado, exibiam  Hiroshima mon Amour, resolvi assistir o filme. S&oacute; fui conseguir pernoite num  velho albergue em Pigalle, onde me alojaram no terceiro andar de uma cama  beliche.    <BR>    <BR>Os primeiros anos que passei na cidade foram bastante &aacute;rduos,  minha situa&ccedil;&atilde;o financeira oscilava entre a escassez e a pen&uacute;ria. Os 770 d&oacute;lares  que levei comigo &#40;em meu passaporte, o carimbo do Banco do Brasil atesta que  viajei com esta quantia&#41;  duraram pouco. Durante os dois primeiros anos recebia  de forma irregular parte da pequena pens&atilde;o de minha m&atilde;e, com a chegada de Paula,  quatro meses depois da minha, tivemos de dimensionar os gastos para dois. Isso  for&ccedil;ou-me a integrar o lumpenproletariado franc&ecirc;s, empregos ocasionais, sem  carteira de trabalho, mal remunerado. Trabalhei numa f&aacute;brica de escovas de  dente, fui pintor de parede, gar&ccedil;om de caf&eacute;, concierge, baby-sitter, colhedor de  uvas nos campos da Champagne. Quando conheci Fernando Perrone, ex-deputado,  exilado, as coisas melhoraram um pouco, ele ofereceu-me emprego como  pesquisador. Estava realizando seu doutorado sobre &quot;A imagem do Chile na  imprensa francesa&quot;, minha tarefa, vasculhar os jornais por sete francos a hora:  Le Monde, L&#39;Humanit&eacute;, Le Figaro. Trabalho conveniente, dava-me tempo suficiente  para continuar estudando. A situa&ccedil;&atilde;o de instabilidade levava-me a procurar as  moradias mais baratas poss&iacute;veis, restringindo a escolha aos chambres de bonnes,  s&eacute;timo andar, sem elevador, sem banho, w.c. no corredor. Mudava freq&uuml;entemente  de quarto devido aos problemas financeiros, e em poucos anos passeei por toda a  cartografia da cidade. Morei perto do Palais de Chaillot, onde freq&uuml;entava  assiduamente a cinemateca, mudei-me para a Daniel Lessuer, popular escritor  folhetinesco do final do XIX, estive ao lado do General Gambetta no XX&egrave;me, e com  Royer Collard nesta pequena rua sem sa&iacute;da onde fui concierge, perto da esta&ccedil;&atilde;o  de Luxemburgo. Paris hospedava-me mal mas acariciava-me com a poeira de sua  hist&oacute;ria.</p>     <p>Primeiro de maio, fui assistir &agrave;s comemora&ccedil;&otilde;es na pra&ccedil;a da  Bastilha. Lembrei-me das cr&iacute;ticas de Marx aos princ&iacute;pios burgueses, liberdade,  igualdade, fraternidade, naquele momento elas me pareceram indevidas. Rec&eacute;m  chegado do Brasil, era imposs&iacute;vel n&atilde;o contrapor o clima de liberdade existente &agrave;  repress&atilde;o policial da ditadura, nunca tinha visto tantas foices e martelos  tremulando no ar. Foi ent&atilde;o que percebi haver algo de errado, demorei a entender  o que os servi&ccedil;os de seguran&ccedil;a da CGT e do Partido Comunista diziam. Cestpas  nous...c&#39;estpas nous. O desfile n&atilde;o tinha ainda terminado mas entre a ultima  coluna de sindicalistas e os grupos de manifestantes que se encontravam no final  havia um enorme clar&atilde;o. Um fosso os separava. Aos poucos comecei a me dar conta  das coisas, os que vinham l&aacute; tr&aacute;s, no fundo, &quot;n&atilde;o eram eles&quot;, mas os gauchistas.  De repente, a pra&ccedil;a foi tomada pelos CRS, armados de cassetetes, escudos  transparentes e transl&uacute;cidos, capacetes, eles provocaram o p&acirc;nico, a multid&atilde;o  correu assustada. Encostei-me na parede de um edif&iacute;cio esperando pelo desenlace.  Um sil&ecirc;ncio pesado se imp&ocirc;s, longo, denso, palp&aacute;vel, at&eacute; que em un&iacute;ssono, aos  gritos de &quot;Mao...Mao...Mao&quot;, um punhado dejovens ousou adentrar pela pra&ccedil;a. Eles  marchavam ritmadamente levantando os punhos cerrados em torno do livro vermelho,  uma cena cinematogr&aacute;fica, pegou a pol&iacute;cia de surpresa. Foram os &uacute;nicos a passar.  O emblema hist&oacute;rico da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa ficou coberto de g&aacute;s lacrimog&ecirc;neo, uma  nuvem de azul &aacute;cido que eu conhecia das ruas de S&atilde;o Paulo.</p>     <p>O gauchismo  n&atilde;o &eacute; simplesmente uma doen&ccedil;a infantil do comunismo, era todo um modo de vida.  Maio de 68 havia abalado os alicerces da sociedade francesa, uma gera&ccedil;&atilde;o de  jovens, preparados para ingressar no mercado de trabalho, para assumir suas  responsabilidades na sociedade, rebelava-se contra a ordem estabelecida. Uma  explos&atilde;o que unia a objetividade da luta &agrave; subjetividade das paix&otilde;es. Os  grafitis nos muros revelam bem esta dimens&atilde;o l&uacute;dica da rebeli&atilde;o estudantil: &quot;a  imagina&ccedil;&atilde;o no poder&quot;, &quot;proibido proibir&quot;, &quot;pais contem seus sonhos &agrave; seus  filhos&quot;. Edgar Morin observou que as barricadas n&atilde;o foram mera prote&ccedil;&atilde;o contra o  assalto dos guardas, elas projetavam novos s&iacute;mbolos nos quais contesta&ccedil;&atilde;o e  prazer se confundiam. Sous le pav&eacute;, Ia plage. Os paralelep&iacute;pedos das ruas podiam  ser utilizados como armas contra a pol&iacute;cia, mas debaixo deles jazia a areia da  praia, lugar para se repousar e bronzear o corpo. A revolu&ccedil;&atilde;o devia ser inteira  atingindo o &acirc;mago das rela&ccedil;&otilde;es pessoais. Contra as institui&ccedil;&otilde;es consagradas: o  marxismo ortodoxo, o Partido Comunista, o Estado, o futuro programado, a  fam&iacute;lia. Ao se politizar a esfera do cotidiano ultrapassava-se o espa&ccedil;o  institucionalizado de se fazer pol&iacute;tica, o cabelo comprido, o haxixe, a  liberdade sexual, o feminismo, a luta contra a injusti&ccedil;a, eram faces da mesma  moeda. Pol&iacute;tica, festa e cultura dissolviam-se numa solu&ccedil;&atilde;o colorida. Nunca  esquecerei a beleza da cena que presenciei no Jardim de Luxemburgo. Eu vivia ao  lado e fui retirado de minha concentra&ccedil;&atilde;o nos estudos por uma imensa algazarra.  Eram os estudantes de Belas Artes, eles formavam um cortejo alegre subindo pelo  boulevard Saint Michael. Cantavam e gritavam palavras de ordem, sendo  acompanhados pelo som estridente de uma fanfarra. Logo na entrada do jardim,  haviam aquelas placas, secas e r&iacute;spidas, sinalizando a conten&ccedil;&atilde;o da conduta, o  controle ressentido como insuport&aacute;vel: // est interdit de marcher sur le gazon.  A multid&atilde;o, a despeito do aparato policial, invadiu o gramado, foi quando todos  se despiriam e se atiraram na fonte. O dia estava claro, azul e ensolarado, eu  me sentei na relva para admirar o contraste entre os pingos d&#39;&aacute;gua, a luz, e os  corpos nus dos manifestantes. Dificilmente eu poderia escapar desta gravita&ccedil;&atilde;o  envolvente, em Paris, o inicio dos anos 70 vieram marcados pelo signo de maio,  m&ecirc;s m&aacute;gico, prof&eacute;tico, ele definia o ascendente do mapa astral de toda uma  gera&ccedil;&atilde;o. Eu acabava de chegar do Brasil, e como os que &quot;amaram tanto a  revolu&ccedil;&atilde;o&quot;, minha experi&ecirc;ncia anterior apresentava tra&ccedil;os em comum com a  rebeli&atilde;o estudantil. Como n&atilde;o identificar-me com esta dimens&atilde;o que enfrentava a  estupidez das institui&ccedil;&otilde;es e sonhava com um mundo igualit&aacute;rio? Ao optar por  Vincennes, uma escola oposta &agrave; &quot;burguesa&quot; Sorbonne, acabei privilegiando uma  experi&ecirc;ncia de vida como refer&ecirc;ncia.</p>     <p>No entanto, minha atra&ccedil;&atilde;o pelo  universo do gauchismo sempre foi reservada, algo previnia-me contra ele.  Procurando reavivar as lembran&ccedil;as, recorri &agrave; leitura de alguns livros para  aproximar-me do tempo em que vivi. Casualmente encontrei uma amiga, eu a conheci  em Paris, at&eacute; hoje guardamos uma cumplicidade com o passado em comum, ela  emprestou-me este belo livro, G&eacute;n&eacute;ration: les ann&eacute;es de poudre, no qual dois  jornalistas reuniram o testemunho dos que viveram ap&oacute;s maio de 68. Uma cita&ccedil;&atilde;o,  um tanto b&iacute;blica, de Jean Daniel chamou-me a aten&ccedil;&atilde;o, ela referia-se ao  gauchismo: &quot;Ele &eacute; como o sal do qual fala a Escritura, e seu desaparecimento  conduziria a um inferno de farisa&iacute;smo e de imobilidade. Mas ele &eacute; tamb&eacute;m, ao  mesmo tempo, an&aacute;rquico e irrespons&aacute;vel, seu destino n&atilde;o &eacute; a responsabilidade,  mas a mudan&ccedil;a. N&atilde;o o devir, mas a recusa. Composta exclusivamente de gauchistas  uma sociedade &eacute; conduzida &agrave; histeria. Privada de gauchista uma sociedade &eacute;  conduzida &agrave; asfixia&quot;<sup><a href="#1" name="s1">1</a></sup>. Histeria e asfixia, h&aacute; entre elas  uma tens&atilde;o criativa, contradi&ccedil;&atilde;o que empurrava-nos para a margem, o caminhar  sobre o fio da navalha. Equil&iacute;brio prec&aacute;rio, inst&aacute;vel, muitas vezes rompido pela  viagem sem retorno de &aacute;cido lisergico, ou a a&ccedil;&atilde;o violenta dos grup&uacute;sculos  pol&iacute;ticos. Bu&ntilde;uel compreendeu bem esta contradi&ccedil;&atilde;o em seu filme O Obscuro Objeto  do Desejo. Seu personagem principal n&atilde;o consegue realizar-se sexualmente, e na  sua saga, sempre o acompanham cenas de viol&ecirc;ncia gratuitas. Elas explodem aqui e  ali como uma manifesta&ccedil;&atilde;o ca&oacute;tica. O segredo do estranho objeto do desejo &eacute; o  pr&oacute;prio desejo, ele n&atilde;o se atualiza nunca enquanto ato, seja o sexo ou o  terrorismo, sua sina &eacute; reproduzir-se indefinidamente. Vincennes era produto das  &quot;barricadas do desejo&quot;, foi constru&iacute;da em tempo recorde pelas autoridades  governamentais e come&ccedil;ou a funcionar em janeiro de 1969, um ano antes de minha  chegada. Concebida dentro de um projeto multidisciplinar, concentrava os  estudantes de esquerda e seduziu nomes importantes da intelectualidade francesa  - Foucault, Lyotard, Guatari, Deleuze. O curr&iacute;culo era experimental, n&atilde;o haviam  cursos estanques, independentes uns dos outros, e as mat&eacute;rias n&atilde;o eram  obrigat&oacute;rias, cabia ao estudante a escolha das linhas tem&aacute;ticas que lhe  interessassem, compondo assim sua forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica. Um aluno de Sociologia  podia montar at&eacute; um ter&ccedil;o de seu curso com disciplinas variadas, ingl&ecirc;s,  literatura, filosofia. Experimenta&ccedil;&atilde;o e liberdade eram a t&ocirc;nica. Mas havia algo  de estranho nesta universidade, ela ficava no bosque, moradia das prostitutas,  com as quais cruz&aacute;vamos pela manh&atilde;, elas voltando do trabalho, n&oacute;s chegando &agrave;  escola. Sem mencionar que a pausa das aulas era pontilhada pelo som met&aacute;lico das  rajadas de metralhadora, pois os edif&iacute;cios, de m&aacute; qualidade, situavam-se nos  fundos de um terreno militar dedicado ao treinamento dos soldados. Havia uma  dimens&atilde;o de festa em Vincennes, feira popular, bazar no qual tudo podia ser  encontrado, Hegel, Marx, Mao, haxixe, livros roubados da Maspero, comidas,  artesanato hippie, roupas andinas, discos usados. Um ambiente descontra&iacute;do e  sedutor, uma mescla de utopia pol&iacute;tica e Woodstock, tinha-se a sensa&ccedil;&atilde;o de que  ali tudo era poss&iacute;vel. Havia uma dimens&atilde;o istr&ocirc;nica em Vincennes, histeria que  manifestava-se nos grafittis das paredes, a sujeira espalhada pelo ch&atilde;o, os  panfletos como uma relva cobrindo o solo das faculdades, ou nos banheiros, onde  as portas tinham sido arrancadas para se acabar com a &quot;privacidade burguesa&quot;.  Dentro deste espa&ccedil;o, criado para se experimentar um novo tipo de educa&ccedil;&atilde;o, uma  rela&ccedil;&atilde;o alternativa com o conhecimento, coabitava uma tend&ecirc;ncia de desprezo pelo  trabalho intelectual. Ela possu&iacute;a ra&iacute;zes na revolta dos estudantes secund&aacute;rios,  quando se rebelaram contra a rigidez do &quot;liceu caserna&quot;, convulsionando o liceu  Louis Le Grand, s&iacute;mbolo da tradi&ccedil;&atilde;o francesa, porta de acesso para &Eacute;cole Normale  Sup&eacute;rieure. Impregnava ainda os escritos estampados nos muros: &quot;feu sur  llntelectuelbourgeois&quot;, n&atilde;o diziam os mao&iacute;stas que destruir a universidade  burguesa era enfraquecer o poder burgu&ecirc;s? Para esses grupos, minorit&aacute;rios, o  mundo universit&aacute;rio representava o elo mais fraco de uma cadeia de domina&ccedil;&atilde;o que  necessitava ser rompida. </P>     <P>N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil constatar a exist&ecirc;ncia de um razo&aacute;vel anti-intelectualismo nos  movimentos juvenis dos anos 60, a contra-cultura norte-americana, os hippies, os  estudantes alem&atilde;es e franceses, mantinham uma dist&acirc;ncia nada discreta em rela&ccedil;&atilde;o  ao pensamento te&oacute;rico, dimens&atilde;o identificada &agrave; aliena&ccedil;&atilde;o infrut&iacute;fera e  enrijecedora da vida. Adorno n&atilde;o hesitava em condenar tal atitude, assimilando-a  a um retorno ao irracionalismo, ao desprezar a reflex&atilde;o, privilegiar o agir, a  contesta&ccedil;&atilde;o juvenil mergulharia numa ca&oacute;tica corrente irracional. Sua vis&atilde;o  amarga e mal humorada, para mim escondia seu elitismo e conservadorismo mal  confessados, acabava por identificar qualquer atividade pol&iacute;tica &agrave; id&eacute;ia de  regress&atilde;o, como se o fazer e o agir, ontologicamente, fossem a nega&ccedil;&atilde;o do  pensar, toda a&ccedil;&atilde;o, independentemente de seu objetivo, sendo qualificada como uma  express&atilde;o irracional, sem sentido, contribuindo unicamente para o refor&ccedil;o da  ordem dominante. Marcuse possu&iacute;a uma perspectiva mais generosa, pois sem se  afastar da tradi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica percebia com clareza a potencialidade contestadora  dos movimentos da d&eacute;cada de 60. De qualquer forma, em Vincennes, a tens&atilde;o entre  teoria e pr&aacute;tica, pensar e agir, muitas vezes se rompia, derivando para um  anti-intelectualismo in&oacute;cuo. Os mao&iacute;stas levaram ao extremo esta desconfian&ccedil;a,  inspirados no modelo chin&ecirc;s, despacharam seus quadros dirigentes, alguns deles  oriundos das grandes escolas francesas, para as usinas Renault. Como os  intelectuais chineses durante a Revolu&ccedil;&atilde;o Cultural foram enviados ao campo para  se reeducarem, o processo franc&ecirc;s de purifica&ccedil;&atilde;o das mente e dos corpos  prescrevia o conv&iacute;vio for&ccedil;ado com o proletariado. Nos cursos, o descr&eacute;dito em  rela&ccedil;&atilde;o ao aprendizado te&oacute;rico era recorrente, a cada aula sobre Hegel, Chat&ecirc;let  tinha de alinhavar cuidadosamente seus argumentos, explicando o porque da  import&acirc;ncia em se ler um intelectual burgu&ecirc;s. Entre os professores de renome e  os estudantes havia uma incompreens&atilde;o surda, Deleuze tinha dificuldades em  ministrar suas aulas, era seguidamente interrompido, e Foucault, retirou-se logo  no in&iacute;cio dos trabalhos universit&aacute;rios, trocando os ideais da revolu&ccedil;&atilde;o pelo  tradicional Coll&egrave;ge de France. Eu trilhava cauteloso esta linha de giz tentando  a qualquer custo manter o equil&iacute;brio. Seduzido pela efervesc&ecirc;ncia, distante da  histeria reinante, em certa medida incompreens&iacute;vel para mim, pois havia  literalmente cruzado o Atl&acirc;ntico para encontrar meu caminho. </p>     <p>Mas em que  sentido o clima pol&iacute;tico marcou minha trajet&oacute;ria ulterior? Um primeiro aspecto  encontrado-se no tipo de tem&aacute;tica que vim a desenvolver, a quest&atilde;o do poder, no  entanto, enveredei-me por um caminho diverso dos cientistas pol&iacute;ticos. N&atilde;o foram  as institui&ccedil;&otilde;es que me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o mas como as rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o  expressavam-se no cotidiano e na cultura. Tradicionalmente as Ci&ecirc;ncias Sociais  tenderam a identificar a problem&aacute;tica do poder com a pol&iacute;tica. H&aacute; evidentemente  exce&ccedil;&otilde;es que confirmam a regra, por exemplo, a sociologia da religi&atilde;o de  MaxWeber. N&atilde;o obstante, o movimento dominante no pensamento sociol&oacute;gico, foi  consider&aacute;-la como algo preferencialmente vinculado &agrave; esfera pol&iacute;tica. Estado,  governo, partidos, sindicatos, movimentos sociais, tornaram-se assim interesses  dominantes entre os cientistas sociais. A cultura ficava um tanto &agrave; margem disso  tudo. Procurei sempre diferenciar entre, pol&iacute;tica e pol&iacute;tico, entendendo este  &uacute;ltimo aspecto como algo imanente ao social. Neste sentido, nem tudo o que &eacute;  pol&iacute;tico atualiza-se enquanto pol&iacute;tica, ou seja, &eacute; pass&iacute;vel de compreens&atilde;o no  &acirc;mbito exclusivo da ideologia ou das disputas partid&aacute;rias. &Eacute; bem verdade que o  debate cultural na Am&eacute;rica Latina, particularmente no Brasil dos anos 50 e 60,  fazia-se estreitamente vinculado &agrave;s coisas da pol&iacute;tica, mas &eacute; importante  dimensionar as coisas para n&atilde;o cairmos em malentendidos. O dilema da identidade  nacional levou a intelectualidade latinoamericana a compreender o universo  cultural &#40;cultura nacional, cultura popular, imperialismo e colonialismo  cultural&#41;  como algo intr&iacute;nsecammente vinculado &agrave;s quest&otilde;es pol&iacute;ticas. Discutir  cultura era discutir o destino do pa&iacute;s, identidade que encerrava os dilemas e as  esperan&ccedil;as relativas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o nacional. No entanto, tal aproxima&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era  o equivalente a se pensar a cultura como lugar de poder. As contradi&ccedil;&otilde;es  existentes no seio das manifesta&ccedil;&otilde;es culturais eram imediatamente traduzidas em  an&aacute;lises e propostas encampadas pelas institui&ccedil;&otilde;es tradicionalmente consagradas  ao &quot;fazer pol&iacute;tica&quot;: governo, partidos, sindicatos, movimentos sociais. Por isso  o debate em voga na Am&eacute;rica Latina nos anos 50 e 60 girava em torno da id&eacute;ia de  conscientiza&ccedil;&atilde;o. Os lugares de poder s&atilde;o justamente os espa&ccedil;os do inconsciente,  a produ&ccedil;&atilde;o e a reprodu&ccedil;&atilde;o da sociedade passa necessariamente por sua  compreens&atilde;o. H&aacute; pois um deslocamento do plano do consciente para o inconsciente.  A problem&aacute;tica anterior ancorava-se na id&eacute;ia de que a consci&ecirc;ncia era a sede  principal da a&ccedil;&atilde;o, esclarec&ecirc;-la, desalien&aacute;-la, seria a maneira de se caminhar na  dire&ccedil;&atilde;o correta &#40;da&iacute; a &ecirc;nfase na consci&ecirc;ncia de classe&#41; . Pensar em termos de  inconsciente, seja em termos psicanal&iacute;tico ou n&atilde;o, implicava em reconhecer  elementos de poder que n&atilde;o se encontravam expl&iacute;citios na atitude de cada um.  Essas quest&otilde;es estavam no ar na Fran&ccedil;a p&oacute;s-68. Temos as vezes a tend&ecirc;ncia, ao  nos encerrarmos na hist&oacute;ria das id&eacute;ias, em atribu&iacute;-las &agrave; genialidade de alguns  poucos autores, Foucault, Bourdieu, Deleuze. Lendo o passado sob a &oacute;tica  exclusiva dos conceitos terminamos por separ&aacute;-los do contexto no qual foram  elaborados. Tenho claro que a inspira&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de minha tese de doutorado tem  uma d&iacute;vida com minha passagem por Vincennes. N&atilde;o foram as ra&iacute;zes africanas do  culto umbandista, objeto privilegiado por v&aacute;rios pesquisadores, que me  seduziram, mas como esta religi&atilde;o, ao tornar-se brasileira, definia um espa&ccedil;o  simb&oacute;lico no qual as pr&oacute;prias rela&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas e desiguais da sociedade  terminavam por ser absorvidas. Quando encontrei Bastide, essas quest&otilde;es  encontravam-se maduras para mim e chocavam-se inclusive com sua antiga  interpreta&ccedil;&atilde;o do culto umbandista &#40;o que n&atilde;o o impediu em aceitar-me como  orientando&#41;. </P>  <hr size="1">      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b> Comentrios </b></p>      <p><sup><a href="#s1" name="1">1</a></sup> H. Hamon e P. Rotman, G&eacute;n&eacute;ration: les ann&eacute;es de poudre, Paris, Senil, 1988, p.</p>   </font>      ]]></body>
</article>
