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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Educação em direitos humanos: reflexões sobre o poder, a violência e a autoridade na escola]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Education in Human Rights: Reflections on Power, Violence and Authority in the School]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article explores human rights and education based on an intervention experience conducted in three schools located in Sao Paulo City, which had as its main goal a substantial reduction in violence (2004-2005) . The guideline was that education should be considered a basic human right, taking into consideration the power and authority relations that exist within this institution. What are the problems that we face, nowadays, to consider education as a human right, in the difficult Brazilian history? Is it possible to think about some kind of democratic authority within the school, when our vision of authority is linked to despotic leaders, or even when there is no space for any authority? How does this discussion associate with the violence in our daily life in school? These are some of the questions included in the debate proposed by this article.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="verdana" size="2">       <p align="center"><font size="4"><b>Educa&ccedil;&atilde;o em direitos humanos: reflex&otilde;es    sobre   o poder, a viol&ecirc;ncia e a autoridade na escola</b></font></p>     <p align="center">   <font size="3"><b>Education in Human Rights: Reflections on Power,   Violence and Authority in the School</b></font></p>     <p>   <b>FL&Aacute;VIA SCHILLING** </b></p>     <p>Universidade de S&atilde;o Paulo, Profesora de la Facultad de Educaci&oacute;n    de la Universidad   de S&atilde;o Paulo (USP), Brasil. Integrante de la c&aacute;tedra   UNESCO de Educaci&oacute;n para la Paz, Derechos Humanos   y Tolerancia.   Correo electr&oacute;nico: <a href="mailto:oak1@uol.com.br">oak1@uol.com.br</a></p>     <p align="center">Recibido: febrero 12 de 2008 Revisado: abril 27 de 2008 Aceptado:    agosto 15 de 2008</p><hr size="1">      <p><b>RESUMO</b></p>     <p>   Este artigo apresenta uma reflex&atilde;o sobre direitos humanos e educa&ccedil;&atilde;o    a   partir de uma experi&ecirc;ncia de interven&ccedil;&atilde;o em tr&ecirc;s escolas    da Cidade de S&atilde;o   Paulo, visando reduzir a viol&ecirc;ncia existente em seu cotidiano. Prop&otilde;e-se    a   necessidade de pensar articuladamente a quest&atilde;o da realiza&ccedil;&atilde;o    da educa&ccedil;&atilde;o   como um direito humano considerando as rela&ccedil;&otilde;es de poder e autoridade   existentes na escola. Quais s&atilde;o os dilemas que enfrentamos na atualidade   para a realiza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o como um direito humano,    na dif&iacute;cil hist&oacute;ria   brasileira? &Eacute; poss&iacute;vel pensar em uma autoridade democr&aacute;tica    na escola,   quando predomina a vis&atilde;o de que autoridade seria aquela do chefe desp&oacute;tico   ou quando se verifica a aus&ecirc;ncia da possibilidade de ocupa&ccedil;&atilde;o    do lugar de   autoridade na escola? Como esta discuss&atilde;o se articula com a da viol&ecirc;ncia   no cotidiano escolar? Estas s&atilde;o algumas quest&otilde;es que permeiam    o debate   proposto neste artigo.</p>     <p>   <b>Palavras chave</b>   Direitos humanos, educa&ccedil;&atilde;o, autoridade, poder, viol&ecirc;ncia.</p>     <p>   <b>Key words plus</b>   Human Rights, Educational Institutions, Violence in Education, Authority, Power   (Psychology).</p><hr size="1">      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   <b>ABSTRACT</b></p>     <p>   This article explores human righ<b></b>ts and education based on an intervention   experience conducted in three schools located in Sao Paulo City, which   had as its main goal a substantial reduction in violence (2004-2005) . The   guideline was that education should be considered a basic human right, taking   into consideration the power and authority relations that exist within   this institution. What are the problems that we face, nowadays, to consider   education as a human right, in the difficult Brazilian history? Is it possible   to think about some kind of democratic authority within the school, when   our vision of authority is linked to despotic leaders, or even when there is    no   space for any authority? How does this discussion associate with the violence   in our daily life in school? These are some of the questions included in the   debate proposed by this article.</p>     <p>   <b>Key words</b>   Education, Human Rights, Authority, Power, Violence.</p>     <p>   <b>Key words plus</b>   Human Rights, Educational Institutions, Violence in Education, Authority, Power   (Psychology).</p>   <hr size="1">      <p>S&oacute; se pode confiar nas palavras quando se tem certeza   que a fun&ccedil;&atilde;o delas &eacute; revelar e n&atilde;o dissimular.   (Arendt, 1973, p. 139)</p>     <p>   Nos &uacute;ltimos anos, presencia-se o esfor&ccedil;o desenvolvido   por setores governamentais e n&atilde;o governamentais   para disseminar a informa&ccedil;&atilde;o, o debate e a   pr&aacute;tica dos direitos humanos nas organiza&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>   H&aacute; uma primeira dificuldade a ser destacada:   a dif&iacute;cil hist&oacute;ria dos direitos -e das leis que os   materializam-, no Brasil. Como trabalhar com   &quot;direitos&quot;, quando os direitos s&atilde;o vistos como   privil&eacute;gios, quando demoram tanto para serem   universais?, Quando parecem desligados dos deveres,   seu correlato imprescind&iacute;vel?, Como trabalhar   com o Estado de Direito, com o respeito &agrave;s leis, em   um pa&iacute;s que as percebe como injustas, ineficazes,   reprodutoras da desigualdade social?, (Schilling,   1999). Quando lidamos com a viol&ecirc;ncia, com suas   m&uacute;ltiplas faces?</p>     <p>   Este &eacute;, ainda hoje, o grande desafio de um trabalho   de educa&ccedil;&atilde;o em direitos humanos. O valor   da lei para a manuten&ccedil;&atilde;o da liberdade, da igualdade,   da seguran&ccedil;a sem privil&eacute;gios nem discrimina&ccedil;&atilde;o   precisa ser constru&iacute;do coletivamente. O mesmo   acontece com o reconhecimento dos direitos como   universais e rec&iacute;procos. Enfrentar estas quest&otilde;es &eacute;   fundamental para este discurso sobre os direitos   humanos e a educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja mais um &quot;discurso   bonito&quot; e impotente. Como realizar os DH no cotidiano,   quais s&atilde;o as responsabilidades da escola e   quais os seus limites, qual ser&aacute; o caminho para a   constru&ccedil;&atilde;o de uma vida justa em comum?, Qual &eacute;   o lugar a ser ocupado por n&oacute;s, professores?</p>     <p>   Neste pequeno artigo pretende-se articular a   discuss&atilde;o sobre o trabalho com direitos humanos   nas escolas com as quest&otilde;es do poder, da viol&ecirc;ncia   e da autoridade. Para tanto, recorro ao relato de   uma experi&ecirc;ncia de interven&ccedil;&atilde;o em escolas da rede   p&uacute;blica, que apresentavam situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia   em seu cotidiano. O trabalho de interven&ccedil;&atilde;o revelou   que o tema da autoridade, a possibilidade   de constru&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de poder democr&aacute;ticas   e de uma autoridade democr&aacute;tica &eacute; chave para a   resolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o violenta de conflitos, para o n&atilde;o   apagamento do outro.</p>     <p>   <font size="3"><b>Relato de uma experi&ecirc;ncia de   interven&ccedil;&atilde;o: viol&ecirc;ncia, poder e   autoridade na escola</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   &Eacute; como se estiv&eacute;ssemos sob algum encantamento,   que nos permitisse realizar o &quot;imposs&iacute;vel&quot; com a   condi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o podermos mais fazer o poss&iacute;vel,    para   realizarmos proezas fantasticamente extraordin&aacute;rias   com a condi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o sermos mais capazes de atender   nossas mais banais necessidades di&aacute;rias.   (Arendt, 1973, pp. 155-156)</p>     <p>   Em 2004/2005 participamos de um trabalho de   cultura da paz nas escolas<sup><a href="#1" name="s1">1</a></sup>. O projeto teve como   ponto central a constru&ccedil;&atilde;o de um diagn&oacute;stico sobre   as situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia no ambiente escolar   de tr&ecirc;s escolas da rede p&uacute;blica e, a partir deste diagn&oacute;stico,   a constru&ccedil;&atilde;o, naqueles coletivos, de uma   proposta de metodologia de interven&ccedil;&atilde;o. O ponto   de partida foram as queixas dos professores, coordenadores   e diretores. Uma primeira constata&ccedil;&atilde;o foi   a verifica&ccedil;&atilde;o de aus&ecirc;ncia de precis&atilde;o na descri&ccedil;&atilde;o   das viol&ecirc;ncias que permeavam o cotidiano escolar.   Algumas escolas pareciam mergulhadas em um   ambiente de viol&ecirc;ncia. Foi preciso perguntar: quais   s&atilde;o as situa&ccedil;&otilde;es compreendidas como violentas?,   O que &eacute; viol&ecirc;ncia?, Onde aparece?, Ocorre contra   quem, entre quem? Verificava-se que, em algumas   escolas, predominava um ambiente hostil: o bairro   e os alunos eram temidos, a rela&ccedil;&atilde;o entre os adultos   era de desconfian&ccedil;a. A sensa&ccedil;&atilde;o predominante era   de desamparo, impot&ecirc;ncia, temor.</p>     <p>   Percebeu-se, no decorrer do trabalho, que a   institui&ccedil;&atilde;o escolar n&atilde;o tinha compreens&atilde;o de sua   hist&oacute;ria -no bairro, por exemplo-, do lugar que   ocupava, da import&acirc;ncia de sua funda&ccedil;&atilde;o naquele   lugar. Qual &eacute; a hist&oacute;ria de uma institui&ccedil;&atilde;o   considerada pelos seus agentes como &quot;violenta&quot;?   H&aacute; uma hist&oacute;ria desta viol&ecirc;ncia que precisava ser recuperada.    Havia uma atribui&ccedil;&atilde;o de responsabilidade   &agrave; situa&ccedil;&atilde;o vivida internamente, na escola, ao   bairro, ao entorno. Por&eacute;m, constata-se que a   viol&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; uma fatalidade e a viol&ecirc;ncia externa   &agrave; escola n&atilde;o necessariamente produz uma   escola violenta.</p>     <p>   Havia aus&ecirc;ncia de clareza nos pap&eacute;is desempenhados   pelos diversos atores envolvidos: diretor,   coordenadores, professores, alunos, pais. Nestas escolas,   ningu&eacute;m sabia qual era o lugar que ocupava   ou como construir um lugar de autoridade, quais   seriam as compet&ecirc;ncias e atribui&ccedil;&otilde;es de cada um.   Esta observa&ccedil;&atilde;o refor&ccedil;ava algo que j&aacute; sab&iacute;amos    a   partir de alguns relatos:</p>     <p>   De um modo geral, pudemos perceber que se a   omiss&atilde;o ou a postura autorit&aacute;ria e repressiva de   diretores e professores tem efeitos devastadores na   piora da viol&ecirc;ncia nas escolas, a supera&ccedil;&atilde;o desse   quadro de medo parece estar diretamente ligada &agrave;   capacidade que a escola demonstra ter para debater   e enfrentar os problemas e as situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia   como uma situa&ccedil;&atilde;o comum a todos e que, por isso,   necessita do apoio e da compreens&atilde;o de todos para   ser superada. (Rede de Observatorios de Direitos   Humanos, p. 81)</p>     <p>   As estrat&eacute;gias propostas refletiram uma determinada   compreens&atilde;o da complexidade da institui&ccedil;&atilde;o   escolar em suas rela&ccedil;&otilde;es com a localidade,   a cidade, o Estado. N&atilde;o haveria, portanto, possibilidades   de interven&ccedil;&atilde;o -transforma&ccedil;&atilde;o das   rela&ccedil;&otilde;es estabelecidas no cotidiano escolar- sem   levar em considera&ccedil;&atilde;o essa complexidade-. Algumas   dimens&otilde;es e princ&iacute;pios que nortearam as a&ccedil;&otilde;es   foram os seguintes:</p>     <p>   1. A escola est&aacute; na cidade. Discutiu-se a escola   vista como um bem p&uacute;blico, que representasse   um lugar de interlocu&ccedil;&atilde;o e de desenvolvimento   local, com uma hist&oacute;ria e uma contribui&ccedil;&atilde;o.   Desta constata&ccedil;&atilde;o surgiram estrat&eacute;gias que diziam   respeito &agrave; participa&ccedil;&atilde;o de diversos parceiros   locais, de acordo com os projetos que se   desenvolveram.</p>     <p>   2. A escola est&aacute; em um sistema de educa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o   &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o isolada, pertence a um sistema   com determinadas normas e regras. N&atilde;o tem   autonomia total para mudan&ccedil;as, depende de   um bom relacionamento com os demais n&iacute;veis   hier&aacute;rquicos. Muitos dos problemas detectados   no cotidiano escolar derivam das regras gerais   de funcionamento do sistema. Este &eacute;, portanto,   um dos pontos a ser considerado no desenvolvimento   de estrat&eacute;gias de interven&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>   3. A escola &eacute; um espa&ccedil;o de encontros (e de conflitos)   entre gera&ccedil;&otilde;es, entre profissionais de diferentes   especializa&ccedil;&otilde;es e hierarquias, entre   diferentes vis&otilde;es sobre educa&ccedil;&atilde;o, sobre ensinar   e aprender. As rela&ccedil;&otilde;es entre equipe de dire&ccedil;&atilde;o    e   professores, professores e alunos, alunos, professores,   dire&ccedil;&atilde;o e demais funcion&aacute;rios, alunos   entre si, professores entre si, s&atilde;o, desta forma,   um ponto central das estrat&eacute;gias de interven&ccedil;&atilde;o   que visaram a compreens&atilde;o da possibilidade do   fazer educativo sem viol&ecirc;ncia a partir do tratamento   dos conflitos, constituintes deste fazer.   Parte-se do princ&iacute;pio que o que define uma   democracia ou uma institui&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica   n&atilde;o &eacute; necessariamente o consenso, mas a possibilidade   de lidar com o dissenso de forma n&atilde;o   violenta. Da&iacute; a orienta&ccedil;&atilde;o geral, nestas estrat&eacute;gias   de interven&ccedil;&atilde;o, de refazer (ou construir)   possibilidades de encontro e interlocu&ccedil;&atilde;o entre   os v&aacute;rios atores que est&atilde;o na escola.</p>     <p>   4. Outro princ&iacute;pio que rege estas estrat&eacute;gias de interven&ccedil;&atilde;o   &eacute; a confian&ccedil;a na capacidade de cada   um dos atores envolvidos de propor, decidir e,   transformar seu cotidiano. Cada um dos setores   envolvidos tem seu papel, suas atribui&ccedil;&otilde;es e   capacidades para transformar a escola. Se esta   tarefa apresenta-se como ingl&oacute;ria ou imposs&iacute;vel   quando pensada no plano individual, torna-se   poss&iacute;vel quando pensada como uma constru&ccedil;&atilde;o   coletiva.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   5. As estrat&eacute;gias propostas, mesmo que humildes   e simples, devem ser vistas como primeiros   passos em uma tarefa de m&eacute;dio e longo prazo,   que passa pela possibilidade de transforma&ccedil;&otilde;es   mais profundas da vida da cidade, do sistema   escolar estatal e da escola.</p>     <p>Verifica-se, portanto, que o projeto de redu&ccedil;&atilde;o   da viol&ecirc;ncia no ambiente escolar tem como centro   um intenso trabalho de diagn&oacute;stico das condi&ccedil;&otilde;es   de cada uma das escolas (Sposito, 2003). A aus&ecirc;ncia   de clareza sobre possibilidades de atua&ccedil;&atilde;o por   parte dos adultos da escola era central para o clima   de des&acirc;nimo, medo, incerteza, temor em rela&ccedil;&atilde;o   aos alunos, vistos como fonte de todas as viol&ecirc;ncias.   Esta situa&ccedil;&atilde;o refletia-se na dificuldade para   o trabalho em conjunto, para o planejamento e   formula&ccedil;&atilde;o de um projeto pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico   da escola, para as trocas cotidianas. As vis&otilde;es de   cada um dos setores sobre si mesmos e sobre os   demais apareciam marcadas por estere&oacute;tipos e   preconceitos. Havia, tamb&eacute;m, dificuldades como   o de compreens&atilde;o do que seria um &quot;projeto&quot;. De   fato: como construir um projeto -uma tentativa   de construir algo que aponta para um futuro- em   um ambiente marcado pela incerteza, inseguran&ccedil;a   e aus&ecirc;ncia de motiva&ccedil;&atilde;o?</p>     <p>   A medida que este trabalho de diagn&oacute;stico se   desenvolveu, as primeiras a&ccedil;&otilde;es visaram o fortalecimento   da institui&ccedil;&atilde;o e de cada um de seus segmentos:   tratou-se da forma&ccedil;&atilde;o, do fortalecimento   dos professores e da equipe t&eacute;cnica. Isto derivou   do dado j&aacute; citado -da dificuldade de ocupa&ccedil;&atilde;o do   lugar de autoridade- que sugeriu a necessidade de   a&ccedil;&otilde;es para que cada um pudesse ocupar o seu lugar   como autoridade, que possui um saber, uma experi&ecirc;ncia,   um lugar institucional. Neste trabalho de   aproxima&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o de possibilidades de interlocu&ccedil;&atilde;o   tentou-se dar conta de superar a rela&ccedil;&atilde;o de   desconhecimento -e, desta forma, de medo-, que   permeava as rela&ccedil;&otilde;es entre professores, destes com   os dirigentes e de todos em rela&ccedil;&atilde;o aos alunos.</p>     <p>   Um ponto de partida foi a discuss&atilde;o sobre o   lugar da pot&ecirc;ncia, sobre o que seria poss&iacute;vel fazer.   Desta identifica&ccedil;&atilde;o sa&iacute;ram as linhas mestres de   atua&ccedil;&atilde;o do projeto. Nem tudo &eacute; poss&iacute;vel, por&eacute;m,   algo &eacute; poss&iacute;vel: a identifica&ccedil;&atilde;o deste ponto &eacute;    central.   Desta defini&ccedil;&atilde;o conjunta do que &eacute; poss&iacute;vel,   come&ccedil;am as defini&ccedil;&otilde;es de compet&ecirc;ncias, de responsabilidades.   O que cabe ao poder p&uacute;blico,   representado pela Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o? O que   cabe ao diretor, aos alunos? Foi fundamental,   nesta reflex&atilde;o, a revis&atilde;o e retomada constante   dos objetivos do projeto, identificando possibilidades   e limites, retomando, a todo momento, as   compet&ecirc;ncias e os lugares a serem ocupados por   cada um dos integrantes. Se em todo trabalho de   interven&ccedil;&atilde;o h&aacute; limites, estes devem ser especialmente   claros quando lidamos com situa&ccedil;&otilde;es de   viol&ecirc;ncia. &Eacute; importante reconhecer quais s&atilde;o os   limites que podem e devem ser superados e quais   s&atilde;o os que, detectados, n&atilde;o dependem diretamente   da interven&ccedil;&atilde;o da equipe do projeto e devem ser   encaminhados.</p>     <p>   H&aacute; limites que existem por carecerem de pol&iacute;ticas   p&uacute;blicas mais gerais de revers&atilde;o da viol&ecirc;ncia.   H&aacute; aqueles derivados de limites estruturais do   pr&oacute;prio sistema de educa&ccedil;&atilde;o brasileiro, que se reflete,   por exemplo, remo&ccedil;&atilde;o e troca constante das   equipes das escolas. H&aacute; uma instabilidade estrutural   no corpo de professores nas escolas brasileiras   que dificulta -ou impede- qualquer proposta de   a&ccedil;&atilde;o que envolva um coletivo. E, como sabemos,   uma transforma&ccedil;&atilde;o do cotidiano escolar depende   exatamente da possibilidade de constru&ccedil;&atilde;o de   coletivos, do desenvolvimento de a&ccedil;&otilde;es coletivas.   Essa quest&atilde;o, estrutural, tem conseq&uuml;&ecirc;ncias: cria,   nas escolas, uma enorme fragmenta&ccedil;&atilde;o entre as   pessoas e grupos, n&atilde;o possibilitando a constru&ccedil;&atilde;o   de uma hist&oacute;ria e uma trajet&oacute;ria comum, di&aacute;logo   entre os setores, que diziam sentir-se isolados e   enfraquecidos, n&atilde;o acreditando em qualquer possibilidade   de mudan&ccedil;a ou supera&ccedil;&atilde;o dos problemas   das escolas. A instabilidade estrutural do quadro   dos trabalhadores das escolas &eacute; um dado e define   limites ao trabalho.</p>     <p>   A diversidade das estrat&eacute;gias montadas espelhou   a concep&ccedil;&atilde;o original do &quot;Cultura da Paz&quot; que   entende a escola como uma organiza&ccedil;&atilde;o complexa   e sujeita, portanto, a interven&ccedil;&otilde;es m&uacute;ltiplas para   conquistar o objetivo da mudan&ccedil;a das rela&ccedil;&otilde;es.   Tratou-se, portanto, a partir da defini&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncias,   de um projeto de interven&ccedil;&atilde;o sobre   todos os setores: os dirigentes da Secretaria da   Educa&ccedil;&atilde;o; dire&ccedil;&atilde;o; equipe pedag&oacute;gica da escola;   professores; funcion&aacute;rios, alunos e pais. Envolveu,   tamb&eacute;m, organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais que   trabalham no apoio &agrave;s escolas. Este &eacute; um tipo de estrat&eacute;gia   muito relevante, pelos resultados obtidos, e, principalmente, pela supera&ccedil;&atilde;o    do isolamento   da escola. Como exemplo desta estrat&eacute;gia de trabalho,   cabe ressaltar as reuni&otilde;es entre escolas participantes   do projeto. Os participantes percebem   que fazem parte de um movimento maior, que h&aacute;   experi&ecirc;ncias bem sucedidas que podem ser trocadas,   &eacute; poss&iacute;vel reverter um quadro de des&acirc;nimo   e viol&ecirc;ncia. Inclusive, cabe ressaltar a justeza da   escolha destas escolas participantes, com n&iacute;veis   diferentes de comprometimento e tempos j&aacute; diferentes   de interven&ccedil;&atilde;o. Esta heterogeneidade,   do grupo de escolas participantes, revelou-se um   ganho e pode ser considerado como um dos resultados   do trabalho: quando se elege um grupo de   institui&ccedil;&otilde;es para interven&ccedil;&atilde;o, recomenda-se que   se formem grupos de escolas com patamares diferentes   de organiza&ccedil;&atilde;o e problemas.</p>     <p>   S&atilde;o a&ccedil;&otilde;es que produzem resultados imediatos,   elaboradas em dois n&iacute;veis:</p>     <p>   &#8226; Aquelas que tratam do fortalecimento da   equipe de professores, da equipe t&eacute;cnica, para   a elabora&ccedil;&atilde;o de propostas de melhoria das   rela&ccedil;&otilde;es e resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos no cotidiano   escolar.</p>     <p>   &#8226; Aquelas que ampliam as possibilidades de di&aacute;logo   entre os diversos setores da escola e da escola   com setores da comunidade local, quebrando o   isolamento que cerca a escola.</p>     <p>   Alguns resultados imediatos s&atilde;o aparentemente   singelos: a melhoria das condi&ccedil;&otilde;es de limpeza   da escola, seu embelezamento, a possibilidade de   que os hor&aacute;rios pedag&oacute;gicos sejam usados com esta   finalidade e sejam produtivos, a possibilidade   de que os professores conversem entre si, entre si   e com os alunos, com a dire&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m, sem o estabelecimento   destas condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas, n&atilde;o h&aacute;   como mudar o ambiente escolar, construir uma   &quot;cultura da paz&quot;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   Retomando, brevemente, podemos dizer   que uma pol&iacute;tica p&uacute;blica que vise a redu&ccedil;&atilde;o da   viol&ecirc;ncia no ambiente escolar deve considerar   que:</p>     <p>   &#8226; H&aacute; especificidades em cada escola em rela&ccedil;&atilde;o   &agrave; viol&ecirc;ncia no ambiente escolar e h&aacute; caminhos   pr&oacute;prios para a sua supera&ccedil;&atilde;o, tanto em rela&ccedil;&atilde;o   &agrave;s parcerias internas e externas poss&iacute;veis como   em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; linguagem e conte&uacute;do do trabalho.   Ignor&aacute;-las seria tratar os sujeitos como &quot;coisas&quot;   e reproduzir a viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica (institucional).   Da&iacute; a import&acirc;ncia de um intenso e profundo   trabalho de diagn&oacute;stico institucional. Ao   mesmo tempo &eacute; poss&iacute;vel perceber caminhos   comuns, diretrizes para a a&ccedil;&atilde;o que podem ser   multiplicadas.</p>     <p>   &#8226; A escola &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o complexa, inserida   em uma rede estatal e p&uacute;blica, com diferentes   atores que devem participar. Dirigentes, diretores,   equipe pedag&oacute;gica, professores, alunos,   funcion&aacute;rios, familiares, setores da sociedade   civil, s&atilde;o chamados a ocupar o seu lugar na   defesa da escola, na constru&ccedil;&atilde;o de uma escola   democr&aacute;tica e inserida no desenvolvimento   local, regional e nacional. Esta rede de cultura   permite uma primeira supera&ccedil;&atilde;o da sensa&ccedil;&atilde;o   de isolamento dos diversos setores que comp&otilde;em   a institui&ccedil;&atilde;o escolar. Fundamentais foi a   presen&ccedil;a de organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil, de   representantes da diretoria de ensino apoiando   e participando das a&ccedil;&otilde;es, das fam&iacute;lias e os encontros   entre as escolas participantes, trocando   experi&ecirc;ncias.</p>     <p>   &#8226; As atividades propostas partiram do pressuposto   do reconhecimento dos problemas maiores,   estruturais e organizacionais, sociais e econ&ocirc;micos   existentes, mas centraram-se nas a&ccedil;&otilde;es   poss&iacute;veis, naqueles que est&atilde;o ao alcance de todo   cidad&atilde;o. Estas a&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis, propostas de   dentro da escola, com os grupos que se disponham   a mudar a escola e seu ambiente, podem   ser pequenas ou humildes a&ccedil;&otilde;es. Basicamente   trata-se de desenvolver uma cultura de &quot;pot&ecirc;ncia&quot;   que se op&otilde;e &agrave; impot&ecirc;ncia ou &agrave; onipot&ecirc;ncia,   da cria&ccedil;&atilde;o de &quot;pontes&quot;, di&aacute;logos, encontros    entre   as diversas pessoas da institui&ccedil;&atilde;o. Foi, desta   forma, que houve a possibilidade de cada um,   na institui&ccedil;&atilde;o, vir a ocupar um lugar.</p>     <p><font size="3"><b>A quest&atilde;o da autoridade: quando   ningu&eacute;m ocupa seu lugar</b></font></p>     <p>   A tirania moderna &eacute; multicentrada, al&eacute;m de substituir   a autoridade pela for&ccedil;a, cria um vazio de ordem,   preenchido pela viol&ecirc;ncia, onde os mecanismos   educacionais deveriam funcionar. &Agrave; incivilidade e   &agrave; incapacidade de negociar, adicione-se a incapacidade   de exercer compaix&atilde;o ou empatia, isto &eacute;, de   se colocar no lugar do outro. Em vez disso, a rapidez   em colocar r&oacute;tulos e em identificar os inimigos ou   culpados, junto com a rapidez de justi&ccedil;&aacute;-los atrav&eacute;s   da viol&ecirc;ncia. (Zaluar, 1994, p. 261).</p>     <p>   A participa&ccedil;&atilde;o neste projeto deixou clara a   import&acirc;ncia de discutir poder e autoridade na educa&ccedil;&atilde;o.   Uma das constata&ccedil;&otilde;es do diagn&oacute;stico nas   escolas que apresentavam queixas sobre viol&ecirc;ncia   no ambiente escolar foi a de que &quot;ningu&eacute;m ocupa   o seu lugar&quot;: o aluno n&atilde;o ocupa o seu lugar de aluno,   o professor n&atilde;o ocupa o seu lugar de professor,   os coordenadores n&atilde;o coordenam, a dire&ccedil;&atilde;o n&atilde;o   dirige. A percep&ccedil;&atilde;o era de ambientes abandonados,   lugar de passagem, n&atilde;o lugar.</p>     <p>   Por&eacute;m, o que &eacute; ser professor sen&atilde;o ocupar um   lugar? Que lugar &eacute; este, na atualidade? N&oacute;s, como   professores expomos nosso corpo, ocupamos um   lugar -no espa&ccedil;o e no tempo- diariamente. Ocupar   um lugar e expor o corpo &eacute; algo dif&iacute;cil, algo que mobiliza.   Expor o corpo &eacute; expor sua vulnerabilidade.   Sua fragilidade. Como fazer para que nosso fr&aacute;gil   corpo n&atilde;o sofra viol&ecirc;ncia, quando exposto, quando   ocupa um lugar - separado?, Ou como ocup&aacute;-lo,   no Brasil, sem cair no autoritarismo, na repress&atilde;o,   gerando mais viol&ecirc;ncia?, O que &eacute; autoridade?</p>     <p>   Encontramos uma interessante discuss&atilde;o sobre   a autoridade no Brasil, em um texto de Alba   Zaluar, que tem um t&iacute;tulo muito significativo: &quot;A   Autoridade, o Chefe e o Bandido&quot; (1996). Verifica   a fus&atilde;o do conceito de autoridade &agrave; de autoridade   governamental. Quem n&atilde;o ouviu falar de &quot;desacato   &agrave; autoridade?&quot; Constata, no pa&iacute;s, o cruzamento   entre o tipo de autoridade tradicional com   a autoridade racional-legal, como se o pr&eacute;-pol&iacute;tico   houvesse entrado na rep&uacute;blica, fazendo com que   o conceito de autoridade, entre n&oacute;s, se tornasse   f&aacute;rsico. Percebe o &quot;uso indevido do termo autoridade   para camuflar um poder n&atilde;o mais derivado do   valor moral do superior hier&aacute;rquico que acumula   as fun&ccedil;&otilde;es educativas, na medida em que servem   de exemplo para as gera&ccedil;&otilde;es seguintes&quot; (Zaluar,   1994, p. 258).</p>     <p>   Aqui, a autoridade confunde-se com o &quot;chefe&quot;,   aquele cuja autoridade n&atilde;o induz ao respeito,   mas consegue obedi&ecirc;ncia pelo medo do seu poder   (Apple, 1989). &Eacute; materializada na figura de uma   chefia desp&oacute;tica, que se rege por valores privados,   com pouca aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s regras da impessoalidade ou   da justi&ccedil;a. Desta forma, por conta desta contamina&ccedil;&atilde;o,   hesitamos quando nos pedem que atuemos   como autoridades. Teme-se que esta atua&ccedil;&atilde;o esteja   impregnada de autoritarismo, de viol&ecirc;ncia, de despotismo.   Da&iacute; a dificuldade em exercer um poder   democr&aacute;tico, em pensar na autoridade democr&aacute;tica.   &Eacute; como fosse imprescind&iacute;vel ocupar o lugar   daquele &quot;chefe&quot;, daquele que manda. Como se n&atilde;o   fosse poss&iacute;vel ocupar o lugar de uma outra forma.   A alternativa, frente a este dilema, &eacute; muitas vezes   o que verificamos nas escolas estudadas, ningu&eacute;m   ocupando lugar algum.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   Por&eacute;m, haveria, segundo v&aacute;rios autores, antagonismo   entre autoridade e viol&ecirc;ncia e entre   poder e viol&ecirc;ncia. Para Arendt (1973, p. 123) o   poder &eacute; a capacidade n&atilde;o apenas de agir, mas de   agir de comum acordo. H&aacute; uma autoriza&ccedil;&atilde;o dada   a uma autoridade que &eacute; legitimamente vista como   tendo poder para agir, de comum acordo com o   decidido. A viol&ecirc;ncia, em troca, se op&otilde;e ao poder   e &agrave; autoridade.</p>     <p>   O poder n&atilde;o necessita de justifica&ccedil;&atilde;o, sendo inerente   &agrave; pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia de comunidades pol&iacute;ticas; o   que realmente necessita &eacute; de legitimidade. O comum   emprego destas duas palavras como sin&ocirc;nimos &eacute; t&atilde;o   enganoso e confuso quanto a identifica&ccedil;&atilde;o entre   obedi&ecirc;ncia e apoio. O poder brota onde quer que   as pessoas se unam e atuem de comum acordo, mas   obt&eacute;m sua legitimidade mais do ato inicial de unirse   do que de outras a&ccedil;&otilde;es que se possam seguir. A   legitimidade quando desafiada fundamenta-se a si   pr&oacute;pria num apelo ao passado, enquanto a justifica&ccedil;&atilde;o   se relaciona com um fim que existe no futuro.</p>     <p>A viol&ecirc;ncia pode ser justificada, mas nunca ser&aacute;   leg&iacute;tima. (Arendt, 1973, p. 129).<sup><a href="#2" name="s2">2</a></sup></p>     <p>   E a autoridade e o poder da pedagogia? A autoridade   da pedagogia adv&eacute;m dela ser uma &aacute;rea   que det&eacute;m um saber sobre a crian&ccedil;a (sobre o adolescente   e o jovem) sabendo como governar seus   corpos e suas almas, como dispor as coisas no tempo   e no espa&ccedil;o de forma a alcan&ccedil;ar seu objetivo: a   boa educa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>   N&oacute;s, educadores que ocupamos uma posi&ccedil;&atilde;o   particular na transmiss&atilde;o da cultura da sociedade   (...) temos um poder e uma autoridade que nos   transcendem como indiv&iacute;duos e que est&atilde;o associados   &agrave; posi&ccedil;&atilde;o social que ocupamos&quot; (Dussel &amp;   Caruso, 2003, p. 226).</p>     <p>   A eros&atilde;o do conceito de autoridade -ou o fato   da autoridade, no Brasil, ser f&aacute;rsica-, leva &agrave;s seguintes   perguntas: sabemos sobre as crian&ccedil;as, sobre   seus corpos e almas?, Sabemos como governar a   sala de aula?, Qual &eacute; o nosso prest&iacute;gio social em   uma &eacute;poca de eros&atilde;o deste prest&iacute;gio?, De eros&atilde;o   do valor do saber, do conhecimento?, Vive-se a   condi&ccedil;&atilde;o de desprest&iacute;gio ligado &aacute; condi&ccedil;&atilde;o    salarial,   de feminiza&ccedil;&atilde;o do magist&eacute;rio, de fal&ecirc;ncia da   condi&ccedil;&atilde;o do adulto como algu&eacute;m capaz de guiar   -o jovem- a um lugar seguro. H&aacute;, ainda, algum   lugar seguro?</p>     <p>   Para situar as alternativas que temos, traremos   algumas contribui&ccedil;&otilde;es do livro &quot;A inven&ccedil;&atilde;o    da sala   de aula&quot; (Dussel &amp; Caruso, 2003):</p>     <p>   A palavra autoridade vem do latim AUCTOR:   aquele que causa ou faz crescer -portanto, fundador,   autor. Vem tamb&eacute;m do franc&ecirc;s antigo, em sua raiz   AUGERE: incrementar. Nas duas acep&ccedil;&otilde;es existe   a id&eacute;ia de uma for&ccedil;a ou poder externo que provoca   alguma coisa, que institui, que determina um sentido de mudan&ccedil;a. Pensemos    nestas afirma&ccedil;&otilde;es: a autoridade   decreta, a autoridade ordena, a autoridade   penaliza, e a autoridade castiga (...) a autoridade   tamb&eacute;m implica a a&ccedil;&atilde;o de autorizar: dar permiss&atilde;o,   deixar falar, sancionar como v&aacute;lido e leg&iacute;timo.   (p. 227).</p>     <p>   &Eacute; poss&iacute;vel continuar a explorar o termo, pensar   em como podemos ser autores: de uma id&eacute;ia,   de uma m&uacute;sica, de uma hist&oacute;ria; ser autores de   um determinado modo de fazer algo. Ser autores   de nossa pr&oacute;pria hist&oacute;ria. Encontrar, na palavra   &quot;autoridade&quot; a &quot;idade&quot;. Pensar, que, para sermos   autores, &eacute; preciso ter uma certa idade. Estar no   tempo, al&eacute;m de estar em determinado lugar. Ter   idade, entre outras coisas para reconhecer que o   mundo existiu antes de n&oacute;s, que outros autores   criaram antes de n&oacute;s. Sup&otilde;e uma determinada   rela&ccedil;&atilde;o com os saberes anteriores.</p>     <p>   Para complicar, e enriquecer um pouco mais   a discuss&atilde;o, proponho retomar a classifica&ccedil;&atilde;o de   tipos de autoridade, segundo os tipos de controle   que exerce, de Weber (citado por Dussel &amp; Caruso,   2003, p.228). Ter&iacute;amos, portanto:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   &#8226; A autoridade tradicional, cujo fundamento &eacute; a   tradi&ccedil;&atilde;o e o costume.</p>     <p>   &#8226; A autoridade racional-legal, cujo fundamento   &eacute; a legalidade das normas e o direito dos indiv&iacute;duos   de ocuparem postos de comando em virtude   de seus m&eacute;ritos para ocup&aacute;-los (diploma,   concurso).</p>     <p>   &#8226; A autoridade carism&aacute;tica, que se baseia no   v&iacute;nculo entre o l&iacute;der e as massas.</p>     <p>   &Eacute; evidente que n&atilde;o h&aacute; &quot;tipos puros&quot; de autoridade.   Se pensarmos em n&oacute;s, professores, como   autoridades, veremos que esta se caracteriza por   possuir elementos dos tr&ecirc;s tipos descritos por Weber:   a tradicional, a racional-legal (que cresce nos   &uacute;ltimos anos com as exig&ecirc;ncias de diplomas, cursos,   concursos) e a carism&aacute;tica.</p>     <p>   Para Weber, a quest&atilde;o primordial da autoridade   &eacute; sua legitimidade: as pessoas obedecem voluntariamente   &agrave; autoridade porque acreditam que   &eacute; justa e as levar&aacute; a um lugar seguro. Quando a autoridade &eacute;    imposta por meio da for&ccedil;a, j&aacute; n&atilde;o se   trata de um gesto de autoridade e sim de uma falta   de autoridade, que fracassou na conquista do apoio   volunt&aacute;rio das pessoas. Esta mesma id&eacute;ia aparece   nos escritos sobre autoridade de Hannah Arendt   (1973). Diz, quando tenta diferenciar, poder, viol&ecirc;ncia,   for&ccedil;a, autoridade:</p>     <p>   Autoridade, que se refere ao mais ardiloso destes   fen&ocirc;menos, e que, portanto, &eacute; o termo mais maltratado,   pode ser aplicado a pessoas -existe algo assim   com a autoridade pessoal, como no caso das rela&ccedil;&otilde;es   entre pai e filho, entre professor e aluno- ou pode   ser aplicado a cargos, como no sentido romano nos   cargos hier&aacute;rquicos da igreja. Sua garantia &eacute; o reconhecimento   incondicional daqueles que devem   obedecer; n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria coa&ccedil;&atilde;o nem persuas&atilde;o.   (Arendt, 1973, ps.123-124).</p>     <p>   Aquele que &eacute; autor, que causa e faz crescer, incrementa,   que limita, que sanciona e legitima n&atilde;o   precisa nem da persuas&atilde;o nem da coa&ccedil;&atilde;o. Precisa   do reconhecimento da justi&ccedil;a do seu argumento e   sua legitimidade.</p>     <p>   S&atilde;o, portanto, elementos da autoridade:</p>     <p>   &#8226; O saber, vinculado &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>   &#8226; A experi&ecirc;ncia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   &#8226; O apoio legal, institucional.</p>     <p>   Estes s&atilde;o alguns par&acirc;metros para que possamos   pensar no poder democr&aacute;tico, na autoridade democr&aacute;tica,   que trabalha com as tens&otilde;es institucionais,   sem o uso da viol&ecirc;ncia ou o apagamento do   outro. Pensar sobre a diferencia&ccedil;&atilde;o entre autoridade   e viol&ecirc;ncia ou poder e viol&ecirc;ncia permitir&aacute; que   ocupemos nosso lugar, em uma educa&ccedil;&atilde;o comprometida   com os direitos humanos e a democracia.   O desafio de pensar uma autoridade democr&aacute;tica   implica em primeiro lugar poder conter estas duas   quest&otilde;es: construir uma certa ordem que esteja,   ao mesmo tempo, aberta e disposta &agrave; cr&iacute;tica e &aacute;   transforma&ccedil;&atilde;o. O desafio seria pensar em ordens   que contenham o paradoxo da autoridade e da   liberdade em uma equa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o subordina a   segunda nem desfa&ccedil;a a primeira (Dussel &amp; Caruso,   2003).</p>     <p>   <b><font size="3">Caminhos poss&iacute;veis para a realiza&ccedil;&atilde;o    dos   direitos humanos na educa&ccedil;&atilde;o</font></b></p>     <p>   Sem um certo ordenamento simb&oacute;lico e jur&iacute;dico   que nos &quot;nomeie&quot; e nos estruture em nossas rela&ccedil;&otilde;es   com os outros, n&atilde;o h&aacute; subjetividade, nem tampouco   temos a possibilidade de contestar e discutir essa   posi&ccedil;&atilde;o. (Dussel &amp; Caruso, 2003, p. 233).</p>     <p>   H&aacute; um n&uacute;mero consider&aacute;vel de experi&ecirc;ncias em   educa&ccedil;&atilde;o em direitos humanos em desenvolvimento   por uma s&eacute;rie de atores sociais: ONGs, setores   governamentais, escolas. A primeira constata&ccedil;&atilde;o a   ser feita &eacute; a de que a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; um direito humano   (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas &#91;ONU&#93;, 1948)   ONU, ). &Eacute; um direito humano e um dos direitos   humanos que serve como suporte e base para a   realiza&ccedil;&atilde;o de uma outra s&eacute;rie de direitos. Desta   forma n&atilde;o cabe falar em &quot;educa&ccedil;&atilde;o para os direitos   humanos&quot; e sim em &quot;educa&ccedil;&atilde;o em direitos humanos&quot;.   N&atilde;o se trata de ensinar um conte&uacute;do que   ser&aacute; usado em algum futuro prov&aacute;vel e sim fazer   com que as atitudes cotidianas reflitam a pr&aacute;tica   do respeito aos direitos humanos.</p>     <p>   &Eacute; um dos direitos humanos fundamentais para a   realiza&ccedil;&atilde;o de uma s&eacute;rie de outros direitos humanos.   Apenas as pr&aacute;ticas educativas das escolas podem   realizar de forma intensa o direito humano que   nos diz que toda pessoa tem o direito de participar   livremente da vida cultural da comunidade, de fruir   as artes e de participar do progresso cient&iacute;fico e de   seus benef&iacute;cios Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos   Humanos, artigo 27). Este &eacute; o objetivo central da   escola, possibilitar o acesso aos bens cient&iacute;ficos e   culturais produzidos pela humanidade. Da mesma   forma, &eacute; nestas pr&aacute;ticas que conquistamos o   exerc&iacute;cio da liberdade de express&atilde;o, do acesso &agrave;   informa&ccedil;&atilde;o que possibilite o usufruto dos direitos   civis e pol&iacute;ticos, dos direitos sociais e econ&ocirc;micos.   Lembrando, sempre, que cada um destes direitos   implica em seu dever correlato posto que o direito   &eacute; necessariamente universal e rec&iacute;proco.</p>     <p>   As experi&ecirc;ncias de educa&ccedil;&atilde;o em DH s&atilde;o diversas.   Tratam do acesso &agrave; justi&ccedil;a, da redu&ccedil;&atilde;o da   viol&ecirc;ncia e atendimento a v&iacute;timas, da luta contra   a discrimina&ccedil;&atilde;o por idade, sexo, op&ccedil;&atilde;o sexual, origem    regional, ra&ccedil;a. Desenvolvem projetos sobre   sa&uacute;de, trabalho e consumo, meio ambiente, de luta   pela realiza&ccedil;&atilde;o dos direitos econ&ocirc;micos e sociais.   Estes projetos refletem a multidimensionalidade   dos direitos humanos. Os direitos humanos s&atilde;o um   conjunto de direitos, estreitamente relacionados   entre si - indivis&iacute;veis- o que n&atilde;o quer dizer que   mantenham, entre si, uma rela&ccedil;&atilde;o isenta de conflitos.   S&atilde;o os direitos civis e pol&iacute;ticos -os direitos   da liberdade de express&atilde;o, reuni&atilde;o, associa&ccedil;&atilde;o,   de cren&ccedil;a e religi&atilde;o, de ir e vir, de escolher seus   representantes, de n&atilde;o ser torturado, de ter um   julgamento justo (Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos   Humanos, artigos 11, 12, 13, 18, 19, 20). S&atilde;o   os direitos econ&ocirc;micos e sociais, da igualdade, de   um trabalho (Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos   Humanos, artigos 22, 23, 24, 25) e vida digna, de   sa&uacute;de, previd&ecirc;ncia social, moradia e educa&ccedil;&atilde;o.   S&atilde;o os direitos culturais e ambientais, os direitos   da fraternidade, o direito ao desenvolvimento, &agrave;   paz. S&atilde;o direitos que dependem uns dos outros   para serem realizados: como poderemos assegurar   o direito de todos &agrave; vida, &agrave; liberdade e &agrave; seguran&ccedil;a   pessoal em uma sociedade que n&atilde;o respeita o direito   de todos a um padr&atilde;o de vida capaz de assegurar   a si e a sua fam&iacute;lia sa&uacute;de e bem-estar? (Declara&ccedil;&atilde;o   Universal dos Direitos Humanos. Artigos 3 e 25,   respectivamente ).</p>     <p>   H&aacute; experi&ecirc;ncias de educa&ccedil;&atilde;o em DH nas escolas,   em diferentes n&iacute;veis do ensino fundamental e   m&eacute;dio. Priorizam, em alguns casos, a inser&ccedil;&atilde;o da   tem&aacute;tica nos conte&uacute;dos das &aacute;reas e, em outros, a   transforma&ccedil;&atilde;o da gest&atilde;o escolar, a constru&ccedil;&atilde;o    de   uma gest&atilde;o democr&aacute;tica. Sustentamos que o relato   da interven&ccedil;&atilde;o no projeto Cultura de Paz nas   escolas &eacute; um exemplo que ilustra a necessidade de   uma interven&ccedil;&atilde;o no cotidiano escolar.</p>     <p>   Trata-se do desafio de transportar o conte&uacute;do   das declara&ccedil;&otilde;es contidas nos documentos escritos   &agrave; vida das pessoas, alunos e professores, professores   e comunidade. Como, por&eacute;m, desenvolver um   trabalho desta natureza, contrariando aspectos   culturais que parecem extremamente persistentes,   quando contamos com escolas que se encontram   em posi&ccedil;&atilde;o de grande fragilidade, quando   h&aacute; aspectos estruturais e conjunturais t&atilde;o negativos   para a realiza&ccedil;&atilde;o plena e universal destes direitos?</p>     <p>   O projeto de interven&ccedil;&atilde;o citado explicitou   em seu t&iacute;tulo um termo: &quot;paz&quot;. Para n&atilde;o correr o   risco de ser mais um &quot;discurso bonito&quot; e in&oacute;cuo,   focalizou as situa&ccedil;&otilde;es vistas como violentas pelos   atores das escolas. Foi um projeto de resist&ecirc;ncia a   um certo estado das coisas, um projeto que se op&ocirc;s   &agrave; id&eacute;ia da viol&ecirc;ncia como inevit&aacute;vel. Por&eacute;m,    qual   &eacute; o significado do direito &agrave; paz?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>   Tratou-se de lidar com os conflitos. Significou,   portanto, alguns reconhecimentos essenciais:</p>     <p>   &#8226; O reconhecimento do conflito.</p>     <p>   &#8226; O reconhecimento do outro.</p>     <p>   &#8226; O reconhecimento da possibilidade de agir,   de fazer, de dialogar com este outro ou com o   reconhecimento de que podemos encontrar   aliados que nos ajudem a resolver o conflito.</p>     <p>   Tr&ecirc;s momentos, portanto, essenciais, nesta primeira   e simples proposta de compreender o significado   que, neste projeto, teve o termo &quot;paz&quot;: os conflitos   existem, fazem parte da vida em sociedade;   os outros n&atilde;o s&atilde;o o nosso inferno; somos potentes,   podemos resolver estes conflitos. Coube, portanto,   a partir desta defini&ccedil;&atilde;o simples e inicial, perguntar:   quais s&atilde;o estes conflitos, quais s&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es   de poder envolvidas, quem s&atilde;o estes outros, qual   &eacute; a possibilidade de agirmos e com quem? O que &eacute;   poss&iacute;vel fazer? Contrapondo-se ponto a ponto   -sombra que &eacute;- a esta defini&ccedil;&atilde;o, podemos pensar   que a viol&ecirc;ncia expressa a exist&ecirc;ncia de conflitos,   por&eacute;m &eacute; uma tentativa de elimina&ccedil;&atilde;o do conflito   eliminando o outro como sujeito (Schilling, 2004,   2005).</p>     <p>   Resumindo, a concep&ccedil;&atilde;o de &quot;paz&quot; do projeto,   n&atilde;o foi sin&ocirc;nimo de supress&atilde;o de conflitos. Foi,   ao contr&aacute;rio, a de mostrar a possibilidade de lidar   com eles, de forma a abrir as vis&otilde;es e as escolas   para um mundo maior, conseguir encontrar formas   de superar o silenciamento, o isolamento, o   abandono, a impossibilidade de ocupar um lugar   na institui&ccedil;&atilde;o. O projeto trabalhou o tempo todo   em torno do eixo de &quot;colocar em contato, conectar&quot;.   Partiu do pressuposto de que era necess&aacute;rio   escolher uma a&ccedil;&atilde;o inicial, come&ccedil;ar a fazer, sem se preocupar    com o tamanho ou dimens&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o.   Parte do pressuposto de que o trabalho de pot&ecirc;ncia   come&ccedil;a dentro da escola, depende da qualidade   da rela&ccedil;&atilde;o do coletivo da escola. &Eacute; de dentro que   se transforma uma institui&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m de conectar   internamente, houve preocupa&ccedil;&atilde;o em conectar externamente.   Enfrentou o desafio de construir coletivamente   um lugar que pudesse orgulhar a todos   que o freq&uuml;entam, que pudesse ser apresentado   como exemplo, por opor, em seu dia-a-dia, a que   gente seja tratada como coisa. Lidou, desta forma,   com a id&eacute;ia de autoridade (autor): autoria de projetos,   autoria de a&ccedil;&otilde;es, recupera&ccedil;&atilde;o de saberes e   experi&ecirc;ncias.</p>     <p>   Este pode ser um exemplo de uma a&ccedil;&atilde;o de direitos   humanos nas escolas. Simples e complexa,   girou em torno de uma determinada compreens&atilde;o   do lugar da escola, da complexidade das rela&ccedil;&otilde;es   da institui&ccedil;&atilde;o escolar, verificando seus limites e   possibilidades de atua&ccedil;&atilde;o. Para tanto, mais do que   apresentar a informa&ccedil;&atilde;o sobre os direitos (e deveres)   tentou-se uma transforma&ccedil;&atilde;o do cotidiano que   permitisse que estes come&ccedil;assem a acontecer. Este   movimento teve como ponto central a discuss&atilde;o   sobre a autoridade na escola, a possibilidade de   pensar -e ocupar- este lugar dentro de uma perspectiva   democr&aacute;tica e de direitos humanos.</p>   <hr size="1">     <p><sup><a href="#s1" name="1">1</a></sup> Projeto Cultura de Paz nas Escolas. SEE- FDE / Comunidade Presente   - PREAL. Este projeto foi coordenado -brilhantemente-,   pelas professoras Jurema Reis Corr&ecirc;a Panza e Maria L&uacute;cia Viera   Libois. Contou com a participa&ccedil;&atilde;o de Uyara Schimittd, Adriana   Gomes Mendon&ccedil;a, Dirce Maria Silva Banti e Paula Guimar&atilde;es   Marques de Souza. Participaram deste projeto piloto tr&ecirc;s escolas   da rede estadual de ensino. 2004-2005.</p>     <p><sup><a href="#s2" name="2">2</a></sup> &quot;Resumindo: em termos de pol&iacute;tica, n&atilde;o basta dizer que    viol&ecirc;ncia   e poder n&atilde;o s&atilde;o a mesma coisa. Poder e viol&ecirc;ncia se op&otilde;em;    onde   um deles domina totalmente o outro est&aacute; ausente. A viol&ecirc;ncia   aparece onde o poder est&aacute; em perigo, mas se a permitem seguir   seus pr&oacute;prios caminhos, resulta no desaparecimento do poder.   Isto implica em n&atilde;o ser correto pensar no oposto da viol&ecirc;ncia   como sendo a n&atilde;o viol&ecirc;ncia; falar em poder n&atilde;o violento    &eacute; uma   redund&acirc;ncia. A viol&ecirc;ncia pode destruir o poder, mas &eacute; totalmente   incapaz de cri&aacute;-lo&quot; (Arendt, 1973, p. 132).</p> <hr size="1">     <p><font size="3"><b>Referencias</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>   Apple, M. (1989). Educa&ccedil;&atilde;o e Poder. Porto Alegre:   Artes M&eacute;dicas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S1657-9267200800030000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Arendt, H. (1973). Crises da Rep&uacute;blica. S&atilde;o Paulo: Editora   Perspectiva.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S1657-9267200800030000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Dussel, I. &amp; Caruso, M. (2003). A inven&ccedil;&atilde;o da sala de   aula. Uma genealogia das formas de ensinar. S&atilde;o   Paulo: Moderna.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S1657-9267200800030000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. (1948). Declara&ccedil;&atilde;o   Universal dos Direitos Humanos. Recuperado em   11 de dezembro, 2007, de <a href="http://www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm" target="blank">http://www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S1657-9267200800030000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Rede de Observat&oacute;rios de Direitos Humanos. (2002).   Relat&oacute;rio de Cidadania II. Os jovens e a educa&ccedil;&atilde;o.   S&atilde;o Paulo: Instituto Sou da Paz, NEV/USP, PNUD,   Secretaria Nacional dos Direitos Humanos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S1657-9267200800030000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Schilling, F. (1999). O Estado do Mal estar: corrup&ccedil;&atilde;o   e viol&ecirc;ncia. S&atilde;o Paulo em Perspectiva. Revista da   Funda&ccedil;&atilde;o SEADE, 13, 47-55.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S1657-9267200800030000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Schilling, F. (2004). Sociedade da inseguran&ccedil;a e viol&ecirc;ncia   na escola. S&atilde;o Paulo: Editora Moderna.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S1657-9267200800030000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Schilling, F (Org.). (2005). Direitos Humanos e Educa&ccedil;&atilde;o.   Outras palavras, outras pr&aacute;ticas. S&atilde;o Paulo:   Editora Cortez.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S1657-9267200800030000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Sposito, M.P. (2003). Os jovens no Brasil. Desigualdades   multiplicadas e novas demandas pol&iacute;ticas. S&atilde;o Paulo:   A&ccedil;&atilde;o Educativa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000101&pid=S1657-9267200800030000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Zaluar, A. (1994). Condom&iacute;nio do diabo. Rio de Janeiro:   UFRJ Editora/ Revan.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S1657-9267200800030000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>   Zaluar, A. (1996). A Autoridade, o chefe e o bandido.   Educa&ccedil;&atilde;o e sociedade, 53, 694-714.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S1657-9267200800030000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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