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<journal-title><![CDATA[Antipoda. Revista de Antropología y Arqueología]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Departamento de Antropología, Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de los Andes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O PARAÍSO AMEAÇADO: SABEDORIA YANOMAMI VERSUS INSENSATEZ PREDATÓRIA]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The Upper Orinoco region incensed many a European imagination, including Columbus&#39; who bewildered by the sight of its majestic mouth took the Orinoco as one of the rivers of the Earthly Paradise. It is, in fact, yanomami country which straddles the Brazil-Venezuela border. It displays both the grandiosity of the Amazon and the wise use the Indians make of it. By focusing on the networks of trails opened up in the immense forest by unbroken generations, I want to emphatically deny that the Amazon is a "demographic void," thus frmly belying the insidious fallacy that the emptiness of Amazonia places a threat to national security, a danger that should be averted with intensive colonization and economic projects. This recurrent fallacy persistently disqualifes the obvious and important presence of indigenous peoples.]]></p></abstract>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Yanomami Country]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[   <font face="verdana" size="2">      <p align="center" ><font face="verdana" size="4"><b>O PARA&Iacute;SO AMEA&Ccedil;ADO     <br> </b>SABEDORIA YANOMAMI VERSUS INSENSATEZ PREDAT&Oacute;RIA</font></p>      <p><b>Alcida Rita Ramos<sup>*</sup></b></p>      <p><sup>*</sup>Universidad de Bras&iacute;lia. Correo electr&oacute;nico: <a href="mailto:alcida.ramos@uol.com.br">alcida.ramos@uol.com.br</a></p>    <hr size="1">                             <p><b></u>RESUMO</b></p>      <p>A regi&atilde;o do Alto Orinoco alimentou a imagina&ccedil;&atilde;o de muitos navegadores, inclusive    a de Crist&oacute;v&atilde;o Colombo que, ao ver t&atilde;o majestosa foz, tomou o Orinoco como um    dos rios do Para&iacute;so Terrestre. Trata-se do territ&oacute;rio yanomami que abra&ccedil;a a    fronteira entre Brasil e Venezuela e exibe toda a pujan&ccedil;a amaz&ocirc;nica e o s&aacute;bio    uso que os ind&iacute;genas fazem dela. Ao tomar como foco a rede de trilhas que cada    aldeia yanomami vem tecendo na foresta ao longo de gera&ccedil;&otilde;es, o que se pretende    reafirmar enfaticamente que nada h&aacute; de &quot;vazio demogr&aacute;fco&quot; na vastid&atilde;o amaz&ocirc;nica,    desmentindo de forma categ&oacute;rica a difundida fal&aacute;cia de que os vazios amaz&ocirc;nicos,    sendo uma amea&ccedil;a &agrave; soberania nacional, devem ser preenchidos com projetos de    coloniza&ccedil;&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o comercial de seus recursos, desqualificando assim a  evidente e importante presen&ccedil;a ind&iacute;gena.</p>       <p><b>PALABRAS CLAVE</b>    <br> Territ&oacute;rio yanomami</p>  <hr size="1">      <p><b>ABSTRACT</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>The Upper Orinoco region incensed many a European imagination, including    Columbus&#39; who bewildered by the sight of its majestic mouth took the Orinoco as    one of the rivers of the Earthly Paradise. It is, in fact, yanomami country    which straddles the Brazil-Venezuela border. It displays both the grandiosity of    the Amazon and the wise use the Indians make of it. By focusing on the networks    of trails opened up in the immense forest by unbroken generations, I want to    emphatically deny that the Amazon is a &quot;demographic void,&quot; thus frmly belying    the insidious fallacy that the emptiness of Amazonia places a threat to national    security, a danger that should be averted with intensive colonization and    economic projects. This recurrent fallacy persistently disqualifes the obvious    and important presence of indigenous peoples.</p>        <p><b>KEY WORDS</b><b>    <br> </b>Yanomami Country</p>     <p>FECHA DE RECEPCI&Oacute;N: AGOSTO DE 2008 / FECHA DE ACEPTACI&Oacute;N: SEPTIEMBRE DE 2008</p>      <hr size="1">      <p><i>Se ningu&eacute;m viajasse, o Brasil n&atilde;o existir&iacute;a</i>    <br> Tom Jobim</p>         <p><b>A IMAGINA&iacute;J&Aacute;O DE COLOMBO</b></p>       <p>Durante sua terceira viagem ao Novo Mundo e at&eacute; a hora da morte, Crist&oacute;v&atilde;o Colombo estava certo de haver  encontrado o para&iacute;so terrestre. Convenceu-se disso quando viu a foz de um grande  rio, majestoso, amaz&ocirc;nico. Era o Orenoco. A impress&atilde;o foi t&atilde;o forte que s&oacute; o  apelo ao divino p&ocirc;de satisfazer os sentidos do comandante do mar oceano. Tamanha  grandiosidade s&oacute; podia ser coisa de Para&iacute;so; aquele portento l&iacute;quido, certamente,  era um dos quatro rios do &eacute;den. Entre a l&oacute;gica cient&iacute;fica e a m&iacute;stica crist&atilde;,  Colombo oscilou entre o poder divino e a avassaladora constata&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica de  que ali, na sua frente, estava a ponta de todo um continente desconhecido, pondo  em cheque o dogma crist&atilde;o sobre astronomia e a confgura&ccedil;&atilde;o da terra. Assim se  expressou o at&ocirc;nito navegador:</p>  <ul>    <p>Grandes indi&ccedil;ios son estos del Para&iacute;so Terrenal, porqu&#39;el sitio es conforme a la    opini&oacute;n d&#39;estos sanctos e sacros the&oacute;logos. Y asimismo las se&ntilde;ales son muy    conformes, que yo jam&aacute;s le&iacute; ni o&iacute; que tanta cantidad de agua dul&ccedil;e fuese as&iacute;    adentro e vezina con la salada; y en ello ayuda asimismo la suav&iacute;sima    temperan&ccedil;ia. Y si de all&iacute; del Para&iacute;so no sale, pare&ccedil;e a&uacute;n mayor maravilla,    porque no creo que se sepa en el mundo de r&iacute;o tan grande y tan fondo. &#40;Col&oacute;n    1984: 216&#41;.</p>    </ul>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao fm e ao cabo, ele insistiu na primeira suposi&ccedil;&atilde;o que acabou se tornando uma    certeza: &quot;Mas estou muito mais convencido em minha mente que l&aacute; onde eu disse &eacute;    o para&iacute;so terrestre&quot; &#40;<i>apud </i>Greenblatt 1991: 79&#41;. Seu arrebatamento    aumentou ainda mais quando percebeu sinais da presen&ccedil;a faustosa   de ouro naquelas terras na forma de adere&ccedil;os trazidos pelos nativos locais. Na    leitura de Kirkpatrick Sale sobre os argumentos de Colombo, esses nativos    &quot;tinham bastante ouro, exatamente como dizia a B&iacute;blia que ele seria encontrado    na terra do primeiro rio que escoa do &eacute;den; e eles viviam logo acima do equador,    onde as mais altas autoridades localizavam o para&iacute;so; e chamavam sua terra    Paria, uma forma evidente de <i>Para&iacute;so</i>&quot; &#40;Sale 1990: 175&#41;.</p>        <p>Se n&atilde;o chega a corresponder &agrave;s fantasias ed&ecirc;nicas de Colombo, o rio Orenoco    merece seu lugar na hist&oacute;ria por v&aacute;rias raz&otilde;es, dentre as quais o privil&eacute;gio de    abrigar um dos povos ind&iacute;genas mais conhecidos da atualidade. No alto de suas    cabeceiras, metade dos yanomami espalha-se por uma infinidade de igarap&eacute;s em    solo venezuelano e que n&atilde;o s&atilde;o tamb&eacute;m brasileiros porque a barreira do Maci&ccedil;o    das Guianas impede que corram para o sul. Mas, do lado de c&aacute; desse magn&iacute;fico    divisor de &aacute;guas, fonte de inspira&ccedil;&atilde;o para outras fantasias, como as de Conan    Doyle sobre um delirante mundo perdido &#40;<i>Lost World</i>, originalmente    publicado em 1912&#41;, vive a outra metade dos yanomami. Ao todo s&atilde;o cerca de 25    mil. No Brasil somam aproximadamente 12 mil que repartem com os 360 yekuana de    l&iacute;ngua caribe &#40;Andrade 2007&#41; os cerca de nove milh&otilde;es e meio de hectares que    hoje comp&otilde;em a terra ind&iacute;gena yanomami, demarcada em 1991 e homologada no ano    seguinte. Os yanomami falam pelo menos quatro idiomas distintos, mas intimamente    relacionados; plantam suas ro&ccedil;as, exploram os recursos naturais de uma floresta    sempre pr&oacute;diga, desde que respeitada em sua cad&ecirc;ncia e ess&ecirc;ncia, e passam &agrave;s    novas gera&ccedil;&otilde;es um estilo cultural que lhes vem garantindo n&atilde;o apenas um n&iacute;vel de    vida satisfat&oacute;rio, mas tamb&eacute;m, at&eacute; tempos relativamente recentes, a not&aacute;vel  capacidade de expandir seu territ&oacute;rio.</p>      <p><b>POR TRAS DAS APARENCIAS</b></p>      <p>Ao olho desavisado, a paisagem do Maci&ccedil;o das Guianas, englobando o sul da    Venezuela e o norte de Roraima e nordeste do Amazonas no Brasil, parece    despovoada, imanente e s&oacute; para si, mon&oacute;tona na eterna repeti&ccedil;&atilde;o de um semfim de    &aacute;rvores que se acotovelam por um lugar ao sol. Mas n&atilde;o; ela n&atilde;o &eacute; nem um vazio    humano nem um manto &uacute;nico e inteiri&ccedil;o tecido em verde. H&aacute; que aprender a ver a    Amaz&ocirc;nia. Na sua intimidade, a mata revela-se diferenciada, habitada, pululando    de vida vegetal e animal, transformada pela a&ccedil;&atilde;o milenar de muitas gera&ccedil;&otilde;es de    homens e mulheres.</p>        <p>Tomemos, por exemplo, o padr&atilde;o de cultivo de povos como os yanomami. Cada    fam&iacute;lia tem sua ro&ccedil;a, algo semelhante em tamanho a um pequeno campo de futebol.    Quando essa ro&ccedil;a est&aacute; no auge da produ&ccedil;&atilde;o, j&aacute; uma nova foi derrubada, ao mesmo    tempo em que a outra, velha e tomada pelo mato, ainda fornece banana, pupunha e    alguns tub&eacute;rculos. Nesse ecossistema, a baix&iacute;ssima fertilidade do solo &#40;como    constatou o levantamento feito pelo projeto Radambrasil nos anos 1970. Ver Albert e Zacquini 1979: 133-135&#41; permite no    m&aacute;ximo uns tr&ecirc;s anos de produtividade alta. Ro&ccedil;as velhas n&atilde;o s&atilde;o replantadas de    imediato. O mato invade, tocos de grandes &aacute;rvores come&ccedil;am a brotar, a foresta se    recomp&otilde;e e, vinte ou trinta anos depois, parece que aquela ro&ccedil;a nunca existiu.    L&aacute;, num rinc&atilde;o isolado da fronteira, no fnal dos anos 196 0, vivi meses a fo    numa aldeia sanum&aacute; &#40;yanomami setentrionais&#41; cercada de ro&ccedil;as por todos os lados    &#40;Ramos 1990&#41;. Menos de trinta anos depois, desnorteada, voltei ao mesmo lugar    onde meus anftri&otilde;es me mostraram em que se transformara aquela aldeia e seu    entorno: mata fechada sem vest&iacute;gio das casas e apenas t&ecirc;nues ind&iacute;cios de que ali    houve algum dia uma produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola capaz de alimentar uma centena de pessoas.</p>        <p>Pensemos que cada aldeia tem em m&eacute;dia umas vinte fam&iacute;lias, todas abrindo ro&ccedil;as    num rod&iacute;zio de dois ou tr&ecirc;s anos e que, aproximadamente, tr&ecirc;s mil fam&iacute;lias    yanomami fazem o mesmo continuamente s&oacute; em territ&oacute;rio brasileiro. Multiplicando    esses n&uacute;meros pela imensid&atilde;o de outras fam&iacute;lias de outros povos ind&iacute;genas pela    Amaz&ocirc;nia afora &#40;a atual popula&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena da Amaz&ocirc;nia est&aacute; estimada em 600 mil    pessoas, certamente, um n&uacute;mero muito menor do que em s&eacute;culos passados. Ver ISA    2006: 11&#41;, onde o grau de fertilidade do solo varia muito, mas raramente torna    exequ&iacute;veis assentamentos sedent&aacute;rios e permanentes, &eacute; dif&iacute;cil imaginar uma    foresta ainda virgem, depois de s&eacute;culos de continuado cultivo, ca&ccedil;a e coleta. O    que o nosso olhar habitualmente impaciente e deseducado registra como algo    eternamente est&aacute;tico &eacute;, de fato, o resultado do fuxo sutil de min&uacute;sculos    desmatamentos pontilhando a paisagem e do refuxo de rejuvenescimento da mata    gra&ccedil;as &agrave; maneira parcimoniosa com que os povos ind&iacute;genas imp&otilde;em suas atividades    econ&ocirc;micas ao meio ambiente. Do fundo de sua sabedoria, os yanomami    desenvolveram um sistema social, pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico que privilegia a dispers&atilde;o    territorial, cientes e de que a excessiva concentra&ccedil;&atilde;o demogr&aacute;fca leva,    inevitavelmente, ao esgotamento dos recursos naturais. Sua terra &eacute; grande e h&aacute;    muitas boas raz&otilde;es para ser.</p>        <p>De fato, o territ&oacute;rio yanomami &eacute; um exemplo de manejo bem-sucedido de recursos    naturais not&oacute;rios por sua fragilidade, que &eacute; traduzida na quantidade altamente    rarefeita de esp&eacute;cies de fauna e flora. Respondendo a essa dispers&atilde;o natural, as    comunidades yanomami s&atilde;o pequenas &#40;raramente passam de 100 pessoas&#41;,    distanciadas entre si &#40;de umas poucas horas a dias de caminhada&#41; e ligadas por    uma intricada rede de trilhas.</p>      <p>Finas nervuras de terra, ora tortas, ora retas, sempre resolutas, subindo e    descendo encostas, detendo-se em igarap&eacute;s para ressurgir do outro lado,    confundindo-se com ra&iacute;zes que serpenteiam pelo ch&atilde;o da mata, com troncos de    &aacute;rvores ca&iacute;dos sobre rios, essas s&atilde;o as trilhas yanomami. Se ao r&eacute;s-do-ch&atilde;o elas    se deixam ver, embora muitas vezes driblando o olho desatento ou inexperiente,    do alto de um avi&atilde;o elas s&atilde;o perfeitamente invis&iacute;veis, meticulosamente    encobertas pela copa cerrada das &aacute;rvores. Por essas trilhas, o caminhante pode    percorrer quil&ocirc;metros, atravessar estados e at&eacute; pa&iacute;ses em minutos, horas, dias    ou semanas de viagem, seja para chegar a alguma ro&ccedil;a, algum local de ca&ccedil;a, ou    seja para chegar a uma aldeia vizinha ou distante.</p>        <p>As trilhas yanomami s&atilde;o o testemunho mais pedestre, por assim dizer, das    movimenta&ccedil;&otilde;es desse povo que parece ter sido feito para andar, locomoverse,    espraiar-se. Abertas a fac&atilde;o, acentuadas e conservadas pela batida intermitente    de m&uacute;ltiplas passadas, as trilhas nascem, vivem e morrem ao sabor do interesse    das pessoas em manter seus v&iacute;nculos com este ou aquele lugar. Se, por um passe    de m&aacute;gica —ou extraordin&aacute;rio avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico— todas as trilhas j&aacute; abertas em    terras yanomami durante os s&eacute;culos de sua ocupa&ccedil;&atilde;o viessem &agrave; tona e novamente se    tornassem vis&iacute;veis, ter&iacute;amos um mapa vi&aacute;rio dos mais densos e intricados,    mostrando um retrato fidedigno de todas as rotas ligando todas as ro&ccedil;as, todas    as aldeias e todos os acampamentos sazonais, passados e presentes, numa    estonteante profus&atilde;o de ind&iacute;cios gr&aacute;ficos da efici&ecirc;ncia talvez milenar com que    os Yanomami v&ecirc;m ocupando a parte ocidental da regi&atilde;o das Guianas. Um tal mapa    hipot&eacute;tico derrubaria de um golpe os argumentos que muitas vezes surgem    contr&aacute;rios ao reconhecimento pelo estado brasileiro da terra ind&iacute;gena yanomami,    argumentos esses precariamente sustentados na debilidade de opini&otilde;es    impressionistas e m&iacute;opes para defender a fc&ccedil;&atilde;o dos vazios demogr&aacute;ficos que    condenariam a Amaz&ocirc;nia ao atraso e abandono. Dizem que &eacute; um desperd&iacute;cio &quot;dar&quot;    tanta terra a t&atilde;o poucos &iacute;ndios que, al&eacute;m do mais, n&atilde;o a ocupam toda, que n&atilde;o    sabem explorar os seus recursos naturais e que s&atilde;o at&eacute; respons&aacute;veis, mesmo    indiretamente, pela pen&uacute;ria de legi&otilde;es de brasileiros desvalidos e sem terra, e    que acabam por abrir um flanco &agrave; cobi&ccedil;a estrangeira. Em suma, est&aacute; a&iacute; exposta a    ep&iacute;tome da soberba &quot;civilizada&quot;: aquilo que o olho de branco urbano n&atilde;o v&ecirc;, n&atilde;o    existe.</p>        <p>Ali&aacute;s, abrindo um par&ecirc;ntese, a mesma arrog&acirc;ncia se fez sentir no caso que ficou    lamentavelmente conhecido como &quot;o massacre de Haximu&quot;, em 1993, quando o    assassinato por garimpeiros que ceifou 16 vidas yanomami foi questionado pela    aus&ecirc;ncia de cad&aacute;veres &#40;Albert 1996&#41;. Explicado <i>ad nauseam </i>por &iacute;ndios,    antrop&oacute;logos e at&eacute; mesmo agentes da Pol&iacute;cia Federal, o fato de que os yanomami    n&atilde;o deixam seus mortos jazendo pelo ch&atilde;o, mas, ao contr&aacute;rio, cremam-nos e    guardam as cinzas em cumprimento de um dever cultural, n&atilde;o parece ter tido    qualquer efeito nas mentes presumidamente cartesianas que insistem no &quot;n&atilde;o vejo,   <i>ergo</i>, n&atilde;o existe&quot; ou, mais &agrave; moda comezinha de S&atilde;o Tom&eacute;, no &quot;ver para    crer&quot;.</p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em outro registro, mas em conson&acirc;ncia com a tese dos vazios demogr&aacute;ficos, &eacute; a    tecla batida intermitentemente, como uma goteira cr&ocirc;nica, principalmente por    militares, sobre uma outra fal&aacute;cia, segundo a qual terra ind&iacute;gena cont&iacute;nua em    zona de fronteira amea&ccedil;a a soberania nacional, pois, numa l&oacute;gica weberiana    vulgar, territ&oacute;rio quer dizer estado independente, portanto, t&atilde;o logo um povo    ind&iacute;gena tenha seu pr&oacute;prio territ&oacute;rio, especialmente na faixa de fronteira,    automaticamente desejar&aacute; tornar-se uma na&ccedil;&atilde;o soberana e pr&oacute;pria. Porque isso    ocorreria apenas na fronteira e porque agora e nunca no passado &#40;quando os povos    ind&iacute;genas eram considerados verdadeiras &quot;muralhas dos ser-t&otilde;es&quot; &#91;ver Farage    1991&#93; e como o pr&oacute;prio presidente da rep&uacute;blica, no dia 8 de maio de 2008,    declarou p&uacute;blica e enfaticamente que ainda o s&atilde;o&#41;, esses proponentes da amea&ccedil;a    ind&iacute;gena nunca explicam<sup><a name="s1" href="#1">1</a></sup>. Tamb&eacute;m n&atilde;o parecem    interessados em saber que n&atilde;o h&aacute; casos conhecidos de povos ind&iacute;genas nas    Am&eacute;ricas que tenham reivindicado independ&ecirc;ncia estatal, nem que as sociedades    ind&iacute;genas brasileiras t&ecirc;m qualquer voca&ccedil;&atilde;o para isso &#40;Clastres 1978 ; Ramos    1996a&#41;.</p>        <p>Voltemos ao hipot&eacute;tico mapa vi&aacute;rio da terra ind&iacute;gena yanomami. Chegamos ao    s&eacute;culo XXI com a possibilidade de, ao menos em parte, tornar tecnol&oacute;gico o passe    de m&aacute;gica com o qual concebi, ainda em meados dos anos 1990, sobre a densa    cartografia yanomami. Novos instrumentos de pesquisa s&atilde;o agora capazes de    revelar em detalhe padr&otilde;es de utiliza&ccedil;&atilde;o dos recursos naturais e, at&eacute; certo    ponto, o que as marcas do tempo escondem do olho nu. Quando aliadas &agrave; meticulosa    pesquisa etnogr&aacute;fica, essas novas ferramentas contribuem significativamente para    ampliar a nossa compreens&atilde;o de uma determinada situa&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica. Refiro-me ao    trabalho, ao mesmo tempo minucioso e espetacular, de rastrear essas marcas por    meio de GPS e imagens de sat&eacute;lite de alta defini&ccedil;&atilde;o. Combinando alta tecnologia    e trabalho de campo in loco, o antrop&oacute;logo franc&ecirc;s Bruce Albert e o ge&oacute;grafo    tamb&eacute;m franc&ecirc;s Fran&ccedil;ois-Michel Le Tourneau rastrearam exaustivamente a regi&atilde;o do    Demini &#40;<i>Watorik&iuml; </i>&#41; no nordeste do estado do Amazonas. Demonstraram, por    exemplo, que as trilhas de ca&ccedil;a, pesca e coleta daquele grupo yanomami, ao    contr&aacute;rio do senso comum etnogr&aacute;fico que atribui aos povos ind&iacute;genas da Amaz&ocirc;nia    uma pr&aacute;tica de zoneamento em c&iacute;rculos conc&ecirc;ntricos, seguem um padr&atilde;o reticular    de caminhos que se bifurcam &#40;numa manifesta&ccedil;&atilde;o realista do imagin&aacute;rio borgesiano&#41;,    confirmando a minha percep&ccedil;&atilde;o adquirida no conv&iacute;vio prolongado de pesquisa de    campo com os sanum&aacute;, mesmo sem o aparato tecnol&oacute;gico dos pesquisadores franceses    &#40;Ramos 1990&#41;<sup><a name="s2" href="#2">2</a></sup>. As imagens de sat&eacute;lite daquela &aacute;rea    revelam tamb&eacute;m trilhas e ro&ccedil;as j&aacute; em desuso, trazendo &agrave; tona informa&ccedil;&otilde;es mais    precisas sobre a magnitude da cartografia cultural daquele subgrupo yanomami. Os    autores puderam, assim, detectar um modelo &quot;estruturado pelo conhecimento    coletivo e o uso de uma teia de caminhos &#40;principais e secund&aacute;rios&#41;    identificados na mata ligando s&iacute;tios importantes e reconhecidos por top&ocirc;nimos    pr&oacute;prios &#40;acampamentos de ca&ccedil;a e coleta, antigas habita&ccedil;&otilde;es e ro&ccedil;as, grupos de    &aacute;rvores frut&iacute;feras, tra&ccedil;os geogr&aacute;-fcos, e assim por diante&#41;&quot; &#40;Albert e Le    Tourneau 2007: 584&#41;. Esses caminhos que se entrecruzam, subdividem e bifurcam    refetem uma s&eacute;rie de atividades, ora individuais, ora coletivas, tra&ccedil;ando rotas    que chegam a cobrir quase vinte quil&ocirc;metros, se medidas em linha reta &#40;ibid,    589&#41;. Note-se que os autores se limitam &agrave;s atividades de ordem econ&ocirc;mica, n&atilde;o    explorando outras esferas da vida yanomami, como, por exemplo, visitas a outras    aldeias.</p>        <p>E assim chegamos um pouco mais perto de demonstrar aos recalcitrantes defensores    do dogma dos vazios demogr&aacute;ficos qu&atilde;o vazio &eacute; o conhecimento leigo sobre a    complexidade da vida ind&iacute;gena na Amaz&ocirc;nia.</p>        <p><b>YANOMAMI EM MOVIMIENTO</b></p>           <p>A partir do mapa que, em grande medida, ainda nos &eacute; invis&iacute;vel, mas n&atilde;o menos    real, tra&ccedil;ado no terreno das experi&ecirc;ncias hist&oacute;ricas e geogr&aacute;ficas dos yanomami,    &eacute; poss&iacute;vel delinear alguns movimentos de magnitudes e consequ&ecirc;ncias diversas.    Esses movimentos, embora tendo efeitos semelhantes por resultarem em    deslocamentos no espa&ccedil;o, t&ecirc;m distintas origens e motiva&ccedil;&otilde;es sociais e econ&ocirc;micas.    Alguns representam mudan&ccedil;as muito pequenas, outros podem ser chamados de    migra&ccedil;&otilde;es, enquanto ainda outros adv&ecirc;m de potentes press&otilde;es externas sobre a    vida normal das comunidades. Mas, antes de tudo, &eacute; preciso n&atilde;o confundir esses    movimentos espaciais com a fal&aacute;cia do nomadismo, t&atilde;o presente no imagin&aacute;rio    ocidental sobre o primitivo ex&oacute;tico. Essa fal&aacute;cia inquieta especialmente por seu    car&aacute;ter insidioso e persistente no vocabul&aacute;rio antropol&oacute;gico. Talvez origin&aacute;rio    do tempo em que as primeiras cidades-estados se escondiam atr&aacute;s de muralhas para    deixar de fora os &quot;b&aacute;rbaros n&ocirc;mades&quot;, esse conceito tem sido um dos baluartes    mais usados para marcar a diferen&ccedil;a entre civilizados e primitivos e refor&ccedil;ar o    j&aacute; s&oacute;lido valor que tem o sedentarismo no mundo ocidental. Podemos dizer, como Bourdieu &#40;1989: 16-58&#41; que o nomadismo &eacute; um    conceito que entrou de contrabando ou, nas palavras de Bourdieu, teve uma    &quot;introdu&ccedil;&atilde;o clandestina&quot; &#40;ibid, 33&#41; na linguagem e pensamento antropol&oacute;gicos e,    como uma erva daninha, &eacute; muito dif&iacute;cil de extirpar.</p>        <p>O senso comum tem, nos dicion&aacute;rios, o c&acirc;none da verdade e &eacute; a&iacute; que encontramos a    maior justifcativa para a persist&ecirc;ncia da fal&aacute;cia do nomadismo &#40;Ramos 1998&#41;. Por    exemplo, no Dicion&aacute;rio Aur&eacute;lio da l&iacute;ngua portuguesa lemos que, em primeiro    lugar, n&ocirc;made se refere a &quot;tribos ou povos errantes, sem habita&ccedil;&atilde;o fxa, que se    deslocam constantemente em busca de alimentos, pastagens, etc.&quot;. Vemos tamb&eacute;m    que n&ocirc;made &eacute; o &quot;indiv&iacute;duo que leva vida errante; vagabundo&quot;. Ora, como em nossos    meios urbanos vagabundo &eacute; aquele que n&atilde;o tem resid&ecirc;ncia fixa e quem n&atilde;o tem    resid&ecirc;ncia fixa, um domic&iacute;lio facilmente identifc&aacute;vel, est&aacute; sujeito a    penalidades legais, chega-se muito perto das &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias desse    capcioso silogismo: nomadismo beira &agrave; ilegalidade, como foi considerado no    passado long&iacute;nquo &#40;Amoroso 1992&#41; e nem t&atilde;o long&iacute;nquo assim &#40;Fisher 1995&#41;,    submetendo povos ind&iacute;genas a um tratamento abusivo e totalmente inapropriado.</p>        <p>Contra esse senso comum que toma qualquer tipo de mobilidade espacial dos &iacute;ndios    como sinal de nomadismo, &eacute; preciso deixar absolutamente claro que a descri&ccedil;&atilde;o a    seguir trata de um povo <i>m&oacute;vel</i>, mas n&atilde;o &quot;n&ocirc;made&quot;, como t&atilde;o veementemente    insistiu o ge&oacute;grafo William Smole em seu estudo sobre um subgrupo yanomami da    Venezuela: &quot;Os yanoama s&atilde;o um povo muito m&oacute;vel. No entanto, essa mobilidade n&atilde;o    deve ser equacionada com nomadismo. Os n&ocirc;mades n&atilde;o t&ecirc;m moradia fixa, enquanto    que cada &#91;aldeia&#93; yanoama tem uma &#91;casa comunal&#93; &agrave; qual retorna invariavelmente&quot;    &#40;Smole 1976: 80&#41;. Vejamos quais s&atilde;o os movimentos yanomami, dos menores aos    maiores.</p>        <p>Parte da sabedoria com que os yanomami manejam seu territ&oacute;rio refetese na    pr&aacute;tica de dois tipos de microdeslocamentos. Um &eacute; ditado pela necessidade de se    abrir novos ro&ccedil;ados a cada dois ou tr&ecirc;s anos e de buscar novos locais de ca&ccedil;a,    quando os animais escasseiam ou desaparecem das imedia&ccedil;&otilde;es das aldeias. Assim,    as comunidades se deslocam, em parte, &agrave; procura de novos s&iacute;tios onde a mata seja    mais prop&iacute;cia ao cultivo, &agrave; coleta e &agrave; ca&ccedil;a. Se uma comunidade permanece muito    tempo no mesmo lugar, come&ccedil;a a rarear a fonte de prote&iacute;na animal e a aumentar a    dist&acirc;ncia entre a aldeia e as ro&ccedil;as, at&eacute; chegar ao ponto em que &eacute; mais pr&aacute;tico e    sensato mudar a aldeia para mais perto das ro&ccedil;as novas. Esses deslocamentos    fazem-se normalmente num raio de cerca de tr&ecirc;s quil&ocirc;metros a cada cinco ou dez    anos. Para quem convive constantemente com os yanomami ou os visita a cada ano,    esses movimentos s&atilde;o quase impercept&iacute;veis, mas tornam-se bastante evidentes    quando retornamos depois de alguns anos de aus&ecirc;ncia.</p>        <p>O outro micromovimento &eacute; de prazo mais longo e pode advir do esgotamento    acumulado de uma determinada &aacute;rea. A atividade intensiva de ro&ccedil;as e de ca&ccedil;a pode    superar a capacidade de rejuvenescimento de uma microrregi&atilde;o, geralmente,    envolvendo mais de uma comunidade. De modo a contrabalan&ccedil;ar essa tend&ecirc;ncia, mais    ou menos a cada gera&ccedil;&atilde;o, mudam as aldeias para mais longe num raio de cerca de    dez a trinta quil&ocirc;metros &#40;Albert e Zacquini 1979&#41;.</p>        <p>Mas esse efeito espacial tamb&eacute;m ocorre por outras raz&otilde;es. A eclos&atilde;o de epidemias    ou a ocorr&ecirc;ncia de confitos entre comunidades pode provocar uma debandada. A    subsequente instala&ccedil;&atilde;o em novo local, geralmente longe do anterior, acaba    produzindo novos rearranjos geopol&iacute;ticos e sociais numa dada sub&aacute;rea. Isto tudo    est&aacute; intimamente ligado a uma das caracter&iacute;sticas mais marcantes da organiza&ccedil;&atilde;o    social e pol&iacute;tica dos yanomami, qual seja, o padr&atilde;o de segmenta&ccedil;&atilde;o das    comunidades, segundo o qual novos grupos locais podem surgir a cada duas ou tr&ecirc;s    gera&ccedil;&otilde;es. As rivalidades pol&iacute;ticas que fermentam no interior das comunidades    ocasionam cis&otilde;es peri&oacute;dicas. Convertem-se, desse modo, em instrumentos h&aacute;beis    para manter as aldeias dentro de limites demogr&aacute;ficos condizentes com a    capacidade econ&ocirc;mica dos recursos naturais.Os grupos dissidentes afastam-se e procuram novos locais onde possam residir e    exercer suas atividades econ&ocirc;micas de maneira eficiente. Por sua vez, os la&ccedil;os    de sangue e de casamento mant&ecirc;m vivo o interesse m&uacute;tuo entre os grupos que se    separam. Aliadas a princ&iacute;pio, essas comunidades, antes uma s&oacute;, v&atilde;o se afastando    com o tempo at&eacute; n&atilde;o terem entre si v&iacute;nculos maiores do que os que as ligam a    outras tantas. Por esse processo, conseguem dois resultados positivos: um &eacute; o de    evitar os efeitos delet&eacute;rios do crescimento exagerado que resulta da    concentra&ccedil;&atilde;o demogr&aacute;fica continuada, com muita gente explorando os mesmos    recursos ao mesmo tempo; o outro &eacute; o de preservar e at&eacute; aumentar a grande rede    de rela&ccedil;&otilde;es que cobre todo o territ&oacute;rio yanomami.</p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um terceiro processo de mobilidade, que podemos chamar de migrat&oacute;rio, est&aacute;    estreitamente relacionado aos dois primeiros em sua din&acirc;mica, mas tem    caracter&iacute;sticas e consequ&ecirc;ncias geopol&iacute;ticas diferentes. Foi o que permitiu a    expans&atilde;o territorial dos yanomami na regi&atilde;o guianense. &Eacute; um processo ainda pouco    conhecido, pois, na aus&ecirc;ncia de dados arqueol&oacute;gicos, nem os registros hist&oacute;ricos    nem os depoimentos dos pr&oacute;prios &iacute;ndios nos reportam a um passado suficientemente    distante para permitir a reconstru&ccedil;&atilde;o do in&iacute;cio da presen&ccedil;a yanomami em seu    atual territ&oacute;rio. O que temos &agrave; nossa disposi&ccedil;&atilde;o &eacute; pouco, mas j&aacute; d&aacute; uma ideia da    trajet&oacute;ria hist&oacute;rica desse povo nos &uacute;ltimos 200 anos. Al&eacute;m disso, onde existe um    vazio no registro hist&oacute;rico, certas t&eacute;cnicas lingu&iacute;sticas procuram preencher com    infer&ecirc;ncias retiradas do grau de semelhan&ccedil;a e diferen&ccedil;a entre as quatro l&iacute;nguas    conhecidas: yanomae, yanomamo, yanam e sanum&aacute;.</p>         <p><b>HIST&Oacute;RIA CALADA</b></p>        <p>Os membros da fam&iacute;lia lingu&iacute;stica yanomami j&aacute; vivem na regi&atilde;o do Maci&ccedil;o das    Guianas desde, pelo menos, o s&eacute;culo XVIII, data da primeira refer&ecirc;ncia escrita    da sua presen&ccedil;a por exploradores europeus &#40;Albert e Zacquini 1979&#41;. Mas, se    levarmos em conta os resultados da aplica&ccedil;&atilde;o da glotocronologia, t&eacute;cnica    lingu&iacute;stica que procura medir a dist&acirc;ncia entre as v&aacute;rias l&iacute;nguas faladas hoje,    temos cifras reveladoras. Por meio desse procedimento metodol&oacute;gico, o linguista    Ernesto Miggliazza &#40;1972&#41; afirma que a primeira l&iacute;ngua a se separar do idioma    yanomami original foi o sanum&aacute;, no s&eacute;culo XIII da era crist&atilde;. Isto significa que    seriam necess&aacute;rios, pelo menos, 700 anos para que todas as quatro l&iacute;nguas se    subdividissem e chegassem ao n&iacute;vel de diferencia&ccedil;&atilde;o atual. Com base nesses    c&aacute;lculos, o ge&oacute;grafo estadunidense William Smole &#40;1976&#41;, que desenvolveu    pesquisa de campo com os yanomami na Venezuela, conclui que o fato de os    falantes das quatro l&iacute;nguas viverem hoje relativamente pr&oacute;ximos uns dos outros    indica que seu territ&oacute;rio original deve ter sido muito maior do que &eacute; hoje. S&oacute;    assim podemos entender como uma primeira dispers&atilde;o geogr&aacute;fica resultou em    tamanhas diferen&ccedil;as lingu&iacute;sticas, pois se a proximidade tivesse sido sempre como    &eacute; agora, suas l&iacute;nguas n&atilde;o seriam t&atilde;o diferentes. Depois da expans&atilde;o m&aacute;xima,    teria havido uma contra&ccedil;&atilde;o territorial.</p>        <p>O registro lingu&iacute;stico &eacute; um dos poucos sinais que nos &eacute; legado pela hist&oacute;ria    remota dos yanomami. Por um lado, as condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas da Amaz&ocirc;nia s&atilde;o pouco    prop&iacute;cias a achados arqueol&oacute;gicos; o clima quente e &uacute;mido destr&oacute;i em pouco tempo    a maior parte dos materiais de origem org&acirc;nica, como casas, enfeites etc. Por    outro lado, um dos tra&ccedil;os mais distintivos dos yanomami &eacute; a crema&ccedil;&atilde;o dos mortos    e, na maioria dos subgrupos, a ingest&atilde;o ritual pelos parentes das cinzas dos    ossos carbonizados. N&atilde;o deixam, portanto, vest&iacute;gios de seus corpos e de muito    pouco de sua cultura, como machados de pedra ou fr&aacute;geis panelas de barro. Resta    a glotocronologia, os escritos de exploradores e a hist&oacute;ria oral dos pr&oacute;prios    yanomami.</p>        <p>Num cap&iacute;tulo mais recente dessa hist&oacute;ria, temos os relatos, por exemplo, dos    sanum&aacute;, o subgrupo mais setentrional, da chegada yanomami ao vale do rio Auaris    &#40;afuente do Parima que, por sua vez, desemboca no Uraricoera que mais abaixo se    transforma no Rio Branco&#41; em Roraima.</p>        <p>H&aacute; tr&ecirc;s ou quatro gera&ccedil;&otilde;es, os sanum&aacute; e seus atuais vizinhos, os yekuana,    combatiam-se dura mente pela ocupa&ccedil;&atilde;o de um territ&oacute;rio deixado semivazio pela    dizima&ccedil;&atilde;o de povos inteiros, principalmente, de origem caribe e aruaque. Um ap&oacute;s    outro, eles sucumbiram aos maus tratos e &agrave;s epidemias dos conquistadores brancos    no norte da Amaz&ocirc;nia e, em especial, aos excessos do <i>boom </i>da borracha no    s&eacute;culo XIX. Os sanum&aacute;, vindos do sudoeste, expandiam-se e entravam em terras    tradicionais yekuana, um dos pouqu&iacute;ssimos grupos que restaram daquele flagelo &#40;Arvelo-Jim&eacute;nez 1974 , Andrade 2007&#41;, a quem enfrentaram em sua marcha    rumo ao norte e leste. Depois de numerosas incurs&otilde;es dos sanum&aacute; contra aldeias    yekuana, estes decidiram contra-atacar a tiro de espingarda &#40;um legado dos    tempos da invas&atilde;o branca&#41; para acabar de uma vez com a guerra intertribal, no    in&iacute;cio do s&eacute;culo XX &#40;Ramos 1980&#41;. Cessaram ent&atilde;o os conflitos b&eacute;licos e, desde    ent&atilde;o, os dois grupos passaram a coexistir na mesma regi&atilde;o, mantendo rela&ccedil;&otilde;es    pac&iacute;ficas, mas tensas, num clima que lembra a inquieta paz da guerra fria.    Alguns intercasamentos selaram essa paz e hoje o alto Auaris &eacute; ocupado    majoritariamente pelos sanum&aacute; e por uma crescente popula&ccedil;&atilde;o yekuana.</p>        <p>Espraiados em leque, os sanum&aacute; acabaram por ocupar n&atilde;o apenas o vale do alto    Auaris, mas tamb&eacute;m outros rios, como o Merevari na Venezuela. Eles mesmos    apontam a regi&atilde;o do rio Ocamo, afluente do Orenoco, tamb&eacute;m na Venezuela, como o    local de onde come&ccedil;aram a sua longa e extensa migra&ccedil;&atilde;o rumo ao extremo norte do    Brasil e sul da Venezuela. Contam que fugiam de ataques de outros yanomami,    como, por exemplo, o que eles chamam de Samatali, membros do subgrupo yanomamo.    Nessa lenta fuga, conjuntos de comunidades detiveram-se em v&aacute;rios locais    sucessivos onde abriram ro&ccedil;as, tiveram filhos, subdividiram-se, formaram novas    alian&ccedil;as. Em duas gera&ccedil;&otilde;es, colonizaram praticamente toda a &aacute;rea que antes    pertencera a grupos caribe e aruaque extintos pelas invas&otilde;es de forasteiros    brancos. Por raz&otilde;es sem d&uacute;vida ligadas ao dif&iacute;cil acesso das cabeceiras dos rios    guianenses, os yanomami conseguiram escapar dessas invas&otilde;es sem, no entanto,    ficar imunes aos efeitos indiretos e letais da presen&ccedil;a dos brancos na regi&atilde;o,    como, por exemplo, epidemias de sarampo e alguns bens manufaturados que chegaram    at&eacute; eles muito antes de se verem frente a frente com os invasores. Poupados    daquela dizima&ccedil;&atilde;o, os sanum&aacute;, em particular, e os yanomami, em geral, reuniam as    condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para empreender a ocupa&ccedil;&atilde;o de novos territ&oacute;rios que at&eacute;    ent&atilde;o lhes eram desconhecidos. Avan&ccedil;aram por terras novas numa verdadeira    migra&ccedil;&atilde;o que difere muito das pequenas mudan&ccedil;as de resid&ecirc;ncia que se limitam ao    espa&ccedil;o definido por tradi&ccedil;&atilde;o e consenso &#40;Ramos 1995&#41;. Nenhum desses    deslocamentos, volto a insistir, tem qualquer semelhan&ccedil;a com a figura imaginada    do &iacute;ndio n&ocirc;made, sem eira nem beira, eternamente em busca de um sustento m&iacute;nimo    que o livre por mais um dia da inani&ccedil;&atilde;o. Neste sentido, nem os yanomami nem    qualquer outro povo ind&iacute;gena conhecido se encaixa nesse imagin&aacute;rio    preconceituoso dos brancos que, ao atribu&iacute;rem nomadismo aos &iacute;ndios, nada mais  fazem do que afirmar sua cren&ccedil;a na superioridade do sedentarismo.</p>        <p><b>GAN&Acirc;NCIA QUE MATA</b></p>        <p>De meados do s&eacute;culo XX e entrando pelo XXI, os yanomami t&ecirc;m vivido longos    momentos extremamente dram&aacute;ticos e tr&aacute;gicos, talvez os piores de sua exist&ecirc;ncia.    O trauma da constru&ccedil;&atilde;o da rodovia Perimetral Norte nos anos 1970 deixou um    rastro de morte que extinguiu comunidades inteiras &#40;Ramos 1979&#41;. Os    sobreviventes de quatro aldeias do alto rio Catrimani, atingidas por uma    epidemia de sarampo que matou metade de seus habitantes, conseguiram superar    aquela devastadora turbul&ecirc;ncia e se reorganizaram para fundar o que hoje &eacute; a    comunidade do Demini, quartel general do conhecido l&iacute;der Davi Kopenawa e qui&ccedil;&aacute; o    exemplo mais bem-sucedido de gerenciamento ind&iacute;gena na era do recente contato    inter&eacute;tnico. O projeto agropecu&aacute;rio do Apia&uacute; expulsou as comunidades yanomami    que l&aacute; viviam e reduziu seus remanescentes a p&aacute;rias nos povoados circundantes    &#40;Taylor 19 79&#41;.</p>        <p>Numa funesta materializa&ccedil;&atilde;o das fantasias de Colombo sobre a terra de Paria, a    partir de agosto de 1987, dezenas de milhares de garimpeiros invadiram,    virtualmente, toda a &aacute;rea yanomami numa desenfreada corrida do ouro que, naquela    &eacute;poca, alcan&ccedil;ara altas cota&ccedil;&otilde;es nas bolsas de Londres e Nova Iorque &#40;MacMillan    1995&#41;. Em quest&atilde;o de meses, aqueles aventureiros provocaram a pior pandemia de    mal&aacute;ria j&aacute; vista na regi&atilde;o. In&uacute;meras comunidades foram devastadas e os    sobreviventes fadados a vagar de aldeia em aldeia em busca de um novo domic&iacute;lio    e uma nova base de subsist&ecirc;ncia &#40;Menegola e Ramos 1992; Ramos 1995; Castro Lobo    1996&#41;. Aquela inusitada maneira de se mover no espa&ccedil;o foi involunt&aacute;ria e    totalmente imposta por circunst&acirc;ncias criadas por forasteiros. Violenta e    ca&oacute;tica, aquela mobilidade for&ccedil;ada carregou no seu bojo, n&atilde;o o efeito de uma    cadeia social em expans&atilde;o, mas, ao contr&aacute;rio, a retra&ccedil;&atilde;o social que sempre    acompanha o desmantelamento social e a desagrega&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica que mortes em    massa acarretam. A mal&aacute;ria em especial tem o potencial de transformar em    realidade a fc&ccedil;&atilde;o dos &quot;vazios demogr&aacute;fcos&quot; da Amaz&ocirc;nia em geral e da &aacute;rea    yanomami em particular, ao devastar comunidades e recursos naturais e contrair o    seu espa&ccedil;o vital &#40;Ramos 1996b&#41;.</p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A desagrega&ccedil;&atilde;o social deu-se em v&aacute;rios n&iacute;veis, a come&ccedil;ar pela destrui&ccedil;&atilde;o da base    econ&ocirc;mica das comunidades: ro&ccedil;as destru&iacute;das pela for&ccedil;a de enormes mangueiras    vomitando colossais jorros contra barrancos desmoronados em segundos; trilhas    seccionadas por imensas crateras abertas &agrave; for&ccedil;a de tremendos jatos d&#39;&aacute;gua,    cortando o acesso a ro&ccedil;as, acampamentos e aldeias; animais de ca&ccedil;a escorra&ccedil;ados    pelo pandem&ocirc;nio do tr&acirc;nsito constante de avi&otilde;es e helic&oacute;pteros e do infernal    barulho do tosco maquin&aacute;rio que serve o incontrol&aacute;vel af&atilde; de buscar ou ro a    qualquer pre&ccedil;o. Tudo isso foi acompanhado da implac&aacute;vel sangria de vidas    ind&iacute;genas, fosse por doen&ccedil;as altamente contagiosas, fosse pura e simplesmente    por assassinatos. Mesmo as comunidades que n&atilde;o experimentaram diretamente a    presen&ccedil;a f&iacute;sica dos garimpeiros e suas m&aacute;quinas demolidoras acabaram sentindo as    ondas de choque da desenfreada corrida ao ouro. Epidemias que come&ccedil;am num    determinado lugar grassam como fogo selvagem por dezenas, centenas de     aldeias, deixando um rastro de devastac&aacute;o. Tuberculose, mal&aacute;ria e, menos    dram&aacute;tica, mas inexor&aacute;vel, oncocercose, s&atilde;o doen&ccedil;as que mutilam ou matam,    destro&ccedil;ando o equil&iacute;brio demogr&aacute;fico de regi&oacute;es inteiras. Por essas ondas de    choque a trag&eacute;dia yanomami ampliava-se a cada nova pista, a cada novo barranco,    a cada novo acampamento garimpeiro. N&atilde;o h&aacute; comunidades imunes, nem as que ficam    do outro lado da fronteira, em solo venezuelano. Com um efeito de met&aacute;stase, o    impacto da atividade garimpeira corr&oacute;i arterias, veias e capilares da grande    cadeia org&aacute;nica que &eacute; a sociedade yanomami. Nos dois primeiros anos de atividade    garimpeira, estima-se que cerca de mil e quinhentos, OU 12,5% da populac&aacute;o    yanomami estimada no Brasil, morreram em consequ&eacute;ncia imediata da corrida do    ouro. Se pensarmos em termos de proporc&aacute;o, isso equivale a cerca de 14,4 milh&oacute;es    de brasileiros, ou seja, urna hecatombe nacional. E hecatombe foi exatamente o    que viveram os yanomami no Brasil &ntilde;as v&eacute;speras do s&eacute;culo XXI.</p>        <p>Povo do movimento, do fluxo e da expansividade, os yanomami continuam    enfrentando os assaltos, ainda que em menor grau, de levas de garimpeiros, mesmo    depois de o estado brasileiro, desde 1992, ter investido milh&oacute;es de reais em    repetidas, mas ineficazes operac&oacute;es de desocupa&ccedil;&aacute;o da t&eacute;rra ind&iacute;gena yanomami.    Nos primeiros anos deste s&eacute;culo, um cuidadoso programa de sa&uacute;de gerido pela ONG    Urihi-Sa&uacute;de yanomami, com recursos do Ministerio da Sa&uacute;de, conseguiu reverter a    alta mortalidade da d&eacute;cada anterior, fosse por mal&aacute;ria, tuberculose, desnutric&aacute;o    e outros males, chegando a diminuir em 80% a mortalidade infantil e em 100% o    n&uacute;mero de casos de mal&aacute;ria no fnal de 2002 &ntilde;as regi&oacute;es sob a sua    responsabilidade &#40;Urihi, Resumo das Atividades de Assist&eacute;ncia &aacute; Sa&uacute;de Yanomami,    abril 2003; ver tamb&eacute;m Brum 2002: 56-57&#41;. Desativado abruptamente devido &aacute;s    mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas que vieram com o governo de Luiz In&aacute;cio Lula da Silva, esse    programa foi substitu&iacute;do pela incompet&ecirc;ncia e corrupc&aacute;o de &oacute;rg&aacute;os p&uacute;blicos    despreparados para atuar junto a povos ind&iacute;genas como os yanomami. Resultado: a    volta da mal&aacute;ria, a exacerbac&aacute;o da tuberculose, a insatisfac&aacute;o generalizada de    &iacute;ndios e agentes de sa&uacute;de que com eles trabalham diretamente.</p>        <p>Al&eacute;m desses novos transtornos, os yanomami ainda enfrentam um outro perigo, que    s&atilde;o as tentativas intermitentes por parte de alguns pol&iacute;ticos de anular o que    lhes &eacute; garantido por direito: um territ&oacute;rio suficientemente amplo capaz de  assegurar a continuidade de seu modo fluido e s&aacute;bio de viver.</p>        <p><b>LI&Ccedil;&Otilde;ES YANOMAMI</b></p>        <p>Nesta era p&oacute;s-progresso de cont&iacute;nuos desastres ecol&oacute;gicos e de estupefa&ccedil;&aacute;o    global com os abusos da megaloman&iacute;a tecnol&oacute;gica, j&aacute; &eacute; um tru&iacute;smo falar da    sabedoria ind&iacute;gena no trato da natureza. Mas, seguindo o exemplo do estilo    ret&oacute;rico de muitos povos, o poder da repetic&aacute;o, como o ditado da &aacute;gua mole em   pedra dura, talvez consiga que a mensagem seja em algum momento devidamente    entendida e assimilada. Por isso, &agrave; guisa de conclus&atilde;o, trago alguns relatos da    sutent&aacute;vel beleza do viver yanomami que, de modo nenhum, se restringe ao bom-senso    ecol&oacute;gico, o que para eles, afinal, &eacute; um tru&iacute;smo. S&atilde;o passagens da viv&ecirc;ncia    prolongada de pesquisadores com subgrupos yanomami no Brasil e na Venezuela e,    completando o conjunto, uma fala de Davi Kopenawa Yanomami, o homem que de sua    aldeia na Amaz&ocirc;nia projetou para o ocidente o universo e a saga inter&eacute;tnica dos    yanomami &#40;Kopenawa 2000: 18-23; 2004: 44-45&#41;. O que h&aacute; em comum nos relatos &eacute; o    extraordin&aacute;rio esfor&ccedil;o etnogr&aacute;fico desses pesquisadores para chegar &agrave;    compreens&atilde;o de uma cultura que suscitou em todos eles o respeito e a admira&ccedil;&atilde;o    irrestritos pelo extraordin&aacute;rio universo yanomami.</p>     <ul>      <p>Durante incont&aacute;veis gera&ccedil;&otilde;es os yanoama t&ecirc;m mantido um sistema econ&ocirc;-mico    est&aacute;vel ... &#91;com&#93; atividades plenamente articuladas a muitos outros sistemas da    cultura e n&atilde;o apenas como meios de ganhar a vida.</p>        <p>Os yanoama utilizam o espa&ccedil;o das ro&ccedil;as criteriosamente e com uma clara    compreens&atilde;o do que cada planta requer. Com poucas exce&ccedil;&otilde;es, eles cultivam de    maneira vegetativa &#40;usando mudas&#41; e n&atilde;o usando sementes, o que favorece a    clonagem perene eliminando, por coincid&ecirc;ncia, toda possibilidade de fertiliza&ccedil;&atilde;o    m&uacute;tua e consequente hibridiza&ccedil;&atilde;o &#40;Smole 1976: 99, 116-117&#41;.</p>      <p>Com os sanum&aacute; aprendi a admirar —embora nem sempre a imitar— a sabedoria da    relativiza&ccedil;&atilde;o de verdades e mentiras; a paci&ecirc;ncia de se lidar com crian-&ccedil;as nos    seus piores humores; a capacidade de direcionar a raiva unicamente para o objeto    que a provocou e continuar de bem com o resto do mundo; a esfuziante alegria de    viver e o inesgot&aacute;vel gosto pelo drama &#40;Ramos 19 90: 11&#41;.</p>        <p>Uma parte importante da vida sanum&aacute; &eacute; ... a sua intera&ccedil;&atilde;o com uma vasta rede de    esp&iacute;ritos e seres sobrenaturais que vivem acima do c&eacute;u, embaixo da terra e nas    matas dos territ&oacute;rios de virtualmente todas as comunidades yanomami, conhecidas    ou n&atilde;o. A import&acirc;ncia dessas plagas long&iacute;nquas fica mais clara no caso dos    animais-esp&iacute;ritos que sempre vivem na floresta em torno de aldeias distantes.    Uma vez que as pessoas vivem e morrem em sintonia com seus animais-esp&iacute;ritos,    pode-se dizer que suas vidas dependem da fauna desses territ&oacute;rios t&atilde;o afastados.    Para explicar certas doen&ccedil;as e mortes, os sanum&aacute; lan&ccedil;am m&atilde;o de um alvo de    culpabilidade, como os xam&atilde;s inimigos, os fantasmas, e os esp&iacute;ritos mal&eacute;ficos de    comunidades distantes com suas matas circundantes. Os xam&atilde;s com quem conversei    enumeraram nada menos de 74 dessas comunidades que conhecem atrav&eacute;s de seus    esp&iacute;ritos &#40;Taylor 199 6: 149&#41;.</p>        <p>&Eacute; atrav&eacute;s da ca&ccedil;a, da pesca e da coleta que os yanomami adquirem de 70 a 75% de    prote&iacute;nas indispens&aacute;veis a seu equil&iacute;brio alimentar. Essas atividades permitem-lhes    ter tamb&eacute;m uma alimenta&ccedil;&atilde;o extremamente diversificada. Ca-&ccedil;am ... rastreando ou    atraindo animais, imitando seus sons, 35 tipos de mam&iacute;feros e 90 tipos de    p&aacute;ssaros &#40;apanham tamb&eacute;m 6 tipos de quel&ocirc;nios e 8 tipos de r&eacute;pteis&#41;. Com linha e    timb&oacute; pescam 106 esp&eacute;cies de peixe. Coletam na mata, aproximadamente, 129 tipos    de plantas comest&iacute;veis &#40;entre frutas, tub&eacute;rculos e cogumelos&#41;, mas tamb&eacute;m v&aacute;rios    tipos de crust&aacute;ceos &#40;5 tipos&#41;, batr&aacute;quios &#40;10   tipos&#41;, lagartas &#40;16 tipos&#41;, larvas de insetos &#40;em particular de vespas e cupim,    15 tipos&#41; e mel selvagem &#40;25 tipos&#41; &#40;Albert e Gomez 1997: 34&#41;.</p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um dia, transcrevia uma entrevista quando parei para observar uma sess&atilde;o    xam&acirc;nica que transcorria na segunda fogueira depois da minha rede. O caminho    tra&ccedil;ado pelo xam&atilde; ia do local em que eu estava sentada at&eacute; &agrave; rede da paciente.    Eu estava obviamente inserida no contexto da sess&atilde;o xam&acirc;nica. Depois de prestar    muita aten&ccedil;&atilde;o, comecei a compreender que, em suas idas e vindas, os esp&iacute;ritos    auxiliares &#91;do xam&atilde;&#93; brincavam comigo, chamando minha aten&ccedil;&atilde;o para a tarefa    infact&iacute;vel a que me havia proposto. Diziam: &quot;voc&ecirc; veio aqui &#39;gravar&#39; nossas    palavras, mas nossas palavras nunca acabam, por isso n&oacute;s as damos&quot;. Desta forma,    os esp&iacute;ritos auxiliares do xam&atilde; zombavam de mim, apontando tanto para o aspecto    mutante daquilo que eu pretendia fixar em escrita nos meus cadernos, como para a    forma il&oacute;gica com que eu me apropriava desse conhecimento, acumulando-o em    cadernos e pap&eacute;is. As palavras escritas negavam &#91;tr&ecirc;s&#93; aspectos importantes do    conhecimento xam&acirc;nico: sua oralidade, circula&ccedil;&atilde;o e mutabilidade &#40;Smiljanic 1999:    7&#41;.</p>        <p>A teoria sanum&aacute; a respeito da origem do mundo ou do universo baseia-se em um    princ&iacute;pio semelhante &agrave; lei lavoisieriana: &quot;na natureza nada se perde, nada se    cria, tudo se transforma&quot;. No universo sanum&aacute;, os seres n&atilde;o surgem a partir do    nada, eles se fazem do que j&aacute; existe. Novos corpos, novos espa&ccedil;os, novos tempos    s&atilde;o como reciclagens, produtos de opera&ccedil;&otilde;es sobre o que j&aacute; est&aacute; dado. No in&iacute;cio,    parecia reinar a amorfia, n&atilde;o havia inimigos ou animais, mas s&oacute; os sanum&aacute;s ainda    indefinidos. Com o surgimento dos dois irm&atilde;os Omawa e Soaw&ouml;, her&oacute;is    transformadores, intensifcaram-se os processos de diferencia&ccedil;&atilde;o, de    transforma&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o do cosmos e dos seres, que continuam at&eacute; hoje &#40;Guimar&atilde;es    2005: 12&#41;.</p>        <p>O que voc&ecirc;s chamam &quot;natureza&quot; &eacute;, em nossa l&iacute;ngua, urihi a, a terra-foresta e sua    imagem vista pelos xam&atilde;s, urihinari. &Eacute; porque existe essa imagem que as &aacute;rvores    s&atilde;o vivas. O que chamamos urihinari &eacute; o esp&iacute;rito da foresta: os esp&iacute;ritos das    &aacute;rvores, huutihirip&euml;, das folhas, yaahanarip&euml;, e dos cip&oacute;s, thoothorip&euml;. Esses    esp&iacute;ritos s&atilde;o muito numerosos e brincam no ch&atilde;o da floresta. N&oacute;s os chamamos    tamb&eacute;m urihi a, &quot;natureza&quot;, da mesma maneira que os esp&iacute;ritos animais yarorip&euml; e    mesmo os das abelhas, das tartarugas e dos carac&oacute;is. A fertilidade da floresta,    n&euml; rope, tamb&eacute;m &eacute; &quot;natureza&quot; para n&oacute;s: ela foi criada com a floresta, &eacute; sua    riqueza.</p>        <p>A terra da floresta possui um sopro vital, wixia, que &eacute; muito longo. O dos seres    humanos &eacute; muito menor: vivemos e morremos depressa. Se n&atilde;o a desmatarmos, a    floresta n&atilde;o morrer&aacute;. Ela n&atilde;o se decomp&otilde;e. &Eacute; gra&ccedil;as a seu sopro &uacute;mido que as    plantas crescem &#40;Kopenawa 2004: 23&#41;.</p>    </ul>        <p>Sobre a fantasia ed&ecirc;nica de Colombo, podemos supor que, se ele tivesse rumado    Orenoco acima at&eacute; &agrave;s cabeceiras, e se acreditasse mais nos seus sentidos do que    na sua imagina&ccedil;&atilde;o, teria tido surpresas ainda maiores do que as que teve naquela    terceira viagem ao novo mundo. Mas, para isso, seria preciso supor o imposs&iacute;vel,    ou seja: abrir m&atilde;o de suas ideias recebidas e deixar-se embeber pelo que se    mostrasse &agrave; sua capacidade plena de percep&ccedil;&atilde;o.</p>    <hr size="1">        <p><b>Comentarios</b></p>          <p><sup><a name="1" href="#s1">1</a></sup> Em abril de 2008, durante as comemora&ccedil;&otilde;es da semana do &iacute;ndio, o comandante militar da Amaz&ocirc;nia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, seguindo o que parece j&aacute; ser uma tradi&ccedil;&atilde;o militar no Brasil &#40;Ramos 1998: 222-242&#41;, pronunciou-se contra a exist&ecirc;ncia da terra ind&iacute;gena raposa-Serra do Sol, no leste de Roraima, j&aacute; demarcada e homologada, mas objeto de ferrenha disputa envolvendo uns poucos rizicultores h&aacute; anos l&aacute; instalados ilegalmente e a esmagadora maioria dos povos que vivem na regi&atilde;o. A preocupa&ccedil;&atilde;o declarada do general &eacute; que, sendo cont&iacute;nua, aquela terra ind&iacute;gena constitui-se em amea&ccedil;a &agrave; soberania nacional. Trata-se de um refr&atilde;o cuja sobreviv&ecirc;ncia nos meios pol&iacute;ticos do pa&iacute;s &eacute; t&atilde;o espantosa quanto resistente a qualquer demonstra&ccedil;&atilde;o em contr&aacute;rio.</p>     <p><sup><a name="2" href="#s2">2</a></sup> A primeira vers&atilde;o deste artigo, mais curta, foi publicada em Travessia, Revista do migrante, janeiro-abril, 1996. Naquela ocasi&atilde;o, sem os recursos tecnol&oacute;gicos atuais, lancei m&atilde;o de outro tipo de recurso, o do imagin&aacute;rio, para expressar a minha compreens&atilde;o de como os sanum&aacute; ocupam suas terras. Foi com grata surpresa que vi parte da minha percep&ccedil;&atilde;o confirmada pela pesquisa minuciosa e muito mais precisa dos colegas Albert e le Tourneau</p>    <hr size="1">          <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><b>Albert, Bruce</b>   1996 O massacre dos yanomami de Haximu. <i>Povos ind&iacute;gena&#349;no Brasil, </i>   1995, pp. 207. S&atilde;o Paulo: Instituto Socioambiental.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S1900-5407200800020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Albert, Bruce e Carlo Zacquini</b>   1979 Yanomami Indian Park: Proposal and Justification. Em: <i>The Yanoama in Brazil,   </i>Alcida Rita Ramos e Kenneth I. Taylor, orgs.&#41;, pp. 99-70.    Copenhague: International Work Group for Indigenous   Affairs, Documento 37.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S1900-5407200800020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Albert, Bruce e Gale G. Gomez</b>   1997 <i>Sa&uacute;de yanomami: um manual etnoling&uuml;&iacute;stico</i>.    Bel&eacute;m: Museu Paraense Emilio Goeldi.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S1900-5407200800020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Albert, Bruce e Fran&ccedil;ois-Michel Le Tourneau</b>   2007 Ethnography and Resource Use among the Yanomami.    Em: <i>Current Anthropology </i>48&#40;4&#41;: 584-592.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S1900-5407200800020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Amoroso, Marta Rosa</b>   1992 Cors&aacute;rios no caminho fuvial: Os Mura do rio Madeira. Em: <i>Hist&oacute;ria dos &iacute;ndios      no Brasil </i>&#40;Manuela Carneiro da Cunha, org.&#41;, pp.   297-310. S&atilde;o Paulo: Companhia das letras.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S1900-5407200800020000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Andrade, Karenina Vieira</b>   2007 <i>A &eacute;tica ye&#39;kuana e o esp&iacute;rito do emprendimento</i>.    Tese de Doutorado, Departamento de Antropologia, Universidade de Bras&iacute;lia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S1900-5407200800020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Arvelo-Jim&eacute;nez, Nelly</b>   1974 <i>Relaciones pol&iacute;ticas en una sociedad tribal</i>.    M&eacute;xico: Ediciones Especiales 68, Instituto Indigenista Interamericano.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S1900-5407200800020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Bourdieu, Pierre</b>   1989 <i>O poder simb&oacute;lico</i>. Lisboa: Difus&atilde;o Europ&eacute;ia do Livro.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S1900-5407200800020000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Brum, Eliane</b>   2002 Odiss&eacute;ia na selva: A louca jornada de m&eacute;dicos e enfermeiros no combate &agrave;s    doen&ccedil;as levadas pelos garimpeiros &agrave; floresta dos ianom&acirc;mis. <i>&Eacute;poca</i>,   7 de Janeiro de 2002: 56-57.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S1900-5407200800020000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Castro Lobo, Maria Stella</b>   1996 <i>O caso yanomami do Brasil: uma proposta estrat&eacute;gica de vigil&acirc;ncia epidemiol&oacute;gica</i>.    Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado em Sa&uacute;de P&uacute;blica. Rio de Janeiro, Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S1900-5407200800020000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Clastres, Pierre</b>   1978 <i>A sociedade contra o estado</i>.    Rio de Janeiro: Francisco Alves.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S1900-5407200800020000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Col&oacute;n, Crist&oacute;bal</b>   1984 <i>Textos y documentos completos</i>  &#40;Pr&oacute;logo y notas de Consuelo Varela&#41;. Madrid: Alianza Editorial.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S1900-5407200800020000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Farage, N&aacute;dia</b>   1991 <i>As muralhas dos sert&otilde;es: os povos ind&iacute;genas no rio Branco e a coloniza&ccedil;&atilde;o</i>.   S&atilde;o Paulo: Paz e Terra.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S1900-5407200800020000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Fisher, William</b>   1995 Native Amazonians and the Making of the Amazon Wilderness: from Discourse of    Riches and Sloth to Underdevelopment. Em: <i>Creating the Countryside: The      Politics of Rural and Environmental Discourse </i>&#40;Melanie E. Dupuis and Peter    Vandergeest, orgs.&#41;, pp. 166-203. Filadelfia: Temple University Press.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1900-5407200800020000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Greenblatt, Stephen</b>   1991 <i>Marvelous Possessions: The Wonder of the New World</i>.    Chicago: University of Chicago Press.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S1900-5407200800020000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Guimar&atilde;es, Silvia M. F.</b>   2005 <i>Cosmologia sanum&aacute;: o xam&atilde; e a constitui&ccedil;&atilde;o do ser. </i>    Tese de doutorado, Departamento de Antropologia, Universidade de Bras&iacute;lia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1900-5407200800020000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>ISA &#40;Instituto Socioambiental&#41;</b>   2006 <i>Povos ind&iacute;genas no Brasil</i>   2001<i>/</i>2005. S&atilde;o Paulo: Instituto Socioambiental.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S1900-5407200800020000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Kopenawa, David</b>   2000 Sonhos das origens. Em: <i>Povos Ind&iacute;genas no Brasil </i>   1996<i>/</i>2000: 18-23. S&atilde;o Paulo: Instituto Socioambiental.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S1900-5407200800020000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   2004 Urihi a. Em: <i>Yanomami: O esp&iacute;rito da foresta</i>. Cat&aacute;logo de exposi&ccedil;&atilde;o    &#40;Bruce Albert, org.&#41; pp. 20-22. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S1900-5407200800020000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>MacMillan, Gordon</b>   1995 <i>At the End of the Rainbow? Gold, Land, and People in the Brazilian Amazon</i>.    Londres: Earthscan.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S1900-5407200800020000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Menegola, Ivone e Alcida Ramos</b>   1992 <i>Primeiro relat&oacute;rio do distrito sanit&aacute;rio yanomami</i>.    Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S1900-5407200800020000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Miggliazza, Ernesto</b>   1972 <i>Yanomama grammar and intelligibility</i>.   Tese de doutorado, Departamento de Lingu&iacute;stica, Universidade de Indiana.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S1900-5407200800020000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Ramos, Alcida Rita</b>   1979 Yanoama Indians in North Brazil threatened by Highway. Em: <i>The Yanoama in      Brazil, </i>1979 &#40;Alcida Rita    Ramos e Kenneth I. Taylor, orgs.&#41;, pp. 1-42.    Copenhague: International Work Group for Indigenous Affairs, Documento   37.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S1900-5407200800020000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1980 <i>Hierarquia e simbiose. Rela&ccedil;&otilde;es intertribais no Brasil</i>.    S&atilde;o Paulo: Hucitec/MEC/INL.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S1900-5407200800020000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1990 <i>Mem&oacute;rias sanum&aacute;. Espa&ccedil;o e tempo em uma sociedade yanomami. </i>   S&atilde;o Paulo: Marco Zero/UnB.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S1900-5407200800020000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1995 <i>Sanum&aacute; Memories. Yanomami Ethnography in Times of Crisis</i>.    Madison: University of Wisconsin Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S1900-5407200800020000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1996a Na&ccedil;&otilde;es dentro da na&ccedil;&atilde;o: um desencontro de ideologias. Em: <i>Etnia e na&ccedil;&atilde;o na      Am&eacute;rica Latina</i>.&#40;George Zarur org.&#41;, vol. I, pp. 79-88.     Washington, DC: Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos.        &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S1900-5407200800020000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1996b. O papel pol&iacute;tico das epidemias. O caso yanomami. Em: <i>Ya no hay lugar para cazadores. Proceso</i>   <i>de extinci&oacute;n y transfiguraci&oacute;n cultural en Am&eacute;rica Latina</i>.    Miguel Bartolom&eacute; &#40;ed.&#41;, pp. 55-89. Quito: Biblioteca Abya-Yala.       &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S1900-5407200800020000600028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1998 <i>Indigenism: Ethnic Politics in Brazil</i>.    Madison: University of Wisconsin Press.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000101&pid=S1900-5407200800020000600029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Sale, Kirkpatrick</b>   1990 <i>The Conquest of Paradise: Christopher Columbus and the Columbian Legacy</i>.   Nova Iorque: Plume.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S1900-5407200800020000600030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Smiljanic, Maria In&ecirc;s</b>   1999 <i>O corpo c&oacute;smico: o xamanismo entre os yanomae do Alto Toototobi</i>.    Tese de doutorado, Departamento de Antropologia, Universidade de Bras&iacute;lia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S1900-5407200800020000600031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Smole, William J.</b>   1976 <i>The Yanoama Indians: A Cultural Geography</i>.    Austin: University of Texas Press.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S1900-5407200800020000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><b>Taylor, Kenneth I.</b>   1979 Development against the Yanoama. Em: <i>The Yanoama in Brazil, </i>   1979 &#40;Alcida Rita Ramos e Kenneth I. Taylor, orgs.&#41;, pp. 43-98.    Copenhague: International Work Group for Indigenous Affairs, Documento 37.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S1900-5407200800020000600033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   1996 A geografia dos esp&iacute;ritos: o xamanismo entre os yanomami setentrionais. Em: <i>   Xamanismo no Brasil: novas perspectivas </i>&#40;Jean Langdon, org.&#41;, pp.   117-151. Florian&oacute;polis: Editora da UFSC.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S1900-5407200800020000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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