<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>2027-5137</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Historia y MEMORIA]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Hist.mem.]]></abbrev-journal-title>
<issn>2027-5137</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia (UPTC)]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S2027-51372016000200011</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.19053/20275137.4462</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O papel dos directores de fotografía no cinema: entrevista a Acácio de Almeida e Abel Aboim]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Paulo Rato Alves]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria Raquel]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<numero>13</numero>
<fpage>333</fpage>
<lpage>350</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2027-51372016000200011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S2027-51372016000200011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S2027-51372016000200011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[  <font face="Verdana" size="2">      <p>DOI: <a href="http://dx.doi.org/10.19053/20275137.4462" target="_blank">http://dx.doi.org/10.19053/20275137.4462</a>.</p>       <p align="center"><font size="4"><b>O papel dos directores de fotograf&iacute;a no cinema: entrevista a Ac&aacute;cio de Almeida e Abel Aboim</b></font><sup>*</sup></p>      <p align="center">Maria Raquel Paulo Rato Alves<sup><a name="nu1"></a><a href="#num1">1</a></sup>    <br> <i>Lisboa, Mar&ccedil;o 10 de 2010</i></p>      <p><sup>*</sup> Entrevista realizada por Raquel Rato ao director de fotografia Ac&aacute;cio de Almeida e ao professor Abel Aboim a 10 de Mar&ccedil;o de 2010 em Lisboa.    <br>  <sup><a name="num1"></a><a href="#nu1">1</a></sup> Raquel Rato, nasceu na Covilh&atilde; - Portugal em 1971. Licenciada em Cinema -Ramo de Realiza&ccedil;&atilde;o e Anima&ccedil;&atilde;o S&oacute;cio-cultural, em 2007 termina um mestrado (DEA) na Universidade de Salamanca em Audiovisual e Publicidade. Em Dezembro de 2013 obt&eacute;m o grau de doutora em C&iacute;nema Audiovisuel pela Universidade de Paris 3 Sorbonne Nouvelle. Especializada na direc&ccedil;&atilde;o de fotografia, participa regularmente em col&oacute;quios e confer&ecirc;ncias nacionais e internacionais. Actualmente, &eacute; Investigadora integrada do IHC (Instituto de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea) da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com actividade de investiga&ccedil;&atilde;o no dom&iacute;nio da Hist&oacute;ria Oral do cinema portugu&ecirc;s. Lisboa, Portugal</p>  <hr>      <p><font size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>      <p>A presente entrevista realizada a Ac&aacute;cio de Almeida e Abel Aboim pretende mostrar o papel fundamental do director de fotografia na realiza&ccedil;&atilde;o de um filme. O director de fotografia, &eacute; um dos elementos imprescind&iacute;veis &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o e &agrave; boa recep&ccedil;&atilde;o de ma obra cinematogr&aacute;fica. N&atilde;o &eacute; exagero dizer-se que a efic&aacute;cia das imagens de um filme passa, pelo trabalho do director de fotografia.</p>      <p align="center"><a name="img1"><img src="img/revistas/hismo/n13/n13a11img1.jpg"></a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O director de fotografia Ac&aacute;cio de Almeida<sup><a name="nu2"></a><a href="#num2">2</a></sup>, uma das figuras mais emblem&aacute;ticas da hist&oacute;ria do cinema portugu&ecirc;s com renome internacional, que trabalhou com grandes realizadores tais como: Ant&oacute;nio Reis; Ra&uacute;l Ruiz; Jo&atilde;o C&eacute;sar Monteiro; Teresa Villaverde; Alain Tanner etc. O seu trabalho esteve na base do sucesso que muitos filmes obtiveram. &Eacute; um director de fotografia que no meio de grandes criadores tem um enorme destaque na sua actividade de &quot;artes&atilde;o da luz&quot;, pois tem particularidades que o diferencia e que o torna &uacute;nico na inven&ccedil;&atilde;o de meios e no acto criativo. Pode dizer-se que tem uma &quot;marca&quot; muito forte que o distingue e que o aproxima dos grandes mestres da direc&ccedil;&atilde;o de fotografia mundial. Ac&aacute;cio de Almeida, iniciou muitos realizadores portugueses, vindo estes a terem um percurso de autor. Formando os seus primeiros olhares, que vieram a realizar um cinema de autor reconhecido pelo grande p&uacute;blico. As experi&ecirc;ncias art&iacute;sticas de Ac&aacute;cio de Almeida s&atilde;o &uacute;nicas e de uma riqueza singular que, se tornou urgente pesquisar e teoriz&aacute;-las para que um dia sejam transmitidas e conhecidas dentro do contexto cinematogr&aacute;ico nacional e internacional. Ac&aacute;cio de Almeida foi ainda fundador do Centro Portugu&ecirc;s de Cinema em 1970 e da Cooperativa Grupo Zero ap&oacute;s o 25 de Abril de 1974.</p>      <p>Em 1970 foi bolseiro da Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian em Paris onde teve a oportunidade de estagiar com um mestre da fotografia cinematogr&aacute;fica, Nestor Almendros. Fundou tamb&eacute;m a produtora <i>Inforfilmes </i>em 1987, produzindo e co-produzindo diversos filmes.</p>      <p>Jo&atilde;o Abel Aboim<sup><a name="nu3"></a><a href="#num3">3</a></sup> &eacute; proissional de cinema nas &aacute;reas de imagem e realiza&ccedil;&atilde;o. Iniciou-se no cinema como assistente no filme &laquo;O Recado&raquo; de Jos&eacute; Fonseca e Costa. Cumpriu o servi&ccedil;o militar no Servi&ccedil;o Cartogr&aacute;fico do Ex&eacute;rcito, de 1971 a 1974, onde tirou a especialidade de fotografia e cinema e dirigiu curtas-metragens para o ex&eacute;rcito. Foi s&oacute;cio fundador de <i>Cinequanon, </i>em 1974. Ingressou no ano seguinte no N&uacute;cleo de Produ&ccedil;&atilde;o do IPC (instituto Portugu&ecirc;s de Cinema) onde se manteve at&eacute; &agrave; sua extin&ccedil;&atilde;o em 1976. Participa ent&atilde;o na funda&ccedil;&atilde;o da Prole Filme. Foi director de fotografia de longas, m&eacute;dias e curtas-metragens. Realizou e fotografou v&aacute;rios filmes documentais. Foi professor na E.S.T.C. (Escola Superior de Teatro e Cinema) na &aacute;rea de imagem, durante mais de tr&ecirc;s d&eacute;cadas.</p>      <p><font size="3"><b>Entrevista</b></font></p>      <p>No ano de 2015, a convite do Centro Cultural de Bel&eacute;m (inserido no Ano Internacional da Luz) realiza uma exposi&ccedil;&atilde;o chamada: <i>O elogio da luz e da sombra. </i>A exposi&ccedil;&atilde;o aborda e questiona o trabalho t&eacute;cnico/art&iacute;stico que estes &quot;fazedores de imagens&quot;, em geral, desenvolvem durante a produ&ccedil;&atilde;o de um filme. Para o director de fotografia: &quot;o <i>contributo e a import&acirc;ncia do trabalho dos directores de fotografia na produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica s&atilde;o muitas vezes desconhecidos do grande p&uacute;blico cin&eacute;filo&quot;. </i>Nomes como Ac&aacute;cio de Almeida, Elso Roque, Manuel Costa e Silva, Rui Po&ccedil;as, Michael Ballhaus e Robby M&uuml;ller, essenciais na cinematografia nacional e mundial foram algumas das personalidades com quem o ele trabalhou.</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Como foi e &eacute; o teu trabalho no cinema?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>No cinema que eu trabalhei sempre houve uma situa&ccedil;&atilde;o de dificuldades. Nunca houve muito dinheiro. Os filmes s&atilde;o o resultado n&atilde;o tanto de um projecto de investimento sobre um produto, mas um filme &eacute; aquilo que se pode fazer com os escassos meios inanceiros e com uma grande boa vontade e uma grande disponibilidade. O que n&atilde;o h&aacute; em meios materiais, &eacute; necess&aacute;rio substitui-los por uma dose de inven&ccedil;&atilde;o...</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Eu tenho a tua opini&atilde;o, eu acho que no fundo as coisas acabam por cair sobre ti, isto &eacute;, sobre o director de Fotograia. &Eacute; evidente que os realizadores t&ecirc;m que ceder em muitas coisas, mas no que diz &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, tu &eacute; que tens que suplantar todas as diiculdades.</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Tu dizes que sou eu, na qualidade de director de fotografia, mas neste momento estou a falar para outro director de fotografia, portanto partilhas comigo essa situa&ccedil;&atilde;o. Na realidade cai muito sobre n&oacute;s a responsabilidade de encontrar solu&ccedil;&otilde;es que possam ajudar a ultrapassar todas as diiculdades que v&atilde;o aparecendo, quer em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; luz, quer com o enquadramento, quer com a escolha de um determinado &acirc;ngulo.</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Muitas vezes at&eacute; com a pr&oacute;pria equipa...</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, &eacute; um trabalho muito complicado. Reportando-me ao trabalho de um director de fotografia, ele &eacute; o elemento mais c&uacute;mplice do projecto, do realizador e do produtor. Sobre ele passa a esperan&ccedil;a e a capacidade de ultrapassar determinadas situa&ccedil;&otilde;es, ao n&iacute;vel de equipa, de ilmagens...</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Uns filmes que me tocaram, foram os trabalhos que tu izeste com o Ant&oacute;nio Reis<sup><a name="nu4"></a><a href="#num4">4</a></sup>. Para mim esses filmes tinham um experimenta&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o era vulgar, e muito menos aqui em Portugal, e isso agradou-me imenso. Sei que esses filmes tiveram diiculdades imensas, mas hoje em dia essas dificuldades para ti diminu&iacute;ram com as novas tecnologias ou n&atilde;o? O que &eacute; que achas?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Estas novas tecnologias facilitam-nos um pouco o trabalho. Mas por outro se escasseiam os recursos somos mais objectivos. A mim nunca me seduziu, quando o produtor diz que tem muito equipamento para me oferecer ou uma equipa fabulosa para o trabalho. N&atilde;o s&atilde;o estes factores que me seduzem para fazer um filme. Para mim interessam-me mais outros aspectos, como por exemplo, quem &eacute; a equipa com que eu vou trabalhar, qual a rela&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m uns com os outros. Tamb&eacute;m como &eacute; o realizador. O realizador ser&aacute; algu&eacute;m que eu conhe&ccedil;a, se n&atilde;o &eacute;, ser&aacute; algu&eacute;m que conhece o meu trabalho. Para mim este &eacute; o aspecto mais importante.</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Mas este aspecto &eacute; cada vez menos poss&iacute;vel...</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Para mim se me disserem que vou ter um sal&aacute;rio fabuloso, ou que vou ter uma actriz fabulosa, mas se nada se articula convenientemente &eacute; um desastre. Eu preiro que haja uma escolha segundo os valores da amizade e proissionais, e o estar &agrave; vontade em trabalhar em conjunto.</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Mas, est&aacute;s a esquecer uma coisa fundamental para ti, que &eacute; os valores est&eacute;ticos.</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim os valores est&eacute;ticos est&atilde;o desde o inicio do projecto. O di&aacute;logo do realizador e do director de fotografia &eacute; muito importante, pois somos n&oacute;s que vamos definir e querer que o aspecto est&eacute;tico seja interessante. Que haja toda uma pesquisa e um aprofundar, isto &eacute; a base da primeira aproxima&ccedil;&atilde;o entre o realizador e o director de fotografia...</p>      <p>N&atilde;o sei se algum dia em contei &agrave; Raquel, mas uma vez num ilme italiano, com uma equipa fabulosa, com estrelas americanas, enfim uma grande produ&ccedil;&atilde;o (com motorista para o director de fotografia) n&atilde;o me senti nada bem. Houve um momento em que me levantei da minha cadeira para ir corrigir um projector que estava ali ao lado, mas desisti, pois veio logo o director de produ&ccedil;&atilde;o que era um tipo que tinha tudo controlado, e que me pergunta: &quot;Ac&aacute;cio, quantos electricistas precisas mais?&quot;. Bom na realidade foi chamar-me &agrave; aten&ccedil;&atilde;o que est&aacute;vamos num projecto em que o director de fotografia n&atilde;o tem que fazer esse trabalho, mas eu i-lo por uma quest&atilde;o de intui&ccedil;&atilde;o, porque senti que a luz precisava de uma pequena mudan&ccedil;a, uma pequena nuance. O produtor disse-me que eu n&atilde;o tinha que fazer essas coisas. Esta produtora, produziu filmes do Bertolucci...</p>      <p>Vou-te dar um exemplo, quando fiz o Cerco<sup><a name="nu5"></a><a href="#num5">5</a></sup> em 1970 do Cunha Telles<sup><a name="nu6"></a><a href="#num6">6</a></sup>.</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Esse &eacute; o primeiro filme que fizeste como director de fotografia numa longa-metragem.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, foi. O Cunha Telles falou-me -vamos fazer um filme? O problema &eacute; que n&atilde;o h&aacute; dinheiro. E eu, ok! Ent&atilde;o a equipa era eu, o electricista e mais um assistente e uma c&acirc;mara. Mas a dado momento o chefe electricista foi-me roubado, porque tinha uma boa cara, e acabou para ir para actor do filme. Acabei por ficar eu e o assistente, mas este tamb&eacute;m era muitas vezes chamado fazer outras coisas. Eu sozinho, com a c&acirc;mara, com a luz, e ainda para mais com uma c&acirc;mara que tinha o obturador partido, com uma pel&iacute;cula velh&iacute;ssima que tinha oito anos, enim o ilme foi feito com grande contrariedades a n&iacute;vel t&eacute;cnico, mas foi um ilme que funcionou muito bem, tendo recebido dois pr&eacute;mios, e que no panorama do cinema portugu&ecirc;s era uma experi&ecirc;ncia nova. A narrativa retratava uma realidade dos nossos dias...</p>      <p align="center"><a name="img2"><img src="img/revistas/hismo/n13/n13a11img2.jpg"></a></p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Lembro-me que foi o lan&ccedil;amento da Maria Cabral, que n&atilde;o vinha do m&eacute;tier. Lan&ccedil;ou-se uma estrela...</p>      <p align="center"><a name="img3"><img src="img/revistas/hismo/n13/n13a11img3.jpg"></a></p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, fabulosa ...</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Pode dizer-se que foi com este filme que se v&ecirc; a influ&ecirc;ncia da <i>Nouvelle Vague </i>no cinema portugu&ecirc;s?</p>      <p><b>Imagem 3. </b>Actriz Maria Cabral Fonte: Fotografia do arquivo de Ac&aacute;cio de Almeida</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>J&aacute; tinha come&ccedil;ado antes, com os filmes; &quot;Verdes Anos&quot; (1963) e &quot;Mudar de Vida&quot; (1966) de Paulo Rocha e o &quot;Belarmino&quot; (1964) de Fernando Lopes. S&atilde;o os filmes mais emblem&aacute;ticos dessa mudan&ccedil;a no cinema portugu&ecirc;s. &quot;O Cerco&quot;, apareceu mais tarde, ali&aacute;s o Cunha Telles &eacute; que produzia os filmes, ele foi o motor de arranque, foi o dinamizador do cinema. Na altura ele era muito jovem, tinha acabado o curso do IDEC e tinha um desejo muito grande de fazer cinema. Entre outros jovens encontramos os que tinham feito escola fora, com o Paulo Rocha, o Alberto Seixas Santos e o Matos Silva, foi mais tarde. Todos estes procuraram sair para adquirir novos conhecimentos. Nessa altura o Cunha Telles resolve criar a primeira escola de cinema. Creio que funcionou tr&ecirc;s anos. Fez um acordo com os professores do IDEC: eles davam a linha de orienta&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica. C&aacute; em Portugal foram seleccionados v&aacute;rios professores que eram examinados pelo IDEC. Os que completassem o 2&deg; ano, entravam para a escola francesa, o IDEC. Eu n&atilde;o cheguei a ir para o IDEC porque o Cunha Telles convidou-me para ir fazer &quot;As ilhas Encantadas&quot;(1965) de Carlos Vilardeb&oacute;. Concluindo, o Cunha Telles foi o grande dinamizador em v&aacute;ria vertentes no cinema portugu&ecirc;s. Empenhou-se de tal modo no cinema que queria produzir, mas acabou por falir. Ao longo da sua carreira s&atilde;o fal&ecirc;ncias sucessivas. A hist&oacute;ria dos produtores contam-se com as fal&ecirc;ncias...</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Tu mais tarde foste fundador do CPC (Centro Portugu&ecirc;s de Cinema) que import&acirc;ncia &eacute; que achas que isso teve para o cinema portugu&ecirc;s?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>O CPC foi a forma de oficializar um grupo de pessoas que queria trabalhar em cinema, sobretudo com o apoio de uma institui&ccedil;&atilde;o prestigiadora e que nos honrava, a Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian<sup><a name="nu7"></a><a href="#num7">7</a></sup>. Assim j&aacute; n&atilde;o &eacute;ramos os &quot;maluquinhos&quot; que andavam a fazer coisinhas, mas &eacute;ramos assim um grupo que muitas institui&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; arte que davam o seu aval.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abel Aboim: </b>At&eacute; porque voc&ecirc;s juntaram-se com ruptura para com o cinema que existia....</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, o cinema que existia era apoiado pelo chamado o Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&atilde;o, e que privilegiava, quer o teor dos trabalhos que eram mais de acordo com a politica vigente. Na altura faz&iacute;amos um ou dois filmes por ano. Fazia-se um jornal de actualidade, document&aacute;rios promocionais de turismo, enfim a actividade era muito pequena. Chegamos de facto a um momento de ruptura, do antigo cinema, mas n&oacute;s tamb&eacute;m n&atilde;o sab&iacute;amos o que fazer, porque havia por detr&aacute;s uma cultura mais cineclubista... Est&aacute;vamos cheios de vontade de trabalhar, mas n&atilde;o havia apoio, tanto a n&iacute;vel de infra-estruturas, como laborat&oacute;rios muito fracos, enfim, havia muito pouco. A minha gera&ccedil;&atilde;o, eu o Elso Roque, o Costa e Silva, foram os que mantiveram entusiasmo &quot;uma chama acesa&quot;, e tamb&eacute;m como &eacute; evidente os realizadores, os assistentes ..... que &eacute; culminado com o primeiro filme do Paulo Rocha e por a&iacute; em diante, com outros filmes... &quot;O Passado e Presente&quot; (1970) do Manoel de Oliveira, onde colaborei como director de fotografia.</p>      <p align="center"><a name="img4"><img src="img/revistas/hismo/n13/n13a11img4.jpg"></a></p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Da&iacute; a import&acirc;ncia do CPC.</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim foi uma forma de ganharmos for&ccedil;a institucional para trabalharmos. Foi positivo tamb&eacute;m porque abriu as portas a outras gera&ccedil;&otilde;es. &Eacute;ramos os &quot;Dons Quixotes&quot; do cinema.</p>      <p>Na maior parte dos filmes eu tive sempre uma interven&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; ao n&iacute;vel da est&eacute;tica e narrativa do filme, mas tamb&eacute;m na solu&ccedil;&atilde;o de problemas em situa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas. Recordo que no filme &quot;Dino e Django&quot; da Solveig, crie uma grua muito artesanal e numa determinada situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tinha acesso &agrave; c&acirc;mara, isto &eacute;, n&atilde;o podia ver a imagem. Fiz ent&atilde;o um visor electr&oacute;nico que me permitia ver a imagem, mas de uma forma muito rudimentar. No fundo era uma realiza&ccedil;&atilde;o pessoal, mas a outro n&iacute;vel, diz-se que &quot;a forma agu&ccedil;a o engenho e a necessidade cria&quot;, e eu sentia necessidade de equipamentos, mas como n&atilde;o os tinha, criava-os. Hoje ainda continuo a faz&ecirc;-lo, julgo que &eacute; o meu lado jovem, a manuten&ccedil;&atilde;o do meu sonho. E com este exerc&iacute;cio regresso &agrave; alegria da minha inf&acirc;ncia, s&atilde;o formas de estarmos bem, connosco...</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Sei que j&aacute; trabalhaste com digital. Gostaria de saber o que &eacute; que tu achas sobre as novas tecnologias e de que modo afectam o teu trabalho com director de fotografia?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>O cinema ao longo da sua historia teve v&aacute;rias evolu&ccedil;&otilde;es, com a descoberta dos Irm&atilde;os <i>Lumi&egrave;re, </i>o cinema come&ccedil;ou por ser um entretenimento de feira, com o seu lado m&aacute;gico, pois reproduzia o movimento, depois, verificou-se que isso poderia ir mais longe, como contar pequenas hist&oacute;rias. As c&acirc;maras mais evolu&iacute;das j&aacute; t&ecirc;m capacidade de levar rolos maiores, as &oacute;pticas foram sendo aperfei&ccedil;oadas, depois v&ecirc;m os <i>travellings, </i>as panor&acirc;micas .... no fundo a linguagem do cinema evoluiu pelo facto de haver necessidade de contar as hist&oacute;rias de uma forma diferente. Tivemos o cinema mudo, o sonoro e o cinema a preto e branco, tudo isto de uma forma mais ou menos pacifica. Para mim o cinema que nos influenciou a todos n&oacute;s foi o cinema mudo. Com o aparecimento do cinema a cores, houve uma reac&ccedil;&atilde;o diferente, pois com a cor no cinema, j&aacute; n&atilde;o h&aacute; uma distin&ccedil;&atilde;o ou separa&ccedil;&atilde;o do que &eacute; a realidade, o mist&eacute;rio do preto e branco acabou. Com o preto e branco era mais f&aacute;cil transportarmo-nos para um imagin&aacute;rio. A cor pelo contrario est&aacute; muito pr&oacute;ximo do realismo, mas rapidamente o cinema foi aceitando a diferen&ccedil;a, at&eacute; os filmes tinham o mesmo processo de constru&ccedil;&atilde;o, com a diferen&ccedil;a que a cor come&ccedil;ou a ser trabalhada de outras formas. Para mim a cor veio trazer uma mais valia para o cinema, pois seria mais um elemento de express&atilde;o narrativa.</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Quando come&ccedil;aste a trabalhar nos filmes a cores falavas com o realizador sobre pormenores que tu achasses importantes em rela&ccedil;&atilde;o ao <i>d&eacute;cor? </i>Ou era o decorador &eacute; que se ocupava sempre nestas quest&otilde;es?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Era mais quem fazia o <i>d&eacute;cor </i>que obedecia a outro tipo de informa&ccedil;&otilde;es, mas a cor e a sua utiliza&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou tamb&eacute;m a ter o seu tempo de aprendizagem. A pr&oacute;pria tecnologia da cor foi melhorando cada vez mais de forma a poder traduzir a cor real ou pelo contrario, no sentido de podermos alterar a cor segundo os objectivos desejados na est&eacute;tica do ilme, ou no interior da narrativa. E isso s&oacute; foi poss&iacute;vel quando come&ccedil;ou a haver todo um processo sobre a cor, ou seja, plano a plano serem equilibrados. Retirar ou introduzir dominantes, s&atilde;o processos que levaram muito tempo e que a meu ver, hoje, atingiram o seu grau de evolu&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima. Entretanto aparecem as novas tecnologias, que &eacute; o digital, mas que n&atilde;o interessou muito o cinema. S&oacute; a partir de uma determinada altura &eacute; que se come&ccedil;ou a mostrar interesse pelas novas tecnologias, por exemplo, quando as televis&otilde;es come&ccedil;aram a dominar o mercado do cinema e constataram que precisavam do cinema para preencher as suas horas de programa&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o os operadores de televis&atilde;o deram-se conta de que era importante estarem na produ&ccedil;&atilde;o dos filmes com pequenas participa&ccedil;&otilde;es que ajudavam imenso a produ&ccedil;&atilde;o. &Eacute; de tal modo grave e forte essa presen&ccedil;a que a partir de uma determinada altura nenhum ilme se fazia sem a participa&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o, participa&ccedil;&atilde;o essa, que se mant&eacute;m at&eacute; hoje, sobretudo falando do cinema portugu&ecirc;s.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com a evolu&ccedil;&atilde;o do digital e com os suportes de alta deini&ccedil;&atilde;o os proissionais come&ccedil;aram a ver que ainal, ilmar neste meio tamb&eacute;m poderia ser interessante e isso com custos muito mais baixos. No or&ccedil;amento de um filme o custo da pel&iacute;cula tinha uma valor muito importante, muitas vezes o or&ccedil;amento total do ilme era posto em causa, pois quanto mais se filmava maior iria ser o custo do laborat&oacute;rio. Com o aparecimento deste sistemas que, gravam em digital com um custo muito mais reduzido e com um processo similar ao da pel&iacute;cula...</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Achas que podemos comparar este cinema digital, onde poder&aacute; existir uma equipa reduzida com os filmes do in&iacute;cio da tua carreira?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, penso que &eacute; id&ecirc;ntico, porque quando eu fui para Tr&aacute;s-os-Montes com o Ant&oacute;nio Reis e a Margarida Cordeiro, e onde a equipa era constitu&iacute;da por mim, o Carlos Mena como assistente e o Jo&atilde;o Silva como electricista. &Iacute;amos todos numa carrinha, onde atr&aacute;s ia o equipamento o Ant&oacute;nio Reis a Margarida Cordeiro, a filha e Umbelina. Usava, neste filme uma c&acirc;mara Curtain, &Eacute;claire, um trip&eacute; e um gerador de 4 kilowatts, meia d&uacute;zia de pequenos projectores. Foi com este material que se fez o ilme. Neste ilme havia muita liberdade devido ao facto de a equipa ser muito reduzida e da&iacute; nos podermos deslocar a s&iacute;tios muito facilmente. Durante uma semana fomos h&aacute; mesma hora e ao mesmo local para filmar um plano. Hoje seria impens&aacute;vel fazer isso, a atitude pode ser a mesma, mas o suporte variou... O que por vezes se confunde &eacute; que pelo facto de se ter um suporte ligeiro, qualquer pessoa pode ilmar e isso &eacute; um erro, porque n&atilde;o se deve ilmar e realizar um ilme sem haver relex&atilde;o e esse &eacute; o grande risco. Da mesma maneira que tamb&eacute;m podia acontecer com a pel&iacute;cula, mas como esta &eacute; mais cara, obrig&aacute;vamo-nos a relectir na melhor utiliza&ccedil;&atilde;o desse recurso que era a pel&iacute;cula. Se o HD for utilizado com a mesma atitude com que se faz em cinema, podemos fazer um ilme com relex&atilde;o. N&atilde;o &eacute; o suporte que vai alterar o trabalho inal. At&eacute; se estivermos numa grande produ&ccedil;&atilde;o a atitude tem de ser a mesma. Agora p&otilde;em-se alguns problemas o que diz respeito &agrave; dura&ccedil;&atilde;o, isto &eacute; &agrave; longevidade do suporte de grava&ccedil;&atilde;o. Ainda n&atilde;o h&aacute; muita experi&ecirc;ncia, no inicio dizia-se que o digital &eacute; eterno, mas veriica-se que n&atilde;o &eacute; bem assim e hoje est&aacute;-se a chegar &agrave; conclus&atilde;o que o fotossens&iacute;vel dura muito mais se este estiver em boas condi&ccedil;&otilde;es de conserva&ccedil;&atilde;o, mas penso que nenhuma teoria &eacute; segura, porque &eacute; necess&aacute;rio viv&ecirc;-las, mas n&atilde;o h&aacute; a certezas... Sabemos que o cinema percorreu 50 ou 60 anos e que muitos suportes foram duradouros, em rela&ccedil;&atilde;o ao digital &eacute; tudo muito recente.</p>      <p>Banaliza-se o digital quando n&atilde;o h&aacute; uma reflex&atilde;o do que se vai fazer. Por exemplo h&aacute; condicionantes fortes ao n&iacute;vel da tradu&ccedil;&atilde;o dos valores luminosos que provocam comportamentos diferentes ao n&iacute;vel do digital e no fotossens&iacute;vel. A latitude de exposi&ccedil;&atilde;o no fotossens&iacute;vel &eacute; muito maior do que no digital, e uma vez conhecendo esse fen&oacute;meno &eacute; poss&iacute;vel obter toda a gama de valores crom&aacute;ticos, quer no digital, quer no fotossens&iacute;vel. O que &eacute; necess&aacute;rio &eacute; conhecer o comportamento do digital para trabalhar em conformidade. &Eacute; muito mais critico trabalhar em digital com luzes muito fortes. Portugal &eacute; um pa&iacute;s com forte valor lum&iacute;nico de luz, tem uma atmosfera sempre muito limpa devido aos ventos do atl&acirc;ntico. Por isso a luz &eacute; de grande intensidade e contrastes muito grandes.</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Achas que a luz de Portugal &eacute; mais dif&iacute;cil de filmar em compara&ccedil;&atilde;o com muitos pa&iacute;ses onde j&aacute; filmaste?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Nos pa&iacute;ses do norte a luz &eacute; sempre muito equilibrada, com uma luz muito doce, muito suave e por vezes a luz do interior &eacute; igual &agrave; do exterior. N&atilde;o temos grandes problemas de iluminar, isto mesmo durante o dia, quando &eacute; o inal do dia podemos passar do interior para o exterior pois n&atilde;o h&aacute; contraste. Aqui em Portugal, temos um c&eacute;u muito limpo e o sol directo provoca sombras muito densas com recortes muito grandes, mas que convenientemente podem ser utilizadas de uma forma de express&atilde;o art&iacute;stica, mas n&atilde;o h&aacute; uma fonte de luz artiicial que possa equilibrar essa luz. Quando trabalho em exterior trabalho com o sol tal como ele est&aacute;, posso eventualmente utilizar algum relector com um tamisador frente ao sol para suavizar, diminuindo a intensidade provocando alguma reverbera&ccedil;&atilde;o geral para que a luz seja mais doce, ou ent&atilde;o trabalho com grande contraste. Aqui em Portugal o digital n&atilde;o &eacute; bom, pois d&aacute;-se a alta luz e tamb&eacute;m n&atilde;o vai dar a baixa luz pois colocam-se grandes problemas. Apanhar o eixo do sol, a luz ica sem modela&ccedil;&atilde;o, portanto filmar a 45 graus talvez seja a situa&ccedil;&atilde;o melhor, mas se houver mais luz &eacute; necess&aacute;rio tamisar, isto &eacute;, por um tamisador, uma gaze branca, uma malha mais ou menos apertada que faz difundir a luz, dando-nos sombras menos n&iacute;tidas. Ao difundir a luz, ela provoca reverbera&ccedil;&otilde;es em todos os sentidos deixando de ser uma luz direccional, passando ser uma luz, dispersa, pulverizada. Assim, j&aacute; podemos com outro relector suavizar um bocadinho mais evitando o valor muito alto. Existem c&acirc;maras que comportam, isto &eacute;, fazer uma curva muito mais baixa de maneira que os picos n&atilde;o sejam t&atilde;o elevados.</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Voltando um pouco atr&aacute;s, quando fal&aacute;mos sobre a cor e a influ&ecirc;ncia no cinema de outras artes, como a pintura, tu como director de fotografia, achas que o cinema de agora abandonou ou n&atilde;o essa via?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, o cinema em determinado momento procurou aproximar-se da pintura e s&oacute; o pode fazer porque delimitava o seu espa&ccedil;o a um quadro. Dentro desse quadro organizava os v&aacute;rios elementos. S&oacute; que h&aacute; uma diferen&ccedil;a muito grande, primeiro o cinema n&atilde;o &eacute; s&oacute; express&atilde;o art&iacute;stica &eacute; tamb&eacute;m essencialmente uma express&atilde;o narrativa, &eacute; o contar de uma hist&oacute;ria e nem sempre podemos atender a todos os aspectos est&eacute;ticos em rela&ccedil;&atilde;o aos aspectos narrativos e isto porqu&ecirc;? Porque quando organizamos um quadro, e este &eacute; fixo n&oacute;s podemos por os valores e as linhas de for&ccedil;a, os equil&iacute;brios e a composi&ccedil;&atilde;o que entendermos, mas a partir do momento em que no interior do quadro h&aacute; um personagem que se desloca, cria-nos alguns problemas, pois a composi&ccedil;&atilde;o do quadro j&aacute; mudou. Ao deslocar-se ele vai desequilibrar todo o valor crom&aacute;tico da luz que existia, vai por exemplo criar sombras se ele estava iluminado, estas sombras podem ser boas esteticamente ou n&atilde;o. Tudo tem que ser considerado: onde ilmamos, quais s&atilde;o os movimentos do actor e como &eacute; que podemos por a luz de forma a que seja harmoniosa, isso &eacute; um aspecto para um quadro fixo.</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Ali&aacute;s isso &eacute; interessante porque &eacute; exactamente a grande diferen&ccedil;a entre a imagem ixa, a fotografia, e o cinema, porque tecnicamente tudo &eacute; igual.</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>A fotografia &eacute; o instant&acirc;neo, o momento, o cinema &eacute; mais do que isso, &eacute; a continuidade do momento. Se adicionarmos a este aspecto os movimentos de c&acirc;mara a&iacute; temos v&aacute;rios problemas. Como harmonizar constantemente um quadro que est&aacute; em movimento com actores no seu interior que se cruzam num <i>d&eacute;cor? </i>Como fazer isto tudo dando-lhe um valor est&eacute;tico? Em geral num filme ningu&eacute;m pensa nestes aspectos, pois o realizador diz sempre que isto &eacute; um trabalho do director de fotografia.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Abel Aboim: </b>Por isso &eacute; que &eacute; importante trabalhar com realizadores que tenham alguma no&ccedil;&atilde;o de como &eacute; que as coisas funcionam ao n&iacute;vel da imagem, porque h&aacute; realizadores que n&atilde;o t&ecirc;m essa no&ccedil;&atilde;o, sabem o que querem, mas a partir da&iacute; n&atilde;o sabem mais nada. Trabalhar com um realizador que tem alguma no&ccedil;&atilde;o facilita bastante.</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sem duvida. E depois p&otilde;em-se outros problemas, como a capacidade que as pessoas t&ecirc;m de se adaptar rapidamente a uma situa&ccedil;&atilde;o de improvisa&ccedil;&atilde;o e de n&atilde;o entrar em p&acirc;nico. Dominar a situa&ccedil;&atilde;o.</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Isto leva-me a pensar uma quest&atilde;o muito importante que &eacute; uma coisa essencial no cinema, &eacute; que o cinema &eacute; um trabalho de equipa e h&aacute; uma coisa que me fascina muito e sempre me fascinou na fotografia, &eacute; que o director de fotografia &eacute; tamb&eacute;m uma esp&eacute;cie de psic&oacute;logo porque tem que lidar com uma equipa que muitas vezes &eacute; muito vasta, para al&eacute;m de ter de colaborar com os outros sectores, a realiza&ccedil;&atilde;o, produ&ccedil;&atilde;o, montagem etc...</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>E estar &agrave; escuta do realizador, o que &eacute; que ele quer, e saber quando n&atilde;o diz nada saber o que ele pretende...</p>      <p><b>Abel Aboim: </b>Ora isto implica que um director de fotografia tenha a capacidade de se aperceber de tudo, a equipa, dos meios etc, que tenha uma coisa que eu sempre apreciei no Ac&aacute;cio, a calma, nem que esta seja aparente, porque se os directores de fotografia n&atilde;o controlarem o lado emocional deles e dos outros &eacute; o suficiente para estragar um filme.</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Sim, o director de fotografia &eacute; um chefe de equipa alargado a quem o realizador deposita confian&ccedil;a. Muitas vezes aconteceu-me o seguinte, o realizador dizia-me: &quot;vai iluminado enquanto eu escrevo a cena&quot;...</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>O cinema colectivo &eacute; poss&iacute;vel?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Teoricamente ele &eacute; poss&iacute;vel, mas na pr&aacute;tica n&atilde;o. Se envolve um grande n&uacute;mero de pessoas e a decis&atilde;o se estende a todas essas pessoas, chegamos a um momento em que o impasse &eacute; muito grande, porque nesse n&uacute;mero de pessoas haver&aacute; muita gente que tem uma vis&atilde;o diferente. Como fazer, como agir, como enquadrar tudo o que se relaciona com a <i>mise-en-sc&egrave;ne, </i>com os di&aacute;logos, com a posi&ccedil;&atilde;o da c&acirc;mara, como conjugar todos estes factores, para mim n&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s o 25 de Abril houve alguns filmes feitos com o r&oacute;tulo de trabalho colectivo e pode n&atilde;o estar desajustado esse r&oacute;tulo porque engloba a participa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias pessoas, mas s&atilde;o mais filmes de reportagem. No fundo, se analisarmos bem, houve um elemento aglutinador no inal que foi o montador. Quando avan&ccedil;amos para estruturas mais aprofundadas, a&iacute;, o que se costuma fazer &eacute; descentralizar e por vezes temos um filme com dois autores. Podemos dizer &eacute; que a participa&ccedil;&atilde;o num filme &eacute; que &eacute; sempre colectiva. Um filme colectivo pressup&otilde;e que todas as decis&otilde;es tenham sido tomadas em conjunto, quando na realidade n&atilde;o &eacute;. O colectivo d&aacute; a sua presta&ccedil;&atilde;o orientada pelo realizador.</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Podemos dizer que quando trabalhaste com o Ant&oacute;nio Reis era um cinema colectivo?</p>      <p><b>Ac&aacute;cio de Almeida: </b>Na altura, posso dizer que era colectivo, pois a experi&ecirc;ncia do Ant&oacute;nio Reis e da Margarida Cordeiro era pouca e apoiaram-se na experi&ecirc;ncia profissional que eu tinha. A direc&ccedil;&atilde;o ela existiu, na medida em que houve uma escolha de <i>d&eacute;cors, </i>houve uma escolha de actores, de uma hist&oacute;ria, inclusive e escolha de um director de fotografia, portanto ele &eacute;, o ilme, colectivo na medida em que sintetiza o trabalho de v&aacute;rias pessoas, mas mesmo se ouviram muitas opini&otilde;es minhas, n&atilde;o deixa de ser um trabalho com uma estrutura pessoal muito forte. Mesmo que eu tenha tido uma componente muito forte, o ilme &eacute; essencialmente uma ideia deles o dois, a forma como depois montaram. A minha participa&ccedil;&atilde;o nesse filme &eacute; muito grande, ao n&iacute;vel de procura de imagens... de tudo aquilo que &eacute; permitido a um director de fotografia que &eacute; ajudar o realizador a ultrapassar dificuldades t&eacute;cnicas que possa ter. A ideia, execu&ccedil;&atilde;o e trabalho inal compete-lhe a ele, sem d&uacute;vida.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O trabalho do director de fotografia &eacute; criativo de grande interesse na constru&ccedil;&atilde;o de um ilme, nem sempre &eacute; valorizado, mas que a meu ver nos &uacute;ltimos tempos tem ganho um protagonismo e relevo. Acho que o director de fotografia &eacute; um dos participantes na constru&ccedil;&atilde;o do ilme e que sobre ele cai a responsabilidade de que o trabalho dos outros esteja reflectido no ilme, pois &eacute; ele que sintetiza todo o trabalho t&eacute;cnico do filme, e ele tem que estar &agrave; altura de tudo isso valorizando todos as &aacute;reas de que &eacute; composto um ilme. Penso que o nosso trabalho deve ser reconhecido oficialmente. No que me toca, sinto-me gratificado no acto de fazer. Gratifica&ccedil;&atilde;o maior do que o vencimento que recebo &eacute; o acto de fazer, a satisfa&ccedil;&atilde;o que eu tenho por de tr&aacute;s de uma c&acirc;mara quando a c&acirc;mara come&ccedil;a a ilmar. Os actores a interpretar e onde se cria uma tens&atilde;o no <i>plateau, </i>um sil&ecirc;ncio, isso &eacute; um momento m&aacute;gico de que me alimentei muitos anos e que me acabou por viciar, sou um viciado nesse momento.</p>      <p>Depois para mim a partir do momento que o filme est&aacute; na lata j&aacute; me basta, mas &eacute; &oacute;bvio se o ilme mais tarde &eacute; bem sucedido ico muito satisfeito...</p>      <p><b>Raquel Rato: </b>Gostaria de agradecer aos dois por terem partilhado o vosso conhecimento nesta entrevista.</p>  <hr>      <p><font size="3"><b>Notas</b></font></p>      <p><sup><a name="num2"></a><a href="#nu2">2</a></sup> Ac&aacute;cio de Almeida, nasceu em S&atilde;o Jo&atilde;o da Pesqueira (Tr&aacute;s-os-Montes &eacute; a denomina&ccedil;&atilde;o de uma regi&atilde;o de Portugal, que, por diversas vezes constituiu uma prov&iacute;ncia, com limites e atribui&ccedil;&otilde;es, que foram variando ao longo da hist&oacute;ria. Foi tamb&eacute;m uma das regi&otilde;es administrativas da proposta de regionaliza&ccedil;&atilde;o rejeitada em Referendo em 1998. &Eacute; uma das regi&otilde;es de Portugal com maior n&uacute;mero de emigrantes e uma das que mais sofrem com o despovoamento. O seu isolamento secular permitiu por&eacute;m a sobreviv&ecirc;ncia de tradi&ccedil;&otilde;es culturais que marcam a identidade portuguesa. &Eacute;, por isso e pela sua beleza natural, um objecto fetiche do cinema portugu&ecirc;s). a 28 de Maio de 1938, num ambiente rural, rodeado de natureza. Sempre o fascinou a luz do fogo da lareira e as sombras que se formavam com essa luz. Era uma crian&ccedil;a feliz. Aos 8 anos descobriu o cinema, atrav&eacute;s de um projeccionista que andava pelas aldeias, o chamado cinema ambulante. Para ele a luz, &eacute; a mem&oacute;ria da sua inf&acirc;ncia, todo o seu trabalho &eacute; influenciado por ela. As imagens da sua inf&acirc;ncia, com as suas matizes, com as suas luzes marcaram-no na sua arte de iluminar.    <br>  <sup><a name="num3"></a><a href="#nu3">3</a></sup> Jo&atilde;o Abel Aboim n.1950, &eacute; director de fotografia e colaborou v&aacute;rias decadas na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa.    <br>  <sup><a name="num4"></a><a href="#nu4">4</a></sup> Ant&oacute;nio Reis (1927 —1991) foi um cineasta e poeta portugu&ecirc;s que se distingue pelo sentido po&eacute;tico da sua obra. &Eacute; um dos representantes no filme document&aacute;rio do movimento do Novo Cinema, que explora as t&eacute;cnicas do cinema directo.    <br>  <sup><a name="num5"></a><a href="#nu5">5</a></sup> Sinopse, &laquo;Lisboa, 1969. Origin&aacute;ria da alta burguesia, Marta, de vinte e poucos anos, abandona o marido, em busca de uma condi&ccedil;&atilde;o de vida mais aut&ecirc;ntica. Sabe o que repudia, mas sente-se confusa quanto ao que pretende. Hospedeira de terra, modelo de uma boutique, acaba por contactar V&iacute;tor Lopes, com problemas econ&oacute;micos. Trata-se de um contrabandista de baixo estofo, que um dia aparece morto no Tejo. Ser&aacute; culpa de Marta, devido a um descuido? Afinal, tamb&eacute;m para ela os dados est&atilde;o lan&ccedil;ados: continua s&oacute;, mas tamb&eacute;m mais l&uacute;cida e respons&aacute;vel...&raquo;. Jos&eacute; de Matos-Cruz (1999). <i>O Cais do Olhar - O Cinema Portugu&ecirc;s de Longa Metragem e Fic&ccedil;&atilde;o Muda, </i>Lisboa: Cinemateca Portuguesa: 140.    <br>  <sup><a name="num6"></a><a href="#nu6">6</a></sup> &Eacute; um cineasta e produtor portugu&ecirc;s, um dos iniciadores do Cinema Novo portugu&ecirc;s, tanto como realizador como produtor. Instala-se em Paris por volta de 1956, e estuda realiza&ccedil;&atilde;o no <i>Institut des Hautes &Eacute;tudes Cinematographiques </i>(IDHEC). Regressado a Portugal, assume fun&ccedil;&otilde;es directivas nos Servi&ccedil;os de Cinema da Direc&ccedil;&atilde;o de Geral do Ensino Prim&aacute;rio e dirige cursos de cinema na Mocidade Portuguesa. Em 1967 por falta de &ecirc;xito comercial dos filmes desse novo movimento, abandona por curto per&iacute;odo a produ&ccedil;&atilde;o e realiza Cine-Almanaque, jornal de actualidades cinematogr&aacute;ficas de que s&atilde;o exibidas doze edi&ccedil;&otilde;es. Nas d&eacute;cadas de 80/90 reinicia a actividade de produtor, contando desde essa data com mais de 50 pel&iacute;culas produzidas, de realizadores como Fonseca e Costa, Eduardo Geada, Joaquim Leit&atilde;o, Edgar P&ecirc;ra, Ant&oacute;nio de Macedo, Ant&oacute;nio Pedro Vasconcelos, entre v&aacute;rios telefilmes e co-produ&ccedil;&otilde;es internacionais.    <br>  <sup><a name="num7"></a><a href="#nu7">7</a></sup> A Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o portuguesa sem fins lucrativos criada com bens do mecenas Calouste Gulbenkian a partir de disposi&ccedil;&atilde;o testament&aacute;ria. Ap&oacute;s a sua morte, em 1955, legou os seus bens ao pa&iacute;s sob a forma de uma funda&ccedil;&atilde;o. A funda&ccedil;&atilde;o apoia muitas actividades culturais e possui uma orquestra, bibliotecas, um coro, salas de espect&aacute;culos e dois museus (arte antiga e contempor&acirc;nea) com cerca de seis mil pe&ccedil;as no seu acervo.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>  <sup><a name="num8"></a><a href="#nu8">8</a></sup> Esta imagem s&oacute; foi poss&iacute;vel gra&ccedil;as &agrave; criatividade de Ac&aacute;cio de Almeida. Era necess&aacute;rio fazer um plano em que a personagem espreitasse numa fechadura. Como a dificuldade era significativa, Ac&aacute;cio de Almeida recortou um cart&atilde;o preto e colocou-o &agrave; frente da objetiva da c&acirc;mara para recriar assim uma fechadura.</p>  </font>      ]]></body>
</article>
