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<journal-title><![CDATA[Revista Latinoamericana de Bioética]]></journal-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The article reflects on the process of globalization and the impacts of consumption in contemporary societies, establishing relationship between this phenomenon and the cultural and social processes of identity construction and in respect of ownership of the individual in these societies.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[No artigo se reflete sobre o processo de globalização e os impactos do consumo nas sociedades contemporâneas, relacionando esse fenômeno com os processos culturais e sociais de construção da identidade bem como com a noção de pertencimento nestas mesmas sociedades.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[   <font face="verdana" size=2>  <font size=4>     <p align="center"><b>A moralidade da globaliza&ccedil;&atilde;o</b></p></font>  <font size=3>     <p align="center"><b>LA MORALIDAD DE LA GLOBALIZACI&Oacute;N</b></p>     <p align="center"><b>THE MORALITY OF GLOBALIZATION</b></p> </font>     <p><b>Dora Porto*</b></p>     <p>*  Antrop&oacute;loga, especialista em bio&eacute;tica, doutora em Ci&ecirc;ncias da Sa&uacute;de pela Universidade de Bras&iacute;lia, Distrito Federal, Brasil. &Eacute; editora executiva da <i>Revista Bio&eacute;tica do Conselho Federal de Medicina Brasileiro </i>(CFM) e assessora da Rede Latinoamericana e do Caribe de Bio&eacute;tica, da UNESCO. Endere&ccedil;o postal: SQS 204, bloco G, apto. 205, Bras&iacute;lia, Distrito Federal, Brasil. CEP 70234-070. Endere&ccedil;o eletr&ocirc;nico: <a href="mailto:doraporto@gmail.com">doraporto@gmail.com</a></p>      <p><b>Fecha Recepci&oacute;n: Abril 13 de 2010    <br> Concepto Evaluaci&oacute;n: Junio 4 de 2010    <br> Fecha Aceptaci&oacute;n: Noviembre 9 de 2010</b></p>  <hr>      <p><b>RESUMO</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No artigo se reflete sobre o processo de globaliza&ccedil;&atilde;o e os impactos do consumo nas sociedades contempor&acirc;neas, relacionando esse fen&ocirc;meno com os processos culturais e sociais de constru&ccedil;&atilde;o da identidade bem como com a no&ccedil;&atilde;o de pertencimento nestas mesmas sociedades.</p>      <p><b>Palavras Chave</b></p>      <p>Bio&eacute;tica, consci&ecirc;ncia, ego, &eacute;tica, moral.</p> <hr>     <p><b>RESUMEN</b></p>      <p>El art&iacute;culo reflexiona sobre el proceso de la globalizaci&oacute;n y los impactos del consumo en las sociedades contempor&aacute;neas, estableciendo relaci&oacute;n entre este fen&oacute;meno y los procesos culturales y sociales de la construcci&oacute;n de la identidad as&iacute; como respecto del sentido de pertenencia del individuo en estas mismas sociedades.</p>      <p><b>Palabras Clave</b></p>      <p>Conciencia, Ego, &Eacute;tica Moral, Bio&eacute;tica.</p>  <hr>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>The article reflects on the process of globalization and the impacts of consumption in contemporary societies, establishing relationship between this phenomenon and the cultural and social processes of identity construction and in respect of ownership of the individual in these societies.</p>      <p><b>Key Words</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Consciousness, Ego, Moral, Ethics, Bioethics.</p>  <hr>      <blockquote>     <p><i>A ind&uacute;stria moderna transformou a pequena oficina do mestre-artes&atilde;o patriarcal na grande f&aacute;brica do capitalista industrial. Massas de oper&aacute;rios, aglomerados nas f&aacute;bricas, s&atilde;o organizadas militarmente. Como simples soldados da ind&uacute;stria, s&atilde;o postos sob a vigil&acirc;ncia de uma completa hierarquia de suboficiais e oficiais. N&atilde;o s&atilde;o apenas servos da classe burguesa, do Estado burgu&ecirc;s, mas s&atilde;o tamb&eacute;m, a cada dia e a cada hora, escravizados pela m&aacute;quina, pelo capataz e sobretudo pelo singular burgu&ecirc;s fabricante em pessoa. Tal despotismo &eacute; t&atilde;o mais mesquinho, odioso e exasperador quanto mais abertamente proclama ser o lucro seu objetivo &uacute;ltimo. </i>Marx &amp; Engels (2001: 52)</p> </blockquote>      <p>Falar sobre a globaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma tarefa f&aacute;cil. Afinal, desde que se constatou o surgimento do fen&ocirc;meno, bilh&otilde;es de palavras em milhares de textos t&ecirc;m buscado explic&aacute;-lo. Complica a tarefa, o prop&oacute;sito deste trabalho, que &eacute; discorrer sobre a moralidade que subjaz e condiciona a reprodu&ccedil;&atilde;o da globaliza&ccedil;&atilde;o, que vai al&eacute;m da simples descri&ccedil;&atilde;o e do apontar seus efeitos e consequ&ecirc;ncias na realidade.</p>      <p>As informa&ccedil;&otilde;es levantadas sobre o assunto mostraram-se bastante contradit&oacute;rias. Uma parte dos trabalhos aplaude o fen&ocirc;meno, considerando-o o &aacute;pice da conquista tecnol&oacute;gica, capaz de suprimir arcaicos limites de tempo e espa&ccedil;o; obst&aacute;culos dados pela natureza, que sempre dificultaram as trocas humanas. Em contrapartida, uma grande quantidade de textos critica a globaliza&ccedil;&atilde;o referindo-se a ela como processo excludente, que maximiza as assimetrias sociais, enfatizando as desigualdades entre pessoas, grupos, segmentos, popula&ccedil;&otilde;es e, at&eacute; mesmo, entre pa&iacute;ses, que decorre de seu potencial para produzir e ter acesso &agrave;s ferramentas que permitem a inser&ccedil;&atilde;o, de fato, no contexto globalizado (Santos, 2006).</p>      <p>Para boa parte dos ide&oacute;logos, os que acreditam na ideia de progresso, a globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; vista como fen&ocirc;meno extremamente positivo. Uma expans&atilde;o do mercado, <i>que &eacute; o novo nome do capitalismo </i>(como, ironicamente, aponta Eduardo Galeano), capaz de alcan&ccedil;ar toda a Terra que, assim, se interliga por redes reais e virtuais de trocas: de informa&ccedil;&otilde;es, produtos e servi&ccedil;os. Tal aparato indicaria a liberta&ccedil;&atilde;o dos seres humanos de seus limites e conting&ecirc;ncias naturais, possibilitando-lhes al&ccedil;ar voo em dire&ccedil;&otilde;es at&eacute; ent&atilde;o insuspeitadas. Entretanto, para aqueles que ainda teimam em perceber as consequ&ecirc;ncias sociais da vida econ&ocirc;mica e cultural, a globaliza&ccedil;&atilde;o estaria revelando um lado mais nefasto: a dissolu&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o sob a &eacute;gide do consumidor, personagem com poder supremo nessa nova ordem (Bauman, 2008). Para estes ide&oacute;logos, a corrida pelo lucro apequenou o ser humano tornando-o ref&eacute;m do mercado (Chomsky, 1999; Bauman, 2008; Santos, 2006).</p>      <p>Essas duas perspectivas t&ecirc;m em comum a tecnologia. Endeusada ou demonizada, &eacute; o ponto de contato desta dial&eacute;tica. Por&eacute;m, embora as transforma&ccedil;&otilde;es na percep&ccedil;&atilde;o e modos de vida tenham sido gritantes sob o impacto da tecnologia que engendrou a globaliza&ccedil;&atilde;o, sua moralidade n&atilde;o difere basicamente daquela que caracteriza a era que a precedeu: a industrializa&ccedil;&atilde;o. Ambas visam o lucro. A diferen&ccedil;a entre elas &eacute;, principalmente, uma quest&atilde;o de escala.</p>      <p>Como apontam Marx e Engels (2001: 52), a industrializa&ccedil;&atilde;o trouxe a dissolu&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o local e dos modos de vida a ela relacionados. A globaliza&ccedil;&atilde;o acentua esse processo estendendo-o a (quase) todo o planeta. Aniquila as fronteiras dos estados nacionais, que se revertem em simples espa&ccedil;o prop&iacute;cio &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o das ind&uacute;strias (Muraro, 1993), conforme se comprometam a garantir o maior lucro, pelo fornecimento de m&atilde;o de obra barata, por legisla&ccedil;&otilde;es que assegurem a mais valia, pela isen&ccedil;&atilde;o de impostos e pelo transporte r&aacute;pido e seguro das mercadorias.</p>      <p>De fato, a tecnologia de comunica&ccedil;&atilde;o e transporte, desenvolvida no s&eacute;culo XX, parece um n&iacute;tido divisor de &aacute;guas, que inaugurou uma era marcada por mudan&ccedil;as que se processam em velocidade exponencial (Muraro, 1991; Santos, 2006). No mundo real, pessoas e coisas s&atilde;o levadas a todas as partes do planeta em velocidade at&eacute; muito pouco tempo atr&aacute;s inimagin&aacute;vel. No espa&ccedil;o virtual, as vozes, a palavra escrita e as imagens materializam-se &agrave; dist&acirc;ncia, obliterando o contorno das potencialidades humanas, que circunscreviam a proximidade ao alcance do olhar e da voz, cujo ressoar poderia transpor, no m&aacute;ximo, &agrave; dist&acirc;ncia na qual se propaga um grito. O capital, essa entidade abstrata que identificamos com a riqueza e o papel moeda, tamb&eacute;m trafega nessa onda virtual propiciada pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, tornando-se mais vol&aacute;til do que nunca. Na verdade, a l&oacute;gica do capital tem configurado o substrato para todas as transforma&ccedil;&otilde;es possibilitadas pela tecnologia.</p>      <p>Mas, para ter a certeza sobre a pertin&ecirc;ncia de tomar a identidade entre a industrializa&ccedil;&atilde;o e a globaliza&ccedil;&atilde;o, como hip&oacute;tese heur&iacute;stica, e definir que ambos reproduzem a mesma moralidade, o lucro a qualquer pre&ccedil;o, h&aacute; que apontar outros elementos comuns que permitam tal identifica&ccedil;&atilde;o. O fato dos dois processos derivarem do surgimento da economia de escala, do desenvolvimento de t&eacute;cnicas de produ&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie, parece estabelecer a necess&aacute;ria interface econ&ocirc;mica entre eles, al&eacute;m de apontar a unicidade no pr&oacute;prio modo de produ&ccedil;&atilde;o (Muraro, 1991 ; Santos, 2006). Pela perspectiva da Hist&oacute;ria, tamb&eacute;m se poderia pressupor que se trata de um mesmo e &uacute;nico processo, um <i>continuum </i>temporal que vem se desenvolvendo e consolidando ao longo dos &uacute;ltimos dois s&eacute;culos (Muraro, 1991; Santos, 2006). A Geografia corrobora tal pressuposto associando tanto a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial quanto a globaliza&ccedil;&atilde;o ao maci&ccedil;o deslocamento populacional para as cidades e &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es da&iacute; resultantes (Muraro, 1991; Santos, 2006). Portanto, desde qualquer dessas perspectivas, pode-se pensar industrializa&ccedil;&atilde;o e globaliza&ccedil;&atilde;o como etapas de um mesmo processo, resultante da intensifica&ccedil;&atilde;o da economia de escala.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se a industrializa&ccedil;&atilde;o acentuou o &ecirc;xodo rural, atraindo milhares &agrave;s cidades, sob a globaliza&ccedil;&atilde;o esse fen&ocirc;meno se intensificou. A vida urbana alterou definitivamente sua caracter&iacute;stica relacional e o espa&ccedil;o deixou de ser partilhado por todos, passando a ser dividido entre desconhecidos. Nesse contexto, a ideia de coletividade vai ruindo lentamente, deixando de remeter-se um todo articulado (Bourdieu, 1998). As refer&ecirc;ncias culturais aut&oacute;ctones se perdem, submergindo sob o impacto avassalador dos novos comportamentos de massa, instilados pela globaliza&ccedil;&atilde;o. A exist&ecirc;ncia nessas condi&ccedil;&otilde;es abre o flanco ao dom&iacute;nio do mercado globalizado que, onipresente, imp&otilde;e-se como poder absoluto.</p>      <p>O individualismo floresceu nesse deserto relacional, no qual pequenas fam&iacute;lias nucleares tentam manter seus la&ccedil;os, que se afrouxam dia-a-dia, corro&iacute;dos pela aliena&ccedil;&atilde;o viciosa dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Os processos de constru&ccedil;&atilde;o de identidade at&eacute; ent&atilde;o vigentes, baseados em sexo, idade, rela&ccedil;&otilde;es de parentesco, tamb&eacute;m foram alterados e vem deixando, paulatinamente, de fazer sentido, especialmente naquelas sociedades em que o acesso &agrave; tecnologia e ao consumo &eacute; amplo e irrestrito.</p>      <p>Apontei em trabalhos anteriores a rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca entre tecnologia e ideologia (Porto, 2006). Como a tecnologia &eacute; produzida pelo mercado, seu uso perpetua a ideologia que a enseja. Ao olhar o uso podemos ver nitidamente as caracter&iacute;sticas da moralidade que est&aacute; sendo forjada. Evidencia-se, assim, como o uso da tecnologia constr&oacute;i a realidade social da globaliza&ccedil;&atilde;o: pelo aumento da desigualdade de direitos entre popula&ccedil;&otilde;es humanas ou pela garantia desses mesmos direitos para todos. &Eacute; justamente esse t&oacute;pico que exploro nesse texto: o ponto no qual a tecnologia se transforma em ideologia pela a&ccedil;&atilde;o humana.</p>      <p><b>GLOBALIZA&Ccedil;&Atilde;O: UMA ENTIDADE ABSTRATA?</b></p>      <p>Se &eacute; dif&iacute;cil entender um processo no momento mesmo em que o estamos experimentando, muito mais complicado &eacute; tentar deslindar as raz&otilde;es que determinam os ju&iacute;zos morais, a ele subjacentes. Como ocorre com a globaliza&ccedil;&atilde;o. Sentimos seus efeitos na realidade cotidiana e at&eacute; percebemos o quanto a tecnologia reconfigura os limites dessa realidade, mas somos quase incapazes de articular a liga&ccedil;&atilde;o entre as circunst&acirc;ncias que experimentamos e os fatos que cotidianamente nos s&atilde;o apresentados em profus&atilde;o. Assim, cada um de n&oacute;s tem a n&iacute;tida sensa&ccedil;&atilde;o de que nossa a&ccedil;&atilde;o individual perde-se num oceano no qual somos apenas part&iacute;culas d'&aacute;gua, sem maior poder ou express&atilde;o. Projetamos a ideia de que a globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma entidade abstrata que se conforma al&eacute;m de nossa a&ccedil;&atilde;o individual. Acreditamos piamente que opera independente de nossa vontade e alheia &agrave; nossa determina&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>Entretanto, essa sensa&ccedil;&atilde;o pode n&atilde;o refletir exatamente a verdade. Para provocar a reflex&atilde;o sobre at&eacute; que ponto, em nossa a&ccedil;&atilde;o cotidiana, n&oacute;s reproduzimos as estruturas sociais (e, nesse caso a globaliza&ccedil;&atilde;o), costumo perguntar em sala de aula se o impacto de uma bomba de n&ecirc;utrons, que elimina os seres vivos, mas mant&eacute;m intactas as estruturas da mat&eacute;ria inorg&acirc;nica, as cidades e outras constru&ccedil;&otilde;es humanas, manteria a sociedade existindo. Obviamente, diante desse exemplo extremo, os alunos come&ccedil;am a vislumbrar que, de alguma forma, somos n&oacute;s mesmos os articuladores da vida social. N&atilde;o os espa&ccedil;os constru&iacute;dos para representar o poder institu&iacute;do nem alguma for&ccedil;a superior e abstrata. Somos n&oacute;s que ensejamos a globaliza&ccedil;&atilde;o, com suas dores e del&iacute;cias.</p>      <p>Mas, como j&aacute; mostrou o Existencialismo, escolher e sentir-se respons&aacute;vel pelas escolhas pode n&atilde;o ser um processo f&aacute;cil (Sartre, 2002). Por isso a consci&ecirc;ncia refuga admitir tal verdade. Ao contr&aacute;rio, &eacute; muito mais tranquilo atribuir os problemas que observamos na realidade a alguma entidade maior, processo que nos desculpa por nossas escolhas, alimentadas por um poss&iacute;vel ego&iacute;smo ou por falhas pessoais. Fazemos isso h&aacute; mil&ecirc;nios, projetando responsabilidade e culpa pelo resultado de nossas escolhas nas mais diversas entidades divinas. Da mesma forma nos reportamos &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o, a qual, por comodidade, vemos como um processo alheio aos nossos atos e inten&ccedil;&otilde;es, como uma entidade fantasmag&oacute;rica capaz de materializar-se no mundo por gera&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea.</p>      <p>Devido a essa capacidade de desonerar-se da responsabilidade pelas escolhas cotidianas, cada um de n&oacute;s pode construir um papel social alienado, em maior ou menor grau. Por conseguinte, podemos criticar a globaliza&ccedil;&atilde;o como arautos do &quot;bom mocismo&quot;: subir ao p&uacute;lpito e discorrer &agrave; vontade sobre os efeitos desagrad&aacute;veis do fen&ocirc;meno com a sanha daqueles que se sabem inc&oacute;lumes. Quem, dentre n&oacute;s, ousaria culpar um &uacute;nico indiv&iacute;duo pelas sequelas sociais e ambientais da globaliza&ccedil;&atilde;o? Como nenhum de n&oacute;s imagina que possa resolver esses problemas (porque, isoladamente, n&atilde;o pode), n&atilde;o nos sentimos admoestados ou amea&ccedil;ados pela critica nem atentamos ao fato de que podemos estar nos eximindo de nossa responsabilidade.</p>      <p>Entretanto, as vozes dos arautos da globaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vacilam em culpabilizar os indiv&iacute;duos pelas desigualdades sociais e pela devasta&ccedil;&atilde;o do ambiente. Estes mesmos indiv&iacute;duos, perdidos uns dos outros pela aus&ecirc;ncia de coletivo, devolvem a culpa &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o, atribuindo-lhe todas as mazelas. Assim, instaura-se um ciclo vicioso no qual ningu&eacute;m &eacute; respons&aacute;vel por nada: nem a entidade abstrata nem a pessoa concreta. Disso resulta que as admoesta&ccedil;&otilde;es para alterar esse estado de coisa caiam no vazio, o que leva &agrave; sensa&ccedil;&atilde;o de impot&ecirc;ncia e ao constante aumento dos danos infligidos. Como esse fen&ocirc;meno faz com que cada um de n&oacute;s sinta-se &quot;apenas um reles indiv&iacute;duo&quot;, somos todos igualmente tentados a encobrimo-nos sob pacto de mediocridade, que nos exime de nossas responsabilidades e escancara as portas para o deleite das maravilhas tecnol&oacute;gicas, que proliferam dia a dia no mercado. Quase sem culpa.</p>      <p>Vez por outra, entretanto, esse para&iacute;so narc&iacute;sico que estimula nosso contentamento pelo consumo cotidiano &eacute; amea&ccedil;ado. Um pedinte em um sinal, uma fam&iacute;lia toscamente acampada sob um pl&aacute;stico, a not&iacute;cia de uma queimada ou devasta&ccedil;&atilde;o de propor&ccedil;&otilde;es &iacute;mpares rompem a tela em que projetamos a realiza&ccedil;&atilde;o de nossos desejos (Schultz, 1979). Percebemos, ainda que de forma fugaz, que h&aacute; &quot;muita coisa errada&quot;, e nos movemos incomodados em nossas poltronas, esbo&ccedil;ando gestos de horror e desagrado, at&eacute; que o sonho com uma nova e irresist&iacute;vel maravilha venha a eclipsar outra vez a consci&ecirc;ncia.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esse processo, amparado pelo mercado, faz de n&oacute;s crian&ccedil;as felizes em um parque de divers&otilde;es. Podemos consumir a vontade porque alimentamos a certeza de que com isso movemos o mundo: asseguramos os postos do mercado de trabalho e salvamos a economia da bancarrota. Essa cren&ccedil;a transforma a irrever&ecirc;ncia com que tratamos a sustentabilidade do planeta em um ato, quase, her&oacute;ico. Podemos tamb&eacute;m brincar de criticar aspectos pontuais da globaliza&ccedil;&atilde;o e do desenvolvimento tecnol&oacute;gico, j&aacute; que tais cr&iacute;ticas n&atilde;o implicam, necessariamente, adotar uma atitude coerente no cotidiano. Afinal, nenhum de n&oacute;s tem &quot;culpa&quot; de nada, n&atilde;o &eacute; mesmo? Sabemos que ningu&eacute;m pode ser respons&aacute;vel por aquilo que no fundo n&atilde;o deseja. Mas, o que a gente n&atilde;o sabe (e que n&atilde;o quer de forma alguma saber) &eacute; que somos respons&aacute;veis - sim - por nossos desejos e pelas escolhas que fazemos a cada instante para torn&aacute;-los realidade palp&aacute;vel.</p>      <p><b>IDENTIDADE E PERTENCIMENTO</b></p>      <p>Assim como outros mam&iacute;feros superiores os seres humanos identificam-se a si mesmos e s&atilde;o capazes de construir uma identidade social. Para tanto, caracter&iacute;sticas derivadas de atributos org&acirc;nicos, como sexo e idade, ou sociais, como a posi&ccedil;&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es de parentesco ou entre os membros do grupo, mesclam-se para definir a situa&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo no coletivo no qual vive e interage. A estas caracter&iacute;sticas pessoais e sociais &eacute; atribu&iacute;do um valor que as hierarquiza, organizando a visa social. A conjun&ccedil;&atilde;o desses valores &eacute; o que define o <i>status </i>e o <i>poder </i>do indiv&iacute;duo na dimens&atilde;o coletiva.</p>      <p>Obviamente, o valor atribu&iacute;do a cada caracter&iacute;stica em cada esp&eacute;cie, sociedade ou grupo, decorre de uma escolha individual e coletiva por determinado tra&ccedil;o, biol&oacute;gico ou cultural, que por este processo se propaga intergeracionalmente. Dessa forma, as escolhas se transformam em comportamento, do indiv&iacute;duo, grupo, sociedade ou esp&eacute;cie, e produzem impacto na realidade.</p>      <p>Ainda que possa haver d&uacute;vidas a respeito das capacidades simb&oacute;licas de outras esp&eacute;cies, j&aacute; que nos aferramos a nosso antropocentrismo, sabe-se que ao menos para os seres humanos a identidade n&atilde;o &eacute; constru&iacute;da apenas por estes signos diretamente relacionados &agrave; corporeidade, como sexo e idade, nem por aqueles que adv&eacute;m da dimens&atilde;o relacional, como os expressados pelas rela&ccedil;&otilde;es de parentesco. Para n&oacute;s, todos os signos de identidade e pertencimento s&atilde;o tamb&eacute;m oriundos da esfera simb&oacute;lica, descolados da realidade sens&iacute;vel e impregnados por valores aleat&oacute;rios e arbitr&aacute;rios, delineados pela cultura.</p>      <p>A possibilidade de construir as no&ccedil;&otilde;es de identidade e pertencimento pela significa&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica distancia os seres humanos da dimens&atilde;o estritamente funcional, dada pela natureza, a qual, na maior parte das vezes, &eacute; adstrita a tais par&acirc;metros org&acirc;nicos ou &agrave;queles relacionais, destes derivados. Resignificando esses par&acirc;metros e, principalmente, estabelecendo novas vari&aacute;veis para definir identidade e pertencimento, a capacidade de simbolizar enseja a pluralidade &agrave; medida que admite interpreta&ccedil;&otilde;es distintas do real, que n&atilde;o est&atilde;o inscritas na realidade corp&oacute;rea do indiv&iacute;duo, manifesta por sua for&ccedil;a f&iacute;sica ou vitalidade, nem subjugadas a sua posi&ccedil;&atilde;o social, especialmente quando esta &eacute; delineada apenas por sua situa&ccedil;&atilde;o de nascimento, pelo <i>status </i>social de seus ascendentes ou pela conflu&ecirc;ncia desses dois conjuntos de significantes. Por isso, ainda que se encontre diferen&ccedil;as relevantes no comportamento das formigas em T&oacute;kio ou na Amaz&ocirc;nia, com certeza elas n&atilde;o ser&atilde;o t&atilde;o grandes como as que se observa entre os seres humanos que vivem nesses mesmos lugares.</p>      <p>Ao longo da hist&oacute;ria humana, a capacidade eleger par&acirc;metros para construir as no&ccedil;&otilde;es de identidade e pertencimento sempre esteve relacionada &agrave; t&eacute;cnica, que pode ser definida, grosso modo, como uma forma cultural de interagir na realidade. Conchas, objetos de arte plum&aacute;ria, pontas de flecha, contas, tatuagens e pinturas, v&ecirc;m sendo usadas em ornamentos e utens&iacute;lios que identificam indiv&iacute;duos e marcam na dimens&atilde;o sens&iacute;vel as fronteiras identit&aacute;rias entre grupos e segmentos. Pode-se dizer, portanto, que a t&eacute;cnica permite que as distin&ccedil;&otilde;es entre pessoas se manifestem na dimens&atilde;o material como signos de <i>poder e status. </i>Ela tanto recorta as diferen&ccedil;as quanto costura a identidade simb&oacute;lica do indiv&iacute;duo e do grupo social.</p>      <p>Da mesma forma que a t&eacute;cnica vem sendo utilizada para marcar a identidade e o pertencimento seu suced&acirc;neo hodierno - a tecnologia -, tamb&eacute;m confere distin&ccedil;&atilde;o entre pessoas e grupos humanos, possibilitando a cria&ccedil;&atilde;o de tais par&acirc;metros. A principal diferen&ccedil;a entre os processos permeados pela t&eacute;cnica e os cunhados pela tecnologia reside no que os produtos da primeira s&atilde;o circunscritos &agrave; determinada conjuntura cultural, espacial e temporal, enquanto aqueles providos pela segunda, a tecnologia, perpassam culturas e sociedades, criando novos par&acirc;metros para a identifica&ccedil;&atilde;o entre as pessoas. Essa &eacute; uma das caracter&iacute;sticas do fen&ocirc;meno identificado como globaliza&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>Esse processo alternativo de constru&ccedil;&atilde;o da identidade e dos la&ccedil;os de pertencimento torna-se mais acentuado porque os crit&eacute;rios tradicionais que modulavam estes dois par&acirc;metros de identifica&ccedil;&atilde;o v&ecirc;m se esfacelando ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Nesse contexto, idade, sexo e rela&ccedil;&otilde;es de parentesco deixam gradativamente de ter qualquer import&acirc;ncia e mais, perdem at&eacute; mesmo o sentido, num mundo reconfigurado pelos ditames das escolhas do consumo. Persistem ainda, em certa medida, as identidades nacionais, que acabam por reafirmarem-se como justificativas xen&oacute;fobas para a reserva de mercado de trabalho que, em primeira e &uacute;ltima inst&acirc;ncia, assegura ao indiv&iacute;duo o dinheiro que, por sua vez, permite participar do mundo globalizado.</p>      <p>Nesse contexto de decomposi&ccedil;&atilde;o dos par&acirc;metros identit&aacute;rios tradicionais, a sabedoria, usualmente associada &agrave; idade, deixa de ser peculiaridade desta, especialmente quando as transforma&ccedil;&otilde;es introduzidas pela tecnologia alteram t&atilde;o profundamente as caracter&iacute;sticas das rela&ccedil;&otilde;es com o ambiente e das inter-rela&ccedil;&otilde;es humanas, que a experi&ecirc;ncia amealhada ao longo de toda uma vida passa a n&atilde;o mais fazer sentido face &agrave;s dram&aacute;ticas e recentes transforma&ccedil;&otilde;es da realidade. Ao contr&aacute;rio, a velhice se desenha como um est&aacute;gio de progressivo abandono, no qual a pessoa &eacute; despossu&iacute;da de suas capacidades por n&atilde;o conhecer ou conseguir lidar com o aparato tecnol&oacute;gico. Na era do novo &eacute; o jovem que comanda o espet&aacute;culo e as pessoas idosas esfor&ccedil;am-se arduamente para anular a dist&acirc;ncia que as separa dos mais novos. Lutam para suprimir a diferen&ccedil;a et&aacute;ria, agora classificada como desvantagem. Escondem, o quanto podem, as marcas da idade em seus corpos, numa tentativa v&atilde; de adequar-se aos padr&otilde;es de consumo, buscando tornarem-se, elas pr&oacute;prias, objetos de desejo nas prateleiras do mercado (Bauman, 2008).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De maneira menos dram&aacute;tica, mas igualmente impactante, tamb&eacute;m o sexo vem deixando de ser uma marca identit&aacute;ria essencial. Ainda que persista a configura&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica de divis&atilde;o de poder e status da humanidade, seccionada entre homens e mulheres, que carregam pap&eacute;is de g&ecirc;nero, atributos e responsabilidades desiguais, tal dicotomia tem se tornado menos determinante, transfigurada pelos novos pap&eacute;is femininos na esfera p&uacute;blica e novos pap&eacute;is masculinos no &acirc;mbito dom&eacute;stico. Contribui tamb&eacute;m para desintegrar o par&acirc;metro identit&aacute;rio calcado sobre o sexo biol&oacute;gico a emerg&ecirc;ncia das sexualidades m&uacute;ltiplas, homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis e transg&ecirc;nero, que nublam a fixidez paralisante da perspectiva tradicional e, ao mesmo tempo, instauram novos conflitos e frentes de confronto.</p>      <p>Quanto ao marco identit&aacute;rio derivado das rela&ccedil;&otilde;es de parentesco, n&atilde;o &eacute; preciso nem formular maiores explica&ccedil;&otilde;es. Se aqueles com mais idade ou oriundos de localidades menores podem lembrar-se de j&aacute; ter ouvido a pergunta &quot;a qual fam&iacute;lia algu&eacute;m pertence&quot;, indaga&ccedil;&atilde;o capaz de assinalar inequivocamente a boa ou m&aacute; posi&ccedil;&atilde;o desse algu&eacute;m na escala social, recordar&atilde;o tamb&eacute;m que j&aacute; faz muito tempo que n&atilde;o ouvem tal questionamento, que perdeu inteiramente seu sentido de filtro. Tal par&acirc;metro identit&aacute;rio s&oacute; faz sentido em contextos onde as pessoas se conhecem e podem exercitar a censura ou o louvor frente &agrave; posi&ccedil;&atilde;o dos demais na escala social.</p>      <p>Paralelo &agrave; desconstru&ccedil;&atilde;o desses marcos identit&aacute;rios tradicionais, o processo de industrializa&ccedil;&atilde;o e, principalmente, a globaliza&ccedil;&atilde;o, vem dando &agrave; luz outras formas de construir a identidade e a no&ccedil;&atilde;o de pertencimento. Baseadas no mercado, essas formas derivam do consumo de produtos/signos que simbolizam a identidade e o pertencimento a um grupo. Fortemente associados a uma identidade que poderia ser tomada como sendo de classe, mas que exprime apenas riqueza, esses signos marcam a possibilidade de consumir e a liberdade para projetar no mundo uma determinada imagem de si &eacute;, em si, a imagem desse mesmo mundo.</p>      <p>Como podem ser incorporados ao sabor do desejo, desde que se tenha o capital para adquiri-los, esses signos s&atilde;o tomados como sinal inequ&iacute;voco de autonomia e independ&ecirc;ncia. Por n&atilde;o estarem inexoravelmente colados aos atributos f&iacute;sicos da pessoa, mas, ao contr&aacute;rio, ressignificarem inclusive tais atributos, abrindo outras possibilidades de interpreta&ccedil;&atilde;o, os signos identit&aacute;rios oriundos do mercado passaram a ser vistos como express&otilde;es inequ&iacute;vocas da liberdade de escolha: da possibilidade que o mercado faculta a qualquer um de al&ccedil;ar-se sobre os determinantes tradicionais que biologia e cultura lhe impuseram. Qualquer pessoa pode ousar ser o que quiser, desde que disponha de capital para adquirir a imagem que quer projetar de si mesmo.</p>      <p>A consolida&ccedil;&atilde;o desses novos par&acirc;metros identit&aacute;rios ap&oacute;ia-se fortemente na ideia de <i>marca. </i>Consequ&ecirc;ncia do uso do nome do fabricante para a identifica&ccedil;&atilde;o dos produtos, a marca &eacute; uma cria&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XX que alterou totalmente os crit&eacute;rios de identifica&ccedil;&atilde;o de qualidade que, tamb&eacute;m pela tradi&ccedil;&atilde;o, associavam-se &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e comercializa&ccedil;&atilde;o. Pela perspectiva tradicional o valor das coisas era atribu&iacute;do &agrave; escassez do produto. &Eacute; isso que ensina a economia cl&aacute;ssica. Essa escassez podia decorrer tanto da pouca disponibilidade de mat&eacute;ria prima quanto da dificuldade de trabalh&aacute;-la para empreender a produ&ccedil;&atilde;o. Com o surgimento da ideia de marca, esse processo se alterou e o produto passou a ser valorizado n&atilde;o como decorr&ecirc;ncia desses atributos essenciais, como a mat&eacute;ria prima da qual &eacute; feito, mas como consequ&ecirc;ncia do prest&iacute;gio da marca daquele que o fabricou.</p>      <p>Embora esse processo se estenda a todos os ramos e setores da economia globalizada, pode ser percebido com mais clareza na confec&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio, no mut&aacute;vel e efervescente mundo da moda. Antes da inven&ccedil;&atilde;o da marca, a qualidade de um produto (e o desejo que ele despertava) podia ser medida pelo material do qual era feito. Assim, a seda era mais nobre que o algod&atilde;o que, por sua vez, tinha mais valor que a juta. Com o surgimento da marca, esses padr&otilde;es deixaram de ter significado. &Eacute; a pr&oacute;pria marca que pretende atestar a qualidade do produto que desenvolve. Como consequ&ecirc;ncia, uma pe&ccedil;a de seda feita por um an&ocirc;nimo provavelmente ter&aacute; menor valor de mercado do que uma de juta, confeccionada sob o signo de uma grande e famosa empresa.</p>      <p>Assim, no mundo globalizado, o desejo &eacute; emulado pela for&ccedil;a da marca, que se configura como signo de desejo e consubstancia-se como principal elemento identit&aacute;rio. Esse signo virtual, totalmente descolado do substrato sens&iacute;vel que tradicionalmente era utilizado para mensurar a qualidade dos produtos, inaugurou novas possibilidades de significa&ccedil;&atilde;o de si mesmo. Atualmente, identidade e pertencimento s&atilde;o atestados apenas pela imagem que se &eacute; capaz de projetar no mundo, que reflete as escolhas do indiv&iacute;duo e sua capacidade de materializ&aacute;-las por meio das marcas consumidas. O prest&iacute;gio dessas marcas indica o lugar da pessoa no mundo, demonstrando como e quanto pode se inserir na sociedade de consumo. Esses novos par&acirc;metros, difundidos e alimentados pelo mercado, s&atilde;o constru&iacute;dos no v&aacute;cuo deixado pela dissolu&ccedil;&atilde;o dos crit&eacute;rios tradicionais de constru&ccedil;&atilde;o da identidade e pertencimento e se configuram sobre uma caracter&iacute;stica inerente &agrave; humanidade: movimentar-se - sempre - rumo &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do desejo (Lowen, 1984).</p>      <p><b>TER E QUERER SER</b></p>      <p>Tanto Elias (1990, 1993, 1994) quanto Foucault (2002, 2006) observaram ao longo da hist&oacute;ria humana a introje&ccedil;&atilde;o dos mecanismos de controle social. Partindo de elementos de an&aacute;lise distintos, ambos conclu&iacute;ram que esses mecanismos passaram de ex&oacute;genos para end&oacute;genos num processo que induz ao crescente autocontrole. Com esse processo, a vigil&acirc;ncia e puni&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo n&atilde;o precisam estar atreladas apenas a fatores externos, mas, principalmente, decorrer de processos internos instilados pela culpa, vergonha e pela sensa&ccedil;&atilde;o de inadequa&ccedil;&atilde;o. A introje&ccedil;&atilde;o das regras de conviv&ecirc;ncia passa a ser fundamental a medida em as sociedades se tornam mais complexas, individualistas e, ao mesmo tempo super populosas, pois caso n&atilde;o se contasse com mecanismos eficazes de autocontrole n&atilde;o haveria olhos ou bra&ccedil;os capazes de conter (e submeter) a todos &agrave;s mesmas regras comuns (Foucault, 2002). Se a estrutura social est&aacute; pulverizada nos indiv&iacute;duos, porque o coletivo enquanto entidade se dissolveu, o controle social s&oacute; pode mesmo ser end&oacute;geno.</p>      <p>Tal configura&ccedil;&atilde;o das estrat&eacute;gias de controle vem sendo forjada ao longo da hist&oacute;ria por diversas institui&ccedil;&otilde;es fundadas justamente para manter a ordem social. Este &eacute; o caso das religi&otilde;es, que pautaram as primeiras regras de conviv&ecirc;ncia e no&ccedil;&otilde;es de certo e errado entre os fi&eacute;is; das leis e normas dos estados, que ampliaram a pertin&ecirc;ncia dessas no&ccedil;&otilde;es a um conjunto maior e mais diverso de pessoas, os cidad&atilde;os; e dos tratados e declara&ccedil;&otilde;es de direitos humanos, que expandiram a moralidade inerente a essas no&ccedil;&otilde;es para al&eacute;m das fronteiras dos estados, estendendo-as a todos os seres humanos. Estas institui&ccedil;&otilde;es pavimentam o solo no qual se configuram as no&ccedil;&otilde;es de identidade e do pertencimento. Sobre ele transitam outras for&ccedil;as que tornam tais par&acirc;metros tang&iacute;veis.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No que diz respeito &agrave; introje&ccedil;&atilde;o dos mecanismos de controle pela dor, pelas estrat&eacute;gias de restri&ccedil;&atilde;o e puni&ccedil;&atilde;o das condutas desviantes, pode-se mais facilmente associar a assimila&ccedil;&atilde;o dessas no&ccedil;&otilde;es e regras a estas institui&ccedil;&otilde;es formais, &agrave; religi&atilde;o e &agrave;s igrejas; &agrave; lei e ao Estado; ou &agrave;s recomenda&ccedil;&otilde;es para a conduta desses estados, que emanam da sua organiza&ccedil;&atilde;o em entidades coletivas. J&aacute; no que diz respeito &agrave; introje&ccedil;&atilde;o desses mesmos mecanismos de controle da conduta pelo prazer, nem sempre s&atilde;o estas institui&ccedil;&otilde;es as respons&aacute;veis pelo processo de absorver as no&ccedil;&otilde;es e regras estabelecidas.</p>      <p>&Eacute; bem verdade que o cumprimento dos ditames religiosos garante aos fi&eacute;is a paz de esp&iacute;rito ou o para&iacute;so, assim como o cumprimento das leis e normas sociais, configura a identidade cidad&atilde;, que tamb&eacute;m enseja certa satisfa&ccedil;&atilde;o no plano relacional pelo cumprimento dos direitos e deveres afeitos &agrave; vida em coletividade. Mas, no que tange &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o, a principal inst&acirc;ncia de controle social &eacute; o mercado, que distribui suas benesses a todos aqueles que se inscrevem na condi&ccedil;&atilde;o de potenciais consumidores. Frente &agrave; dissolu&ccedil;&atilde;o de outros crit&eacute;rios, o mercado e suas marcas pairam inc&oacute;lumes sobre o mundo globalizado, conferindo sensa&ccedil;&otilde;es de identidade e pertencimento que se pode supor serem similares tanto para aqueles que vivem em T&oacute;kio quanto para os que moram na Amaz&ocirc;nia.</p>      <p>Mas o prazer do ato de consumir n&atilde;o se esgota na possibilidade de estabelecer uma identidade e projetar uma imagem de si na dimens&atilde;o coletiva. Embora esse atributo seja fundamental em um mundo carente de outros signos e valores identit&aacute;rios, h&aacute; na dimens&atilde;o individual um componente que induz o prazer: a sensa&ccedil;&atilde;o de supress&atilde;o das car&ecirc;ncias. Percorrendo uma gama de motiva&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o da necessidade &agrave; vontade, passando pelo denominador comum do desejo, o prazer do consumo instila, momentaneamente, uma inebriante euforia, acompanhada pela sensa&ccedil;&atilde;o de realiza&ccedil;&atilde;o e completude.</p>      <p>No limite da necessidade, o prazer decorre da supress&atilde;o de uma priva&ccedil;&atilde;o relacionada &agrave; sobreviv&ecirc;ncia. &Eacute; o prazer de consumir o que comer, beber, de possuir abrigo, assegurar o conforto para o corpo e para melhorar o local onde se vive. Nesse n&iacute;vel, o prazer &eacute; sentido corporalmente, pela elimina&ccedil;&atilde;o das sensa&ccedil;&otilde;es de fome, frio, sede e sono. Mas, mesmo considerando a enorme quantidade de pessoas no mundo, se o mercado dependesse apenas da supress&atilde;o dessas necessidades b&aacute;sicas, n&atilde;o haveria grande possibilidade de auferir lucros crescentes. Por isso, oferece a solu&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m para as car&ecirc;ncias intang&iacute;veis, aquelas relativas &agrave; representa&ccedil;&atilde;o do ser no mundo.</p>      <p>Nesse n&iacute;vel do desejo, ou seja, j&aacute; no patamar da relativa abund&acirc;ncia, o prazer procede da possibilidade de projetar a imagem sonhada de si mesmo e com isso conquistar amor e admira&ccedil;&atilde;o, suprindo as exig&ecirc;ncias instintivas de afeto. Num degrau acima, na dimens&atilde;o da vontade e da super abund&acirc;ncia, o prazer reveste-se com os atributos do status e do poder, que conferem prest&iacute;gio e respeito &agrave; pessoa como consequ&ecirc;ncia daquilo que ela &eacute; capaz de consumir e ter. Al&eacute;m deste n&iacute;vel, s&oacute; resta o <i>podium, </i>quando a pessoa se torna &iacute;cone e par&acirc;metro para o consumo de todas as demais. Seus cabelos, roupas, seu corpo (olhos, nariz, barriga, bumbum), bem como sua casa e objetos, seu carro e telefone celular passam a ser padr&otilde;es para emular o desejo de muitos, que invejam e cobi&ccedil;am essas conquistas.</p>      <p>Vale ressaltar, como tamb&eacute;m j&aacute; apontei em trabalho anterior (Porto, 2004), que esses &iacute;cones da globaliza&ccedil;&atilde;o forjados pelo mercado consubstanciam modelos ideais dif&iacute;ceis de serem alcan&ccedil;ados por uma pessoa comum. Dessa forma, se estimula o consumo desenfreado de mais e mais produtos, pois h&aacute; sempre algo que falta para aproximar a c&oacute;pia do original. Para fomentar o desejo por tais modelos, eles s&atilde;o apresentados como par&acirc;metros do sucesso, associados &agrave; ideia de &ecirc;xito (Zimerman, 2000: 21-25). Seriam, ent&atilde;o, em suma, a corporifica&ccedil;&atilde;o do prazer na realiza&ccedil;&atilde;o plena. Tal apelo, quase irresist&iacute;vel para qualquer um, torna-se ainda mais pungente para todos aqueles que por sua situa&ccedil;&atilde;o e condi&ccedil;&atilde;o de vida encontram-se alijados do indispens&aacute;vel a sua sobreviv&ecirc;ncia f&iacute;sica e social. Por isso observa-se em pessoas nessa condi&ccedil;&atilde;o (mas n&atilde;o apenas nelas) um desejo quase irresist&iacute;vel de portar artigos &quot;de marca&quot;, mesmo que estes sejam apenas falsifica&ccedil;&otilde;es sem qualidade ou que, buscando a propalada qualidade do original, a pessoa gaste al&eacute;m de suas possibilidades.</p>      <p>Cabe considerar, ademais, que por sua pr&oacute;pria natureza o desejo nunca pode ser plenamente realizado, dada a impossibilidade de manter indefinidamente a plenitude do prazer (Porto, 2005: 574-590). Longe de evidenciar-se como uma fal&aacute;cia, a frustra&ccedil;&atilde;o decorrente desse processo &eacute; interpretada como uma falha do indiv&iacute;duo em aproximar-se do modelo ideal, o que o estimula a envidar novos e renhidos esfor&ccedil;os para atingir o objetivo. Esse processo vicia embora ningu&eacute;m se cansa dele. E o v&iacute;cio do prazer pelo consumo &eacute; a armadilha oculta que impele &agrave; busca da satisfa&ccedil;&atilde;o no mercado para al&eacute;m dos limites da raz&atilde;o, como atestam os milh&otilde;es de casos de endividamento, evidenciados na atual crise econ&ocirc;mica global.</p>      <p>Essa &eacute; a sutileza da domina&ccedil;&atilde;o pelo mercado. Embora decorra de uma imposi&ccedil;&atilde;o promovida com o objetivo &uacute;nico de fomentar o consumo (e garantir o lucro da economia globalizada) n&atilde;o &eacute; sentida como compuls&oacute;ria. Ao contr&aacute;rio, parece fruto da livre escolha, da &quot;sagrada&quot; liberdade individual para buscar a realiza&ccedil;&atilde;o dos mais &iacute;ntimos desejos. A suprema sofistica&ccedil;&atilde;o de tal estrat&eacute;gia de controle, baseada naquilo que move o ser humano, o prazer, n&atilde;o &eacute; obscurecida nem mesmo pela contraparte do mecanismo, a domina&ccedil;&atilde;o pela dor, j&aacute; que a maior puni&ccedil;&atilde;o na sociedade de mercado &eacute; n&atilde;o estar apto a inserir-se nele.</p>      <p><b>CONSIDERA&Ccedil;ÕES FINAIS</b></p>      <p>Espero com esta an&aacute;lise ter demonstrado que somos todos art&iacute;fices e c&uacute;mplices da globaliza&ccedil;&atilde;o. Que ela n&atilde;o &eacute; uma entidade abstrata, dotada de &quot;super poderes&quot;, mas tanto a causa quanto o resultado das escolhas conscientes e inconscientes de cada um de n&oacute;s. Espero tamb&eacute;m ter conseguido mostrar que a moralidade da globaliza&ccedil;&atilde;o, a moralidade do mercado ou, como era conhecido nos tempos de antanho, do capitalismo &eacute; a moralidade de todos e de cada um de n&oacute;s, que alimentamos a ordem mundial com nossas vidas. Reconhe&ccedil;o que esta &eacute; uma constata&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil de lidar, pois implica em uma responsabilidade dif&iacute;cil de exercer (Porto, 2006; Santos, 2006).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o obstante &agrave; magnitude de tal responsabilidade, h&aacute; um aspecto da quest&atilde;o que n&atilde;o pode ser desconsiderado, especialmente quando se trata de uma an&aacute;lise bio&eacute;tica, que &eacute;, obrigatoriamente, um estudo de &eacute;tica aplicada. Como a realidade &eacute; moldada pela a&ccedil;&atilde;o, de nada adianta um discurso dissociado da pr&aacute;tica cotidiana. Se as palavras forem envolt&oacute;rios vazios, destinados apenas a assegurar os lugares de poder e de fala, n&atilde;o ter&atilde;o for&ccedil;a para alterar a realidade. Ao contr&aacute;rio, ser&atilde;o instrumentos para a manuten&ccedil;&atilde;o do <i>status quo, </i>mesmo quando modulem express&otilde;es de cr&iacute;tica e revolta ou de est&iacute;mulo &agrave; indigna&ccedil;&atilde;o e &agrave; liberdade. Ainda que, por si mesmas, as palavras tenham poder, sua m&aacute;gica s&oacute; se efetiva quando transformam a realidade pela a&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>&Eacute; isso que podemos ver quando constru&iacute;mos coletivamente e mantemos cotidianamente a fic&ccedil;&atilde;o aceita e socialmente partilhada na entidade conhecida como &quot;mercado&quot;. Tal entidade existe porque acreditamos nela, porque lhe damos subst&acirc;ncia, porque sucumbimos dia a dia a seus des&iacute;gnios por desejo, necessidade ou vontade. Embora reconhecendo a dificuldade e o tamanho da tarefa, que &eacute; escapar a essa forma esp&uacute;ria de controle, &eacute; for&ccedil;oso concluir que est&aacute; nas m&atilde;os de cada um de n&oacute;s examinar suas pr&oacute;prias motiva&ccedil;&otilde;es e escrutinar seus pr&oacute;prios v&iacute;cios de consumo. S&oacute; assim ser&aacute; poss&iacute;vel escolher. &Eacute; a escolha consciente e a a&ccedil;&atilde;o consequente que poder&atilde;o subverter a moralidade da globaliza&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido quero render homenagem a Foucault, que apontou o caminho para transpor os obst&aacute;culos impostos por nosso condicionamento &agrave;s regras:</p>      <blockquote>     <p><i>&Eacute; justamente a regra que permite que seja feita viol&ecirc;ncia a viol&ecirc;ncia e que outra domina&ccedil;&atilde;o possa dobrar aqueles que dominam. Em si mesmas as regras s&atilde;o vazias, violentas, n&atilde;o finalizadas; elas s&atilde;o feitas para servir a isto ou &agrave;quilo; elas podem ser burladas ao sabor da vontade de uns ou de outros. O grande jogo da hist&oacute;ria ser&aacute; de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfar&ccedil;ar para pervert&ecirc;-las, utiliz&aacute;-las ao inverso e volt&aacute;-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-&atilde;o dominados por suas pr&oacute;prias regras </i>(Foucault, 1982: 25).</p> </blockquote>      <p>A reflex&atilde;o acima indica que h&aacute; sa&iacute;da aos mecanismos de controle da globaliza&ccedil;&atilde;o e &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o cotidiana e cega de sua moralidade inerente. Seu tom pessoal, entretanto, adverte que o primeiro passo deve ser dado por cada um de n&oacute;s. À medida que tenhamos coragem de encarar as raz&otilde;es de nossas escolhas de consumo e compreender o sentido &uacute;ltimo do fetiche com o qual o mercado nos hipnotiza, teremos aberto os olhos &agrave; possibilidade de subverter esta situa&ccedil;&atilde;o. Estaremos nos empoderando para compreender a moralidade da globaliza&ccedil;&atilde;o, que &eacute; induzir o consumo inconsequente e desenfreado para auferir lucro crescente e desmesurado. Isso porque teremos deixado de ser um mero joguete ao sabor dessas inten&ccedil;&otilde;es inescrupulosas. Seremos capazes de pensar, ao menos duas vezes, antes de tentar suprimir as car&ecirc;ncias, esquecer os aborrecimentos ou minimizar as frustra&ccedil;&otilde;es em compras que n&atilde;o precisamos ou at&eacute; mesmo n&atilde;o queremos, por exemplo. Essa t&aacute;tica, baseada na consci&ecirc;ncia de si, n&atilde;o pretende defender a priva&ccedil;&atilde;o, mas apontar para a prioriza&ccedil;&atilde;o daquilo que se sabe realmente necess&aacute;rio.</p>      <p>Se tal t&aacute;tica parece pouco, proposta simpl&oacute;ria de um manual de autoajuda, n&atilde;o &eacute; demais sublinhar que s&atilde;o nossas a&ccedil;&otilde;es, mais do que as palavras e as inten&ccedil;&otilde;es, que conformam ou transformam a realidade. S&atilde;o elas que d&atilde;o exist&ecirc;ncia concreta e poder a entidades abstratas como o mercado e a globaliza&ccedil;&atilde;o (Freire, 2001, p. 20). S&atilde;o elas, enfim, que ao influxo das cren&ccedil;as &iacute;ntimas de cada um de n&oacute;s nessas entidades ficcionais, lhes emprestam o corpo social com o qual se agigantam e nos controlam, oprimem e amea&ccedil;am. Portanto, repito, a a&ccedil;&atilde;o &eacute; a chave para abrir as portas &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>Se, como querem os pessimistas, os acomodados e os coniventes, a a&ccedil;&atilde;o individual, em si mesma, n&atilde;o &eacute; capaz de alterar a realidade, isso n&atilde;o pode ser raz&atilde;o para olvidar sua potencialidade. Basta lembrar que os seres humanos aprendem por imita&ccedil;&atilde;o, que, muitas vezes precede a reflex&atilde;o sobre o valor e a pertin&ecirc;ncia de determinada atitude. Por isso se forma o <i>habitus </i>(Bourdieu, 1983: 46-81) e se instauram os condicionamentos. Tal capacidade, entretanto, &eacute; o que faz uma a&ccedil;&atilde;o isolada (mesmo as mais francamente quixotescas) revestir-se da possibilidade de ser o marco inaugural de uma nova forma de entender a realidade. Uma forma que se conforma em realidade coletiva &agrave; medida que transforma a sensibilidade, a compreens&atilde;o e as a&ccedil;&otilde;es de cada um.</p>      <p>Para facilitar essa compreens&atilde;o &eacute; preciso que sejamos capazes de desmitificar a tecnologia. &Eacute; necess&aacute;rio entend&ecirc;-la como ferramenta, nem divina nem demon&iacute;aca, mas apenas instrumento que pode propiciar os resultados desejados pela moralidade que a utilizar. Como uma &quot;varinha m&aacute;gica&quot; que pode canalizar a for&ccedil;a e a energia dispon&iacute;veis para atingir o fim almejado. Assim, tanto pode ser uma forma de maximizar o lucro do capital a qualquer custo, mesmo &agrave; custa da aliena&ccedil;&atilde;o e opress&atilde;o humanas, tanto quando pode se consubstanciar em canal para a a&ccedil;&atilde;o coletiva e aut&ocirc;noma, voltada &agrave; sustentabilidade do planeta e &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da vida humana com dignidade.</p>      <p>Sabendo disso, poderemos, enfim, admitir que a tecnologia pode operar em proveito da manuten&ccedil;&atilde;o do <i>status quo </i>ou contra ele. Estaremos aptos a ousar, a alterar o vetor que orienta seu uso, deslocando-o dos valores impostos pelo mercado e pela globaliza&ccedil;&atilde;o, a maximiza&ccedil;&atilde;o da opress&atilde;o e da usurpa&ccedil;&atilde;o da energia do ser humano e do ambiente, para aqueles que possam promover valores humanos, o acesso &agrave; liberdade, &agrave; troca livre, igualit&aacute;ria e fraterna entre pessoas e o respeito &agrave; vida em todas as suas formas.</p>      <p>Apenas para n&atilde;o deixar esta reflex&atilde;o sem um ponto de contato com a realidade, o que permitiria classificar as ideias apresentadas como panflet&aacute;rias, relato uma experi&ecirc;ncia coletiva empreendida na Est&ocirc;nia em maio do ano passado. O processo e os resultados dessa experi&ecirc;ncia est&atilde;o dispon&iacute;veis em v&iacute;deo de cinco minutos no <i>Youtube </i>(2009). Trata-se da campanha <i>Vamos Fazer </i>para limpeza das &aacute;reas florestais do pa&iacute;s, que ocupam mais da metade do territ&oacute;rio. Agregando mais de 50.000 volunt&aacute;rios nas diversas etapas do processo bem como 500 institui&ccedil;&otilde;es parceiras, a campanha identificou e mapeou 10.000 toneladas de lixo, retirando-as em um s&oacute; dia ao custo de 500 mil euros. Para isso foram usados telefones celulares, mapas terrestres produzidos por sat&eacute;lites e transmiss&atilde;o digital de dados e informa&ccedil;&otilde;es. Se essa a&ccedil;&atilde;o tivesse sido empreendida apenas pelo governo demoraria tr&ecirc;s anos para obter o mesmo resultado e consumiria &euro;22,5 milh&otilde;es, sem garantia de &ecirc;xito, pois sem a sensibiliza&ccedil;&atilde;o, envolvimento e apoio da coletividade nada garante que &agrave; medida que o lixo fosse sendo retirado mais lixo n&atilde;o fosse sendo jogado, num ciclo intermin&aacute;vel.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Essa experi&ecirc;ncia social demonstra que, embora seja fruto dileto do mercado, a tecnologia pode cumprir com igual efic&aacute;cia os objetivos de qualquer moralidade que defina seu uso. Que &eacute; apenas uma ferramenta que reflete as inten&ccedil;&otilde;es e as a&ccedil;&otilde;es humanas. Demonstra que o vi&eacute;s ideol&oacute;gico que se desenha na realidade social a partir do uso n&atilde;o &eacute; inerente ela mesma, mas efeito do uso que dela se faz e de seu objetivo. Como a tecnologia &eacute; capaz de gerar e alimentar moralidades distintas, sua utiliza&ccedil;&atilde;o pode conduzir a realidades diversas. A supress&atilde;o dos limites existenciais que proporciona servir&aacute; ao senhor que delas se apoderar.</p>      <p>Esse senhor pode ser o mercado globalizado, que usa tais ferramentas para a domina&ccedil;&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o, o podem ser pr&oacute;prios seres humanos em projetos autogestion&aacute;rios, aut&oacute;ctones e libert&aacute;rios. Para isso basta nos apossarmos de nossa capacidade de escolha, exercermos nosso poder de decis&atilde;o e cultivarmos nossa disposi&ccedil;&atilde;o de nos reconhecermos no outro para reconstruir o coletivo. Para subverter as regras impostas pelo mercado e transformar o mundo.</p>  <hr>      <p><b>REFERENCIAS</b></p>      <!-- ref --><p>&bull; BAUMAN, Z. (2008). <i>Vida para consumo. A transforma&ccedil;&atilde;o das pessoas em mercadoria. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1657-4702201000020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; BOURDIEU, P (1983). <i>Esbo&ccedil;o de uma teoria da pr&aacute;tica. </i>En Ortiz, R. <i>Cole&ccedil;&atilde;o Grandes Cientistas Sociais </i>(pp. 46-81). S&atilde;o Paulo: &Aacute;tica.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S1657-4702201000020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; BOURDIEU, P (1998, mars). L'essence du n&eacute;oliberalisme. <i>Le Monde Diplomatique. </i>p. 3.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1657-4702201000020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; CHOMSKY, N. (1999). <i>A minoria pr&oacute;spera e a multid&atilde;o inquieta. </i>Bras&iacute;lia: Editora UnB.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S1657-4702201000020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; ELIAS, N. (1990). <i>O processo civilizador I. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S1657-4702201000020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; ELIAS, N. (1993). <i>O processo civilizador II. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S1657-4702201000020000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; ELIAS, N. (1994). <i>A sociedade dos indiv&iacute;duos. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S1657-4702201000020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; FOUCAULT M. (1982). <i>Microf&iacute;sica do poder. </i>S&atilde;o Paulo: Graal.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S1657-4702201000020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; FOUCAULT M. (2002). Disciplina os corpos d&oacute;ceis. Em: <i>Vigiar e punir. A hist&oacute;ria da viol&ecirc;ncia nas pris&otilde;es. </i>(26<sup>a</sup> ed.). Petr&oacute;polis: Vozes.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S1657-4702201000020000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; FOUCAULT M. (2006). <i>Hist&oacute;ria da sexualidade 1. A vontade de saber. </i>(17<sup>a</sup> ed.). S&atilde;o Paulo: Graal.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S1657-4702201000020000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; FREIRE, P (2001). <i>Pedagogia da autonomia. </i>S&atilde;o Paulo: Paz e Terra.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S1657-4702201000020000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; LOWEN, A. (1984). <i>Prazer: uma abordagem criativa da vida. </i>(5<sup>a </sup>ed.). S&atilde;o Paulo: Summus.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S1657-4702201000020000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; MARX, K. &amp; ENGELS, F. (2001). <i>Manifesto do partido comunista. </i>S&atilde;o Paulo: Martin Claret.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S1657-4702201000020000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; MURARO, R.M. (1991). <i>Os seis meses em que fui homem. </i>(4<sup>a </sup>ed.). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S1657-4702201000020000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; MURARO, R.M. (1993). <i>A mulher no terceiro mil&ecirc;nio. </i>(3a ed.). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S1657-4702201000020000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; PORTO, D. (2004). A linguagem das palavras e as palavras da linguagem. Anais. <i>Semin&aacute;rio Internacional Michel Foucault: Perspectivas. </i>Florian&oacute;polis: UFSC.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000101&pid=S1657-4702201000020000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; PORTO, D. (2005, noviembre 21-25). <i>El impacto de la medicalizaci&oacute;n en la sociedad y en la salud p&uacute;blica: consideraciones sobre el caso brasile&ntilde;o. </i>Resumen de Pon&ecirc;ncias y Comunicaciones. IV Congreso Mundial de Bio&eacute;tica.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S1657-4702201000020000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; PORTO, D. (2006).Tecnologia &amp; ideologia: os dois lados da moeda que produz vulnerabilidade. <i>Rev Bras de Bio&eacute;tica, </i>2(1), 63-86.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S1657-4702201000020000700018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; SANTOS, M. (2006). <i>Por uma outra globaliza&ccedil;&atilde;o: do pensamento &uacute;nico &agrave; consci&ecirc;ncia universal. </i>(13a ed.). Rio de Janeiro/S&atilde;o Paulo: Record.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S1657-4702201000020000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; SARTRE, J.P. (2002). <i>O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenol&oacute;gica. </i>(11a ed.) Petrop&oacute;lis: Vozes.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S1657-4702201000020000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; SCHULTZ, A. (1979). <i>Sobre fenomenologia e rela&ccedil;&otilde;es sociais: textos escolhidos. </i>Wagner H, organizador. Rio de Janeiro Jorge Zahar Editor.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S1657-4702201000020000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; Youtube. (2009). <i>Let's Do It Estonia - legendado em portugu&ecirc;s. </i>Dispon&iacute;vel: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=T7GzfMD6LHs" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=T7GzfMD6LHs</a>. Acesso: 24.7.2009.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S1657-4702201000020000700022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>&bull; ZIMERMAN, D. (2000). <i>Fundamentos b&aacute;sicos das grupoterapias. </i>Porto Alegre: Artmed.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S1657-4702201000020000700023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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