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<journal-title><![CDATA[Revista Latinoamericana de Bioética]]></journal-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Dentro del actual panorama de crisis global, se intenta poner en discusión la propuesta del filósofo Martin Heidegger, que puede modificar la formulación de una buena parte de las cuestiones bioéticas. El filósofo presenta una nueva noción de lo humano, no solo como "persona" o "agente racional". Según el concepto del Dasein, la modernidad fue construida en torno a tres ideas: el sujeto como centro y fundamento, la ciencia como criterio único de verdad en el progreso y su consecuente tecnificación del mundo; habría que liberar un espacio para otro tipo de creación que no excluya la técnica, pero que tampoco la exalte hasta el punto de que lo demás desaparezca. Heidegger puede ser extremadamente instigante en cuanto a la distinción salud-enfermedad y problemas como la medicalización, en el intento de obtener una noción existencial de estos conceptos, superando su visión metafísica tradicional. La salud entonces deja de ser un acontecimiento objetivo para transformarse en un proyecto existencial.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Within the present global crisis, we discuss some proposals of the philosopher Martin Heidegger concerning the human being that could sensibly modify the formulation of a good portion of bioethical questions. He introduces a new concept of human, not as a person or rational agent. According to Dasein modernity was built around three main ideas: the subject as a center, science as the sole criterion of truth and progress and the consequent technification of the world. There would have to liberate a place for another kind of creation that doesn't excludes the technical and neither stands out it to the point to make everything else disappear. Heidegger can be extremely useful on the issue of health-illness distinction and medicalization, in an attempt to obtain an existential notion of these concepts surpassing the traditional metaphysical view. Health is no longer a fact, but an existential project.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="verdana" size="2">     <p align="right"><b>ART&Iacute;CULO ORIGINAL</b></p></font>     <p align="center"><font face="verdana" size="4"><b>HEIDEGGER PARA A BIO&Eacute;TICA </b></font></p>     <p align="center"><font face="verdana" size="3"><b>HEIDEGGER SOBRE LA BIO&Eacute;TICA</b></font></p>     <blockquote>      <p align="center"><font face="verdana" size="3"><b>HEIDEGGER ON BIOETHICS </b></font></p> </blockquote>     <p align="center"><font size="2" face="verdana">Julio Cabrera<SUP><B>a</B></SUP>     <br> Mercedes Cecilia Salamano<SUP><B>b</B></SUP></font></p>  <font face="verdana" size="2">    <p><SUP><B>a</B></SUP> Doutor em Filosofia, professor titular no Departamento de Filosofia, UnB (Universidade de Bras&iacute;lia), Brasil. <a href="mailto:kabra7@gmail.com."/a>kabra7@gmail.com.</a>    <br>   <SUP><B>b</B></SUP> M&aacute;ster em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;ticas e Sociologia. Aluna do Doutorado, Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Bio&eacute;tica UnB (Universidade de Bras&iacute;lia) Brasil. Recebe Bolsa Estudantil pela CAPES denominada Demanda Social - Decanato de Pesquisa e P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o - Universidade de Bras&iacute;lia. <a href="mailto:msalamano@hotmail.com."/a>msalamano@hotmail.com.</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Fecha de recepci&oacute;n: 9 de abril de 2014 </b>     <br><b>Fecha de evaluaci&oacute;n: 8 de mayo de 2014</b>     <br> <b>Fecha de aceptaci&oacute;n: 9 de junio de 2014</b></p> <hr>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Dentro do atual panorama de crise global, tenta-se colocar em discuss&atilde;o a proposta do fil&oacute;sofo Martin Heidegger, que pode modificar a formula&ccedil;&atilde;o de uma boa parte das quest&otilde;es bio&eacute;ticas. O fil&oacute;sofo alem&atilde;o apresenta uma nova no&ccedil;&atilde;o do humano, n&atilde;o mais como "pessoa" ou "agente racional", mas como Dasein, como existente, mostrando seu confronto contra o paradigma baconiano-cartesiano, que tem norteado a atual vis&atilde;o tecnol&oacute;gica e capitalista do mundo. Heidegger sustenta que o perigo inicia-se desde uma vis&atilde;o do mundo como objeto de explora&ccedil;&atilde;o, norteada pela metaf&iacute;sica como constante esquecimento da finitude, criando estruturas fixas de pensar. Segundo ele, a Modernidade foi constru&iacute;da em torno a tr&ecirc;s ideias: o sujeito como centro e fundamento, a ci&ecirc;ncia como crit&eacute;rio &uacute;nico de verdade e o progresso e sua consequente tecnifica&ccedil;&atilde;o do mundo; haveria que liberar um espa&ccedil;o para outro tipo de cria&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o exclua a t&eacute;cnica, mas que tamb&eacute;m n&atilde;o a enobre&ccedil;a a um ponto que o resto desapare&ccedil;a. Num plano mais pr&oacute;ximo da Bio&eacute;tica, Heidegger pode ser extremamente instigante na quest&atilde;o da distin&ccedil;&atilde;o sa&uacute;de-doen&ccedil;a e problemas como a medicaliza&ccedil;&atilde;o, na tentativa de obter uma no&ccedil;&atilde;o existencial destes conceitos, superando a sua vis&atilde;o metaf&iacute;sica tradicional. A sa&uacute;de deixa de ser um acontecimento objetivo para transformar-se em projeto existencial.</p>     <p><b>Palavras-Chave</b>:</p>     <p>Bio&eacute;tica, Heidegger, humanidade tecnologizada , sa&uacute;de/doen&ccedil;a, medicaliza&ccedil;&atilde;o.</p> <hr>     <p><b>RESUMEN</b></p>     <p>Dentro del actual panorama de crisis global, se intenta poner en discusi&oacute;n la propuesta del fil&oacute;sofo Martin Heidegger, que puede modificar la formulaci&oacute;n de una buena parte de las cuestiones bio&eacute;ticas. El fil&oacute;sofo presenta una nueva noci&oacute;n de lo humano, no solo como "persona" o "agente racional". Seg&uacute;n el concepto del Dasein, la modernidad fue construida en torno a tres ideas: el sujeto como centro y fundamento, la ciencia como criterio &uacute;nico de verdad en el progreso y su consecuente tecnificaci&oacute;n del mundo; habr&iacute;a que liberar un espacio para otro tipo de creaci&oacute;n que no excluya la t&eacute;cnica, pero que tampoco la exalte hasta el punto de que lo dem&aacute;s desaparezca. Heidegger puede ser extremadamente instigante en cuanto a la distinci&oacute;n salud-enfermedad y problemas como la medicalizaci&oacute;n, en el intento de obtener una noci&oacute;n existencial de estos conceptos, superando su visi&oacute;n metaf&iacute;sica tradicional. La salud entonces deja de ser un acontecimiento objetivo para transformarse en un proyecto existencial.</p>     <p><b>Palabras clave</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Bio&eacute;tica, humanidad tecnogilizada, salud/enfermedad, medicalizaci&oacute;n.</p> <hr>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Within the present global crisis, we discuss some proposals of the philosopher Martin Heidegger concerning the human being that could sensibly modify the formulation of a good portion of bioethical questions. He introduces a new concept of human, not as a person or rational agent. According to Dasein modernity was built around three main ideas: the subject as a center, science as the sole criterion of truth and progress and the consequent technification of the world. There would have to liberate a place for another kind of creation that doesn't excludes the technical and neither stands out it to the point to make everything else disappear. Heidegger can be extremely useful on the issue of health-illness distinction and medicalization, in an attempt to obtain an existential notion of these concepts surpassing the traditional metaphysical view. Health is no longer a fact, but an existential project.</p>     <p><b>Keywords</b></p>     <p>Bioethics, tecnologized humanity, health/illness, medicalization.</p> <hr>     <p><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O: A NO&Ccedil;&Atilde;O DE HUMANO, DA PESSOA PARA O DASEIN </b></p>     <p>A ideia de trazer o pensamento de Martin Heidegger para o &acirc;mbito da bio&eacute;tica apareceu inicialmente num texto que Julio Cabrera apresentou numa reuni&atilde;o de Bio&eacute;tica em Montevid&eacute;u em 2004, publicado em espanhol e portugu&ecirc;s no ano 2006. O texto chamava-se "A quest&atilde;o &eacute;tico-metaf&iacute;sica: valor e desvalor da vida humana no registro da diferen&ccedil;a ontol&oacute;gica", sendo esta &uacute;ltima j&aacute; uma categoria heideggeriana. Neste artigo sustenta-se uma tese pol&ecirc;mica: que seria vantajoso para a Bio&eacute;tica substituir a sobre utilizada (e frequentemente vaga) no&ccedil;&atilde;o de "pessoa" pela no&ccedil;&atilde;o de "existente" (Dasein), no sentido do fil&oacute;sofo alem&atilde;o (1). A no&ccedil;&atilde;o de "pessoa" est&aacute; ligada com a filosofia tradicional de raiz metaf&iacute;sica, precisamente a tradi&ccedil;&atilde;o criticada por Heidegger, ligada com o paradigma cartesiano-baconiano e com a no&ccedil;&atilde;o do humano como agente racional que depois gera a atual vis&atilde;o tecnol&oacute;gica e capitalista do mundo. Era aqui a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de "humano" o que estava em jogo, assunto central n&atilde;o apenas para este ou aquele problema bio&eacute;tico particular, mas para a no&ccedil;&atilde;o mesma de Bio&eacute;tica como &aacute;rea interdisciplinar de estudo. De acordo com Heidegger (na reconstru&ccedil;&atilde;o de Cabrera 2006), h&aacute; na filosofia a tentativa de definir o ser humano a partir das suas propriedades, no que alguns seguidores do fil&oacute;sofo costumam se referir como "metaf&iacute;sica das propriedades".</p>     <p>Nesta perspectiva &eacute; que Peter Singer, por exemplo, em "&Eacute;tica Pr&aacute;tica", seguindo o te&oacute;logo Joseph Fletcher, chama "indicadores de humanidade". Todo o humanismo cl&aacute;ssico e moderno depende dessa metaf&iacute;sica de propriedades que tenta definir a ess&ecirc;ncia do homem por meio da racionalidade e a personalidade. Entre estes "indicadores de humanidade" temos a consci&ecirc;ncia de si, o autocontrole, o senso do futuro e do passado, a capacidade de relacionar-se com os outros, etc. (Singer, 1994, p. 94). Este tipo de indicador racionalista cartesiano de humanidade tem o impacto imediato de, por exemplo, deixar as crian&ccedil;as muito pequenas (n&atilde;o digamos j&aacute; fetos) despojadas da sua humanidade (o que configura uma vis&atilde;o do humano potencialmente capaz de justificar o infantic&iacute;dio, como, de fato, acontece em autores como Michael Tooley e o pr&oacute;prio Singer).</p>     <p> Heidegger prop&otilde;e outra no&ccedil;&atilde;o de humano, como sendo Dasein. Aqui o humano n&atilde;o &eacute; a pessoa da racionalidade cient&iacute;fica, mas um ser jogado &agrave;s suas possibilidades; n&atilde;o jogado num mundo previamente dado, mas sim um ser-no-mundo em unidade profunda com um mundo que ele mesmo "mundaniza" e faz ser. O humano &eacute; visualizado aqui como um ser "sem ser", que tem de empenhar-se para constituir seu pr&oacute;prio ser, para procurar, inevitavelmente, fazer a si mesmo desde o nada de suas possibilidades radicais sob a sua completa responsabilidade (vis&atilde;o do humano que ser&aacute; depois exacerbada na obra de Jean-Paul Sartre). Isto significa que -no vi&eacute;s heideggeriano- o humano n&atilde;o tem nenhuma ess&ecirc;ncia (nem racional nem moral), &eacute; puro projeto de fazer-se. Esta concep&ccedil;&atilde;o do humano &eacute; exposta -numa linguagem nada simples- j&aacute; na obra seminal "Ser e Tempo", publicada em 1928.</p>     <p> Na segunda fase de seu pensamento, Heidegger desenvolver&aacute; a ideia da situa&ccedil;&atilde;o do humano no mundo como uma esp&eacute;cie de morar, de habitar, mais do que como um projeto plenamente racional e consciente de ser (na linha dos "indicadores de humanidade"). O Dasein &eacute; um modo de ser finito e indeterminado, fundamentalmente temporal e hist&oacute;rico; significa uma abertura para o ser a trav&eacute;s de numerosos existenciais (as "categorias" da exist&ecirc;ncia, termo que Heidegger prefere evitar para n&atilde;o ser sugado novamente pela posi&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica que critica), tais como compreender, estar-a&iacute;, ser para a morte, ang&uacute;stia, etc. &Eacute; na base destes existenciais que o humano pode, mais tarde, ser racional, ling&uuml;&iacute;stico, autoconsciente, autocontrolado, ter senso do futuro, etc., n&atilde;o como constituindo uma esp&eacute;cie de ess&ecirc;ncia fixa, mas como desdobramentos do seu existir origin&aacute;rio lan&ccedil;ado, gratuito e auto-constituinte.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um dos corol&aacute;rios mais interessantes deste entendimento existencial do humano para a &eacute;tica e para a bio&eacute;tica, &eacute; que a verdade e a falsidade deixam de ser os par&acirc;metros fundamentais de uma vida humana, para serem substitu&iacute;dos pela autenticidade e inautenticidade da exist&ecirc;ncia. Assim, uma vida cheia de entes gratificantes (familiares, profissionais, etc.) pode ser, apesar disso, existencialmente falsa ou vazia. Esta vis&atilde;o das coisas pode ser extremamente influente na abordagem de quest&otilde;es bio&eacute;ticas fundamentais. Como n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel desenvolver aqui toda a riqueza desta proposta, apenas nos limitaremos a dois eixos fundamentais: a quest&atilde;o da t&eacute;cnica e a quest&atilde;o da distin&ccedil;&atilde;o entre sa&uacute;de e doen&ccedil;a.</p>     <p><b>HEIDEGGER E A QUEST&Atilde;O DA T&Eacute;CNICA </b></p>     <p>A ideia b&aacute;sica consiste, pois, em perguntar-se qual seria o impacto na Bio&eacute;tica caso pass&aacute;ssemos de conceber o humano como pessoa plenamente racional, deliberativo e consciente, etc, a conceb&ecirc;-lo num vi&eacute;s heideggeriano, como um existente. Quais seriam as contribui&ccedil;&otilde;es conceituais que nos ofereceria a anal&iacute;tica existencial heideggeriana para pensar a Bio&eacute;tica e seus insistentes problemas com a igualdade, a justi&ccedil;a, a conviv&ecirc;ncia e a sobreviv&ecirc;ncia, mas agora entendendo estas quest&otilde;es fora do contexto metaf&iacute;sico onde foram tradicionalmente concebidas. Heidegger pensa que o arcabou&ccedil;o da moderna ci&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica &eacute; fundamentalmente metaf&iacute;sico (um desdobramento tardio do platonismo). Sobre este assunto, Heidegger escreveria um famoso texto, "A quest&atilde;o da t&eacute;cnica" (1953). Habitualmente os diagn&oacute;sticos da crise da modernidade e de seu tratamento bio&eacute;tico se fazem para um humano pensado como pessoa racional, num referencial cartesiano, como se os humanos fossem completos, sem a ang&uacute;stia do fazer-se, sem um ser para a morte para viver, etc. Em seu artigo sobre a t&eacute;cnica, Heidegger pressup&otilde;e que seus leitores conhecem a concep&ccedil;&atilde;o do humano tal como exposta em "Ser e Tempo".</p>     <p>Neste texto crucial, Heidegger entende que, no mundo atual, n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples questionar a t&eacute;cnica sem mais, na medida em que a tecnologia ocupa um lugar central na vida cotidiana dos indiv&iacute;duos; n&atilde;o se trata - como leitores estilo Adorno fizeram - de ver as considera&ccedil;&otilde;es heideggerianas acerca da t&eacute;cnica apenas como um conjunto de cr&iacute;ticas rom&acirc;nticas que cairiam numa esp&eacute;cie de apologia do mundo natural ou do ecologismo. A id&eacute;ia &eacute; abordar a t&eacute;cnica como um perigo para o pensamento, mas a trav&eacute;s de um questionamento hermen&ecirc;utico da mesma: "A ess&ecirc;ncia da t&eacute;cnica tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; de modo algum algo t&eacute;cnico", afirma Heidegger (1997, p.43). Deste modo, Heidegger n&atilde;o se pergunta pela t&eacute;cnica em si mesma sen&atilde;o por sua ess&ecirc;ncia, que tem a ver com a sua ocorr&ecirc;ncia dentro da hist&oacute;ria do ser. Neste sentido, a ess&ecirc;ncia da t&eacute;cnica descansa, segundo ele, numa estrutura chamada "fundo fixo acumulado" ou "estrutura de emprazamento" (Ge-stell), uma esp&eacute;cie de arcabou&ccedil;o tir&acirc;nico onde tudo se transforma em ente dispon&iacute;vel para o manuseio e a organiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&Eacute; necess&aacute;rio entender que para Heidegger a Modernidade n&atilde;o configura simplesmente um per&iacute;odo determinado da historia da humanidade, sen&atilde;o um modo de ocorrer o ser, e &eacute; aqui onde se d&aacute; o dom&iacute;nio t&eacute;cnico do mundo, ou seja, o esplendor da raz&atilde;o instrumental e da metaf&iacute;sica consumada. Ao dizer de Heidegger, a metaf&iacute;sica tem sido caracterizada pelo esquecimento constante da finitude, criando estruturas fixas que predeterminam modos de pensar. Estes tra&ccedil;os da Modernidade foram constru&iacute;dos em torno a tr&ecirc;s ideias: o sujeito como centro e fundamento, a ci&ecirc;ncia como crit&eacute;rio &uacute;nico de verdade e o progresso e sua consequente tecnifica&ccedil;&atilde;o do mundo.</p>     <p>O lugar do "Eu" na Modernidade racionalista &eacute; um sujeito que n&atilde;o necessita do mundo para ser. O real torna-se pura representa&ccedil;&atilde;o do sujeito em seu poder de afirmar esse real em toda sua certeza e verdade. Ao dizer de Heidegger, a filosofia assume aqui o modelo de racionalidade t&eacute;cnicocient&iacute;fica e afirma que a metaf&iacute;sica descreve uma estrutura do ser que qualifica como objetivamente verdadeira. O ser convertido em ente &eacute; o pr&eacute;-suposto da fundamenta&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica, e a sua ilimitada manipula&ccedil;&atilde;o &eacute; a configura&ccedil;&atilde;o especificamente t&eacute;cnica da metaf&iacute;sica. Neste sentido, o esquecimento do ser a favor do ente &eacute; o modo no qual se d&aacute; a t&eacute;cnica moderna (o atual modo do esquecimento do ser, que j&aacute; fora esquecido de outras maneiras ao longo da hist&oacute;ria). Logo, se o sujeito da Modernidade &eacute; aquele que demanda sempre mais da natureza atrav&eacute;s da t&eacute;cnica, chega o tempo no qual os pap&eacute;is se invertem e o ente demandante se converte no ente demandado. Nesta situa&ccedil;&atilde;o, para nos salvar, somente podemos arriscar pensar o ser n&atilde;o j&aacute; como fundamento sen&atilde;o como evento. Esta &eacute; uma tem&aacute;tica que n&atilde;o est&aacute; tratada em "Ser e Tempo", mas em obras posteriores de Heidegger (2).</p>     <p>Aqui aparece uma ponte entre a t&eacute;cnica e a hermen&ecirc;utica, entendida a primeira como perigo e a segunda como salvadora. Heidegger diz em "A virada" (Die Kehre) que o perigo n&atilde;o &eacute; o desenvolvimento tecnol&oacute;gico nem a destrui&ccedil;&atilde;o do planeta, sen&atilde;o que &eacute; o ser mesmo que est&aacute; em perigo (Heidegger, 2008, p.13). Se o perigo est&aacute; no pr&oacute;prio ser, igualmente perigosa &eacute; a "abertura ao ser" e, nesse sentido, o inicio do perigo se inicia j&aacute; desde o nosso pensar - que foi reduzido a ser a raz&atilde;o do racionalismo- e procurou a perfei&ccedil;&atilde;o do sistema e o atraso da reflex&atilde;o. Pois ningu&eacute;m v&aacute; negar que foi precisamente a t&eacute;cnica a que nos permitiu desenvolver nossas possibilidades mais criativas, mas o perigo est&aacute; em que tal criatividade transitou por um caminho somente (aquele da metaf&iacute;sica) promovendo uma vis&atilde;o do mundo como objeto de explora&ccedil;&atilde;o e uma vis&atilde;o de n&oacute;s mesmos apenas como meros sujeitos exploradores.</p>     <p>Seguindo Heidegger, a t&eacute;cnica fechou as portas de praticamente todo outro modo de pensar, de criar e de revelar o ser. Haveria que liberar um espa&ccedil;o para outro tipo de cria&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o exclu&iacute;sse a t&eacute;cnica, mas que tamb&eacute;m n&atilde;o a enobrece a um ponto que o resto desapare&ccedil;a; uma dessas vias alternativas seria, por exemplo, a revela&ccedil;&atilde;o como acontece na poesia e nas artes. Ele vai dizer que ao interior do perigo cresce o que salva, j&aacute; que nosso pensar e nossas possibilidades po&eacute;ticas s&atilde;o capazes de mostrar uma nova abertura ao ser, uma fonte de multiplicidade e n&atilde;o de univocidade (Heidegger, 1997, p. 91). O termo "salvar" significa lan&ccedil;ar, libertar, cuidar, resguardar, pensar o ser j&aacute; n&atilde;o como fundamento sen&atilde;o como acontecer. Heidegger diz que o &uacute;nico lugar no qual o ser pode se mostrar como ocorrer, &eacute; na linguagem. Ent&atilde;o, a linguagem &eacute; para Heidegger cria&ccedil;&atilde;o, poieis, advento e funda&ccedil;&atilde;o do ser pela palavra, linguagem como interpreta&ccedil;&atilde;o sempre inacabada, como hermen&ecirc;utica capaz de interpretar a palavra sem esgot&aacute;-la, sem reduzila a uma estrutura &uacute;nica.</p>     <p>Nesse sentido, podemos afirmar que a funda&ccedil;&atilde;o de um saber hermen&ecirc;utico como proposto por Heidegger abre para n&oacute;s um modo distinto de pensar, outro modo de relacionarmos com o mundo, t&eacute;cnico e n&atilde;o t&eacute;cnico. A hermen&ecirc;utica, assim compreendida, &eacute; um modo de filosofar que assume o finito da exist&ecirc;ncia e pensa o ser como evento, com m&uacute;ltiples interpreta&ccedil;&otilde;es e perspectivas, que s&atilde;o hist&oacute;ricas, cambiantes, n&atilde;o definitivas nem definit&oacute;rias, labirinto infinito e pluridimensional, que podem modificar substancialmente a nossa maneira de conceber o &acirc;mbito da bio&eacute;tica, na medida em que seus problemas est&atilde;o afetados pela vis&atilde;o e a linguagem da t&eacute;cnica. Trata-se de uma hermen&ecirc;utica que, &agrave; margem da racionalidade instrumental, possa-se abrir a distintas experi&ecirc;ncias, fr&aacute;geis e contingentes, sem ser interpretado como conhecimento consumado; uma hermen&ecirc;utica que afirme o devir, a mobilidade do ir e do vir, o vaiv&eacute;m na cria&ccedil;&atilde;o de sentidos (Rivero Weber, 2003, p. 12).</p>     <p>A quest&atilde;o da t&eacute;cnica se apresenta, pois, como uma forma de aceder ao ser de nosso tempo, porque a t&eacute;cnica &eacute; predominante na rela&ccedil;&atilde;o humana com o mundo. Vivemos no mundo da tecnosfera, tudo quanto materialmente nos circunda remete &agrave; tecnologia e ela virou-se inerente a nossa condi&ccedil;&atilde;o de vida e a nossa condi&ccedil;&atilde;o existencial. De acordo com Heidegger, a nossa era &eacute; "t&eacute;cnica" n&atilde;o porque existam m&aacute;quinas sen&atilde;o porque "o modo de pensar se tornou t&eacute;cnico". O m&eacute;rito da refer&ecirc;ncia heideggeriana consiste em n&atilde;o ter por objetivo apenas uma historia da tecnologia, mas propor uma vis&atilde;o ontol&oacute;gica, avan&ccedil;ando uma denuncia do homem de hoje vivendo sob a domina&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica, mas esclarecendo que o fato de fazer essa cr&iacute;tica n&atilde;o significa ficar contra o fen&ocirc;meno mesmo. Ele quer resgatar o sentido origin&aacute;rio e livre da rela&ccedil;&atilde;o entre o homem e a t&eacute;cnica. "A t&eacute;cnica &eacute; o destino da nossa &eacute;poca" (Heidegger,1997, p. 75).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A quest&atilde;o da t&eacute;cnica pode ser um dos momentos em que vale a pena trazer o pensamento de Heidegger para a Bio&eacute;tica, na medida em que as pr&oacute;prias quest&otilde;es bio&eacute;ticas se tornaram t&eacute;cnicas, por exemplo, no furor de um principialismo reducionista em sua aplica&ccedil;&atilde;o "t&eacute;cnica" na resolu&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida de situa&ccedil;&otilde;es extremamente complexas, atrav&eacute;s de tecnologias m&eacute;dicas. Mesmo valores supremos como igualdade, conviv&ecirc;ncia e justi&ccedil;a se tornaram t&eacute;cnicos dentro da arma&ccedil;&atilde;o (Gestell) do dispon&iacute;vel e organizado. Tratar-se-ia de repensar estes valores agora &agrave; luz da concep&ccedil;&atilde;o existencial do humano. Nestes tempos sombrios, s&oacute; poder-nos-&aacute; salvar a nossa pr&oacute;pria capacidade de reflex&atilde;o, aumentada pela sensibilidade, de modo que o mundo possa deixar de ser algo que fica a&iacute; para ser usado, armazenado, consumido ou rejeitado.</p>     <p>Via Heidegger, deveriam, pois, ser analisadas as rela&ccedil;&otilde;es do ser com a t&eacute;cnica moderna, que constantemente provoca a natureza (por exemplo, a agricultura passa a ser vista apenas como mera ind&uacute;stria da alimenta&ccedil;&atilde;o, o ar convocado apenas como entrega de nitrog&ecirc;nio, o solo como fornecedor de minerais, ur&acirc;nio e energia). Na mesma medida em que considerarmos a t&eacute;cnica como algo neutro, mais estaremos inclinados a render-lhe um tributo cego.</p>     <p><b>HEIDEGGER, A QUEST&Atilde;O DA SA&Uacute;DE/DOEN&Ccedil;A E A MEDICALIZA&Ccedil;&Atilde;O</b></p>     <p> Nesta trilha da tecnologiza&ccedil;&atilde;o do &acirc;mbito das quest&otilde;es bio&eacute;ticas, Heidegger pode ser extremamente instigante na quest&atilde;o espec&iacute;fica, fundamental na Bio&eacute;tica, da distin&ccedil;&atilde;o sa&uacute;de-doen&ccedil;a, e em fen&ocirc;menos correlatos tais como a medicaliza&ccedil;&atilde;o, na tentativa de obter, no primeiro momento, uma no&ccedil;&atilde;o existencial destes conceitos, superando a vis&atilde;o metaf&iacute;sica tradicional. A sa&uacute;de deixa de ser um fato objetivo para transformar-se em projeto existencial.</p>     <p>O termo "medicaliza&ccedil;&atilde;o" &eacute; proposto por v&aacute;rios autores de destaque - desde Michel Foucault e Illich at&eacute; Kishore, Rosenberg, Conrad, Navarro, entre outros, que convergem em alguns aspectos apesar de virem de vis&otilde;es muito diferentes. Trata-se de um processo no qual a medicina moderna se expande e coloniza situa&ccedil;&otilde;es que at&eacute; o momento n&atilde;o eram consideradas pat&oacute;genas pelas institui&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas; um fen&ocirc;meno a trav&eacute;s do qual a vida cotidiana &eacute; expropriada pela medicina em um processo de expans&atilde;o, controle e at&eacute; de destrui&ccedil;&atilde;o do potencial cultural de pessoas e comunidades, e onde os medicamentos podem preceder as doen&ccedil;as e contribuir a produzi-las.</p>     <p>Heidegger fala que os conceitos de sa&uacute;de e doen&ccedil;a formulados pela tradi&ccedil;&atilde;o ficam presentes de maneira impercept&iacute;vel e determinam os limites e os modos de interpreta&ccedil;&atilde;o; portanto &eacute; necess&aacute;rio voltar para eles com outro olhar, n&atilde;o para livrarmos desses termos sen&atilde;o para chegar a uma reapropria&ccedil;&atilde;o dos mesmos. Nesse caminho achamos que Heidegger escaparia tanto das caracteriza&ccedil;&otilde;es est&aacute;ticas e substancialistas de sa&uacute;de e doen&ccedil;a quanto das defini&ccedil;&otilde;es din&acirc;micas da Modernidade, atrav&eacute;s de uma postura extremamente original que levaria a uma esp&eacute;cie de indefini&ccedil;&atilde;o essencial destas categorias. Vejamos isto melhor.</p>     <p>Em muitos de seus livros (por exemplo, "O que significa pensar?"), Heidegger tem-se perguntado se o m&eacute;todo cientifico estaria em condi&ccedil;&otilde;es de dizer o que a natureza &eacute;. Quando se trata de perguntas fundamentais, o m&eacute;todo cient&iacute;fico fica muito longe de provas e verifica&ccedil;&otilde;es efetivas e, no caso do fen&ocirc;meno da natureza, onde seu ser &eacute; desentranhado como causalidade, logo desta derivase o mero c&aacute;lculo e mais tarde a domina&ccedil;&atilde;o da natureza a trav&eacute;s de m&eacute;todos redutivos. Est&aacute; muito claro que no sentido heideggeriano a posi&ccedil;&atilde;o existencial da dualidade sa&uacute;de-doen&ccedil;a se enfrenta ao paradigma baconianocartesiano ainda predominante nas ci&ecirc;ncias da sa&uacute;de. Heidegger n&atilde;o escreveu especificamente sobre o assunto, mas a partir de seus textos podemos inferir que, para ele, a doen&ccedil;a nunca poderia ser algo produzido causalmente, mas um fen&ocirc;meno existencialmente motivado.</p>     <p>O fil&oacute;sofo nos prop&otilde;e ir al&eacute;m dos conceitos usuais de organismo e de vida propostos pelo mecanicismo e pelo vitalismo, motivando-nos a inventar um conceito novo do modo de ser do vivente enquanto tal. N&atilde;o h&aacute; objetos ou coisas no mundo que "causem" linearmente doen&ccedil;as sem que o existente humano (o Dasein) tenha aceitado esses objetos ou coisas como causas, atrav&eacute;s da media&ccedil;&atilde;o de um projeto existencial. Nos termos de Sartre, a doen&ccedil;a &eacute; escolha (embora nem sempre escolha livre).</p>     <p>Dentro de uma no&ccedil;&atilde;o existencial da distin&ccedil;&atilde;o sa&uacute;de/ doen&ccedil;a, o humano tenta de fazer para si mesmo um ser que n&atilde;o est&aacute; ali, um ser fugidio, mediante escolhas angustiadas de si mesmo; Heidegger veria a sa&uacute;de como parte deste empreendimento existencial de fazerse; nesse processo, o Dasein poderia escolher livre e dramaticamente a doen&ccedil;a, talvez mais aut&ecirc;ntica do que a sa&uacute;de. Lembremos que o valor m&aacute;ximo dentro da anal&iacute;tica existencial n&atilde;o &eacute; a verdade objetiva ou a adequa&ccedil;&atilde;o do humano ao mundo, mas sim a autenticidade da exist&ecirc;ncia, o que Heidegger chama de "propriedade". Para o autor, a quest&atilde;o da doen&ccedil;a como estado, a medicina como salva&ccedil;&atilde;o e, ainda o processo de medicaliza&ccedil;&atilde;o, seriam constru&ccedil;&otilde;es tipicamente metaf&iacute;sicas.</p>     <p>Os denominados "Semin&aacute;rios de Zollikon", encontros peri&oacute;dicos de Heidegger com Medard Boss e um grupo de psic&oacute;logos e psiquiatras; encontros que aconteceram entre 1959 e 1969 aproximadamente, v&atilde;o mostrar os tr&ecirc;s modos de rela&ccedil;&atilde;o de Heidegger com a medicina e com os profissionais da sa&uacute;de. O primeiro apartado dessa obra est&aacute; constitu&iacute;da pelas sess&otilde;es onde est&atilde;o presentes todos os participantes (semin&aacute;rios propriamente ditos); no segundo relatam-se os di&aacute;logos entre Heidegger e o psiquiatra Medard Boss, que resultam num pequeno dicion&aacute;rio esclarecedor. A &uacute;ltima parte do livro cont&eacute;m fragmentos das cartas entre Heidegger e Boss em uma esp&eacute;cie de aventura dial&oacute;gica. Os semin&aacute;rios resultam iluminadores em v&aacute;rios sentidos; fala-se do tempo, a natureza, a ang&uacute;stia, o corpo, as doen&ccedil;as psicossom&aacute;ticas, a esquizofrenia, o estresse, a transfer&ecirc;ncia, entre outros.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesta obra Heidegger vai mostrar como o dogmatismo da ci&ecirc;ncia positiva e disposicional inibe a capacidade de assombro diante do ser e do humano. Ele vai dizer que a mesma ci&ecirc;ncia, inserida na din&acirc;mica do progresso, tornouse cega. Por exemplo, os psic&oacute;logos naturalistas continuam vendo os humanos como dep&oacute;sitos de doen&ccedil;as, em lugar de v&ecirc;-los como Dasein, para quem a doen&ccedil;a &eacute; sempre e inevitavelmente um processo hist&oacute;rico.</p>     <p>Na ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea encontramos o querer dispor da natureza, o tornar &uacute;til, o poder calcular antecipadamente, o predeterminar como o processo da natureza deve-se desenrolar para que eu possa agir com seguran&ccedil;a perante ele. A seguran&ccedil;a e a certeza s&atilde;o importantes. Exige-se uma certeza no querer controlar. O que se pode calcular de antem&atilde;o, antecipadamente, o que pode ser medido &eacute; real e apenas isso. At&eacute; onde isto nos leva perante uma pessoa doente? Fracassamos! O princ&iacute;pio de causalidade tem efetividade na F&iacute;sica, e ainda assim s&oacute; limitadamente. (Heidegger, 2007, p. 47)</p>     <p>&Eacute; pertinente trazer Heidegger para a Bio&eacute;tica ao refletir sobre o porqu&ecirc; as pessoas parecem deixarse enganar de maneira t&atilde;o f&aacute;cil, caindo nas garras da medicaliza&ccedil;&atilde;o e da politiza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de. Respostas meramente sociol&oacute;gicas ou pol&iacute;ticas deste fen&ocirc;meno v&atilde;o frisar a situa&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de num contexto de capitalismo tardio, neoliberalismo e mercantiliza&ccedil;&atilde;o do corpo; mas Heidegger pode ajudar a descobrir tamb&eacute;m alguns motivos ontol&oacute;gico-existenciais desses fen&ocirc;menos de auto-engano. No fen&ocirc;meno da medicaliza&ccedil;&atilde;o, que interfere t&atilde;o profundamente com a vida di&aacute;ria das pessoas, ainda mais, patrocinada pelo poderoso aparato de propaganda, &eacute; poss&iacute;vel fazer que in&uacute;meros Dasein passem a ter projetos que por si s&oacute; jamais teriam.</p>     <p>Num outro momento, poder&iacute;amos falar tamb&eacute;m, &agrave; luz do pensamento de Heidegger, da compreens&atilde;o dos limites entre responsabilidade e incumb&ecirc;ncia da medicina cientifica a respeito de seus pressupostos existenciais. N&atilde;o &eacute; obriga&ccedil;&atilde;o de o cientista obedecer a um modo de pesquisar que deliberadamente esquecese de seus pr&oacute;prios pressupostos. A exig&ecirc;ncia da abordagem existencial fica no patamar de pensamento n&atilde;o apenas reflexivo, mas de um pensar hist&oacute;rico que coloca perguntas cruciais que demandam respostas variadas, visando salvar-nos do maior perigo: perder a capacidade de assombro que vem com a abertura ao ser, privil&eacute;gio do Dasein.</p>     <p>Na filosofia heideggeriana do humano, a quest&atilde;o da linguagem sempre foi fundamental. Nesta dire&ccedil;&atilde;o, &eacute; importante destacar que, dentro do problema da medicaliza&ccedil;&atilde;o, existe tamb&eacute;m uma medicaliza&ccedil;&atilde;o da linguagem, que pode ser enfrentada mediante a ideia de Heidegger da linguagem como um habitar. A tese fundamental &eacute; que o Dasein apresenta, na sua estrutura existencial ou mundana, uma refer&ecirc;ncia ao ser como linguagem, n&atilde;o uma refer&ecirc;ncia meramente cognitiva que pudesse ser obtida por considera&ccedil;&otilde;es epistemol&oacute;gicas ou lingu&iacute;sticas, mas uma refer&ecirc;ncia existencial ou de "habita&ccedil;&atilde;o" no ser-linguagem, de "viver em" e n&atilde;o apenas de um tomar conhecimento ou de um "estar cientes" ou de um usar a linguagem como mero instrumento. Esta "habit&acirc;ncia" ou moradia do Dasein no ser, esta liga&ccedil;&atilde;o fundamental do ser-no-mundo com o ser, &eacute; vista por Heidegger como linguagem e mais especificamente como fala, como acontecer hist&oacute;rico da fala e do falar (incluindo dimens&otilde;es como a escuta e o sil&ecirc;ncio).</p>     <p>Da&iacute; que ser, ser-no-mundo (Dasein) e fala, desde o come&ccedil;o se correspondam. Perpassa toda a an&aacute;lise existencial de "Ser e Tempo", esse contraste entre uma considera&ccedil;&atilde;o puramente epistemol&oacute;gico-objetiva do mundo em sentido meramente espacial, ligada &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o do ser e do homem como mera presen&ccedil;a, e a considera&ccedil;&atilde;o existencial no sentido da referencia ao Dasein. &Eacute; dentro deste novo contexto que a quest&atilde;o da sa&uacute;de dever&aacute; ser colocada: a medicaliza&ccedil;&atilde;o da linguagem &eacute; poss&iacute;vel apenas como uma dimens&atilde;o degradada da fala (embora n&atilde;o apenas num sentido moral, mas ontol&oacute;gico), como uma vicissitude do ser-linguagem.</p>     <p>Na perspectiva heideggeriana da linguagem como "habit&acirc;ncia", n&atilde;o h&aacute; nem pode haver controle da linguagem ou, como se diz, "dom&iacute;nio" (no "dominar uma l&iacute;ngua"), mas o fato da linguagem acontecer como um evento existencial entre dois seres viventes corporais fazendo que a significa&ccedil;&atilde;o e a comunica&ccedil;&atilde;o aconte&ccedil;am. Valor expressivo, valor de verdade, diferen&ccedil;as de significa&ccedil;&atilde;o e imprevisibilidade constituem o car&aacute;ter n&atilde;o meramente representacional das significa&ccedil;&otilde;es. Podese falar de caracter&iacute;sticas imprevis&iacute;veis da linguagem, de uma fenomenologia da linguagem com elementos hermen&ecirc;uticos em um movimento estruturado e estruturante (Cabrera, 2006, p. 131-133). A sa&uacute;de pode ser submetida &agrave; medicaliza&ccedil;&atilde;o -incluindo a medicaliza&ccedil;&atilde;o da linguagem- porque estar s&atilde;o e estar doente s&atilde;o j&aacute; dimens&otilde;es existenciais da fala; a doen&ccedil;a pode ser vista como uma esp&eacute;cie do calar, e a cura como uma esp&eacute;cie de escuta. H&aacute; toda uma gama de possibilidades de pesquisas futuras sobre estas poss&iacute;veis contribui&ccedil;&otilde;es heideggerianas para a quest&atilde;o da sa&uacute;de/doen&ccedil;a.</p>     <p>&Agrave; luz das categorias heideggerianas, a quest&atilde;o da medicaliza&ccedil;&atilde;o parece ser poss&iacute;vel gra&ccedil;as a tr&ecirc;s condi&ccedil;&otilde;es existenciais que poderiam ter suas contrapartidas psicol&oacute;gicas:</p>     <p> (a) A capacidade que algu&eacute;m pode ter de mudar a sua vis&atilde;o de uma situa&ccedil;&atilde;o diante de um grupo de humanos; por exemplo, a habilidade do doutor Knock, na c&eacute;lebre pe&ccedil;a de Jules Romais, para inserir uma pessoa numa vis&atilde;o (poder&iacute;amos dizer, numa Gestalt) de "doen&ccedil;a", quando, no dia anterior, essa mesma pessoa estava inserida numa Gestalt de "pessoa sadia". Illich corrobora esta afirma&ccedil;&atilde;o quando diz que em 1920 s&oacute; os ricos e os membros das elites pensavam na necessidade de consultar um m&eacute;dico quando tinham febre; mas o aparecimento dos antibi&oacute;ticos ajudaram a criar o "papel de doente" e a conduta que dele se espera nessas condi&ccedil;&otilde;es: ir ao m&eacute;dico passou a ser uma obriga&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o. Logo, uma segunda muta&ccedil;&atilde;o das necessidades de sa&uacute;de ocorre quando os testes de avalia&ccedil;&atilde;o preventiva s&atilde;o rotinizados: nesse momento, toda pessoa passa a ser suspeita de ser doente at&eacute; que prove o contr&aacute;rio.</p>     <p> (b) A capacidade de persuas&atilde;o de algu&eacute;m, que faz com que outra pessoa seja convencida de mudar de Gestalt (recursos ret&oacute;ricos de convencimento) Neste ponto, Nogueira diz que na segunda cr&iacute;tica social da sa&uacute;de, a iatrog&ecirc;nese do corpo &eacute; um fen&ocirc;meno contempor&acirc;neo que s&oacute; pode ser compreendido atrav&eacute;s da hist&oacute;ria das mudan&ccedil;as operadas na matriz de percep&ccedil;&atilde;o do corpo. Naturalmente, a m&iacute;dia desempenha um papel muito proeminente nesta quest&atilde;o, pois serve de ve&iacute;culo de difus&atilde;o a todas essas variadas formas normativas de cuidado do corpo (Nogueira, 2003, p. 60).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(c) Finalmente, tudo isso pressup&otilde;e que as pessoas est&atilde;o ansiosas por serem enganadas, predispostas &agrave;s ilus&otilde;es, talvez porque o mundo se apresenta como demasiado assustador. Por um lado poderia se pensar que, culturalmente, o maior agente pat&oacute;geno de hoje seria a busca de um corpo sadio, de maneira que essa percep&ccedil;&atilde;o obsessiva de sua pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de, na concep&ccedil;&atilde;o de Nogueira, chamada de higioman&iacute;a, influenciaria sobre o que o leigo pensa ao respeito de sa&uacute;de mais do que os pr&oacute;prios m&eacute;dicos. Nogueira utiliza o termo "higioman&iacute;a" para cobrir os significados da "iatrog&ecirc;nese do corpo" e "narcisismo do corpo sadio" nas express&otilde;es do Illich. Todos estes fen&ocirc;menos aguardam a que suas bases ontol&oacute;gicoexistenciais sejam descobertas e devidamente expostas.</p>     <p><b>CONCLUS&Otilde;ES </b></p>     <p>A Modernidade est&aacute; movida por uma vontade de autonomia de exist&ecirc;ncia, que procura chegar a uma promo&ccedil;&atilde;o ilimitada do ser. Ao desaparecer a separa&ccedil;&atilde;o entre o homem e a sua pr&aacute;xis, a ci&ecirc;ncia e a t&eacute;cnica adquirem um novo estatuto e o campo de seu exerc&iacute;cio come&ccedil;a a ser o sujeito mesmo. No entanto, o humano n&atilde;o abandonou a sua voca&ccedil;&atilde;o de liberdade e segue associando sua concre&ccedil;&atilde;o a uma vida amparada do perigo. Aquilo que a filosofia e a ci&ecirc;ncia t&ecirc;m regularmente feito foi colocar o mundo ao alcance da m&atilde;o, da manipula&ccedil;&atilde;o, do manuseio, sob a forma de um objeto do qual se possa sempre dispor. No universo que disponibiliza, nascem os &uacute;teis ou utens&iacute;lios, objetos definidos pragmaticamente, mas Heidegger observa que na sua mesma manipulabilidade os &uacute;teis apontam desde sempre para uma dimens&atilde;o que n&atilde;o &eacute; puramente manipulativa. Assim, Heidegger descobre uma conformidade no n&iacute;vel do mundo que deve sempre ser pressuposta para que existam, no geral, conformidades intramundanas, no sentido do &uacute;til e do utens&iacute;lio. O conformar-se mundano &eacute; um deixar-ser.</p>     <p>Esse elemento de natureza compreensiva, como um coEsse elemento de natureza compreensiva, como um compreender origin&aacute;rio que faz parte do ser-nomundo do Dasein, &eacute; apresentado como fundamento da interpreta&ccedil;&atilde;o hermen&ecirc;utica do mundo e de todo compreender intramundano. Funda uma familiaridade com o mundo que n&atilde;o requer por necessidade "ver atrav&eacute;s" teoreticamente das rela&ccedil;&otilde;es que constituem o mundo como tal. Este "ver a trav&eacute;s", que aparece de maneira recorrente em "Ser e Tempo", vincula-se com o perguntar sobre meios e fins, onde corriqueiramente certos fins s&atilde;o colocados de maneira a-hist&oacute;rica e apenas se estudam os meios apropriados para atingi-los (algo muito t&eacute;cnico comumente expresso, por exemplo, nos manuais de diagn&oacute;sticos de doen&ccedil;as).</p>     <p>No mundo da total organiza&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica do ente, o pensamento n&atilde;o tem outra coisa a fazer mais do que se dedicar inteiramente &agrave; tarefa do dom&iacute;nio t&eacute;cnico do mundo. O pensamento d&aacute; o &uacute;ltimo passo por este caminho pensando o ser como ser-representado, que depende totalmente de um sujeito representante. A principal contribui&ccedil;&atilde;o de Heidegger para a bio&eacute;tica pode consistir em fornecer categorias de emerg&ecirc;ncia para pensar na contram&atilde;o dessa tend&ecirc;ncia destrutiva da humanidade tecnologizada que persistentemente conduz o humano para doen&ccedil;as pr&eacute;-fabricadas e comercializadas.</p> <hr>     <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></p>     <!-- ref --><p>1. Cabrera, J (2009). Margens das Filosofias da linguagem. 2&ordm; Ed. Bras&iacute;lia: Edit da Universidade de Bras&iacute;lia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S1657-4702201400020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>2. Cabrera, J. (2006). A quest&atilde;o &eacute;tico-negativa: valor e desvalor da vida humana no registro da diferen&ccedil;a ontol&oacute;gica. (Em: Garrafa V, Kottow M, Saada A) (org) Bases Conceituais da Bio&eacute;tica: enfoque latino-americano S&atilde;o Paulo: Edit Gaia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S1657-4702201400020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>3. Conrad, P. (2007). The Medicalization of Society: on the transformation of human conditions into treatable disorders. Baltimore: The Johns Hopkins University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S1657-4702201400020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>4. Foucault, M. (2007). Hist&oacute;ria da sexualidade I: a vontade de saber. S&atilde;o Paulo: Edi&ccedil;&otilde;es Graal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S1657-4702201400020001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>5. Gonz&aacute;lez, MA (2000). De la t&eacute;cnica a la hermen&eacute;utica. En Revista del Colegio de Filosof&iacute;a M&eacute;xico, Edit Facultad de Filosof&iacute;a y Letras, Universidad Nacional Aut&oacute;noma de M&eacute;xico. N&ordm; 11 -12 diciembre de 2000 (recuperado el 20 de diciembre de 2012). <a href="http://ru.ffyl.unam.mx:8080/bitstream/10391/2434/1/12_Theoria_11-12_2000_Gonzalez_119-126.pdf" target="_blank">http://ru.ffyl.unam.mx:8080/bitstream/10391/2434/1/12_Theoria_11-12_2000_Gonzalez_119-126.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S1657-4702201400020001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>6. Heidegger, M (2012). Ser e Tempo. Fausto Castilho (org.) Edi&ccedil;&atilde;o bil&iacute;ng&uuml;e alem&atilde;o-portugu&ecirc;s. Petr&oacute;polis (Rio de Janeiro) e Campinas (S&atilde;o Paulo): Edit Vozes e Edit Unicamp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S1657-4702201400020001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>7. Heidegger, M. (1997). A quest&atilde;o da t&eacute;cnica. Cadernos de tradu&ccedil;&atilde;o, USP, S&atilde;o Paulo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S1657-4702201400020001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>8. Heidegger, M. (2008). "Die Kehre". (Reimp) C&oacute;rdoba - Argentina: Alci&oacute;n Edit&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S1657-4702201400020001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>9. Heidegger, M. (2007). Seminarios de Zollikon. Trad Angel Xolocotzi Y&aacute;nez. M&eacute;xico: Edit Morelia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S1657-4702201400020001000009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>10. Heidegger, M (2006). Aportes a la Filosofia. (Acerca del evento). Buenos Aires: Edit Biblos&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S1657-4702201400020001000010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>11. Heidegger, M. (2008). &iquest;Qu&eacute; significa pensar? 2&ordf; ed. Madrid: Edit Trotta&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1657-4702201400020001000011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>12. Illich, I. (1975). A expropria&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de: N&ecirc;mesis da medicina. 3&ordm; ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S1657-4702201400020001000012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>13. Kishore, J. (2002). A dictionary of Public Health. New Delhi: Century Publications&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S1657-4702201400020001000013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>14. Navarro, V. (1978). La medicina bajo el capitalismo. Barcelona: Edit Cr&iacute;tica, Grupo Grijalbo&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S1657-4702201400020001000014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>15. Nogueira, R. (2003). A sa&uacute;de pelo avesso. Natal: Seminare Editora&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S1657-4702201400020001000015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>16. Rivero Weber, P. (2003). Reflexiones en torno a Heidegger. Signos Filos&oacute;ficos, N&ordm; 010: 11-14. Universidad Aut&oacute;noma Metropolitana. 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