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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Afetar e ser afetado: corpo e cognição entre deficientes visuais]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper presents the results of the intervention research performed with a group of visually disabled youths aimed at promoting different articulations between body and cognition. Based on the actor-network theory, we considered that to have a body means to learn how one is affected by heterogeneous and differing actors, human or non human. The field research was performed using body language aiming at promoting connections/ articulations between body and materials as heterogeneous as an elastic, a nail file, a song, a classmate. Interventions were performed in group and were negotiated and agreed by the subjects of the research, so that there be a reciprocal constructive relationship between researcher and researched. The body experiences performed produced new ways of knowing amongst the visually impaired youths. Therefore, we consider that cognition be the effect of such body experiences, hybrid collective cognition, produced by the network. Thus, we elaborate about the role of psychology in an institution for the visually disabled.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  <font face="verdana" size="2"></font><font face="verdana" size="2"> </font><font face="verdana" size="2">     <p align="center"><font size="4"><b>Afetar e ser afetado: corpo e cogni&ccedil;&atilde;o   entre deficientes visuais*</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><b>Affect and being affected: body and cognition among people   with visual disabilities</b></font></p>     <p><b>M&Aacute;RCIA MORAES**    <br> Universidade Federal Fluminense, Brasil </b></p>     <p><b>CAROLINA CARDOSO-MANSO    <br> Universidade Est&aacute;cio de S&aacute;, Brasil </b></p>     <p><b>&Aacute;NA CLAUDIA LIMA-MONTEIRO    <br> Universidade Est&aacute;cio de S&aacute;, Brasil</b></p>     <p>* Artigo de investiga&ccedil;&atilde;o. Trabalho realizado desde 2004 com o apoio do Cnpq e da Faperj no Brasil. Ao longo destes anos os seguintes alunos de gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia da Universidade Federal Fluminense estiveram ligados a esta pesquisa: Aline Alves de Lima (Cnpq/IC - 2004-2007), Carolina Cardoso Manso (Faperj/IC - 2004-2008), J&uacute;lia Neves (Faperj/IC 2008 at&eacute; a presente data), Thadeu Gon&ccedil;alves (Faperj/IC 2008 at&eacute; a presente data), Josselem Conti (Cnpq/IC 2008 at&eacute; a presente data), Isabela Prince (Cnpq/IC 2007-2008). O projeto recebeu tamb&eacute;m o apoio da Pro-Reitoria de Extens&atilde;o da Univesidade Federal Fluminense, na modalidade de bolsa de extens&atilde;o universit&aacute;ria concedida &agrave; Luciana Franco (UFF/Proex 2006-2007), Luara Fernandes (UFF/Proex 2008 at&eacute; a presente data). Agradecemos a todos os profissionais do Instituto Benjamin Constant que nos receberam naquela institui&ccedil;&atilde;o onde realizamos a pesquisa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>** Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense. E-mail: <a href="mailto:mmoraes@vm.uff.br">mmoraes@vm.uff.br</a></p>     <p>Recibido: febrero 3 de 2009    | Revisado: marzo 29 de 2009    | Aceptado: abril 4 de 2009</p> <hr> </font>     <p><font size="2" face="verdana"><b>RESUMO</b></font><font face="verdana" size="2"></font></p> <font face="verdana" size="2">    <p>O objetivo deste trabalho &eacute; apresentar os resultados da pesquisa interven&ccedil;&atilde;o realizada com um grupo de jovens deficientes visuais que visa promover diferentes articula&ccedil;&otilde;es entre corpo e cogni&ccedil;&atilde;o. Baseados na teoria ator-rede, consideramos que ter um corpo &eacute; aprender a ser afetado por atores d&iacute;spares e heterog&ecirc;neos, tanto humanos quanto n&atilde;o humanos. O trabalho de campo &eacute; realizado atrav&eacute;s de atividades de express&atilde;o corporal que t&ecirc;m por finalidade promover conex&otilde;es, articula&ccedil;&otilde;es entre o corpo e materiais t&atilde;o heterog&ecirc;neos quanto um el&aacute;stico, uma lixa, uma m&uacute;sica, um colega. As interven&ccedil;&otilde;es s&atilde;o realizadas em grupo e s&atilde;o negociadas e pactuadas com os sujeitos que participam da pesquisa, de tal modo que h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o de constru&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca entre o pesquisador e o pesquisado. As experimenta&ccedil;&otilde;es corporais realizadas t&ecirc;m produzido novos modos de conhecer entre os jovens com deficiencia visual. Neste sentido, consideramos que a cogni&ccedil;&atilde;o &eacute; efeito de tais experimenta&ccedil;&otilde;es corporais, cogni&ccedil;&atilde;o coletiva, h&iacute;brida, que se produz em rede. Por esta via, somos levados a tecer considera&ccedil;&otilde;es sobre o papel da psicologia numa institui&ccedil;&atilde;o voltada para a educa&ccedil;&atilde;o dos deficientes visuais. </p>     <p><b>Palavras chave autores </b>Corpo, cogni&ccedil;&atilde;o, defici&ecirc;ncia visual.</p>     <p><b>Palavras chave </b>Educaci&oacute;n de ciegos, cognici&oacute;n y cultura.</p> <hr> <b>ABSTRACT</b></font><font face="verdana" size="2">     <p>This paper presents the results of the intervention research performed with a group of visually disabled youths aimed at promoting different articulations between body and cognition. Based on the actor-network theory, we considered that to have a body means to learn how one is affected by heterogeneous and differing actors, human or non human. The field research was performed using body language aiming at promoting connections/ articulations between body and materials as heterogeneous as an elastic, a nail file, a song, a classmate. Interventions were performed in group and were negotiated and agreed by the subjects of the research, so that there be a reciprocal constructive relationship between researcher and researched. The body experiences performed produced new ways of knowing amongst the visually impaired youths. Therefore, we consider that cognition be the effect of such body experiences, hybrid collective cognition, produced by the network. Thus, we elaborate about the role of psychology in an institution for the visually disabled.</p>     <p> <b>Key works authors </b>Body, Cogniton, Visual Disability. </p>     <p><b>Key works plus </b>Blind Education, Cognition and Culture.</p> <hr>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o: o hist&oacute;rico da pesquisa</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Arlequim &eacute; m&uacute;ltiplo e diverso, ondulante e plural (...) a ci&ecirc;ncia fala de &oacute;rg&atilde;os, de fun&ccedil;&otilde;es, de c&eacute;lulas e de mol&eacute;culas, para finalmente confessar: faz tempo n&atilde;o se fala mais de vida nos laborat&oacute;rios; mas ela nunca se refere &agrave; carne (...) a mistura, (...) que mescla aquilo que o saber pertinente analisa.</i></p>     <p>Serres, 1993, p.4-5</p>     <p>Este trabalho tem o objetivo de apresentar alguns resultados da pesquisa que desenvolvemos com um grupo de jovens com defici&ecirc;ncia visual, matriculados numa escola de Educa&ccedil;&atilde;o Especial, o Instituto Benjamin Constant &#91;IBC&#93;, situada no Rio de Janeiro, Brasil. Esta Institui&ccedil;&atilde;o &eacute; um centro de refer&ecirc;ncia nacional no campo da defici&ecirc;ncia visual. Com mais de 150 anos de exist&ecirc;ncia o IBC desenvolve diversas a&ccedil;&otilde;es no campo da defici&ecirc;ncia visual: atendimentos oftalmol&oacute;gicos, atividades de reabilita&ccedil;&atilde;o, aulas de Braille, capacita&ccedil;&atilde;o de profissionais de educa&ccedil;&atilde;o, entre outras.</p>     <p>A investiga&ccedil;&atilde;o no campo da defici&ecirc;ncia visual come&ccedil;ou h&aacute; cinco anos atr&aacute;s, quando coorden&aacute;vamos uma Oficina de Express&atilde;o Corporal vinculada &agrave; Oficina de Teatro da Escola do IBC. Naquela ocasi&atilde;o, nosso trabalho consistia em promover experi&ecirc;ncias corporais diversas a fim de levar os jovens deficientes visuais a elaborarem os personagens que interpretariam numa pe&ccedil;a, que seria encenada na escola, ao final do ano letivo. A encena&ccedil;&atilde;o da pe&ccedil;a era uma forma de celebrar o final do ano e, para isso, os alunos ensaiavam durante todo o ano. Entre os alunos que faziam a Oficina de Teatro, havia condi&ccedil;&otilde;es visuais diversas: alguns eram cegos cong&ecirc;nitos, outros tinham cegueira adquirida e outros tinham baixa vis&atilde;o, com graus de vis&atilde;o distintos. O desafio da Oficina de Express&atilde;o Corporal era fazer com que aqueles jovens com defici&ecirc;ncia visual encarnassem os personagens que representariam na pe&ccedil;a, ou seja, nosso trabalho era fazer com que os jovens desenvolvessem as posturas corporais, os gestos, os modos de falar dos seus personagens. Durante a execu&ccedil;&atilde;o deste trabalho nos demos conta da import&acirc;ncia das experi&ecirc;ncias corporais para a constru&ccedil;&atilde;o da cogni&ccedil;&atilde;o naquele grupo de pessoas. Pudemos observar que muitas vezes os jovens cegos repetiam palavras sem no entanto, de fato, encarnar o sentido que elas tinham. Em outras ocasi&otilde;es observamos que as instru&ccedil;&otilde;es &quot;meramente verbais&quot; da professora de teatro<sup><a href="#1" name="n1">1</a></sup> n&atilde;o eram compreendidas. Por exemplo: a professora dizia para uma menina cega de nascen&ccedil;a que o personagem dela, uma bailarina, devia rodopiar com leveza pelo palco<sup><a href="#2" name="n2">2</a></sup>. A menina n&atilde;o tinha nenhuma refer&ecirc;ncia do que significava &quot;rodopiar com leveza&quot; e fazia movimentos que pareciam estranhos &agrave;queles que tinham baixa vis&atilde;o ou aos videntes<sup><a href="#3" name="n3">3</a></sup>. Tal estranheza era manifestada pelos alunos na forma de coment&aacute;rios, observa&ccedil;&otilde;es acerca da postura &quot;correta&quot; da bailarina, demonstra&ccedil;&otilde;es de posturas corporais imitadas a partir da observa&ccedil;&atilde;o de programas de televis&atilde;o ou outras situa&ccedil;&otilde;es vividas pelos sujeitos.</p>     <p>O que estava em jogo neste contexto era uma pol&ecirc;mica que dizia respeito &agrave;s fronteiras entre o ver e o n&atilde;o ver. De um lado, havia os alunos com baixa vis&atilde;o que, de um modo ou de outro, tinham um referencial visual de uma bailarina; de outro lado, a menina cega cong&ecirc;nita que n&atilde;o dispunha destes mesmos referenciais<sup><a href="#4" name="n4">4</a></sup>. Nosso trabalho de pesquisa foi orientado por estas quest&otilde;es e o que nos interessava era investigar os modos pelos quais uma pessoa cega conhece o mundo a sua volta. Inspirados pelas pesquisas de Masini (1994), busc&aacute;vamos intervir de modo imanente, isto &eacute;, tendo em considera&ccedil;&atilde;o os referenciais que aquele grupo de sujeitos utilizava para conhecer o mundo a sua volta.</p>     <p>Foi neste contexto que em 2006 demos inicio a uma pesquisa interven&ccedil;&atilde;o que tem como fun&ccedil;&atilde;o investigar os seguintes problemas: quais as rela&ccedil;&otilde;es entre corpo e cogni&ccedil;&atilde;o num grupo de pessoas com defici&ecirc;ncia visual? De que modo promover experi&ecirc;ncias corporais articuladas a modos de conhecer o outro, o espa&ccedil;o e a si mesmo? Em suma, como produzir modos de conhecer a partir das experi&ecirc;ncias corporais? Estas s&atilde;o as principais quest&otilde;es que, desde ent&atilde;o, orientam nossa pesquisa. O trabalho de campo continou sendo realizado atrav&eacute;s de Oficinas de Express&atilde;o Corporal. Mas as atividades da Oficina passaram a ser oferecidas aos alunos da escola do IBC, estivessem eles fazendo aulas de teatro ou n&atilde;o. Atualmente, participam da Oficina 11 jovens, com idades entre 11 e 16 anos, sendo 1 cego cong&ecirc;nito, 2 jovens com cegueira adquirida e os demais com baixa vis&atilde;o. As atividades da Oficina s&atilde;o oferecidas uma vez por semana, com dura&ccedil;&atilde;o de uma hora e meia cada encontro.</p>     <p>No trabalho que ora apresentamos, interessanos discutir dois pontos: um de natureza te&oacute;rica, outro ligado &agrave;s discuss&otilde;es metodol&oacute;gicas. Assim:</p>     <p>&bull;&nbsp;Teoricamente perguntamos: como podemos definir as rela&ccedil;&otilde;es entre corpo e cogni&ccedil;&atilde;o entre jovens deficientes visuais? Como esta rela&ccedil;&atilde;o ocorre nas pr&aacute;ticas escolares de um grupo de jovens com defici&ecirc;ncia visual?</p>     <p>&bull;&nbsp;Metodologicamente: buscamos uma metodologia de investiga&ccedil;&atilde;o e de interven&ccedil;&atilde;o que opere longe das tradicionais metodologias de pesquisa em psicologia que separam sujeito e objeto. Dito de outro modo, buscamos um referencial metodol&oacute;gico que nos permita intervir de modo imanente, construindo com os sujeitos as interven&ccedil;&otilde;es realizadas. Ou seja, o que nos orienta metodologicamente &eacute; a aposta de que sujeito e objeto do conhecimento s&atilde;o co-construidos. Assim, nossas interven&ccedil;&otilde;es com aquele grupo de pessoas est&atilde;o articuladas aos modos pelos quais essas pessoas se articulam com a pesquisa, aos modos pelos quais elas s&atilde;o afetadas por aquilo que lhes &eacute; proposto. Por esta via entendemos que pesquisar &eacute; conhecer com o outro e n&atilde;o conhecer sobre o outro.</p>     <p><b>Afetar e ser afetado: o corpo que n&oacute;s fazemos</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Seguindo as pistas de Latour (1999), Mol (2002) e, Mol e Law (2003) consideramos que quando falamos em corpo n&atilde;o nos referimos a um objeto dado, isolado. N&atilde;o nos referimos a uma subst&acirc;ncia na qual habita uma alma imaterial. Para estes autores &quot;existem muitos modos diferentes de fazer (enact) um corpo&quot; (Mol &amp; Law, 2003). Ou seja, para estes autores, o corpo n&atilde;o est&aacute; dado, fechado, isolado, ao contr&aacute;rio o corpo possui fronteiras perme&aacute;veis. Ele &eacute; feito (enacted); efetuado e construido atrav&eacute;s de m&uacute;ltiplas e heterog&ecirc;neas conex&otilde;es entre humanos e n&atilde;o humanos. Mol e Law (2003) colocam no centro de suas investiga&ccedil;&otilde;es a no&ccedil;&atilde;o do &quot;corpo-que-n&oacute;s-fazemos&quot; (&quot;the-body-we-do&quot;) para afirmar o sentido de corpo com o qual trabalham. Trata-se de colocar em primeiro plano as pr&aacute;ticas atrav&eacute;s das quais o corpo &eacute; articulado, trata-se, portanto de investigar o corpo em a&ccedil;&atilde;o. Nas palavras de Bruno Latour (1999) encontramos uma defini&ccedil;&atilde;o de corpo que concorda com o que Mol e Law (2003) prop&otilde;em. Para o autor o corpo &eacute;:</p>     <p>uma interface que se torna mais e mais descritivel quando aprende a ser afetada por mais elementos. O corpo &eacute; ent&atilde;o n&atilde;o uma resid&ecirc;ncia provis&oacute;ria de algo superior - uma alma imortal, o universal ou o pensamento - mas o que deixa uma trajet&oacute;ria din&acirc;mica pela qual n&oacute;s aprendemos a registrar e a nos tornar sens&iacute;veis para aquilo de que o mundo &eacute; feito. Tal &eacute; a grande virtude desta defini&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o h&aacute; sentido em definir o corpo diretamente, mas apenas tornando o corpo sens&iacute;vel ao que estes outros elementos s&atilde;o. Ao focar o corpo, estamos imediatamente - ou melhor, mediatamente - dirigidos para aquilo que sensibilizou o corpo. (p. 1)</p>     <p>Assim sendo, para Latour (1999) n&atilde;o h&aacute; corpo sem afec&ccedil;&atilde;o. O corpo se constitui <i>na </i>afec&ccedil;&atilde;o. Dizer que n&atilde;o h&aacute; sentido em falar do corpo, a n&atilde;o ser pela rela&ccedil;&atilde;o que este estabelece com o mundo a partir de sua sensibilidade, &eacute; dizer que, sem afec&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; corpo propriamente dito.</p>     <p>Neste sentido, a &quot;aquisi&ccedil;&atilde;o&quot; do corpo n&atilde;o &eacute; dada por pr&eacute;-disposi&ccedil;&otilde;es <i>a priori, </i>mas, antes, por possibilidades m&uacute;ltiplas de ser afetado. Latour (1999) n&atilde;o pretende afirmar que existem no corpo capacidades pre-definidas de afeta&ccedil;&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, o que &eacute; afirmado &eacute; a maleabilidade e a multiplicidade do corpo, num certo sentido, o que &eacute; afirmado &eacute; variabilidade da &quot;aquisi&ccedil;&atilde;o&quot; do corpo. Logo, um corpo n&atilde;o se resume a rela&ccedil;&otilde;es pre-arranjadas, mas se constroi atrav&eacute;s das conex&otilde;es e afec&ccedil;&otilde;es com o mundo As afec&ccedil;&otilde;es, ao inv&eacute;s de determinarem os encontros poss&iacute;veis, <i>geram, </i>efetivamente os encontros. S&atilde;o as afec&ccedil;&otilde;es que constroem um corpo na medida em que a constitui&ccedil;&atilde;o dos corpos se apresenta, desde sempre mesclada, matizada, tatuada pelas afec&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>A afec&ccedil;&atilde;o &eacute; aquilo que produz efeito nos corpos: efeitos rec&iacute;procos que simultaneamente produzem uma interioridade e uma exterioridade. Tal &eacute; a tese de Latour (1999) acerca do corpo. E neste ponto podemos afirmar que a perspectiva latouriana vai ao encontro da filosofia de Serres (2001).</p>     <p>No enfoque deste fil&oacute;sofo o tato &eacute; o mais importante dos sentidos, aquele por meio do qual primeiro mantemos contato com o mundo. Para Serres (2001, 2004) fazer um corpo &eacute; deixar-se tatuar pelo mundo, &eacute; constituir-se a partir das media&ccedil;&otilde;es com o mundo, das afec&ccedil;&otilde;es. O corpo se constitui como rela&ccedil;&atilde;o, como conex&atilde;o. Assim, nossos contatos com o mundo s&atilde;o estabelecidos a partir de uma superf&iacute;cie t&ecirc;nue: nossa pele. S&atilde;o estes contatos que fabricam o corpo e, ao mesmo tempo, a cogni&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Portanto, o sentido &quot;primeiro&quot;, que nos permite nos reconhecer como um corpo &eacute; o tato. Antes que possamos ver ou ouvir, sentimos o contato e, tal contato nos delimita, nos imp&otilde;e um limite, ao mesmo tempo em que nos lan&ccedil;a no mundo, que nos relaciona com as coisas. Para Serres (2001) todos os nossos sentidos s&atilde;o posteriores ao tato, como podemos perceber em suas narrativas sobre as tape&ccedil;arias da Idade M&eacute;dia <i>A Dama e o Licorne. </i>Ele nos diz: &quot;O tato parece predominar, reunir o sentido comum, soma dos cinco sentidos, com que tece a tenda&quot;<sup><a href="#5" name="n5">5</a></sup> (Serres, 2001, p. 49). Neste trecho,h&aacute; uma bonita analogia entre o tecido e a pele que vale ser aprofundado.</p>     <p>Serres (2001) fala sobre as tape&ccedil;arias da Idade M&eacute;dia n&atilde;o apenas para nos trazer a reflex&atilde;o sobre os sentidos, mas para que esta reflex&atilde;o se apresente, efetivamente atrelada a uma tape&ccedil;aria. N&atilde;o &eacute; por acaso que &eacute; colocada esta rela&ccedil;&atilde;o. A pr&oacute;pria tape&ccedil;aria j&aacute; se apresenta como textura, como forma de apresenta&ccedil;&atilde;o dos sentidos do tato. O toque da tape&ccedil;aria j&aacute; apresenta a pele conectada &agrave; ele de uma maneira pr&oacute;pria. O corpo que consegue sentir a suavidade da textura j&aacute; &eacute; um corpo produzido pela tape&ccedil;aria. Os sentidos n&atilde;o se distinguem do que sentem, portanto, a tape&ccedil;aria forma um corpo, da mesma maneira que o sentido comum -apresentado na sexta tape&ccedil;aria como a tenda- forma a conex&atilde;o dos cinco sentidos, e d&aacute; &agrave; dama o seu corpo. No mar de sensa&ccedil;&otilde;es, apresentado nas tape&ccedil;arias, encontramos sempre a textura dos tapetes, o entrela&ccedil;amento de seus fios e os n&oacute;s de suas conex&otilde;es. Da mesma forma, quando admiramos os quadros de Bonnard<sup><a href="#6" name="n6">6</a></sup>, n&atilde;o vemos apenas uma tela, pintada para enganar os sentidos, mas, o que vemos s&atilde;o texturas que formam sentidos:</p>     <p>Generalizando esta hip&oacute;tese, dir&iacute;amos que o tecido, o t&ecirc;xtil, o estofo d&atilde;o excelentes modelos de conhecimento, excelentes objetos quase abstratos, primeiras variedades: o mundo &eacute; um amontoado de panos. A mulher, pelo conhecimento, estava h&aacute; muito tempo &agrave; frente do macho. Mulher nua de Bonnard, deusa com a ave, mo&ccedil;a com o licorne ou pobretona de sapatinhas. (Serres, 2001, p. 79)</p>     <p>Assim, parecenos poss&iacute;vel afirmar que para Se -rres (2001, 1993), Latour (1994, 1999), Mol e Law (2003) a cogni&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; o atributo de um sujeito dado, mas sim o efeito das afeta&ccedil;&otilde;es entre corpo e mundo. Conhecemos a partir de nossos engajamentos pr&aacute;ticos, de nossos contatos com o mundo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A este respeito, encontramos em Latour (1999), um exemplo interessante: a aquisi&ccedil;&atilde;o de &quot;um nariz&quot; a partir das experi&ecirc;ncias realizadas com o que ele. denomina &quot;Malettes &agrave; odeurs&quot;. De in&iacute;cio, ao usar a &quot;Malettes &agrave; odeurs&quot; o aprendiz n&atilde;o &eacute; capaz de distinguir os odores. &Eacute; o contato com este dispositivo, o engajamento pr&aacute;tico com ele, que permite ao aprendiz definir, cada vez de forma mais apurada, os odores, mesmo que estes estejam misturados ou ocultos em outros odores. Adquirir &quot;um nariz&quot;, na concep&ccedil;&atilde;o de Latour (1999) significa, portanto, ser capaz de diferenciar os odores:</p>     <p>Ent&atilde;o, as partes do corpo s&atilde;o progressivamente adquiridas ao mesmo tempo que as 'partes-contadas do mundo' s&atilde;o registradas de uma nova maneira. Adquirir um corpo &eacute; ent&atilde;o um empreendimento progressivo que produz, de uma s&oacute; vez, um meio sensor e um mundo sensitivo. (p. 2)</p>     <p>Deste modo, o mundo n&atilde;o se apresenta como algo &quot;j&aacute; dado&quot;, pronto, e, por outro lado, o pr&oacute;prio sujeito n&atilde;o pode ser pensado como algo que se apresenta como uma ess&ecirc;ncia. Para Latour (1999), partir do pressuposto de que as coisas s&atilde;o objetivas e os sujeitos subjetivos, nos impede pensar a produ&ccedil;&atilde;o do corpo:</p>     <p>Eu pretendo contrapor isso com outro modelo que espero evitar, a todo custo, este risco que parasita minha descri&ccedil;&atilde;o: num tal modelo, existe um corpo, que significa um sujeito; existe um mundo, que significa objetos; e existe um intermedi&aacute;rio, que significa a linguagem que estabelece as conex&otilde;es entre o mundo e o sujeito. Se n&oacute;s usarmos este modelo, acharemos muito dif&iacute;cil explicar o aprendizado por meio da din&acirc;mica do corpo: o sujeito est&aacute; &quot;dentro&quot; como uma ess&ecirc;ncia definida, e aprender n&atilde;o &eacute; essencial para este vir a ser; o mundo est&aacute; fora, e afetar os outros n&atilde;o &eacute; fundamental para a sua ess&ecirc;ncia. Como para os intermedi&aacute;rios - linguagem, kit de odores - que desaparecem uma vez que as conex&otilde;es tenham sido estabelecidas, j&aacute; que eles n&atilde;o fazem nada mais importante do que conduzir a liga&ccedil;&atilde;o. (p. 15)</p>     <p>Como contraponto, podemos pensar que todos os elementos envolvidos na pr&oacute;pria aprendizagem de &quot;se tornar um nariz&quot; &eacute; o que possibilita a constitui&ccedil;&atilde;o de um corpo. &Eacute; por media&ccedil;&otilde;es que nos tornamos n&oacute;s mesmos e n&atilde;o o contr&aacute;rio. Sobre tal quest&atilde;o, Michel Serres (1974, 1993) nos traz algumas reflex&otilde;es importantes. Sabemos que a quest&atilde;o da media&ccedil;&atilde;o &eacute; trabalhada de forma mais profunda em dois livros: <i>Herm&egrave;s III, la traduction, </i>e <i>Filosofia Mesti&ccedil;a, </i>no qual ele nos traz a bela hist&oacute;ria de Ar-lequim, que, ao visitar todos os lugares do mundo diz n&atilde;o haver nada diferente em lugar nenhum - em contraste com seu manto, absolutamente multicolorido, diverso, descont&iacute;nuo, composto por retalhos desaranjados. Arlequim s&oacute; &eacute; Arle-quim a partir do seu manto furta-cor, ao retir&aacute;-lo, o que encontramos &eacute; outro manto at&eacute; chegarmos &agrave; pele-tatuada, mesclada, mesti&ccedil;a, hermafrodita, ambidestra. Tornarse um corpo significa afastar-se de si mesmo, deixar-se tatuar, marcar os caminhos percorridos pelas afec&ccedil;&otilde;es:</p>     <p>Eis assim descrito o terceiro instru&iacute;do, cuja instru&ccedil;&atilde;o n&atilde;o p&aacute;ra: pela sua natureza e pelas suas experi&ecirc;ncias, acaba de entrar no tempo; abandonou o seu lugar, o seu ser e o pr&oacute;prio estar a&iacute;, a sua terra de origem, viu-se exclu&iacute;do do para&iacute;so, atravessou v&aacute;rios rios, com todos os seus riscos e perigos. (Serres, 1993, p. 27)</p>     <p>Num mundo em que as coisas s&atilde;o constitu&iacute;das por rela&ccedil;&otilde;es, nas quais os efeitos e afec&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o dados previamente, h&aacute; uma constitui&ccedil;&atilde;o constante do corpo a partir das media&ccedil;&otilde;es. O corpo se constitui como rela&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#7" name="n7">7</a></sup>, como conex&atilde;o, torna-se, cada vez mais sens&iacute;vel ao mundo que o cerca. N&atilde;o h&aacute; autenticidade sem mistura, originalidade sem c&oacute;pia, o que h&aacute; &eacute; uma constante produ&ccedil;&atilde;o que ocorre a partir de um afastamento de si mesmo que, ao inv&eacute;s de produzir um enfraquecimento de si &eacute; o que nos possibilita dizer &quot;eu&quot;.</p>     <p>Logo, quando falamos da rela&ccedil;&atilde;o entre corpo e cogni&ccedil;&atilde;o entre jovens deficientes visuais, interessa-nos colocar em primeiro plano os engajamentos pr&aacute;ticos nos quais o corpo &eacute; encenado, performado. Teorica e filosoficamente embasamos este trabalho naquilo que Mol (2002) chama de praxiografia: na medida em que os engajamentos pr&aacute;ticos de fazer um corpo s&atilde;o parte da est&oacute;ria, ela &eacute; uma est&oacute;ria sobre pr&aacute;ticas. Logo, para n&oacute;s, assim como para Mol (2002) o conhecimento n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de refer&ecirc;ncia, mas sim de manipula&ccedil;ao (Mol, 2002, p. 5). A quest&atilde;o central n&atilde;o &eacute; &quot;o que &eacute; um corpo?&quot; mas antes &quot;como um corpo &eacute; efetuado?&quot;</p>     <p>Do ponto de vista metodol&oacute;gico, como dissemos, dois pontos s&atilde;o relevantes:</p>     <p>&bull;&nbsp;seguir as trajet&oacute;rias din&acirc;micas das conex&otilde;es que produzem, ao mesmo tempo, o corpo e a cogni&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&bull;&nbsp;atrav&eacute;s da Oficina de Express&atilde;o Corporal propor interven&ccedil;&otilde;es que sensibilizem e afetem o corpo, isto &eacute;, que transformem o corpo, inaugurando assim, um campo cognitivo in&eacute;dito, distante daquele das repeti&ccedil;&otilde;es verbais vazias que pudemos observar no in&iacute;cio de nosso trabalho. Neste ponto, destacamos que metodogicamente defendemos uma interven&ccedil;&atilde;o contextualizada, situada, no sentido proposto por Haraway (1998). Isto &eacute;, longe de afirmar uma interven&ccedil;&atilde;o que se defina como um a priori, como uma norma a ser seguida, afirmamos como princ&iacute;pio metodol&oacute;gico a pactua&ccedil;&atilde;o, a negocia&ccedil;&atilde;o das interven&ccedil;&otilde;es com o grupo. Dito de outro modo, pensamos nossa interven&ccedil;&atilde;o no grupo como um processo imanente, sempre atravessado pelas quest&otilde;es que marcam aquele coletivo com o qual lidamos. Assim, cada a&ccedil;&atilde;o proposta na Oficina &eacute; pactuada e negociada com o grupo, ela tem como solo de funda&ccedil;&atilde;o os problemas que afetam aquele grupo. Desse modo, metodologicamente o trabalho afirma uma rela&ccedil;&atilde;o de constru&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca entre pesquisador e pesquisado: as a&ccedil;&otilde;es s&atilde;o proposi&ccedil;&otilde;es, no sentido afirmado por Latour (1999), isto &eacute;, valem na medida em que s&atilde;o retomadas, refeitas pelos outros. Cada interven&ccedil;&atilde;o visa, assim, intervir naquele grupo ampliando as articula&ccedil;&otilde;es entre o corpo e os mais diversos elementos: visamos alargar as conex&otilde;es do corpo com o mundo, criar novas e in&eacute;ditas oportunidades de afeta&ccedil;&atilde;o entre corpo e mundo. Ao mesmo tempo, enquanto pesquisadores, somos afetados por estas interven&ccedil;&otilde;es na medida em que elas tamb&eacute;m nos transformam, fazem variar os nossos modos de conhecer e de intervir naquele grupo. Assim, entendemos que o processo de produzir conhecimento implica uma afeta&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca: transformamos o outro e somos por ele transformados.</p>     <p><b>Arlequim e Colombina: o corpo em a&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>O trabalho de campo &eacute; um tecido rico de tramas, de narrativas que se conectam, de hist&oacute;rias de corpos que se modificam, universos cognitivos que se produzem. Para esta apresenta&ccedil;&atilde;o escolhemos um dos fios que comp&otilde;em esta trama. Para fazer falar o campo de pesquisa utilizaremos nomes ficticios para os sujeitos da pesquisa. Eles ser&atilde;o aqui nomeados como os personagens da com&eacute;dia dellarte italiana: Arlequim e Colombina. Escolhemos estes nomes tanto em fun&ccedil;&atilde;o do papel questionador de Arlequim na com&eacute;dida dellarte quanto pelo sentido que Serres (1993) d&aacute; este personagem em seus livros. Para este fil&oacute;sofo, como dissemos acima, Arlequim &eacute; o mesti&ccedil;o, &eacute; aquilo que, de algum modo, resiste ao pensamento anal&iacute;tico, quantificador e objetivista. No contexto deste trabalho, Arlequim, em sua fala n&atilde;o aceita os limites que lhe s&atilde;o colocados. Ao contr&aacute;rio, Arlequim afirma um modo de existir poss&iacute;vel em sua diferen&ccedil;a e singularidade. O que ser&aacute; apresentado a seguir foi gravado e posteriormente transcrito. Al&eacute;m deste registro, as pesquisadoras tomaram notas em um di&aacute;rio de campo do que se passou na Oficina de Express&atilde;o Corporal.<sup><a href="#8" name="n8">8</a></sup></p>     <p>No encontro da Oficina de Express&atilde;o Corporal que ser&aacute; narrado, as atividades propostas diziam respeito &agrave;s poss&iacute;veis conex&otilde;es entre variados movimentos do corpo e sons os mais diversos e d&iacute;spares poss&iacute;veis. A cada som proposto pelas pesquisadoras, os sujeitos inventavam movimentos corporais que lhe eram correspondentes. Assim, por exemplo, a um som agudo, cada um dos participantes da Oficina criava um movimento de corpo. Depois, para outro som, dessa vez, mais grave, outros movimentos corporais eram criados. Os sons eram apresentados sequencialmente, de in&iacute;cio de modo lento, e em seguida, num ritmo mais acelarado. A articula&ccedil;&atilde;o entre os sons propostos e os movimentos dos corpos dos sujeitos acabava por resultar numa esp&eacute;cie de dan&ccedil;a, formada pela articula&ccedil;&atilde;o de todos os movimentos que os sujeitos criaram. Ao mesmo tempo, o espa&ccedil;o da sala era explorado, investigado atrav&eacute;s da dan&ccedil;a, dos sons, dos corpos que se afetavam e se tatuavam por tais experimenta&ccedil;&otilde;es. No contexto destas a&ccedil;&otilde;es, o som de um guizo disparou uma controv&eacute;rsia: Ar-lequim e Colombina, protoganistas desta hist&oacute;ria, discordavam. Pode um cego jogar queimado? Para Colombina, cego joga queimado se for guiado por uma pessoa que v&ecirc;. Para Arlequim, cego joga queimado sem ser guiado por algu&eacute;m que v&ecirc;. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia ambos perguntavam: o que pode o corpo de um cego?</p>     <p>Arlequim tem 14 anos, ficou cego h&aacute; dois anos em decorr&ecirc;ncia de uma doen&ccedil;a progressiva que o acompanhou deste muito crian&ccedil;a. Colombina tem 17 anos e tem baixa vis&atilde;o. Ambos participam da Oficina de Express&atilde;o Corporal h&aacute; mais de 3 anos.</p>     <p>Eis a pol&ecirc;mica:</p>     <p>Colombina diz: &quot;Cego s&oacute; joga queimado com a ajuda de algu&eacute;m que v&ecirc;. Cego tem que ser guiado&quot;. Arlequim: &quot;Quem disse isso? Cego tem um jeito de jogar queimado sim&quot;.</p>     <p>Colombina diz: &quot;Para o cego jogar tem que ter algu&eacute;m batendo palma, chamando pelo nome dele&quot;. Arlequim: &quot;Mas e o guizo? Serve para que? A gente escuta o guizo da bola e aprende a se mexer r&aacute;pido. Eu n&atilde;o quero ser guiado o tempo todo, quero me mexer mais sozinho, tenho que aprender isso&quot;. Colombina: &quot;Se n&atilde;o for guiado o cego vai sempre perder no jogo, vai sempre levar bolada. Com o que eu vejo consigo me desviar da bola, por isso, acho que se eu jogar com um cego vou ganhar sempre, vai ser injusto com o cego&quot;.</p>     <p>Arlequim: &quot;Injusto? Que nada! Voc&ecirc; acha isso porque n&atilde;o sabe se ligar no som do guizo, voc&ecirc; s&oacute; liga no jogo porque v&ecirc; a bola, eu me ligo no jogo porque ou&ccedil;o o barulho do guizo. Vamos marcar um jogo de queimado de cegos com quem tem baixa vis&atilde;o?&quot; (Falas transcritas do di&aacute;rio de campo).</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es Finais</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Qual &eacute; a quest&atilde;o da pol&ecirc;mica? O que est&aacute; sendo colocado em debate por Arlequim? Em nosso di&aacute;rio de campo anotamos os efeitos que tal controv&eacute;rsia produziu naquele grupo. Destacamos dois efeitos:</p>     <p>1.&nbsp;o primeiro, diz respeito aos modos de efetuar o corpo;</p>     <p>2.&nbsp;o segundo efeito est&aacute; ligado &agrave;s discuss&otilde;es metodol&oacute;gicas.</p>     <p>Seguindo as pistas de Arlequim, somos levados a pensar a cegueira longe do paradigma moderno segundo o qual a cegueira era articulada ao corpo entendido a partir de uma normalidade visual. Dito de outro modo, o enfoque moderno &eacute; biom&eacute;dico e faz da cegueira uma falta, um desvio por rela&ccedil;&atilde;o &agrave; normalidade visual. Tal enfoque marcou, segundo Martins (2006) algumas pesquisas e pr&aacute;ticas voltadas para as pessoas com defici&ecirc;ncia visual. Diferentemente disso, a cegueira, tal como &eacute; efetuada por Arlequim, &eacute; uma forma vari&aacute;vel que se articula com os mais diversos e heterog&ecirc;neos elementos: o guizo da bola, a gritaria, os colegas do jogo.</p>     <p>Assim, afirmamos que o corpo-que-eu-fa&ccedil;o, o corpo-em-a&ccedil;&atilde;o nunca &eacute; um todo, nem &eacute; fragmentado: ele &eacute; uma configura&ccedil;&atilde;o complexa, da qual fazem parte elementos d&iacute;spares. Logo, quando dizemos que n&oacute;s temos um corpo, esta afirma&ccedil;&atilde;o oculta o trabalho de fabrica&ccedil;&atilde;o deste corpo. E este trabalho cada um tem que fazer, inclusive o cego. Manter o corpo como um todo &eacute; um trabalho, n&atilde;o &eacute; algo dado, mas alcan&ccedil;ado, construido. O corpo-que-eu-fa&ccedil;o &eacute; atravessado por tens&otilde;es, for&ccedil;as, conex&otilde;es que devem ser levadas em conta. Neste cen&aacute;rio pr&aacute;tico o corpo cego est&aacute; longe de se marcar como um desvio, ele &eacute; antes, pot&ecirc;ncia, diferen&ccedil;a em a&ccedil;&atilde;o. Com a pol&ecirc;mica entre Arlequim e Colombina &eacute; poss&iacute;vel acompanharmos os modos pelos quais a pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o de cegueira varia quando seguida em a&ccedil;&atilde;o, quando tomada n&atilde;o como uma ess&ecirc;ncia,mas como pr&aacute;tica. Para Arlequim, o corpo cego &eacute; afetado pelo mundo de um modo que Colombina desconhece. Para ela a articula&ccedil;&atilde;o entre o corpo e o guizo da bola &eacute; uma articula&ccedil;&atilde;o fraca, no sentido de que n&atilde;o permite que o cego jogue queimado. Arlequim, ao contr&aacute;rio, faz existir o corpo cego longe do referencial do d&eacute;ficit. Esta controv&eacute;rsia produziu outros efeitos nos encontros seguintes da Oficina, muitos outros membros do grupo foram afetados por esta pol&ecirc;mica<sup><a href="#9" name="n9">9</a></sup>.</p>     <p>Do ponto de vista metodol&oacute;gico consideramos que o processo de conhecimento implica um vetor de risco e de indetermina&ccedil;&atilde;o. Se, como dissemos, tomamos nossas interven&ccedil;&otilde;es como proposi&ccedil;&otilde;es, temos que considerar que elas existem na medida em que s&atilde;o transformadas e retomadas por aqueles com quem trabalhamos. Os sujeitos da pesquisa n&atilde;o s&atilde;o passivos e submetidos &agrave;s nossas a&ccedil;&otilde;es, eles s&atilde;o agentes, produzem efeitos e varia&ccedil;&otilde;es que transformam nossos modos de conhecer. Quando propusemos as a&ccedil;&otilde;es de articula&ccedil;&atilde;o entre sons e movimentos do corpo n&atilde;o antecipamos todos os efeitos que estas a&ccedil;&otilde;es produziriam. Como pesquisadores fomos surpreendidos pela controv&eacute;rsia entre Arlequim e Colombina. Mas, na exata medida em que apostamos numa metodologia marcada pela imprevisibilidade, optamos por seguir as conex&otilde;es que nossa a&ccedil;&otilde;es produziram naquele contexto. E foram esas conex&otilde;es que nos mostraram que a cegueira, longe de ser uma marca natural, essencial, &eacute; uma forma que varia, que produz modos diversos de conhecer e de subjetivar o mundo. Desse modo, afirmamos as interven&ccedil;&otilde;es em psicologia como meios poss&iacute;veis de desestabilizar formas que pareciam est&aacute;veis, de fazer proliferar a diferen&ccedil;a. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, apostamos numa psicologia n&atilde;o moderna.</p> <hr>     <p><a href="#n1" name="1"><sup>1</sup></a> Professora Marl&iacute;ria Cunha, a quem agradecemos pela possibilidade de iniciarmos o trabalho de campo da pesquisa.</p>     <p><a href="#n2" name="2"><sup>2</sup></a> A pe&ccedil;a a ser encenada era A loja da Alegria, texto e dire&ccedil;&atilde;o de Marl&iacute;ria Cunha.</p>     <p><a href="#n3" name="3"><sup>3</sup></a> Vidente &eacute; o termo utilizado para fazer refer&ecirc;ncia &agrave;s pessoas que n&atilde;o possuem defici&ecirc;ncia visual.</p>     <p><a href="#n4" name="4"><sup>4</sup></a> Os resultados deste trabalho podem ser lidos em Moraes (2006, 2007).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#n5" name="5"><sup>5</sup></a> A tenda a que Serres se refere aparece na sexta tape&ccedil;aria, das seis expostas no Museu da Idade M&eacute;dia, em Paris, denominadas <i>A Dama e o Licorne. </i>Nesta sexta tape&ccedil;aria, encontramos caracter&iacute;sticas &uacute;nicas, diferentes das anteriores: &eacute; a &uacute;nica que possui a tenda citada e inscri&ccedil;&otilde;es em seu topo que dizem: &quot;UNICAMENTE MEU DESEJO&quot;. Para Serres esta tape&ccedil;aria representa o sentido interno: &quot;Definida pelo fechamento do espa&ccedil;o, fechada sobre si, a tenda, um pouco aberta, descobre-se a si mesma, o corpo pode escrever ou dizer: MEU&quot; (Serres, 2001, p. 52). </p>     <p><a href="#n6" name="6"><sup>6</sup></a> Pierre Bonnard, pintor franc&ecirc;s, 1867-1947</p>     <p><a href="#n7" name="7"><sup>7</sup></a> Vale lembrar que o que estamos chamando aqui de rela&ccedil;&atilde;o diz respeito ao conceito de media&ccedil;&atilde;o, muito mais do que ao conceito de intermedi&aacute;rio. Para esta distin&ccedil;&atilde;o ver Latour, 1994.</p>     <p><a href="#n8" name="8"><sup>8</sup></a> O registro destes dados foi autorizado tanto pelo IBC quanto pelos respons&aacute;veis atrav&eacute;s da assinatura do termo de consentimento.</p>     <p><a href="#n9" name="9"><sup>9</sup></a> N&atilde;o apresentaremos estes efeitos porque isso escapa ao nosso objetivo neste texto.</p> <hr>     <p><b>Bibliografia</b></p>     <!-- ref --><p>Haraway, D. (1998). The persistence of vision. In N. Mirzoeff (Org), <i>The visual culture reader </i>(pp. 677684). London: Routledge.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S1657-9267200900030001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Latour, B. (1994). <i>Jamais Fomos Modernos. </i>Rio de Janeiro: Editora 34.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S1657-9267200900030001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Latour, B. (1999). <i>How to talk about the body?: The Normative Dimension of Science Studies. </i>Recuperado el 28 de noviembre, 2008, de <a href="http://www.bruno-latour.fr/articles/article/77-BODY%NORMATIVE.pdf" target="_blank">http://www.bruno-latour.fr/articles/article/77-BODY%20NORMATIVE.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S1657-9267200900030001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Martins, B. (2006). <i>E se eu fosse cego? Narrativas silenciadas da defici&ecirc;ncia. </i>Lisboa: Afrontamento.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S1657-9267200900030001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Masini, E. (1994). <i>O perceber e o relacionarse do deficiente visual. </i>Bras&iacute;lia: Corde.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S1657-9267200900030001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Mol, A. (2002). <i>The body multiple: Ontology in medical practice. </i>Durham, North Carolina: Duke University Press.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S1657-9267200900030001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Mol, A. &amp; Law, J. (2003). <i>Embodied action, enacted bodies. </i>Recuperado el 19 de septiembre, 2008, de <a href="http://www.lancs.ac.uk/fass/sociology/papers/mol-law-embodied-action.pdf" target="_blank">http://www.lancs.ac.uk/fass/sociology/papers/mol-law-embodied-action.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S1657-9267200900030001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Moraes, M. (2007). O. Modos de intervir com jovens deficientes visuais: dois estudos de caso. <i>Psicologia Escolar e Educacional, 11, </i>90-110.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1657-9267200900030001400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Moraes, M. O. (2006). Ver e n&atilde;o ver: sobre o corpo como suporte da percep&ccedil;&atilde;o entre jovens deficientes visuais. <i>Benjamin Constant, 12, </i>15-20.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S1657-9267200900030001400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Serres, M. (1974). <i>Hermes III. La traduction. </i>Paris: Minuit.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1657-9267200900030001400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Serres, M. (1993). <i>Filosofia mesti&ccedil;a. </i>Rio Janeiro: Nova Fronteira.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S1657-9267200900030001400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Serres, M. (2004). Varia&ccedil;&otilde;es sobre o corpo. Rio de Janeiro: Bertrand.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S1657-9267200900030001400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Serres, M. (2001). Os cinco sentidos. Filosofia dos corpos misturados. Rio de Janeiro: Bertand Brasil.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S1657-9267200900030001400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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