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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As pesquisas etnográficas em enfermagem nas sociedades complexas]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Doutoramento da Universidade de São Paulo Faculdade Anhanguera de Campinas ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Introduction: Multicultural societies of the postmodern world are characterized by the complexity of their structure, organization, and operation. In such societies, there is a heterogeneous set of social players who experience a variety of phenomena in their daily lives in cities. Within this context, nursing care has developed and nurses in recent years have turned to ethnography as a tool in understanding socio-cultural reality and experience from the perspective of those living these experiences. This is a theoretical study seeking to reflect upon the application of an ethnographic approach in Brazilian nursing research in complex societies. Ethnography in Brazilian nursing research in complex societies: Brazilian nurses have appropriated the methodological tools and theories of nursing and anthropological studies to investigate the experiences and meanings attributed to health-disease process, cultural influence on health-related behaviors, as well as to evaluate and manage work processes. Further studies are emphasized to attempt to theorize and reflect upon the methodological construction of this research. This move highlights a shift in focus on nursing research and practice for a more integrative and complex view of human beings and reality. Ethnography helps us learn about a given reality and, as a result, we obtain new insights for understanding the phenomena. Reflection: It is considered that anthropological knowledge extends the nurses&rsquo; views on the subject about which they devote their practice, refining it. Being closer to the lives and experience of subjects, permits the perception of phenomena from the perspective of the players involved, offering professionals a different view on the needs and outcomes of nursing care.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Cultura]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[  <font face="verdana" size="2">  <font face="verdana" size="4">    <p align="center"><b>As pesquisas etnogr&aacute;ficas em enfermagem nas sociedades complexas</b></p> </font> <font face="verdana" size="3">     <p align="center"><b>The nursing ethnographic research into complex societies</b></p></font>      <p align="center"><b>Maria Helena Lenardt, PhD<sup>1</sup>, Tatiane Michel, Enf<sup>2</sup>, Lucas Pereira De Melo, MSc<sup>3</sup></b></p>     <p><sup>1</sup>Professora S&ecirc;nior, Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Enfermagem, L&iacute;der do Grupo Multiprofissional de Pesquisa sobre Idosos, Universidade Federal do Paran&aacute;, Curitiba, Brasil.    <br> e-mail: <a href="mailto:curitiba.helena@gmail.com">curitiba.helena@gmail.com</a>    <br>   <sup>2</sup>Doutoranda do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Enfermagem, bolsista REUNI/UFPR, membro do GMPI, Universidade Federal do Paran&aacute;, Curitiba, Brasil. e-mail: <a href="mailto:tatiane.michel@uol.com.br">tatiane.michel@uol.com.br</a>    <br>   <sup>3</sup>Professor,Faculdade Anhanguera de Campinas, doutorando do Programa Interunidades de Doutoramento da Universidade de S&atilde;o Paulo, bolsista CNPq, Campinas, Brasil.    <br>   e-mail: <a href="mailto:lucasenf@yahoo.com.br">lucasenf@yahoo.com.br</a></p>     <p>Recebido para publica&ccedil;&atilde;ojaneiro 20, 2011Aceito para publica&ccedil;&atilde;o abril 29, 2011</p>  <hr>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><b>RESUMO</b></p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o:</b> As sociedades multiculturais do mundo p&oacute;s-moderno caracterizam-se pela complexidade de sua estrutura, organiza&ccedil;&atilde;o e funcionamento. Nessas sociedades, h&aacute; um conjunto de atores sociais heterog&ecirc;neos que experimentam uma variedade de fen&ocirc;menos no seu cotidiano nas cidades. Nesse contexto desenvolvem-se os cuidados profissionais em Enfermagem e nos &uacute;ltimos anos os enfermeiros t&ecirc;m recorrido &agrave; etnografia como ferramenta para conhecer a realidade s&oacute;cio-cultural e a experi&ecirc;ncia dos fen&ocirc;menos na perspectiva de quem os vivencia. Trata-se de estudo te&oacute;rico com o objetivo de refletir sobre a aplica&ccedil;&atilde;o da abordagem etnogr&aacute;fica nas pesquisas brasileiras em Enfermagem nas sociedades complexas.     <br> <b>Etnografia nas pesquisas brasileiras em enfermagem nas sociedades complexas:</b> Os enfermeiros brasileiros t&ecirc;m se apropriado dos recursos metodol&oacute;gicos e das teorias antropol&oacute;gicas e da Enfermagem para desenvolver estudos sobre as viv&ecirc;ncias, experi&ecirc;ncias e significados atribu&iacute;dos ao processo sa&uacute;de-doen&ccedil;a, influ&ecirc;ncia cultural sobre os comportamentos relacionados &agrave; sa&uacute;de e a avalia&ccedil;&atilde;o e gerenciamento dos processos de trabalho. Ressalta-se ainda, estudos que buscam teorizar e refletir a respeito da constru&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica nessas pesquisas. Esse movimento evidencia uma mudan&ccedil;a de enfoque nas pesquisas e pr&aacute;ticas da Enfermagem, para uma vis&atilde;o mais integrativa e complexa dos seres humanos e da realidade. O m&eacute;todo etnogr&aacute;fico possibilita apreender elementos da cultura de uma realidade e, como resultado, obter novas perspectivas de conhecimento destes fen&ocirc;menos.     <br> <b>Reflex&atilde;o final:</b> Considera-se que os conhecimentos antropol&oacute;gicos ampliam a vis&atilde;o do enfermeiro sobre os sujeitos aos quais destina a sua pr&aacute;tica, refinando-a. A aproxima&ccedil;&atilde;o na viv&ecirc;ncia e experi&ecirc;ncia dos sujeitos permite a percep&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos na perspectiva dos atores envolvidos, oferecendo ao profissional um olhar diferenciado para as necessidades e resultados do cuidado de Enfermagem.</p>     <p align="center"><b><i>Palavras chave: </i></b>Cultura; Pesquisa em enfermagem; Antropologia cultural.</p><hr>     <p align="center"><b>SUMMARY</b></p>     <p><b>Introduction:</b> Multicultural societies of the postmodern world are characterized by the complexity of their structure, organization, and operation. In such societies, there is a heterogeneous set of social players who experience a variety of phenomena in their daily lives in cities. Within this context, nursing care has developed and nurses in recent years have turned to ethnography as a tool in understanding socio-cultural reality and experience from the perspective of those living these experiences. This is a theoretical study seeking to reflect upon the application of an ethnographic approach in Brazilian nursing research in complex societies.    <br> <b>Ethnography in Brazilian nursing research in complex societies: </b>Brazilian nurses have appropriated the methodological tools and theories of nursing and anthropological studies to investigate the experiences and meanings attributed to health-disease process, cultural influence on health-related behaviors, as well as to evaluate and manage work processes. Further studies are emphasized to attempt to theorize and reflect upon the methodological construction of this research. This move highlights a shift in focus on nursing research and practice for a more integrative and complex view of human beings and reality. Ethnography helps us learn about a given reality and, as a result, we obtain new insights for understanding the phenomena.    <br> <b>Reflection:</b> It is considered that anthropological knowledge extends the nurses&rsquo; views on the subject about which they devote their practice, refining it. Being closer to the lives and experience of subjects, permits the perception of phenomena from the perspective of the players involved, offering professionals a different view on the needs and outcomes of nursing care.</p>     <p align="center"><b><i>Keywords: </i></b>Culture; Nursing research; Anthropology cultural.</p><hr>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A pesquisa social qualitativa parte de uma perspectiva que foge ao rigor matem&aacute;tico, ao propor o estudo de fen&ocirc;menos notadamente particulares no que diz respeito &agrave; experi&ecirc;ncia, percep&ccedil;&atilde;o e representa&ccedil;&atilde;o do sujeito social ou grupo que o vivencia. Nesse sentido, caracteriza-se por uma abordagem integrativa, na qual os instrumentos pr&oacute;prios da perspectiva quantitativa s&atilde;o/est&atilde;o integrados e n&atilde;o polarizados antagonicamente. Dentre os v&aacute;rios referenciais te&oacute;rico-metodol&oacute;gicos da pesquisa qualitativa, destaca-se aqui a etnografia, conforme a tradi&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica moderna.</p>     <p>O m&eacute;todo etnogr&aacute;fico de pesquisa conduz a uma descri&ccedil;&atilde;o densa do contexto no qual desenvolvem-se os acontecimentos sociais e os comportamentos e assim descreve a cultura. A cultura indica &laquo;um padr&atilde;o de significados transmitidos historicamente, incorporado em s&iacute;mbolos, um sistema de concep&ccedil;&otilde;es herdadas expressas em formas simb&oacute;licas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vida&raquo;<sup><a href="#1">1</a></sup>. Os estudos antropol&oacute;gicos interpretativos buscam explorar esses significados utilizando para isso o m&eacute;todo etnogr&aacute;fico. </p>     <p>Os significados da experi&ecirc;ncia humana s&atilde;o encontrados no conv&iacute;vio com as pessoas e fatos e representados em formas simb&oacute;licas, como as palavras e comportamentos<sup><a href="#1">1</a></sup>. Considerando que a cultura &eacute; o elemento essencial para a condi&ccedil;&atilde;o de humanidade, por meio da qual os sujeitos sociais captam, interpretam e respondem aos est&iacute;mulos do meio ambiente, podemos inferir que os agentes, entre eles os profissionais de Enfermagem e as institui&ccedil;&otilde;es de cura, est&atilde;o inseridos em um espa&ccedil;o cultural que d&aacute; sentido e organiza, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, os aspectos t&eacute;cnicos e cient&iacute;ficos da sua produ&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#2">2</a></sup>. </p>     <p>H&aacute; algum tempo a no&ccedil;&atilde;o do que era &laquo;cultural&raquo; estava atrelado &agrave;s sociedades ditas primitivas ou aos comportamentos que destoavam dos padr&otilde;es de homogeneidade ditados pelo contexto da modernidade racionalista; fato que a antropologia moderna e demais ci&ecirc;ncias sociais t&ecirc;m contribu&iacute;do para paulatinamente desconstruir. Entretanto, nos dias atuais, estamos cada vez mais diante de realidades e problemas polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planet&aacute;rios<sup><a href="#3">3</a></sup>. A sociedade p&oacute;s-moderna &eacute;, por essas e outras caracter&iacute;sticas, complexa em sua organiza&ccedil;&atilde;o, estrutura e funcionamento.</p>     <p>Diante disso, a etnografia &eacute; uma ferramenta fundamental para compreender as sociedades multiculturais do mundo p&oacute;s-moderno, al&eacute;m de servir &agrave;s suas necessidades, pois trata-se de um m&eacute;todo de pesquisa aberto &agrave; realidade s&oacute;cio-cultural, que pretende olhar para um determinado cen&aacute;rio com o interesse de interpretar os significados das a&ccedil;&otilde;es e dos eventos a partir do ponto de vista de quem os vive. Por isso, n&atilde;o consiste, simplesmente, em descrever uma cultura revelando &laquo;uma perspectiva social totalit&aacute;ria e r&iacute;gida, incapaz de lidar com dimens&otilde;es importantes da realidade social, como a mudan&ccedil;a, o conflito e a criatividade individual e grupal&raquo;<sup><a href="#4">4</a></sup>. </p>     <p>Partindo desse pressuposto, os estudos etnogr&aacute;ficos fornecem aos profissionais da sa&uacute;de a possibilidade de compreender a sa&uacute;de e a doen&ccedil;a sob os diversos pontos de vista dos usu&aacute;rios dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de<sup><a href="#5">5</a></sup>. No tocante &agrave; enfermagem, h&aacute; necessidade em valorizar a subjetividade dos seres humanos, o ponto de vista deles e as condi&ccedil;&otilde;es sociais nas quais se desenvolve o fen&ocirc;meno do cuidado. Portanto, os estudos culturais na &aacute;rea da enfermagem proporcionam benef&iacute;cios para a humaniza&ccedil;&atilde;o e qualidade dos servi&ccedil;os prestados. </p>     <p>Os estudos sobre os m&eacute;todos de pesquisa em Enfermagem que descrevem o contexto s&oacute;cio-cultural dos sujeitos sociais buscam a adequa&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es dos profissionais &agrave;s necessidades de sa&uacute;de e expectativas reveladas. Pode-se dizer que uma das grandes contribui&ccedil;&otilde;es que tais estudos t&ecirc;m agregado ao campo da sa&uacute;de &eacute; o combate &agrave;s posturas e atitudes etnoc&ecirc;ntricas, fator impactante em um cen&aacute;rio plural de assist&ecirc;ncia &agrave; sa&uacute;de como os das sociedades complexas. O etnocentrismo, na pr&aacute;tica do profissional da sa&uacute;de, caracteriza-se pela tend&ecirc;ncia destes atores sociais em impor a sua pr&oacute;pria cultura (hegem&ocirc;nica e elitista) aos usu&aacute;rios dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de, por entend&ecirc;-la como a mais apropriada<sup><a href="#6">6</a></sup>. Essas situa&ccedil;&otilde;es conduzem a insatisfa&ccedil;&atilde;o destes indiv&iacute;duos, n&atilde;o ades&atilde;o aos planos terap&ecirc;uticos, estresse, problemas &eacute;ticos, al&eacute;m de limitarem o bem-estar. </p>     <p>A utiliza&ccedil;&atilde;o da abordagem etnogr&aacute;fica nas pesquisas em Enfermagem denota novos achados para o desenvolvimento do cuidado em sa&uacute;de relacionado &agrave; totalidade dos modos de vida humanos, levando a um deslocamento do foco da aten&ccedil;&atilde;o, no qual os sujeitos sociais s&atilde;o resgatados em suas concretudes, contextos e historicidades, promovendo sua autonomia e liberdade, enfocando a promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de, a produ&ccedil;&atilde;o social do processo sa&uacute;de-doen&ccedil;a e a cr&iacute;tica &agrave;s posturas verticalizadoras. Este estudo te&oacute;rico tem como objetivo refletir sobre a aplica&ccedil;&atilde;o da abordagem etnogr&aacute;fica nas pesquisas da Enfermagem brasileira nas sociedades complexas. </p>      <p align="center"><b>METODOLOGIA</b></p>     <p>Trata-se de estudo te&oacute;rico no qual os autores apresentam reflex&otilde;es a respeito da etnografia, seus limites e potencialidades de utiliza&ccedil;&atilde;o atual nas investiga&ccedil;&otilde;es no campo da enfermagem. S&atilde;o abordados o desenvolvimento hist&oacute;rico do m&eacute;todo, sua estreita rela&ccedil;&atilde;o com a antropologia e destacam-se aspectos te&oacute;rico-metodol&oacute;gicos em estudos etnogr&aacute;ficos realizados por enfermeiros brasileiros.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para fundamentar as reflex&otilde;es, foram selecionados estudos publicados em peri&oacute;dicos nacionais e/ou provenientes de teses e disserta&ccedil;&otilde;es, que se destacam pela originalidade e relev&acirc;ncia para a enfermagem, bem como pela expressividade dos autores no cen&aacute;rio brasileiro das pesquisas etnogr&aacute;ficas. No intuito de buscar a aproxima&ccedil;&atilde;o com as tem&aacute;ticas que t&ecirc;m sido desenvolvidas por meio da aplica&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo etnogr&aacute;fico, as mesmas foram categorizadas por semelhan&ccedil;a, sem esgotar o n&uacute;mero e variedade de estudos que podem ser encontrados na literatura referentes a essas categorias.</p>      <p align="center"><b>A ANTROPOLOGIA E O M&Eacute;TODO ETNOGR&Aacute;FICO</b></p>     <p>A etnografia, etmologicamente, &eacute; o estudo descritivo (graphos) da cultura de uma comunidade (ethnos) ou de alguns de seus aspectos fundamentais numa perspectiva de compreens&atilde;o global da mesma<sup><a href="#7">7</a></sup>. Os etn&oacute;grafos buscam conhecer as hist&oacute;rias populares, s&iacute;mbolos, rituais e express&otilde;es art&iacute;sticas de um grupo ou comunidade. Outras caracter&iacute;sticas da estrutura social como a pol&iacute;tica, religi&atilde;o, leis, educa&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de fatores tecnol&oacute;gicos s&atilde;o estudados para definir como eles influenciam os padr&otilde;es gerais de vida das pessoas. </p>     <p>Esse m&eacute;todo de pesquisa foi primeiramente desenvolvido e utilizado por antrop&oacute;logos como Franz Boas, Bronislaw Malinowski e Margaret Mead para revelar fatos desconhecidos, investigar como as pessoas vivem em um dado tempo e como se comunicam e interagem uns com os outros. </p>     <p>Para os antrop&oacute;logos, a etnografia constitui a primeira etapa da investiga&ccedil;&atilde;o cultural, seu processo engloba o trabalho de campo no qual a observa&ccedil;&atilde;o participante exerce papel-chave e seu produto ser&aacute; uma monografia etnogr&aacute;fica. Na etnologia s&atilde;o realizadas compara&ccedil;&otilde;es das diversas descri&ccedil;&otilde;es etnogr&aacute;ficas. A antropologia se situa na terceira etapa da investiga&ccedil;&atilde;o cultural e formula modelos te&oacute;ricos de conhecimento para compreender as culturas humanas e torn&aacute;-las aplic&aacute;veis no desenvolvimento humano<sup><a href="#7">7</a></sup>. </p>     <p>Embora tradicionalmente os estudos antropol&oacute;gicos tenham-se voltado &agrave;s sociedades n&atilde;o-industrializadas, a partir da d&eacute;cada de 1970, diversos etn&oacute;grafos direcionaram seus focos de estudos e an&aacute;lises &agrave;s sociedades complexas que t&ecirc;m como &iacute;cones as grandes cidades. Tais contextos t&ecirc;m se constitu&iacute;do no objeto de estudo da antropologia urbana, primordialmente, e de outros campos da antropologia.</p>     <p>&Eacute; bem verdade que esta disciplina, como se sabe, elaborou seus m&eacute;todos de investiga&ccedil;&atilde;o a partir, principalmente, do estudo de sociedades n&atilde;o-industriais; por conseguinte, as estrat&eacute;gias da pesquisa etnogr&aacute;fica, &agrave; primeira vista, n&atilde;o atenderiam &agrave;s necessidades de estudo das sociedades complexas, imersa no sistema globalizado. Entretanto, &eacute; tamb&eacute;m consenso que a antropologia n&atilde;o se define por um objeto determinado: mais do que uma disciplina voltada para o estudo dos povos primitivos ela envolve uma maneira de pensar a respeito do &lsquo;outro&rsquo; e exige nossa pr&oacute;pria transforma&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#8">8</a></sup>. </p>     <p>Esses fatores t&ecirc;m suscitado diversas discuss&otilde;es no meio acad&ecirc;mico no que concerne &agrave; rela&ccedil;&atilde;o sujeito/objeto, ao colocar-se no lugar do outro, ao dar voz ao nativo etc. Contudo, cabe destacar que &laquo;o m&eacute;todo etnogr&aacute;fico n&atilde;o se confunde nem se reduz a uma t&eacute;cnica; pode usar ou servir-se de v&aacute;rias, conforme as circunst&acirc;ncias da pesquisa; ele &eacute;, antes, um modo de acercamento e apreens&atilde;o, do que um conjunto de procedimentos&raquo;<sup><a href="#8">8</a></sup>.</p>     <p>O m&eacute;todo etnogr&aacute;fico requer uma flexibilidade por parte do pesquisador; um ingrediente incomum &agrave;s ci&ecirc;ncias da sa&uacute;de, notadamente &agrave; enfermagem, por terem suas trajet&oacute;rias hist&oacute;rico-sociais e acad&ecirc;micas constru&iacute;das em bases s&oacute;lidas, r&iacute;gidas, caracterizadas por uma heran&ccedil;a de influ&ecirc;ncia militar e pelos pressupostos do paradigma biom&eacute;dico cartesiano que lhes d&aacute; sustenta&ccedil;&atilde;o e que, mesmo hoje, est&aacute; presente na pr&aacute;tica dos profissionais e docentes<sup><a href="#9">9</a></sup>. As descri&ccedil;&otilde;es culturais n&atilde;o podem repousar na rigidez com que elas se mant&ecirc;m ou na seguran&ccedil;a com que s&atilde;o argumentadas<sup><a href="#1">1</a></sup>. Para este autor &laquo;nada contribuiu mais para desacreditar a an&aacute;lise cultural do que a constru&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es impec&aacute;veis de ordem formal, em cuja exist&ecirc;ncia verdadeira praticamente ningu&eacute;m pode acreditar&raquo;<sup><a href="#1">1</a></sup>.</p>     <p>Dito isto, em suma, considera-se que a natureza da explica&ccedil;&atilde;o pela via etnogr&aacute;fica tem como base um insight que permite reorganizar dados percebidos como fragment&aacute;rios, informa&ccedil;&otilde;es ainda dispersas, ind&iacute;cios soltos, num novo arranjo que n&atilde;o &eacute; mais o arranjo nativo (mas que parte dele, leva-o em conta, foi suscitado por ele) nem aquele com o qual o pesquisador iniciou a pesquisa. Este novo arranjo carrega as marcas de ambos: mais geral do que a explica&ccedil;&atilde;o nativa, presa &agrave;s particularidades de seu contexto, pode ser aplicado a outras ocorr&ecirc;ncias; no entanto, &eacute; mais denso que o esquema te&oacute;rico inicial do pesquisador, pois tem agora como referente o &laquo;concreto vivido&raquo;<sup><a href="#8">8</a></sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nessa perspectiva, a busca etnogr&aacute;fica tem algo de errante. As tentativas abordadas, os erros cometidos no campo, constituem informa&ccedil;&otilde;es que o pesquisador deve levar em conta, bem como o encontro que surge frequentemente com o imprevisto, o evento que ocorre quando n&atilde;o esper&aacute;vamos. Assim, a etnografia &eacute; antes a experi&ecirc;ncia de uma imers&atilde;o total, consistindo em uma verdadeira acultura&ccedil;&atilde;o invertida, na qual, longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifesta&ccedil;&otilde;es &laquo;exteriores&raquo;, deve-se interioriz&aacute;-la nas significa&ccedil;&otilde;es que os pr&oacute;prios indiv&iacute;duos atribuem a seus comportamentos<sup><a href="#10">10</a></sup>.</p>     <p>Um dos desafios para os etn&oacute;grafos nas sociedades complexas &eacute; o fato de eles pr&oacute;prios serem membros dessa sociedade. Diante disso, prop&otilde;e-se uma perspectiva &laquo;de perto e de dentro&raquo; em contrapartida &agrave;quela que posiciona-se &laquo;de fora e de longe&raquo;. Em tal exposi&ccedil;&atilde;o, o autor argumenta para al&eacute;m da ilus&atilde;o do &laquo;indiv&iacute;duo s&oacute;, em meio &agrave; multid&atilde;o&raquo;, fortemente disseminada nos contextos sociais das grandes cidades. A perspectiva &laquo;de perto e de dentro&raquo; &eacute; capaz de apreender os padr&otilde;es de comportamento, n&atilde;o de indiv&iacute;duos atomizados, mas dos m&uacute;ltiplos, variados e heterog&ecirc;neos conjuntos de atores sociais cuja vida cotidiana transcorre na paisagem da cidade e depende de seus equipamentos<sup><a href="#8">8</a></sup>. </p>     <p>Inserido no seu campo de pesquisa, o etn&oacute;grafo por meio de intera&ccedil;&otilde;es diretas com os sujeitos sociais participa das pr&aacute;ticas cotidianas daquela realidade social, agindo e sentindo como eles, mas sem ser um deles! S&atilde;o nesses movimentos de aproxima&ccedil;&atilde;o/imers&atilde;o e distanciamento/estranhamento que v&atilde;o sendo engendradas os in&uacute;meros entrela&ccedil;amentos que, por fim, dar&atilde;o origem ao texto antropol&oacute;gico.</p>     <p>S&atilde;o not&oacute;rios os desafios aos quais o etn&oacute;grafo est&aacute; exposto ao lan&ccedil;ar-se numa investiga&ccedil;&atilde;o tendo como campo as diversas inst&acirc;ncias territoriais, geogr&aacute;ficas, institucionais, relacionais que comp&otilde;em as sociedades complexas, sobretudo, em tempo p&oacute;s-modernos. O sujeito contempor&acirc;neo experimenta a conflu&ecirc;ncia de elementos da modernidade, p&oacute;s-modernidade, complexidade, tecnologias diversas, individualismo, movimentos acelerados de comunica&ccedil;&atilde;o e reflex&atilde;o, fragmenta&ccedil;&atilde;o do conhecimento e dos sujeitos, fazer irreflexivo e absolutismo da t&eacute;cnica em detrimento do sujeito, processos de singulariza&ccedil;&atilde;o, vazio de sentido, quedas, rupturas, capturas e modismos<sup><a href="#11">11</a></sup>.</p>     <p>No caso das investiga&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m como objetos de estudos os fen&ocirc;menos do processo sa&uacute;de-doen&ccedil;a-cuidado, nos &uacute;ltimos anos tem sido mais frequente a utiliza&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo etnogr&aacute;fico. Impulsionados pela necessidade de uma &laquo;leitura&raquo; ou &laquo;(re) leitura&raquo; de tais fen&ocirc;menos sob uma luz te&oacute;rica e metodol&oacute;gica que os abarcassem em profundidade, os pesquisadores buscam retratar seu car&aacute;ter essencialmente experiencial e vivencial, sua inscri&ccedil;&atilde;o nas m&uacute;ltiplas dimens&otilde;es e a possibilidade da constru&ccedil;&atilde;o de um cuidado que produz subjetividades e &eacute;, fundamentalmente, carregado de s&iacute;mbolos e significados.</p>     <p>Nas pesquisas etnogr&aacute;ficas em Enfermagem, observa-se principalmente os estudos caracterizados como focalizados ou mini-etnografia, os quais destinam-se a investigar um aspecto da vida dos atores envolvidos. O limite de abrang&ecirc;ncia de uma etnografia pode ser definido por uma &uacute;nica institui&ccedil;&atilde;o social enfocando v&aacute;rias situa&ccedil;&otilde;es sociais relacionadas ou, por outro lado, apenas uma &uacute;nica situa&ccedil;&atilde;o social. A macro-etnografia requer muitos anos de investiga&ccedil;&atilde;o e geralmente envolve v&aacute;rios etn&oacute;grafos na tentativa de descrever a cultura de uma sociedade complexa composta por m&uacute;ltiplas comunidades<sup><a href="#5">5</a></sup>.</p>     <p>Podemos observar nas sociedades complexas(referindo-se &agrave;s grandes cidades) a exist&ecirc;ncia de grupos, redes, sistemas de troca, pontos de encontro, institui&ccedil;&otilde;es como os servi&ccedil;os de sa&uacute;de, arranjos, trajetos e muitas outras media&ccedil;&otilde;es por meio das quais, aquela entidade abstrata do indiv&iacute;duo participa efetivamente, em seu cotidiano, da cidade<sup><a href="#8">8</a></sup>. Nesse contexto, as sociedades complexas t&ecirc;m constitu&iacute;do os principais espa&ccedil;os nos quais os estudos antropol&oacute;gicos na &aacute;rea da sa&uacute;de t&ecirc;m sido levados a cabo. Por conseguinte, os pesquisadores que tecem suas trajet&oacute;rias acad&ecirc;micas nesse campo interdisciplinar, s&atilde;o dialeticamente afetados pelas caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias dessas realidades sociais e pelos desafios que se lhes imp&otilde;em.</p>      <p align="center"><b>A PESQUISA ETNOGR&Aacute;FICA E A PRODU&Ccedil;&Atilde;OCIENT&Iacute;FICA DA ENFERMAGEM BRASILEIRA</b></p>     <p>O ponto de ancoragem entre Antropologia e Enfermagem foi proposto na d&eacute;cada de 50 quando a enfermeira norte-americana Madeleine Leininger, trabalhava em um lar de orienta&ccedil;&atilde;o infantil com crian&ccedil;as portadoras de transtornos mentais de grupos culturais diversos, no meio-oeste dos Estados Unidos. Leininger comparou os comportamentos e concluiu que estes eram influenciados pela cultura de cada crian&ccedil;a, afirmando a import&acirc;ncia da dimens&atilde;o cultural do cuidado. Este fato a fez procurar um doutorado em Antropologia na University of Washington em 1959, sendo a primeira enfermeira do mundo a obter o t&iacute;tulo de doutor em Antropologia em 1965. Em seguida, Leininger criou o sub-campo da Enfermagem Transcultural e o primeiro m&eacute;todo de pesquisa qualitativa genuinamente da Enfermagem, a Etnoenfermagem<sup><a href="#12">12</a></sup>.</p>     <p>Nos &uacute;ltimos anos, enfermeiros brasileiros t&ecirc;m se apropriado desses recursos metodol&oacute;gicos e das teorias antropol&oacute;gicas e da Enfermagem para desenvolver estudos sobre a compreens&atilde;o do cuidar/cuidado e das viv&ecirc;ncias e significados do processo sa&uacute;de-doen&ccedil;a em diversas &aacute;reas da Enfermagem. Este movimento evidencia uma mudan&ccedil;a de enfoque nas pesquisas e pr&aacute;tica de Enfermagem, deslocando-se de um eixo centrado no modelo biom&eacute;dico para uma vis&atilde;o mais integrativa e complexa da realidade, possibilitando novas leituras e novos olhares.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tal perspectiva reconhece que a viv&ecirc;ncia do processo sa&uacute;de-doen&ccedil;a pelos indiv&iacute;duos de cada sociedade est&aacute; fundamentada nos valores, cren&ccedil;as, pr&aacute;ticas, representa&ccedil;&otilde;es sociais, imagin&aacute;rios, significados e em experi&ecirc;ncias individuais e coletivas, reafirmando o car&aacute;ter sociocultural dos fen&ocirc;menos compreendidos neste processo, al&eacute;m, &eacute; claro, de fatores psicobiol&oacute;gicos nele envolvidos<sup><a href="#13">13</a></sup>. Nesse sentido, a Antropologia da Sa&uacute;de que &laquo;com seus estudos mais localizados, micro-anal&iacute;ticos e cr&iacute;ticos das concep&ccedil;&otilde;es naturalizadas que cercam o modelo biom&eacute;dico, admite e se interessa por todas as respostas &agrave;s afli&ccedil;&otilde;es em geral da vida, inclu&iacute;das e consolidadas nas tradi&ccedil;&otilde;es, nos sistemas religiosos ou nos sistemas naturalista e em outras racionalidades m&eacute;dicas&raquo;<sup><a href="#14">14</a></sup>.</p>     <p>A import&acirc;ncia desta disciplina para o desenvolvimento de estudos sobre saberes e pr&aacute;ticas de curas, assim como as concep&ccedil;&otilde;es e representa&ccedil;&otilde;es sobre sa&uacute;de, doen&ccedil;a e corpo no Brasil, tem sido reconhecida por autores que t&ecirc;m estudado suas contribui&ccedil;&otilde;es na &aacute;rea de sa&uacute;de e em pesquisas que descrevem sua produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica nas d&eacute;cadas anteriores, para enumerarmos algumas.</p>     <p>O m&eacute;todo etnogr&aacute;fico possibilita apreender elementos da cultura de uma realidade e, como resultado, obter novas perspectivas de conhecimento dos fen&ocirc;menos estudados. A constru&ccedil;&atilde;o da trajet&oacute;ria investigativa ocorre ao longo do desenvolvimento do trabalho etnogr&aacute;fico, por meio de viv&ecirc;ncias no campo, reflex&otilde;es e aprofundamento te&oacute;rico. Na Enfermagem, os conhecimentos produzidos podem conduzir a pr&aacute;ticas mais adequadas aos contextos e popula&ccedil;&otilde;es diversas.</p>     <p>Dentre as in&uacute;meras pesquisas etnogr&aacute;ficas recentes produzidas no campo da Enfermagem, discute-se algumas nesse texto apresentadas na <a href="#q1">Quadro 1</a>, sem a pretens&atilde;o de esgotar a diversidade dessa produ&ccedil;&atilde;o. H&aacute; um consider&aacute;vel volume de estudos que abordam aspectos concernentes &agrave;s viv&ecirc;ncias, significados e experi&ecirc;ncias do processo sa&uacute;de-doen&ccedil;a; como os estudos que focalizaram as cenas culturais dos eventos ocorridos na trajet&oacute;ria da hospitaliza&ccedil;&atilde;o de adultos e idosos em uma enfermaria cir&uacute;rgica<sup><a href="#15">15</a></sup>, e os modos de inser&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias no cen&aacute;rio institucional de unidades de interna&ccedil;&atilde;o, considerando a experi&ecirc;ncia subjetiva dos familiares frente &agrave;s normas e valores da cultura familiar e institucional<sup><a href="#16">16</a></sup>.</p>     <p align="center"><img src="img/revistas/cm/v42n2s1/pr_v42n2s1a9q1.jpg"><a name="q1"></a></p>     <p>J&aacute; com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; influ&ecirc;ncia da cultura em comportamentos e atitudes relacionadas &agrave; sa&uacute;de e doen&ccedil;a, podemos citar alguns estudos etnogr&aacute;ficos, entre outros que podem ser encontrados na literatura: determinantes s&oacute;cio-culturais e hist&oacute;ricos das pr&aacute;ticas de preven&ccedil;&atilde;o e cura de doen&ccedil;as adotados por um grupo cultural, discutindo, principalmente, as rela&ccedil;&otilde;es entre os sistemas de assist&ecirc;ncia &agrave; sa&uacute;de presentes em sociedades complexas<sup><a href="#17">17</a></sup>; o processo de liminaridade vivenciado por indiv&iacute;duos portadores de c&acirc;ncer, tendo como balizadores da an&aacute;lise o pressuposto da constru&ccedil;&atilde;o sociocultural da doen&ccedil;a e do corpo e a simbologia agre-gada ao c&acirc;ncer<sup><a href="#18">18</a></sup>.</p>     <p>No tocante &agrave;s pesquisas enfocando a avalia&ccedil;&atilde;o e gerenciamento de servi&ccedil;os e processos de trabalho em Enfermagem, a utiliza&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo etnogr&aacute;fico e suas varia&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m mostrado contribui&ccedil;&otilde;es para a constru&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos na &aacute;rea. Destaca-se a etnografia no ambiente hospitalar, mais especificamente na enfermaria cir&uacute;rgica de um hospital universit&aacute;rio em Campinas, abordando as no&ccedil;&otilde;es de estrutura, anti-estrutura, communitas e liminaridade relacionadas a temas como ritos de passagem entre categorias profissionais, significados das intera&ccedil;&otilde;es sociais no espa&ccedil;o f&iacute;sico da sala de caf&eacute; da enfermaria, bem como as formas de subjetivar a experi&ecirc;ncia do trabalho em sa&uacute;de, reafirmando o car&aacute;ter cultural das institui&ccedil;&otilde;es de cura da medicina oficial e a crise do paradigma positivista que lhe d&aacute; fundamenta&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#9">9</a></sup>.</p>     <p>Al&eacute;m dessas categorias apontadas, pode-se observar uma preocupa&ccedil;&atilde;o por parte dos enfermeiros em teorizar e refletir sobre os referenciais metodol&oacute;gicos empregados em suas pesquisas. Nesse sentido, tem sido consider&aacute;vel o n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es discutindo os diversos aspectos que permeiam a constru&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica de estudos etnogr&aacute;ficos no campo da enfermagem no Brasil<sup><a href="#19">19</a></sup>.</p>     <p>H&aacute; crescente n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas de estudos utilizando o m&eacute;todo etnogr&aacute;fico na Enfermagem, realizados em diferentes cen&aacute;rios culturais e refletindo a perspectiva &ecirc;mica (isto &eacute;, as maneiras pr&oacute;prias de expressarem sua cultura) dos atores envolvidos, sejam eles os usu&aacute;rios dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de ou os pr&oacute;prios profissionais da &aacute;rea. A descri&ccedil;&atilde;o das experi&ecirc;ncias humanas representa a realidade vivenciada no cotidiano das situa&ccedil;&otilde;es de vida e emerge como estrat&eacute;gia para a aproxima&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es profissionais que consideram a complexidade do cuidado aos seres humanos. </p>     <p>&Eacute; igualmente relevante apontar a dimens&atilde;o &eacute;tica das pesquisas envolvendo seres humanos. De acordo com tais princ&iacute;pios, a utiliza&ccedil;&atilde;o dos achados deve servir aos interesses dos sujeitos participantes do estudo. A compreens&atilde;o dos significados, s&iacute;mbolos e pr&aacute;ticas de determinada cultura conduz a novas pr&aacute;ticas de cuidado em sa&uacute;de, atrav&eacute;s de uma vis&atilde;o hol&iacute;stica dos seres humanos, sua sa&uacute;de, maneiras de viver e os fatores influenciadores nesse contexto<sup><a href="#6">6</a></sup>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As pesquisas etnogr&aacute;ficas na &aacute;rea da enfermagem t&ecirc;m conduzido para abordagens mais abrangentes e aprofundadas dos seres humanos, a partir da perspectiva antropol&oacute;gica. Ao buscar a aplica&ccedil;&atilde;o desses resultados na pr&aacute;tica do cuidado, os profissionais estar&atilde;o atentos &agrave;s cren&ccedil;as e valores constru&iacute;dos ao longo da vida, podendo respeit&aacute;-los e minimizar os conflitos culturais.</p>     <p>Ao conhecer outro contexto cultural em que as pessoas encontram-se inseridas, conduz a reflex&otilde;es a respeito da pr&aacute;tica de enfermagem. Na avalia&ccedil;&atilde;o de nossos pr&oacute;prios valores e cren&ccedil;as, tendemos a reconhecer e respeitar a diferen&ccedil;a com os demais. Isso facilita a comunica&ccedil;&atilde;o com os diversos atores sociais e permite oferecer um cuidado mais sens&iacute;vel &agrave; cultura a que pertencem as fam&iacute;lias<sup><a href="#20">20</a></sup>.</p>     <p>O conhecimento dos aspectos culturais de uma popula&ccedil;&atilde;o ou grupo torna-se uma etapa para atingir um cuidado efetivo. As a&ccedil;&otilde;es planejadas e desenvolvidas em conjunto com os clientes, valorizando sua experi&ecirc;ncia, modificam o enfoque na rela&ccedil;&atilde;o profissional-cliente e aproximam ao cuidado sustent&aacute;vel e emancip&aacute;vel<sup><a href="#21">21</a></sup>. Nessa rela&ccedil;&atilde;o, as a&ccedil;&otilde;es de cuidado s&atilde;o definidas a partir da intera&ccedil;&atilde;o e h&aacute; possibilidade de as pessoas tornarem-se sujeitas no processo de cuidado da sua pr&oacute;pria sa&uacute;de.</p>     <p>O comprometimento dos profissionais com os avan&ccedil;os dos conhecimentos da enfermagem leva-os a recorrer a m&eacute;todos de pesquisa que possam gerar novas perspectivas quanto ao cuidado aos seres humanos. Os conhecimentos antropol&oacute;gicos podem ampliar a vis&atilde;o do enfermeiro sobre os sujeitos aos quais destina a sua pr&aacute;tica, refinando-a. Com isso, o cuidado passa a ser pensado com um enfoque multidimensional, considerando a complexidade dos seres humanos e de suas rela&ccedil;&otilde;es. Tomado nesta perspectiva, o cuidado relaciona-se constantemente com a Antropologia, sendo esta, parte indispens&aacute;vel a ser considerada na pr&aacute;tica da Enfermagem.</p>       <p align="center"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></p>     <p>A interpreta&ccedil;&atilde;o da perspectiva &ecirc;mica dos sujeitos reflete os significados pr&oacute;prios, suas cren&ccedil;as e modos de viver e possibilita respeitar o ponto de vista deles. &Eacute; poss&iacute;vel desenvolver a pr&aacute;tica dos cuidados de sa&uacute;de valorizando os sistemas culturais, o que favorece a satisfa&ccedil;&atilde;o do usu&aacute;rio com o servi&ccedil;o de sa&uacute;de e o seu relacionamento com os profissionais.</p>     <p>A busca da compreens&atilde;o da realidade cultural dos seres humanos reflete o desafio dos profissionais de enfermagem em cuidar considerando a multiplicidade e complexidade dos fatores interrelacionados neste processo. A aproxima&ccedil;&atilde;o com a viv&ecirc;ncia e a experi&ecirc;ncia dos sujeitos permite a percep&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos sob o ponto de vista dos atores envolvidos oferecendo ao profissional um olhar diferenciado para as necessidades e resultados do cuidado de enfermagem. </p>     <p>Tendo em vista a import&acirc;ncia do reconhecimento da situa&ccedil;&atilde;o cultural para o cuidado significativo, os achados etnogr&aacute;ficos contribuem no sentido de fornecer a descri&ccedil;&atilde;o de uma realidade local. A utiliza&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo etnogr&aacute;fico nas pesquisas em enfermagem tem proporcionado a revela&ccedil;&atilde;o de aspectos profundos e significativos dos seres humanos envolvidos em contextos s&oacute;cio-culturais diversos. Da mesma forma, a compreens&atilde;o de fen&ocirc;menos relacionados ao cuidado e a influ&ecirc;ncia cultural sobre esse, proporcionam novos insights para a implementa&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias em contextos semelhantes e para o desenvolvimento de outros estudos relacionados &agrave; tem&aacute;tica. </p>     <p>Por fim, reiteramos a import&acirc;ncia do desenvolvimento desta zona de intera&ccedil;&atilde;o interdisciplinar, pois a antropologia, por meio dos seus referenciais te&oacute;rico-metodol&oacute;gicos, tem oferecido &agrave; enfermagem possibilidades de compreender as min&uacute;cias que permeiam as entrelinhas do fen&ocirc;meno do cuidar/cuidado que os enfermeiros ritualizam ao interagir com os indiv&iacute;duos, fam&iacute;lias ou comunidades no exerc&iacute;cio de sua profiss&atilde;o. No entanto, estas zonas de intera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o devem parar na Antropologia, mas continuar a multiplicar-se entre todas as &aacute;reas do saber, estabelecendo rela&ccedil;&otilde;es e promovendo assim o crescimento da enfermagem como ci&ecirc;ncia do cuidar humano e elencando elementos que possam instrumentalizar o enfermeiro na sua pr&aacute;tica cotidiana.</p><hr>     <p><b><i>Conflitos de interesse.</i></b> Nenhum dos autores possui conflitos de interesse relacionados a esse estudo.</p><hr>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><b>REFER&Ecirc;NCIAS </b></p>     <!-- ref --><p><a name="1"></a>1. Geertz C. Interpreta&ccedil;&atilde;o das culturas. Rio de Janeiro: LTC; 1989.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S1657-9534201100050000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="2"></a>2. Sahlins M. Culture and practical reason. Chicago: The University of Chicago Press; 1976.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S1657-9534201100050000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="3"></a>3. Morin E. A cabe&ccedil;a bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensar. 9&ordf; ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S1657-9534201100050000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="4"></a>4. Queiroz MS. Sa&uacute;de e doen&ccedil;a: um enfoque antropol&oacute;gico. Bauru: EDUSC; 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S1657-9534201100050000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="5"></a>5. Spradley JP, McCurdy DW. The ethnographic interview. New York: Holt, Rinehart and Winston; 1979.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S1657-9534201100050000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="6"></a>6. Leininger MM. Current issues in using anthropology in nursing education and services. West J Nurs Res. 2001; 23: 795-806.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S1657-9534201100050000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>  <a name="7"></a>7. B&aacute;ztan AA. Etnografia: metodolog&iacute;a cualitativa en la investigaci&oacute;n sociocultural. En: B&aacute;ztan AA (ed). Etnografia. M&eacute;xico: Alfaomega Marcocombo; 1997. p. 3-20.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S1657-9534201100050000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>    <a name="8"></a>8. Magnani JGC. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Rev Bras Ci Soc. 2002; 17: 11-29.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S1657-9534201100050000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="9"></a>9. Melo LP. Dimens&otilde;es estruturais e simb&oacute;licas de um espa&ccedil;o hospitalar: estudo antropol&oacute;gico de uma enfermaria cir&uacute;rgica em Campinas - SP &#91;disserta&ccedil;&atilde;o&#93;. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas; 2009.     &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S1657-9534201100050000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="10"></a>10. Laplantine F. Aprender antropologia. S&atilde;o Paulo: Brasiliense; 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S1657-9534201100050000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="11"></a>11. Machado AL. Movimentos de saberes e cuidados em sa&uacute;de mental: a religiosidade pela via da subjetividade &#91;tese livre-doc&ecirc;ncia&#93;. S&atilde;o Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de S&atilde;o Paulo; 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S1657-9534201100050000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="12"></a>12. Ori&aacute; MOB, Ximenes LB, Alves MDS. Madeleine Leininger and the theory of the cultural care diversity and universality: an historical overview. Online Braz J Nurs. &#91;peri&oacute;dico na Internet&#93;. 2005 &#91;acesso em 23 de junho de 2010&#93;; 4 (2). Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.uff.br/nepae/siteantigo/objn402oria etal.htm" target="_blank">http://www.uff.br/nepae/siteantigo/objn402oria etal.htm</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S1657-9534201100050000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="13"></a>13. Melo LP, Cabral ERM, Santos J&uacute;nior JA. The health-disease process: a reflection based on medical anthropology. Rev Enferm UFPE Online. 2009; 3: 426-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1657-9534201100050000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="14"></a>14. Canesqui AM. A pesquisa qualitativa antropol&oacute;gica na sa&uacute;de coletiva. En: Barros NF, Cecatti JG, Turato ER (eds.). Pesquisa qualitativa em sa&uacute;de: m&uacute;ltiplos olhares. Campinas: FCM/UNICAMP; 2007. p. 247-59.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S1657-9534201100050000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="15"></a>15. Lenardt MH. 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