SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue1Motorized mobility, environmental impact, alternatives and future prospects: considerations for the Área Metropolitana del Valle de AburráCryptosporidiosis and "One Health" author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • On index processCited by Google
  • Have no similar articlesSimilars in SciELO
  • On index processSimilars in Google

Share


Revista de Salud Pública

Print version ISSN 0124-0064

Rev. salud pública vol.20 no.1 Bogotá Jan./Feb. 2018

http://dx.doi.org/10.15446/rsap.v20n1.64480 

Ensayo

Aproximando saberes e experiências à distância: relato da tutoria de um curso de especialização

Approaching knowledge and experiences at a distance: report of the tutoring of a specialization course

Aproximando saberes y experiencias a distancia: relato de la tutoría de un curso de especialización

Deise Warmling1  , Julia Estela Willrich Boell2  , Veridiana Tavares Costa3  , Girlane Mayara Peres4  , Sabrina Blasius Faust5  , Carolina Carvalho Bolsoni6  , Sheila Rubia Lindner7  , Elza Berger Salema Coelho8 

1 DW: Nutricionista. M. Sc. Saúde Coletiva. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. deisentr@gmail.com

2 JW: Educadora Fisca. Enf. Ph. D. Enfermagem. Brasil. juliaestela_8@hotmail.com

3 VT: Enf. Ph. D. Enfermagem. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. veritavarescosta@gmail.com

4 GM: Psicóloga. Doutoranda em Psicologia. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. mayperes@gmail.com

5 SB: Enf. M. Sc. Saúde Coletiva. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. sabrinafaust@hotmail.com

6 CC: Enf. Ph.D. em Saúde Coletiva. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. carolziinha.flor@gmail.com

7 SR: Enf. Ph. D. Saúde Coletiva. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. sheila.lindner@gmail.com

8 EB: Enf. Ph. D. Filosofia da Enfermagem. Universidade Federal de Santa Catarina. Brasil. elzacoelho@gmail.com

RESUMO

Este relato busca descrever a experiência do processo de tutoria a distância do Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica no Brasil, realizado nos estados de Santa Catarina e Paraná. O curso teve como público profissionais de saúde, entre esses: médicos, enfermeiros e dentistas, vinculados ao "Programa de Valorização da Atenção Básica" e ao "Programa Mais Médicos no Brasil", totalizando 1 600 profissionais. O curso foi estruturado a partir de três eixos teóricos e com mediação pedagógica realizada por uma equipe de tutoria. A metodologia adotada foi a problematizadora, desenvolvida a partir de uma postura crítica sobre a realidade, no processo de ensino aprendizagem. Os tutores realizaram orientação pedagógica, apoio ao uso das mídias e tecnologias e avaliação das atividades didáticas realizadas no curso. Os alunos avaliaram positivamente, a didática e conteúdo programático do curso e o desempenho dos tutores. Almeja-se que esta experiência possa ser vista como possibilidade de impulsionar outras experiências na formação em saúde.

Palavras-Chave: Educação a distância; educação continuada; preceptoria; atenção primária à saúde (fonte: DeCS, BIREME)

ABSTRACT

This report aims to describe the experience of tutoring process in distance learning of the Multidisciplinary Specialization Course in Primary Care in Brazil, in the states of Santa Catarina and Paraná. Course participants were physicians, dentists and nurses included in the "Program for the Valorization of Primary Health Care" and the "More Doctors Program in Brazil", a total of 1 600 professionals. The course was structured from three theoretical axes and pedagogical mediation conducted by a team of tutoring. . It was adopted problematization methodology, developed from a critical view of reality in the teaching and learning process. The tutors worked in pedagogical orientation, supporting use of media and technology and evaluation of educational activities in the course. The students evaluated positively the didactic and the course design and performance of the tutors. One hopes that this experience can be seen as a possibility to boost other experiences in health education.

Key words: Education; distance education; continuing education; preceptorship; primary health care (source: MeSH. NLM)

RESUMEN

Este relato busca describir la experiencia del proceso de tutoría a distancia del Curso de Especialización Multiprofesional en la Atención Básica en Brasil, realizado en los Estados de Santa Catarina y Paraná. El curso tuvo como público a profesionales de salud médicos, enfermeros y odontólogos; todos vinculados al "Programa de Valorización de la Atención Básica" y al "Programa Más Médicos en Brasil", 1 600 profesionales en total. El curso fue estructurado a partir de tres ejes teóricos y con mediación pedagógica realizada por un equipo de tutoría. La metodología adoptada fue la problematizadora, desarrollada a partir de una postura crítica sobre la realidad, en el proceso de enseñanza aprendizaje. Los tutores realizaron orientación pedagógica, apoyo al uso de los medios y tecnologías, y evaluación de las actividades didácticas realizadas en el curso. Los alumnos evaluaron positivamente la didáctica y el contenido programático del curso y el desempeño de los tutores. Se anhela que esta experiencia pueda ser vista como una posibilidad para impulsar otras experiencias en la formación en salud.

Palabras-clave: Educación a distancia; educación continua; tutoría; atención primaria de salud (fuente: DeCS, BIREME)

Agarantia da qualidade na assistência à saúde e a cobertura territorial é um desafio para gestores municipais na Atenção Básica (AB) em todo o Brasil. Até 2013, a proporção de profissionais médicos na AB por habitantes era significativamente inferior à necessidade da população, fato este relacionado à dificuldade de manter médicos nas equipes de saúde da família, principalmente nas cidades interioranas. Com o baixo número de médicos nesses serviços, os usuários ficavam por vezes desassistidos, o que gera maior demanda para os outros níveis de atenção, além de possíveis agravamentos na condição de saúde da população 1,2.

A partir desse diagnóstico, o Ministério de Saúde (MS), em parceria com o Ministério da Educação (MEC), lançou mão de programas para provimento de profissionais da saúde junto à Estratégia de Saúde da Família (ESF) na ab, os quais foram o Programa de Valorização da Atenção Básica (PROVAB), instituído em 2011, que tem em uma de suas ações prioritárias a ampliação de cobertura do SUS com a inserção de profissionais médicos, enfermeiros e dentistas para atuarem em áreas remotas3, e em 2013 o Programa Mais Médicos no Brasil (PMMB), por meio da Lei Federal N° 12.8711, o qual alcançou maior completude, pois contemplou também profissionais com formação no exterior, além da participação de brasileiros.

Ambos os programas apresentam entre suas estratégias a formação de profissionais para atuação na ESF e AB. Consolidou-se por meio da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) a oferta de cursos adequados aos trabalhadores da saúde à realidade local, em especial aos vinculados e esses dois programas, utilizando-se de interações presenciais e à distância, com vistas à capacitação em áreas estratégicas para o SUS. Esses cursos são desenvolvidos em parceria com 17 instituições de ensino superior, sendo uma delas a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A UFSC ofertou o Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica na modalidade de Ensino a Distância (EaD). Esta é uma modalidade educacional que utiliza tecnologias de informação e comunicação entre os estudantes e professores e que pode ser realizada em lugares e tempos diversificados e é regulamentada pelo decreto N° 5.622 de 20054. Como é uma modalidade de ensino recente, entende-se que as experiências que obtiveram êxito, ou não, precisam ser compartilhadas com o intuito de fortalecer o EaD, os profissionais que nele atuam, os programas e projetos vinculados ao SUS que utilizam essa modalidade, bem como as políticas públicas que visam as capacitações dos profissionais.

Este estudo busca relatar a experiência da tutoria a distância do Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica na aplicação da metodologia problematizadora, desenvolvido para os profissionais atuantes do PMMB e PROVAB nos estados de Santa Catarina e Paraná, entre os anos de 2013 a 2015.

Referencial teórico

O ambiente virtual de aprendizagem precisa envolver os princípios da aprendizagem colaborativa onde os especializandos necessitam estar envolvidos com a sua aprendizagem, a partir de situações reais, apresentados aos desafios que propiciam a articulação do conteúdo com o contexto do trabalho. Esta colaboração não acontece só entre os alunos, mas também com a equipe em seu contexto do trabalho, estimulando a criatividade e provocando descobertas inovadoras. Entendemos mediação pedagógica como:

[...] a atitude, o comportamento do professor que se coloca como um facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem, que se apresenta com a disposição de ser uma ponte entre o aprendiz e sua aprendizagem - não uma ponte estática, mas uma ponte rolante, que ativamente colabora para que o aprendiz chegue aos seus objetivos. [...]5.

Desta maneira, a interação mediada ou mediação, significa a intervenção intencional de um elemento intermediário numa relação, para garantir a produção de sentidos e consequentemente, a aprendizagem 6. Para tanto, é necessário apresentar um modelo pedagógico problematizador, cujo sentido é educar, e não um modelo temático, cujo propósito é ensinar.

A mediação pedagógica possui uma concepção oposta aos sistemas de instrução baseados no ensino como mera transferência de informação. O tutor, que faz o contato pela plataforma virtual, precisa assegurar a participação dos alunos, motivando-os para a busca de informações, a discussão e organização desses conteúdos, tornando-os significativo e promovendo um debate em rede colaborativa. A partir da relação estabelecida, o tutor busca orientá-lo a fazer um plano de estudos realista promovendo o ensino de alta qualidade. Além de estimular a função colaborativa, ele desenvolve também a função avaliativa, que revê procedimentos, estuda situações, averigua as dificuldades, registra e propõe mudanças a partir das realidades dos especializandos.

Essa atitude pedagógica do tutor ajuda o aluno a compreender sua realidade humana e social, e mesmo a interferir nela promovendo mudanças pessoais e algumas vezes institucionais 7.

Contexto de desenvolvimento do curso

A experiência do processo de tutoria do Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica, oferecido pelo Departamento de Saúde Pública, da Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria com a UNA-SUS, ocorreu no período de outubro de 2013 a outubro de 2015. Os especializandos do Provab eram médicos, dentistas e enfermeiros, totalizando 404 profissionais; no PMMB eram 1.196 médicos, alcançando-se 1 600 profissionais atuantes na AB.

O curso foi estruturado em três eixos de conteúdo: reconhecendo a realidade, processo de trabalho na AB e assistência na AB. Cada eixo foi composto por módulos específicos de conteúdo e atividades didático-avaliativas. Ao término de cada eixo ocorreu um encontro presencial para avaliação do conteúdo estudado até o momento e um ao final do curso, destinado à apresentação dos trabalhos de conclusão de curso (TCC).

Estruturou-se uma equipe de tutoria composta por tutores, que auxiliavam os especializandos na elaboração das atividades didáticas e nos encontros presenciais. Para que esse suporte aos alunos e tutores fosse realizado de maneira eficiente, bem como para o desenvolvimento do processo de ensino/aprendizagem, o curso dispunha de coordenação e supervisão de tutoria, bem como assessoria pedagógica durante todo o período em que o curso foi oferecido.

Os especializandos deixaram suas opiniões ao término de cada módulo, registrando suas impressões sobre o desempenho da tutoria. Esses registros eram realizados na plataforma virtual, de forma anônima e por fim, eram publicados no Relatório Final do Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica de 2015, documento público que sintetiza informações sobre os aspectos acadêmico-pedagógicos, incluindo as avaliações dos alunos.

Houve sigilo sobre a identificação dos participantes, respeitando-se os aspectos éticos definidos pela Resolução 466/2012 que regulamenta as pesquisas realizadas com seres humanos. Ao longo do relato, são citadas falas identificadas com nomes fictícios.

Para a compreensão desta experiência, descreve-se a seguir equipe de tutoria, as atividades avaliativas por meio da metodologia problematizadora e as opiniões dos alunos sobre a tutoria do curso.

O desenvolvimento de uma Tutoria Colaborativa em EAD

O curso de especialização buscou promover, além da competência técnica, a reflexão do profissional sobre o processo de produção em saúde, motivando a articular os saberes do campo teórico com o processo de trabalho que se dá no seu cotidiano. Almejou a formação de profissionais com percepção crítica sobre a realidade, capaz de propor estratégias para construir e desconstruir concepções e práticas em saúde, com vistas a resolução de problemas concretos na busca de alternativas em direção a resultados mais efetivos e eficazes 6,7.

Em consonância com a Política de Educação Permanente em Saúde, o curso adotou a metodologia proble-matizadora, que além de uma perspectiva educativa, é também uma postura crítica sobre a realidade vivida. Ela compreende os problemas cotidianos como possibilidades para a construção de soluções baseadas na ação-reflexão-ação 6,8.

Para a construção do curso de especialização na modalidade a distância foram requeridos diversos profissionais que atuam em diferentes esferas organizacionais, com o propósito de que o especializando tenha suporte acadêmico e pedagógico adequados. Na Figura 1 apresenta-se a estrutura da equipe de trabalho, composta por uma coordenação geral, quatro subcoordenações (tutoria, ambiente virtual de aprendizagem (AVEA), pedagógica, encontro presencial) e secretaria acadêmica.

Figura 1 Estrutura organizacional da equipe de gestão do curso de especialização na Atenção Básica. UNA-SUS/UFSC. 2013-2015 

A coordenação de tutoria foi responsável pela gestão da equipe de tutoria; a coordenação de AVEA desenvolve e oferece suporte do ambiente virtual de aprendizagem; a coordenação pedagógica dedica-se à organização do trabalho dos professores conteudistas e das questões didático-pedagógicas dos tutores com o suporte de uma pedagoga; a coordenação de encontro presencial é responsável pelas equipes de coordenadores e professores nas cidades pólos, e, por fim, a secretaria acadêmica executa todas as ações pertinentes à matrícula, notas e certificados dos especializandos.

A organização e o fluxo de trabalho da equipe de tutoria foram estruturados de forma a propiciar que o tutor estivesse plenamente capacitado para desempenhar suas atividades e oferecer o suporte necessário ao especializando, garantindo sucesso no processo de ensino-aprendizagem.

Durante todo o período houve uma relação estreita entre a equipe de tutoria e professores conteudistas, que acompanharam o processo oferecendo suporte às questões pertinentes ao conteúdo e atividades pedagógicas. De forma complementar, os supervisores realizaram auxílio direto aos tutores no desempenho de suas atividades diárias.

Os tutores realizavam contato com os especializandos diariamente, atuando na orientação pedagógica, no apoio ao uso das mídias e tecnologias disponíveis no ambiente virtual de aprendizagem e na avaliação das atividades didáticas realizadas no curso (online e presenciais), realizando mediação pedagógica no AVEA e nos encontros presenciais. O contato prioritário do especializando com o curso foi o tutor; com ele os alunos esclareciam suas dúvidas sobre o conteúdo e, quando necessário, sobre a utilização da plataforma virtual.

Durante o curso, a relação de vínculo entre tutor e especializando foi expressa por meio de avaliações dos alunos sobre a tutoria:

«Gostaria de parabenizar minha tutora que se mostrou durante todo o curso de especialização como uma pessoa disponível e incentivadora. Obrigado! (Éris)».

A promoção do vínculo entre aluno e tutor contribuiu para redução da evasão do curso, que costuma ser um desafio frequente em cursos à distância. Isso é reforçado nos estudos de Veras, Ferreira 9 e Borges et al.(10, que destacam que o estabelecimento do vínculo entre aluno e tutor faz com que esse aluno se sinta parte do grupo, e a interação passa a ser fortalecida. Para Dorjó11, o vínculo pode ser construído nas relações a distância quando estas despertam no aluno a sensação de que o tutor está próximo, de saber e sentir que ele o ajudará e que estará disponível.

Da reflexão à transformação da realidade: aplicando a metodologia problematizadora

O curso de especialização na Atenção Básica buscou promover, além da competência técnica, a reflexão do profissional sobre o processo de produção em saúde, motivando articulação entre os saberes do campo teórico com o processo de trabalho que se dá no cotidiano.

Para que seja possível a transformação das práticas de atenção à saúde o diálogo com as ações e concepções sobre saúde devem ser problematizadas, mas não de forma abstrata. É preciso refletir sobre elas nos espaços concretos de trabalho, que são individuais ou coletivas e se dão de maneira diferente em cada território. A partir da leitura da realidade de cada equipe, o profissional deverá então construir novos arranjos para que a sua prática se aproxime dos princípios do SUS 12.

Desta forma, percebe-se que a metodologia problema-tizadora não é unidirecional e nem possui técnicas fixas; ao contrário, é orientada pela percepção da realidade e pelo protagonismo do profissional em promover mudanças engajado junto à equipe de trabalho. Assume-se a problematização como reflexão sobre a prática, com vistas à transformação do seu processo de trabalho, e, consequentemente, da sua realidade 13.

A partir do desafio estabelecido - aproximar o profissional da AB ao território na metodologia a distância -foram desenvolvidas atividades avaliativas do curso fundamentadas na metodologia problematizadora 8,14, as quais são descritas a seguir.

O fórum de debates se constituiu no espaço o qual a questão norteadora referente ao conteúdo do módulo era elaborada pelo professor conteudista e respondida pelos especializandos, mediadas pelos tutores, que analisavam se estes utilizaram dos recursos teóricos disponíveis para elaborar a sua resposta. Os tutores realizavam intervenções no fórum, reforçando e estimulando as respostas reflexivas dos alunos - ou reorientando, em caso de respostas incompletas.

Ao final de cada módulo, havia um diário, para sua elaboração o aluno precisava visitar o seu território e sua prática para responder aos questionamentos relacionados ao módulo em questão, sobre a realidade de trabalho, com auxílio do aporte teórico do módulo para executá-la. O tutor enviava feedbacks personalizados para cada aluno, indicando quais pontos precisavam ser melhorados e auxiliando-o em estratégias para encontrar as respostas em seu território.

A partir de alguns relatos deixados pelos alunos, pode-se observar que esta atividade, mesmo na modalidade à distância, cumpre com o seu objetivo de aproximar o especializando da sua prática:

«O diário foi a atividade que mais adorei, pois através dele pude conhecer melhor a comunidade em que eu trabalho [...] (Urano)».

A terceira atividade online constituiu-se nas questões avaliativas, com intuito de diagnosticar o desenvolvimento do conhecimento do aluno ao longo do módulo. Este instrumento online continha 10 questões objetivas, de resposta única e de níveis de dificuldade variados, que deveriam atingir a média do curso (7,0) com o período de uma hora para sua finalização.

O tutor nessa atividade teve acesso a todas as tentativas do aluno, podendo checar em quais questões houve mais dificuldade de resposta. Por meio dessa observação, o tutor intervinha e reorientava os especializandos nos temas necessários para revisão.

Nos encontros presenciais também ocorreram atividades avaliativas. Para valorizar este momento de encontro entre especializandos e a equipe do curso, foi estruturada uma avaliação que rompesse com o paradigma da prova presencial, puramente somativa, e que contribuísse no desenvolvimento de competências necessárias para a atuação do profissional na AB, como a discussão em grupo multidisciplinar, o trabalho em equipe, clínica ampliada e resolução de problemas.

De forma coerente à perspectiva problematizadora, o processo avaliativo foi direcionado a análise de situações que promovessem a interlocução entre conteúdo teórico e sua aplicação prática, no campo de trabalho de cada profissional.

Reflexões sobre o processo de tutoria

O tutor exerce a função de estimular uma comunidade virtual de aprendizes, é companheiro, é líder e possui domínio do conteúdo a ser estudado e do referencial e das técnicas didáticas. Uma das funções do tutor é auxiliar os alunos no desenvolvimento de sua metacognição, ou seja, ajuda-los a identificar as formas que cada um melhor aprende. Além disso, ele incentiva a aprendizagem colaborativa, estimulando as discussões; mantendo o clima para ajuda mútua e instigando cada um dos alunos a se tornar também responsável pela motivação de todo o grupo 15,16.

No decorrer do curso, os especializandos tiveram a possibilidade de registrar suas impressões sobre os tutores, e deste modo a equipe de tutoria poderia utilizar esses registros para refletir sobre seu papel e qualificar sua atuação. A partir da leitura das opiniões deixadas pelos alunos, identificou-se que a maioria se relacionava aos papéis de mediação, à qualidade e às formas de comunicação. Em relação à mediação, tem-se o exemplo a seguir:

«(...) a tutora sempre foi muito prestativa, fez uma matéria maçante se tornar interessante. Pude perceber a importância de algo que até então, achava complicado e sem aplicabilidade (Mercúrio)».

Identifica-se a relevância da mediação pedagógica entre o conteúdo e aluno, para potencializar a aprendizagem. A colocação apresentada pelo especializando destaca a participação ativa dos tutores no esclarecimento de dúvidas contextualizadas com a realidade de trabalho.

Destaca-se o estudo de Branco e Haracemiv 17, o qual reforça o papel do tutor como um mediador do processo de ensino aprendizagem, bem como um agente que auxilia na melhoria da qualidade dos cursos a distância. Ademais, os especializandos destacaram a preparação e disponibilidade dos tutores para auxiliá-los nas atividades propostas durante o curso:

«O curso é muito bom, tutora qualificada e com a melhor vontade de ajudar no que foi preciso (Júpiter); Que continue assim, foi uma experiência muito boa...Profes-sores e tutoras com boa preparação sobre o curso (Haumea); (...) a presença do tutor mantém a qualidade profissional e humana do curso (Saturno)»

A comunicação frequente entre tutores e especializandos no ambiente virtual, contribuíram com a criação do vínculo, estímulo para a realização do curso e redução da evasão, colaborando para a construção de um novo paradigma no contexto do ensino a distância 10.

O presente estudo, ao descrever e refletir sobre a experiência do processo de tutoria de um curso de especialização a distância, apresentou a caracterização dos especializandos, a equipe de tutoria, as atividades avaliativas por meio da metodologia problematizadora e algumas impressões dos alunos sobre a tutoria do curso.

No desenvolvimento do processo de tutoria considerou-se importante a construção, o fluxo, a pactuação e a postura da equipe. Os principais papéis realizados pela equipe de tutoria com os alunos foram a mediação contextualiza com o processo de trabalho promovendo a aprendizagem colaborativa, a comunicação individualizada, o suporte no uso das tecnologias educacionais, o acompanhamento continuado de um mesmo tutor ao longo do curso, sendo que este último favoreceu o estabelecimento de vínculo entre ambos.

Foi demonstrada a relevância do papel do tutor na participação do processo de ensino aprendizagem, bem como sua contribuição para a qualidade do curso a distância, favorecida pela horizontalidade do processo, fragilizando possíveis barreiras e distanciamentos na mediação pedagógica entre os envolvidos. Almeja-se que este relato possa ser visto como possibilidade para impulsionar outras experiências na formação em saúde

REFERÊNCIAS

1. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Programa Mais Médicos - dois anos: mais saúde para os brasileiros. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. [ Links ]

2. Santos LMP, Costa AM, Girardi SN. Programa Mais Médicos: uma ação efetiva para reduzir iniquidades em saúde. Ciênc. saúde coletiva. 2015; 20(11): 3547-52. [ Links ]

3. Oliveira FP, Vanni T, Pinto HÁ, Santos JTR, Figueiredo AM, Araújo SQ. Et al Mais Médicos: um programa brasileiro em uma perspectiva internacional. (Botucatu) 2015; 19(54):623-34. Disponível em: Disponível em: https://goo.gl/p7BRv3 . Acesso em: 25 abr. 2017. [ Links ]

4. Brasil. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia de assuntos jurídicos. Decreto n° 5.622 de 19 de dezembro de 2005. Regulamenta o art. 80 da Lei No 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. [ Links ]

5. Masetto MT. Mediação Pedagógica e o Uso da Tecnologia. In: Moran JM, Masetto MT, Behrens M.A. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. Campinas: Papirus; 2000, p.133-173. [ Links ]

6. Vasconcelos M, Grillo MJ, Soares SM. Módulo 4: Práticas pedagógicas em atenção básica à saúde. Tecnologias para abordagem ao indivíduo, família e comunidade. Belo Horizonte: Editora UFMG - Nescon; 2009. [ Links ]

7. Ceccim RBC, Feuerwerker LCM. O Quadrilátero da Formação para a Área da Saúde: Ensino, Gestão, Atenção e Controle Social. Physis: Rev. Saúde Coletiva 2004; 14(1):41-65. [ Links ]

8. Bordenave JD, Pereira AM. Estratégias de ensino aprendizagem. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2006. [ Links ]

9. Veras RS, Ferreira SPA. A afetividade na relação professor-aluno e suas implicações na aprendizagem, em contexto universitário. Educar em Revista, Curitiba 2010; 38(s/n): 219-235. Disponível em: Disponível em: https://goo.gl/TtAemx . Acesso em mar. 2017. [ Links ]

10. Borges JPF, Coelho FAJ, Faiad C, Rocha NF. Individual competences of distance education tutors. Educ. Pesqui 2014; 40(4): 935-51. Disponível em: Disponível em: https://goo.gl/eLUVkg . Acesso em fev. 2017. [ Links ]

11. Dorjó DS. Relações afetivas: reais possibilidades na educação à distância. Texto livre: Linguagem e tecnologia 2011; 4(2): 28-37. Disponível em Disponível em https://goo.gl/6up1SS . Acesso em fev. 2017. [ Links ]

12. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Curso de formação de facilitadores de educação permanente em saúde: unidade de aprendizagem - análise do contexto da gestão e das práticas de saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. [ Links ]

13. Coelho EBS, Boing AF, Reibnitz KS, Goulart RL, Lindner SR, Warmling D. A experiência da Formação Multiprofissional em Saúde da Família em Santa Catarina. In: Gusmão CMG, Borba VR, Júnior JVM, Oliveira CAP, Nascimento EM, Oliveira VA (Org.). Relatos de uso de tecnologias educacionais na educação permanente de profissionais de saúde no sistema Universidade Aberta do SUS. Recife: Editora Universitária UFPE; v. 1, p. 242-262, 2014 [ Links ]

14. Berbel NAN. Metodologia da Problematização em três versões no contexto da didática e da formação de professores. Rev. Diálogo Educ. 2012; 12(35): 103-20. Disponível em Disponível em https://goo.gl/Ef7CS6 . Acesso em fev. 2017. [ Links ]

15. Azevedo W. Muito além do jardim de infância: o desafio do preparo de alunos e professores online. Associação Brasileira de Educação a Distância [Internet]. Disponível em: Disponível em: https://goo.gl/4d23xS . Acesso em fev. 2017. [ Links ]

16. Nogueira RCC; Both IJ. A importância do tutor em Educação a Distância (EaD). Caderno Intersaberes. 2012; 1(1): 92-102. [ Links ]

17. Branco V, Haracemiv SM. Avaliação do curso de formação de professores no contexto da Educação a Distância. Educar em Revista 2015; Edição Especial (1): 157-76. Disponível em Disponível em https://goo.gl/FwUDkx . Acesso em fev. 2017. [ Links ]

Recebido: 27 de Abril de 2017; Revisado: 03 de Junho de 2017; Aceito: 12 de Outubro de 2017

Conflito de Interesses:

Não declarado.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons